ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
8 Jantando com o inimigo
Notas iniciais
Eu estava mergulhado em um ódio febril, consumido pelo desejo de vingança. Queria matar Ricardo, mas simplesmente matá-lo seria pouco. A morte dele teria que ser lenta, dolorosa, para que eu pudesse saborear cada momento de seu sofrimento.
— Não reconhece a minha voz? — Perguntei, com sarcasmo, sabendo que seria a última pessoa que ele pensaria.
Ricardo soava desesperado.
— Onde tá a Dayse?
— No momento ela não pode falar. Ou melhor, ela nunca mais poderá falar. — Respondi com frieza.
— O que cê fez com a minha mulher? Eu quero falar com ela. — Sua voz trêmula mostrava seu pânico crescente.
— Preocupado agora, Ricardo? Ao chegar aqui a encontrei furiosa contigo. Cê me afastou da mulher que amo, e eu te afastei da sua.
Ricardo parecia não entender.
— Mas quem é você, do que tá falando?
— Volte o quanto antes pra casa. E oh, nada de chamar a polícia, senão farei sopa da tua filhinha.
— O quê, como assim minha filhinha? Quem é você maldito?
Era aprazível o que eu sentia naquele momento, Ricardo estava em minhas mãos, e eu não poderia deixá-lo escapar incólume. Desliguei o telefone e me aproximei do corpo de Dayse. A observei por um instante, absorvendo a sua beleza macabra na morte.
Em seguida, peguei a faca e repeti o processo que havia feito com a moça na caverna. Cortei um pouco abaixo da sua caixa torácica, entre as costelas esquerdas flutuantes, e contornei a faca por entre os pulmões, até encontrar o seu coração. Delicadamente, fui arrancando-o para fora. O sangue jorrava, e eu sentia uma satisfação mórbida ao ver aquele órgão vital em minhas mãos. Ricardo iria pagar por tudo que fez. Era impressionante, mas uma vez me sentir um animal diante de sua presa. Regozijava-me com o cheiro do sangue, desejava abocanhar aquela carne e sentir todo o seu sabor. Levei o coração até a altura dos meus lábios, deixando-o completamente lambuzado.
Não! Ainda não poderia comer. Ainda não era o momento de devorar aquela carne. Aquele cardápio era para dois.
Peguei então o coração ainda intacto, coloquei em um prato e levei até a mesa. Preparei tudo como se fosse servir um belíssimo jantar. Taças com vinho tinto (um velho Cordelier Licoroso Rosado, que encontrei no fundo da geladeira). Coloquei também algumas frutas vermelhas (minha cor preferida) e algumas partes do corpo de Dayse. Dedos, as orelhas, e fatias do seu músculo facial, todos arrumados precisamente sobre a mesa, que já estava forrada com uma toalha branca, disposta em pratos de porcelana chinesa, reservados apenas para servir convidados especiais. Cobri o corpo de Dayse, que ainda estava amarrado na escada, com um lençol. Peguei a pequena Érica, que dormia serenamente no bebê conforto, e a coloquei em uma cadeira próxima a mim. Sentei-me diante do prato que continha o coração, enchi uma das taças com vinho e fiquei ali, aguardando a chegada de Ricardo.
Não demorou muito e Ricardo chegou ofegante, empurrando a porta com violência entrando desesperado. Calmamente ergui minha taça, tomando um gole do vinho, saboreando cada gota como se fosse a última.
— Boa noite querido, como demorou! O jantar tá servido. Sente-se, espero que goste do cardápio — disse eu, com ironia.
Ricardo, com os olhos lacrimejando, me olhou com desespero.
— Onde está a minha mulher, o que cê fez com ela? — perguntou, sua voz tremendo.
Dei uma olhada em direção ao cadáver de Dayse. Mais do que depressa, ele correu em direção à escada, levantou o lençol e se repugnou ao ver o estado em que se encontrava o corpo de sua mulher. Ajoelhou-se no chão e se derramou em lágrimas. Eu continuei no mesmo local, saboreando o vinho e provando pequenas fatias do coração. Ricardo, aos prantos diante de toda aquela cena macabra, olhou firmemente para mim.
Foi então que ele tirou de dentro da calça uma pistola e correu em minha direção, apontando a arma e me amaldiçoando.
— Desgraçado, eu vou te matar! — gritou ele, a voz embargada pela raiva e pelo desespero.
Eu, tranquilamente, peguei o bebê conforto com a criança e o coloquei sobre a mesa.
— Quero lhe apresentar a pequena Érica.
No mesmo instante, notei que a fisionomia de Ricardo mudou. Sua mão trêmula que segurava a arma relaxou, descendo até a altura do quadril.
— Enquanto eu saboreava esse delicioso coração, fiquei aqui pensando. Que gosto teria um coraçãozinho tão pequeno? — provoquei, deslizando a faca pelas bordas do bebê conforto.
— Essa criança é minha filha? Não toque nela, eu te imploro! — exclamou Ricardo, desesperado.
— Parece um anjo, não é mesmo? Seria uma maldade interromper uma vida tão pequena — comentei, observando a pequena Érica.
— Quem é você? Por que tá fazendo isso comigo? — perguntou Ricardo, confuso e aterrorizado.
— A arma, Ricardo. Jogue-me a arma agora! — ordenei, pressionando o punhal sobre a criança.
— Calma, eu vou te dar a arma. Mas não faça nada com minha filha! — Ele implorava, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Por favor, não a machuque!
Ricardo se abaixou lentamente, deixando a arma no chão, seus olhos fixos em mim com uma mistura de medo e desespero.
Eu olhava para a criança e via a doçura que se escondia em seu semblante, a inocência que se escondia atrás daqueles olhos pequenos, isolada do mundo, ingênua diante de tudo aquilo que estava acontecendo ao seu redor. Eu não poderia machucá-la, jamais faria isso. Mas é claro que Ricardo não precisava saber disso.
— Chute a arma para mim. Ou eu esquartejo essa criança aqui na sua frente. — Minha voz era fria, sem emoção.
Sem saída, ele me obedeceu. Aparei com o pé direito, agachei com os olhos fixos nele e peguei a arma. Ricardo agora estava sob o meu controle.
— Como eu ansiei por esse encontro. — Apontei a arma para ele. — Sente-se, Ricardo, vamos comemorar nosso reencontro!
Ele estava confuso, tentando entender o que estava acontecendo.
— O que cê quer comigo? Que mal te fiz? — Perguntou, ainda sem me reconhecer.
— Não me reconhece? Claro que não, achava que eu estivesse morto, não é mesmo? Às vezes eu penso que sim, pois sinto o meu corpo vagar sem alma. Carrego apenas o ódio amargo daquele dia. O dia em que senti as chamas e a soda cáustica a me corroer, enquanto vocês comemoravam felizes, desprezando o meu martírio. Zombar de mim sempre foi a sua diversão preferida, não é mesmo? — Minha voz tremia de raiva.
— Meu Deus! Maxwell, é você? — Ricardo finalmente me reconheceu.
— Eu amei Érica mais do que a minha própria vida, e você me impediu de ficar com ela. Agora eu retornei, Ricardo, para destruir a sua vida.
Ele começou a perceber a gravidade da situação.
— Eu não tenho culpa do acidente. Não faça nada contra a minha filha, eu te suplico. Eu era um babaca, por isso te perturbei tanto.
— Sente-se, Ricardo, vamos saborear esse jantar especial que preparei para nós. — Ordenei, apontando a arma para ele.
— O que tá fazendo, Max? Que criatura cê se tornou?
— Enquanto cê vivia aqui no conforto, eu passei esses últimos anos no inferno, enfiado em uma caverna. Sendo obrigado a conviver com as minhas cicatrizes e com as sequelas que a soda me trouxe. Até hoje eu tenho dificuldades para respirar e tô completamente cego de um olho. A vida não foi nada justa, eu só tô corrigindo essa injustiça do destino. — Expliquei, mantendo a arma apontada para ele.
Ricardo ainda me olhava com os olhos arregalados e atentos, incrédulo por me ver diante dele. Apontei novamente a arma em sua direção e exigi mais uma vez que se sentasse.
— Eu tô cego e você pelo jeito tá surdo. Não ouviu eu lhe mandar sentar? — Minha voz era dura, sem piedade.
Ele se aproximou vagarosamente da mesa, puxou a cadeira e se sentou diante do prato com as partes do corpo de Dayse. Dava para sentir o medo em seu olhar. Enchi uma taça com vinho e servi.
— Tem um bom gosto, Ricardo, esse Cordelier é mesmo divino. — Comentei, observando seu nervosismo.
Ricardo ficou paralisado, de olhos arregalados em minha frente com medo do que eu poderia fazer.
— Que desfeita, não vai provar do delicioso jantar que preparei com todo carinho pra você?
Ele olhou em direção ao prato, engoliu saliva, ofegou ao ver as partes do corpo de sua mulher. Seus olhos buscavam uma saída, uma maneira de escapar daquela situação.
— Que péssimo anfitrião eu sou, perdoe-me, vou servi-lo. — Disse, sarcástico, enquanto pegava uma faca para cortar um pedaço do coração de Dayse.
Levantei da cadeira em que estava, prendi o revolver na cintura e dei leves passos em direção a Ricardo. Aproximei-me e peguei seu prato, enfeitando-o com tudo que tinha na mesa, caprichando com alguns bifes crus dos músculos faciais de Dayse. Ao retornar ao meu lugar, perfurei um dos dedos que estava no prato com a ponta da faca, levei até a minha boca e degustei.
— Gosto da cartilagem que cobre as juntas das falanges. Por que não experimenta? — Provoquei, oferecendo o dedo ensanguentado a Ricardo.
Ele virou o rosto para o lado, enojado, derrubando a carne no chão.
— Não se preocupe, eu pego outro — comentei friamente, pegando mais um dos dedos de Dayse.
— Por favor, Max, não me obrigue a isso! Eu não sou culpado por você tá assim. Eu nem estava lá quando cê caiu no cilindro de soda. Lembra? — Suplicava ele, aos prantos.
— Mas você é culpado por eu não tá com a minha Érica. Eu sempre a amei, e você debochava desse amor. É verdade que não estava presente, mas se tivesse, na certa seria o primeiro a me mergulhar naquela soda — respondi, cortante.
— Jamais faria isso, sempre fui seu amigo — ele tentou argumentar.
— Cala essa maldita boca, Ricardo! Não vem me falar de amizade. Por sua culpa, Érica não me quis — gritei, a raiva pulsando em minhas veias.
— Por favor, Max, me escute. Guarde esse ódio para o Davi, ele é que tá com Érica agora — ele tentava se safar.
— O que tá dizendo? — Perguntei, confuso e atordoado.
— Que cê tá se vingando da pessoa errada. Mal você foi tido como morto, e o Davi já se aproximou de Érica. Os dois agora tão juntos e casados — revelou, tentando jogar a culpa para outro lado.
— O Davi não faria isso comigo! — Neguei veementemente.
— É aí onde cê se engana. Vá atrás da Érica, seu grande amor. Não permita que ela fique com o Davi — ele insistia, desesperado.
Eu não podia acreditar nas palavras de Ricardo. Não podia acreditar que meu melhor amigo, aquele em quem eu confiava, seria capaz de fazer isso comigo. Mas fazia sentido, explicava a alegria dos dois, abraçados enquanto eu me afundava em meio às chamas. Ricardo insistia em "fazer a caveira" do Davi, tentava me convencer a agir contra ele, procurando uma maneira de sair ileso de tudo aquilo.
— O que tá esperando? É o Davi o seu inimigo, não eu — disse Ricardo, tentando me manipular.
— O Davi e a Érica terão o que merecem na hora certa. Agora somos nós dois — respondi, decidido.
Ricardo ficou visivelmente preocupado.
— Calma, Max, não faça nada comigo! — Suplicou, em desespero.
— Cê não entendeu, Ricardo. Cê não tem escolha. Quero que você coma tudo isso que tem no prato. E depois vamos dar uma voltinha — disse, olhando para a criança que ainda dormia no bebê conforto. — A pequena Érica precisa de um lar.
Ricardo tentou argumentar novamente.
— Não precisa ser assim, vamos conversar melhor, a gente vai se entender.
— Entender? A única pessoa que precisa entender aqui é você. Cala essa sua maldita boca e coma logo, Ricardo! — gritei, apontando a arma em sua direção, o ódio fervendo dentro de mim.
Ricardo tremia enquanto pegava as partes do corpo de sua mulher e levava até sua boca. Cada mordida que ele dava era visivelmente cheia de ânsia, de repulsa misturada com desespero. Enquanto isso, eu degustava aquela carne como se fosse o mais delicioso dos pratos que alguém pudesse ter feito.
— Jantar delicioso, espero que esteja do seu agrado. Sua mulher é literalmente muito gostosa. Ela é quente. — Provoquei, com um sorriso sarcástico.
Ricardo, entre lágrimas e desespero, apenas murmurava palavras de repúdio.
— Você é um doente, um nojento! — disse ele, entre soluços.
— O que eu posso dizer? É sempre um prazer agradar o amigo — respondi, irônico.
Enquanto nos envolvíamos nessa cena macabra, minha mente não parava de pensar na pequena Érica. Ela ainda dormia profundamente, e isso começava a me preocupar. Não era normal uma criança dormir tanto assim. Eu tinha que fazer algo, não me perdoaria se algo acontecesse com ela. Enquanto eu me distraía com a criança, Ricardo avançou sobre mim, tentando tomar a arma de minhas mãos. Ele me derrubou no chão e veio por cima, tentando arrancar o revólver da minha cintura. Com um movimento rápido das pernas, consegui dar um empurrão nele e me levantar. Não hesitei em dar dois tiros, um em cada pé.
— Idiota! Quis dar uma de esperto? — Gritei, com ódio, enquanto ele caía no chão gemendo de dor.
Ricardo estava encolhido em posição fetal, seus pés amarrados, gemendo de dor e suplicando por misericórdia enquanto eu o arrastava pela casa. Peguei a fita de alumínio que estava ao lado do corpo de Dayse e amarrei firmemente seus pés e braços, deixando-o completamente imóvel.
— Max, por favor, não faz isso comigo! Eu te imploro, me deixa viver! — suas palavras eram abafadas pela mordaça que eu coloquei, sufocando sua voz.
Sem piedade, subi as escadas puxando-o pelos pés. No topo, o pendurei de cabeça para baixo, a cerca de trinta centímetros do chão, preso como um animal indefeso. Retornei à mesa e peguei a faca, observando os pés de Ricardo sangrarem, o líquido escorrendo pelas pernas e respingando no chão. Com precisão, enfiei a lâmina entre suas pernas, cortando seus genitais ao meio e descendo até o umbigo. Ricardo tremia de dor e agonia enquanto eu realizava meu ato de vingança.
Mas eu precisava ser mais cuidadoso, não podia deixar a pequena Érica sem proteção. Estiquei os braços e cortei a fita que prendia seus pés, fazendo-o cair no chão, já sem forças para se defender. Sua barriga estava aberta, seus órgãos à mostra, uma visão grotesca de seu sofrimento.
Decidi então ir até a garagem, onde encontrei um cabo de aço usado para reboque de carro. Voltei até a sala, amarrei o cabo de aço em suas pernas e fui arrastando-o até a garagem. Lá, o amarrei ao para-choque traseiro de seu próprio carro, vendo-o se contorcer em agonia. Retornei à sala, peguei as chaves do carro e o bebê conforto com a pequena Érica, que continuava dormindo tranquilamente. Entrei no veículo, acelerei, arrebentando o portão da garagem, arrastando Ricardo pelo asfalto ensanguentado enquanto ele gritava e se contorcia, uma trilha de sangue marcando nosso caminho.
A vingança estava consumada, mas a sensação de vazio e desespero ainda ecoava em meu peito. Era como se eu estivesse perdendo a última ponta de humanidade que me restava, afogando-me na escuridão de meus próprios atos. Mas naquele momento, nada mais importava além da dor e do desespero que eu infligia a Ricardo. A pequena Érica, alheia a tudo isso, continuava a dormir, inconsciente do horror que a cercava.
Fale com o autor