Notas iniciais
Seu Baltasar não poderia ter escolhido hora pior para aparecer. Testemunha da monstruosidade de Maxweel, ele não vai sair ileso disso.

Ficamos ali inertes, paralisados em frente ao outro. Seu Baltasar em pé e eu ajoelhado diante do cadáver, com a boca manchada de sangue. Seus olhos arregalados me encaravam, como se não conseguissem processar a cena diante deles. Lentamente, o vestido que segurava escorregava de suas mãos, por entre os seus dedos, descendo em direção ao chão, enquanto, ao mesmo tempo, dava discretas passadas para trás e virava-se na intenção de sair correndo, fugindo de mim. Naquele momento, tudo pareceu se desacelerar, cada movimento, cada respiração, intensificando a gravidade da situação.

Eu me levantei lentamente, mantendo a faca em minha mão direita, uma testemunha muda do ato que cometi. Levantei a cabeça, encarando Baltasar com um olhar determinado.

— Não dê mais um passo, senhor! — Minha voz saiu firme, apesar da tempestade de emoções que rugia dentro de mim.

Baltasar congelou, parado de costas para mim. Sua respiração estava pesada, os olhos ainda arregalados de espanto e incredulidade.

— O que cê fez, Max? Quem é essa moça? — Sua voz saiu entrecortada pelo medo.

— Não foi o senhor que disse que sou um monstro? Eu fiz o que todo monstro faz, mata.

Segurei a faca com mais firmeza e comecei a me aproximar dele lentamente. Baltasar deu uma olhada para trás e começou a correr em direção à saída da caverna, tentando fugir de mim. Sem pensar, sem hesitar, arremessei a faca em sua direção, acertando em cheio sua panturrilha. Ele caiu no chão com um grito de dor, o impacto da faca cravada em sua perna.

Me aproximei dele rapidamente, encarando-o com olhos cheios de ódio.

— Max, por misericórdia, sou eu! O que aconteceu com você? — Ele suplicou, com os olhos arregalados de medo.

Eu fiquei parado diante dele, a respiração pesada, lutando contra a tempestade de emoções que me consumiam. A faca ainda estava cravada em sua perna, o sangue escorrendo pelo chão da caverna. Eu não sabia o que fazer, não sabia como explicar o inexplicável. Mas uma coisa era certa, eu estava disposto a qualquer coisa para garantir que ele não contasse a ninguém o que viu.

Agarrei-lhe pelo colarinho, arrastando-o pela caverna enquanto a faca ainda estava cravada em sua perna. Ele gemia de dor, uma mão tentando desesperadamente afrouxar a camisa que o sufocava, a outra segurando a perna ensanguentada. Seu Baltasar se debatia, tentando escapar da minha fúria, mas eu o arrastei até o interior da caverna e o amarrei com as mesmas tiras de pano que havia usado para prender a moça. Agachei-me em sua frente e fiquei lhe encarando. Ele ficou ali, impotente, me olhando com os olhos cheios de medo.

— Cê tá fora de si, Max. Eu não te reconheço mais. — Sua voz saiu fraca, quase um sussurro de temor.

— Tem medo de mim, senhor? — Eu olhei minhas mãos, manchadas de sangue, e senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. — Tô sujo de sangue, sou um monstro. Meu coração dói, eu não queria fazer nada disso. Eu não queria matar a minha Érica.

Seu Baltasar olhou para mim, sem entender. A confusão em seu rosto era evidente.

— Érica? Essa moça que cê matou é sua namorada Érica? Me solta daqui, eu posso te ajudar.

— Cê mentiu para mim! — Eu rosnei com ódio. — Eu odeio mentiras!

Seu Baltasar olhou para mim, seus olhos cheios de medo.

— Por que me olha assim, Max? O que pretende fazer?

— Você é um mentiroso, nunca esteve perdido.

— Ouça, Max. Não se esqueça que quando cê mais precisou, fui eu quem cuidou de você. Fui eu que cuidei de suas feridas, dia após dia, até você se recuperar. Agora minha perna tá doendo, eu preciso de ajuda.

Não sabia se era alguma forma de chantagem emocional, mas Seu Baltasar parecia tentar tocar no âmago dos meus sentimentos, buscando arrancar alguma misericórdia para que eu não o matasse. Era como se ele cobrasse o favor que havia me feito. Tinha muitas dúvidas sobre ele. Como ele entrou na fábrica em meio ao incêndio e me resgatou? Por que em seus pertences havia objetos da cidade, se estava perdido assim como eu? Eram perguntas que fervilhavam em minha mente, e tentei resumi-las em uma só:

— Quem é você? — Perguntei pausadamente, fixando meu olhar nele.

Seu Baltasar entristeceu o olhar, ficando cabisbaixo e novamente mergulhado em seu silêncio. Segurando firme a faca presa em sua panturrilha, a contornei, quebrando seu silêncio com um grito carregado de ódio:

— Responda às minhas perguntas! Como veio parar aqui? O que tá escondendo de mim?

Ele gemeu de dor e implorou:

— Por favor, não me mate! Olhe pra você, Max, acha que alguém vai lhe tratar como um ser humano normal? Cê é um monstro, e eu não sou o culpado disso. Veja o que fez com aquela moça, cê a torturou, a matou e provou de sua carne. Não passa de uma aberração antropófaga, com sede de devorar tudo, de controlar tudo. Foi assim com Érica, você a quis possuir, por isso ela não se importou ao lhe ver em meio às chamas. Ela quis se livrar de você.

Não compreendia suas intenções completamente, mas suas palavras me abalaram profundamente, pois havia verdade nelas. Érica não parecia se importar muito em me ver queimar.

— É mentira! Érica me ama, ela só não quis saber de mim por causa do Ricardo. Maldito Ricardo. — Eu disse, sentindo um misto de tristeza e ódio.

Ele ainda gemia de dor, mas continuou revelando detalhes que me perturbaram ainda mais:

— Sabe muito bem que não tô mentindo. Eu estava lá naquele dia, eu vi quando vocês entraram na fábrica. Observei bem quando você e seus amigos desviaram do caminho, e os segui.

— Como assim? Estava na fábrica naquele dia? O que tá escondendo, senhor? — Perguntei, confuso e irritado.

Ele finalmente revelou:

— Eu conheço aquela fábrica como a palma da minha mão.

— Continue, preciso saber. Cê nunca esteve perdido, não é mesmo? O que tá escondendo? — Insisti, interessado.

Ele desabafou:

— Já fui funcionário daquela fábrica, era sócio e fazia parte da brigada de emergência. No entanto, houve um acidente, semelhante ao seu. A diferença é que a vítima caiu dentro do cilindro de soda cáustica, não teve chance nenhuma de sobreviver. — Ele gemia de dor, tentando ajeitar a perna ferida. — Minha perna dói, Max, por favor, tire esse punhal daqui.

— Apenas continue a história, quero ouvir. — Respondi.

Baltasar parou por um momento, olhando para mim, e decidiu continuar.

— O nome da vítima era Diego. Ele era noivo de uma das funcionárias mais belas que trabalhava lá. Eu fui acusado de tê-lo empurrado da passarela. Tudo porque tinha uma paixão pela noiva de Diego.

— E você o empurrou? — Perguntei.

— Claro que não, foi um acidente. — Ele respondeu, mas sua expressão me dizia o contrário.

Estava surpreso com toda a história que Seu Baltasar me contava. Mas não era difícil entender o que realmente aconteceu. Com ciúmes de Diego, Seu Baltasar viu uma oportunidade única de se livrar do rival e o empurrou para dentro do cilindro de soda, alegando "acidentes acontecem". Assim como Érica e Davi, que ao invés de me socorrer, preferiram me deixar à mercê do destino, eu não os perdoava.

Baltasar clamava por ajuda, sua perna dilacerada mostrava o osso exposto, o sangue jorrava incessantemente.

— Por favor, me ajude! Olha para a minha perna, tô perdendo muito sangue. — Suplicou ele.

— Ainda não, quero ouvir o resto da história. — Respondi, decidido.

Ele respirou fundo e continuou:

— A polícia foi chamada e iria fazer perícia no local. Havia câmeras lá, não seria difícil descobrirem que fui eu. Por puro ciúme, arruinei minha vida. Assim como cê tá fazendo com a sua, Max.

— Eu não escolhi isso. — Argumentei. — Pra fugir, o senhor se escondeu na floresta, foi isso?

— A floresta Mossaíh sempre foi conhecida como mal-assombrada. Não sei explicar, mas há algo encantador aqui. Precisava fugir, e aqui encontrei abrigo. — Respondeu ele.

Caminhei até a beira do lago, pensativo, percebendo que poderia ter voltado para casa durante esses dez anos.

— Então quer dizer que durante todos esses anos, pensei que estava perdido, poderia ter voltado para a república? — Olhei para trás, encarando Baltasar. — Maldição, me privou de estar com minha Érica!

— Aproveite que está perto do lago e olhe seu reflexo. Depois, responda sinceramente. Cê acha que Érica ainda vai te querer? Assim como perdi minha amada, cê perdeu a sua. Ninguém cuidaria de você como cuidei. Todos fugiram e não se importaram contigo.

Ele estava certo. Eu era o amaldiçoado. Se tivesse tido a mesma sorte que Diego, se a soda tivesse corroído minha vida naquele momento, eu não estaria sofrendo assim. Mas não tive essa sorte, e agora estava angustiado, prisioneiro em meu próprio corpo. Queria morrer, mas não achava justo partir sem reencontrar minha amada.

— Max, me ajude! Não me torture mais, sempre te ajudei. O que fiz foi o melhor. — Suplicou Baltasar.

Eu andava de um lado para o outro, tentando digerir todas as informações que havia recebido. Parei diante da garrafa de cachaça.

— Por favor, me ajude! — Baltasar ainda suplicava.

Sua voz irritava profundamente. Peguei a garrafa de cachaça e derramei em sua perna machucada, ele gritava de dor.

— Cala essa maldita boca! — Exclamei, colocando as mãos na cabeça. — Minha cabeça dói. Eu me sinto perdido, não sei o que fazer.

Baltasar ainda chorava e gemia de dor.

— Você é um alcoólatra maldito. Não se conteve em ficar aqui sozinho sem sua bebida, né? As coisas que trazia para eu comer não eram caçadas, vinham da cidade. — Percebi, finalmente. — Então Braço Forte não deve tá tão longe. Minha Érica pode tá bem perto de mim. E eu poderia tá perto dela se você não tivesse mentido. — Concluí, com raiva.

— Chega, Max, tenha misericórdia! O que quer de mim? — Baltasar suplicava.

— Cê também é culpado pelo meu sofrimento.

— Não é verdade, eu sempre te ajudei. — Baltasar defendeu-se.

— Fiquei dez anos aqui, angustiado, me sentindo abandonado por todos. Cê assistiu a toda minha angústia e nunca me disse que sabia como chegar em Braço Forte. — Acusei.

— Eu fiz isso para te proteger. Sempre me senti sozinho aqui nessa caverna, cê foi minha única companhia. Não queria que me deixasse sozinho.

— Então cê confessa que não fez isso para me proteger. Fez porque não queria que eu te deixasse aqui sozinho.

— O mundo lá fora não vai te acolher como eu te acolhi, Max. Pode ter certeza disso. Cê sempre será visto como um monstro. Olhe para mim. Tô maltrapilho e judiado, assim como você. Estamos no mesmo barco, sofrendo a mesma sina. Por que me maltrata? Que mal eu lhe fiz, Max? Eu sempre te ajudei. Cê estava entre a vida e a morte, e fui eu que te salvei. Agora cê simplesmente me tortura?

Seu Baltasar persistia em arrancar algum gesto de generosidade desse monstro aqui, e parecia estar conseguindo. Ele estava certo; no momento em que mais precisei, foi ele quem me estendeu a mão. Não poderia deixá-lo naquele estado.

— O que eu faço? Como posso te ajudar? — Perguntei, olhando diretamente para ele.

— Me solte! — Foi sua resposta direta.

Eu o encarei, vendo o ódio que fervia em seus olhos.

— Não, senhor. Não serei tolo a esse ponto. Seus olhos transbordam ódio, na primeira oportunidade tentará me passar a perna. Diga-me quais são os procedimentos de primeiros socorros e eu ajudarei. — Respondi, decidido.

Baltasar começou a ditar os principais procedimentos que eu deveria realizar. Segui suas instruções meticulosamente. Fui até a floresta, colhi ervas, amassei, fiz uma pasta com tudo. Cortei o vestido da moça em tiras e fiz faixas. Cautelosamente, retirei a faca e amarrei a faixa juntamente com a pasta de ervas na perna de Seu Baltasar.

— Pronto, não lhe devo mais nada. — Declarei, terminando de amarrar a faixa.

— Obrigado, Max. Agora me solte, não pode me deixar aqui. — Pediu ele.

Notei seu olhar de relance para o punhal que estava ao seu lado. Percebi suas intenções.

— Seu olhar parece uma fornalha. As suas pupilas estão dilatadas. Tá tentando ser sorrateiro, é óbvio suas intenções. É sua vida que tá em jogo. Na primeira brecha que eu der, cê vai me atacar. — Adverti, segurando firme a faca.

— Se engana, Max. Eu sou seu amigo. Se me soltar, posso te levar até a cidade. Eu sei o caminho. Chegaremos lá rapidamente e você finalmente encontrará sua amada. Me solta, Max! Eu te ajudei, fui eu quem te salvou. Não se esqueça disso. — Insistiu Baltasar.

Me aproximei mais dele, abaixei-me e peguei a faca. O velho me olhava, claramente assustado.

— Isso, agora corte as tiras. — Instruiu ele.

— Sabe, seu Baltasar, pensando bem, prefiro você calado. — Comentei, passando delicadamente a mão pela lâmina do punhal.

Ele ficou ainda mais apavorado.

— O que vai fazer? Pelo amor de Deus, não me machuque mais!

Dei meia volta, me aproximei dele segurando a faca nas mãos. Seu Baltasar gemia, tentava se soltar, mas amarrado como estava, era impossível. Desta vez não tive piedade. Com um sorriso maléfico, apertei seu pescoço e puxei sua língua para fora. Ele tentava se soltar das minhas mãos, mas amarrado era impossível, com a outra mão segurando a faca arranquei a sua língua, calando a sua boca para sempre. O homem encolheu-se com a cabeça em meio as pernas, o sangue respingava no chão.

Levantei-me com o punhal na mão e saí da caverna, deixando-o lá junto com o cadáver da moça que eu havia matado.

Notas finais
E agora? Depois de saber que a cidade não está tão distante o que Max fará? O jeito é continuar acompanhando, e claro não deixa de comentar.