ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
5 O despertar de um monstro
Notas iniciais
Fiquei ali, horas a fio, esperando o retorno de seu Baltasar. Mas nada dele aparecer. Minha curiosidade em desvendar o mistério da garrafa crescia a cada momento, assim como minha fome que se tornava mais intensa a cada minuto que passava.
— Tem algo muito estranho acontecendo aqui. — murmurei para mim mesmo, os olhos cheios de desconfiança. — O seu Baltasar tá mentindo, ele sabe o caminho de volta. — Com um misto de raiva e frustração, joguei a garrafa no chão. — Eu não vou mais esperar por ele, vou sair para procurar algo para comer.
Naquele dia, não vi outra alternativa a não ser sair daquela caverna onde me escondia. Caminhei pela floresta, sem rumo, perdido em meus pensamentos. Parei diante de um lago sereno e pude ver meu próprio rosto refletido em suas águas tranquilas. Ao passar a mão pelo meu rosto, assustei-me com a imagem que vi. Uma lágrima solitária escapou dos meus olhos e caiu na água, distorcendo meu reflexo. Sentei-me à beira do lago e desabei em lágrimas, relembrando aquele maldito dia do acidente.
Foi ali, naquele momento de desespero, que percebi que o monstro que tanto assombrava a floresta de Mossaíh estava diante de mim, refletido nas águas daquele lago. Sentia-me desfigurado não apenas fisicamente, mas também emocionalmente. As lembranças do dia do acidente nunca me deixavam, especialmente a imagem de Davi e Érica, abraçados e aliviados, enquanto eu caía em direção à soda cáustica.
— Vocês... — sussurrei, a voz embargada pela dor e pela traição que ainda ardia em meu peito. — Não... não se importaram... comigo.
Era como se, naquele instante, todo o amor que eu tinha por Érica se misturasse com o ódio por ela ter me esquecido. Os dias solitários, preso naquela caverna escura e esquecida por todos, haviam mudado meu conceito sobre os dois. Nada conseguia apagar da minha mente a ideia de que eles eram os culpados pela minha condição atual. Eu continuava amando Érica com toda a minha alma, mas ao mesmo tempo, sentia um profundo rancor por ela ter seguido em frente sem mim. E ali, à beira daquele lago sombrio, eu me confrontava não só com minha aparência desfigurada, mas com a dor dilacerante da traição e do abandono.
Percebi passos se aproximando na direção em que eu estava. Num instante, me escondi atrás de densos arbustos e ali fiquei, observando atentamente. Vi uma bela moça se aproximando do lago, exatamente onde eu estava momentos antes. Seu rosto singelo e seus longos cabelos negros me fizeram lembrar de Érica, por um breve momento minha obsessão me fez acreditar que fosse ela, mas logo compreendi que não poderia ser.
A moça, ao chegar perto do lago, descalçou suas sandálias e tocou a água com o dedão do pé, como se testasse sua temperatura. Olhou ao redor, para um lado e para o outro, sem me notar escondido atrás do arbusto. Então, começou a despir-se do longo vestido branco que cobria seu corpo dos ombros até os pés. Vê-la ali, completamente nua diante de mim, era impossível não lembrar da beleza de Érica.
Lembrei-me de um dia em que a observei através do reflexo do espelho do banheiro enquanto ela tomava banho. A água escorria pelo seu corpo, envolvendo suas curvas, despertando em mim um desejo intenso de tê-la em meus braços.
Ao me ver refletido no espelho, ela se assustou e me repreendeu.
— Sai daí, Max! — Disse, cobrindo os seios.
Deixei-a terminar o banho e saí para o pátio. Sentando-me em um banco, refleti sobre o que havia feito, ciente de que Érica me odiava naquele momento.
— Muito feio o que fez, sabia? — Disse ela, com arrogância.
— Me desculpe, eu me perdi na emoção de te ver ali tomando banho. Queria poder te tocar. — Respondi, envergonhado.
— Escute bem, Maxweel. Eu não vou falar sobre isso para ninguém, mas cê vai me prometer que isso jamais voltará a acontecer.
— Eu prometo. Tô envergonhado por isso. — Falei, sentindo o peso da minha atitude.
— Acho bom mesmo. Tô muito decepcionada com você. — Ela disse, e seu olhar de desapontamento ficou gravado na minha mente.
A moça adentrava lentamente o lago, seu corpo se entregando suavemente às águas obscuras que pareciam abraçar suas curvas. Sem perceber, fui saindo de trás dos arbustos e me aproximei lentamente das margens, paralisado pela cena diante de mim.
Ela estava de costas, imersa em seu banho, sem me notar. Mas ao sentir meus pés na água, sua atenção foi despertada e ela se apavorou ao me ver. Rapidamente, cobriu os seios com os braços em um gesto de proteção. Eu fiquei ali, estático, paralisado pelo flagra e com o olhar fixo em sua direção. Meu corpo parecia não responder enquanto ela soltava seus gritos desesperados:
— Socorro, socorro! Tô sendo atacada por um maníaco! Alguém aí, por favor, me ajude! Moço, por favor, não faz nada comigo!
Uma tristeza profunda tomou conta de mim ao ouvir a palavra "maníaco" saindo de seus lábios. Diante de mim, vi três opções: a primeira era fugir, abandonando a única pessoa (além de Seu Baltasar) que me viu em uma década; a segunda era tentar acalmá-la e convencê-la de que não era um maníaco. Mas como fazer isso quando nem eu mesmo tinha certeza? Fiquei, então, com a terceira opção. Assustado com seu desespero, sabia que não podia permitir que mais alguém se assustasse ao me ver. Então, sem pensar, pulei dentro do lago e a abracei, pedindo para que ficasse quieta.
— Me solta! Socorro, eu preciso de ajuda! — Ela gritava desesperadamente, se debatendo em meus braços.
Meu pedido era inútil e ela continuava a se debater, a se contorcer, gritando por socorro. Movido pelo impulso, afundei sua cabeça na água, deixando-a se debater sob as águas escuras. Puxei-a pelos cabelos e a ergui para tentar iniciar um diálogo, mas a moça estava em completo desespero. Ao ver minha face desfigurada, seu choro se intensificou em um pranto angustiante.
— Por favor, eu não quero te machucar! — Eu suplicava.
— Me solta, seu monstro! Deixa-me em paz! — Ela gritava, em pânico.
Afundei-a novamente e a segurei, pressionando seu rosto contra as pedras no fundo do lago. Quando percebi que havia parado de lutar, a ergui novamente, vendo que estava desacordada. Arrastei seu corpo para a margem e o coloquei sobre as pedras.
— Meu Deus, o que fiz? Como ela veio parar aqui? Ela não deve tá sozinha. Não posso ser visto por mais ninguém. Seu Baltasar estava certo, eu não deveria ter saído da caverna. E agora? Será que ela tá morta? Não posso deixá-la aqui. — Murmurei, passando as mãos pela cabeça, em desespero.
Decidi então recolher a moça em meus braços e carregá-la até a caverna. Com cuidado, a deitei no chão e me agachei ao seu lado.
— Cê é tão linda, tão parecida com Érica! Eu preciso amarrá-la, não posso permitir que ela fuja ao acordar.
Busquei nos poucos pertences de Seu Baltasar que ainda restavam algo que pudesse servir como corda. Entre as roupas molhadas espalhadas pelas rochas, encontrei a faca e cortei-as em tiras. Com rapidez, imobilizei a moça, amarrando seus pés e braços. Sentei-me ao seu lado e a observei por um momento. Lentamente, passei a mão suavemente pelo seu corpo. Era como se Érica estivesse ali, diante de mim. Acariciei seu rosto, deslizei minhas mãos por seus cabelos, desejando-a como nunca antes.
— Érica, minha amada Érica. Como eu queria ter você só para mim. Por que me abandonou aqui? Por que não quis mais saber de mim? — Murmurei, com a voz embargada pela emoção.
Olhando para seu rosto sereno e tranquilo, meu coração se apertava. Ela não podia ser Érica, eu sabia disso. Mas naquele momento, era como se todas as minhas fantasias e desejos estivessem ali, diante de mim, amarrados e vulneráveis.
Agachei-me, aproximando-me de sua boca com a intenção de beijá-la. Mas no momento em que meus lábios se aproximaram, ela despertou e se assustou ao me ver tão próximo.
— Me solta, seu monstro! Me tira daqui! — Ela gritou, em pânico. — Socorro, alguém me ajude!
— Por favor, não grite, eu não vou te machucar. — Tentei acalmá-la, mas seu medo era palpável.
— Fique longe de mim! Onde estou? Me tira daqui! — Ela se levantou, movendo-se desajeitadamente em direção à saída da caverna, com os braços e pernas ainda amarrados. — Socorro! Socorro! Alguém, por favor, me ajude! — Gritava, desesperada.
Com a faca em mãos, eu me aproximava lentamente, tentando acalmar a situação.
— Moça, se acalme. Eu prometo que não lhe farei mal.
— Fique longe de mim, seu maníaco! Preciso sair daqui! — Ela continuava a gritar, suas palavras carregadas de pânico.
— Eu vou te tirar daqui, mas você precisa se acalmar. — Insisti, segurando a faca com firmeza.
— Não se aproxime de mim! — Ela gritou, com os olhos arregalados de medo. — Socorro! Socorro! Tem um maníaco querendo me matar. Socorro!
Como ela poderia acreditar que eu, com o rosto desfigurado e uma faca na mão, não faria mal a ela? Cada passo que eu dava em sua direção parecia aumentar seu desespero. Em um ato impulsivo, agarrei-a pelas costas e, com a mão esquerda, tampei sua boca, sufocando seus gritos. A moça se debatia e tentava se soltar, mas minhas mãos a mantinham firme.Impulsionado pela adrenalina do momento, a segurei com mais firmeza e senti a faca perfurar sua pele um pouco abaixo do seio, entre duas de suas costelas flutuantes. Seus olhos se arregalaram em dor e ela gemeu alto. Apavorado, aprofundei a faca, sentindo seu sangue escorrer por entre meus dedos. A lâmina penetrou completamente, o cabo encostando no osso da costela. Ela parou de se mexer, soltei-a lentamente e a vi ceder ao chão, sem vida.
Desta vez, fui eu que me cobri de desespero. Ao vê-la ali no chão, sem vida, não sabia o que fazer. Recuei alguns passos, perplexo com meu próprio ato.
— O que eu fiz? Meu Deus, eu matei a moça! — Exclamei, horrorizado.
Desorientado, dei meia-volta, fui ao interior da caverna e lavei minhas mãos ensanguentadas e meu rosto no pequeno rio que corria ali. Sentei-me à distância e a observei no chão, seu corpo debruçado sobre a pedra retangular. Litros de sangue brotavam do ferimento em seu peito, banhando a pedra e escorrendo até a água do rio, fazendo pigmento da sua cor avermelhada com a água. Seus olhos fechados davam a ilusão de que estava apenas dormindo, enquanto um pouco de sangue escorria de seus olhos, como se fosse um choro sufocado.
A minha Érica estava morta; minha mente sabia que não era Érica, mas a semelhança era tão grande que às vezes me confundia. Ali, diante daquela cena horrível que eu mesmo causei, senti um misto de horror, remorso e desespero. A moça, inocente e assustada, pagou com a vida por um encontro fatal comigo.
Levantei-me do chão e me aproximei novamente do corpo da moça, parando ao seu lado. Fiquei ali por um instante, apenas observando-a. Então, me agachei e voltei a tocá-la, sentindo seu corpo sob meus dedos.
— Como ela é linda, tão perfeita... — Murmurei, lágrimas começando a escorrer pelo meu rosto. — O que eu fiz? Meu Deus, eu matei minha Érica! Meu amor, me perdoe... Eu só queria ter você para mim.
Deslizei meus dedos delicadamente pelo seu corpo, como se tentasse memorizar cada curva, cada traço. Uma mistura de dor, remorso e desejo ardia dentro de mim.
— Poder sentir sua pele, seu toque... Sentir seu beijo de novo... — Sussurrei, as palavras saindo em soluços.
Permaneci ali, ao lado dela, imerso em minha própria agonia e culpa. Como pude chegar a esse ponto? Como pude confundir essa moça com Érica? Minha mente estava confusa, torturada pela lembrança da mulher que amava e que agora estava morta por minha culpa. As lágrimas continuavam a cair, e eu me sentia consumido pela dor e pelo arrependimento.
— Queria sentir o seu sabor, poder possuí-la e tê-la só para mim. — Murmurei, minha voz ecoando na caverna vazia. — E desta vez, sem Ricardo, e muito menos Davi, para me atrapalhar. Seria só eu e você, nós dois nos amando sem nos preocupar com o tempo ou com ninguém. Apenas eu e você...
Meus pensamentos eram um turbilhão de remorso e desejo. Eu me dava conta de que não era Érica ali, mas sim um cadáver, vítima de um crime do qual eu era o responsável. Olhei para minhas mãos, sujas novamente com o sangue dela, e as aproximei do meu rosto, sentindo o cheiro amargo da culpa. Espalhei as mãos deixando a minha fronte completamente ensanguentada. Então, desci a mão até a altura da minha boca e delicadamente lambi os dedos, provando o gosto do sangue daquela jovem que eu havia acabado de matar.
Acredite! Eu gostei do sabor.
Era como se estivesse experimentando um pedaço de Érica. Eu não poderia acreditar no que estava sentindo. Se o seu sangue era saboroso, mais apetitoso ainda seria um pedaço da sua carne. Desejava eu experimentar o sabor do corpo daquela moça. E por que não a parte mais importante... o coração? O coração que nunca me pertenceu. Aquele pedaço de carne que nunca bateu por mim da forma que o meu ainda batia desesperadamente por ela, a minha amada Érica.
Virei o corpo da moça, que estava deitado de bruços, e dei-lhe um longo beijo em seus lábios frios. Retirei a faca que ainda estava cravada em seu peito, fazendo um corte um pouco abaixo de sua caixa torácica, exatamente onde o osso esterno termina. Com a mão enfiada até o pulso, desviando-me dos pulmões, alcancei o coração dela. Segurei-o em minhas mãos, sentindo-o ainda quente. A sensação que eu tinha era que ele ainda pulsava. Aproximei minha boca lentamente, inalando o cheiro do seu sangue. Rasguei a carne com os dentes, saciando minha fome com pedaços do seu miocárdio. Era um prazer indescritível.
O sabor da carne humana era algo que me deixava extasiado. Era como se estivesse comendo a própria Érica, sentindo seu sabor, sua essência. Era repulsivo pensar que era um ser humano como eu, mas ao mesmo tempo era prazeroso. O sangue dela escorria pela minha garganta, aquecendo meu corpo, enquanto eu devorava sua carne vorazmente, como um animal faminto diante de sua presa. Cada mordida era uma explosão de sensações, uma mistura de êxtase e horror. Eu estava completamente entregue àquele ato macabro, consumido pelo desejo insano de sentir mais da minha amada Érica em mim.
E assim, naquela caverna sombria e silenciosa, eu me tornei um monstro. Um assassino insano e canibal, alimentando-me do corpo da mulher que amava. E mesmo que a razão gritasse dentro de mim, eu estava além de qualquer redenção. Eu era o monstro dos meus piores pesadelos, eu sabia que não havia retorno. Eu estava perdido para sempre na escuridão da minha própria alma, condenado a vagar como um espectro de horror e loucura.
De repente, um barulho rompeu o silêncio da caverna. Meu coração disparou e meus músculos se contraíram, enquanto permaneci paralisado no lugar. Então, ao olhar para frente, vi Seu Baltasar diante de mim, segurando o vestido branco da moça. Seus olhos se arregalaram ao me encontrar naquela cena horrível, sem saber como reagir diante do que via.
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