ANDARILHOS - Aqueles que não somos nós.
3 Capítulo 3- O inicio, o apelo e a guerra.
* O inicio, o apelo e a guerra. *
Luzes miúdas piscam dentro da redonda cabine central do cubo. Um grupo de quase trinta pessoas estão reunidas, todos em silêncio. Durante horas discutiam o que fazer.
O lugar parece uma base militar, mas sem armas. As luzes saem de aparelhos que brotam do chão, e são em forma de cones que sobem até a altura da cintura, a luz em si esta no topo deste aparelho, como uma mini cúpula de vidro ou algo do tipo que insiste em emanar uma singela luz azul, porem esta luz mal ilumina a proximidade de metros em quadrantes, isto porque não se pode desperdiçar energia nem para iluminação.
O pouco de energia que ainda lhes restavam eram resíduos de irradiações das estrelas que passaram antes de chegarem até ali. Diferente de tudo que já viram antes, aquele sol era diferente, e toda sua tecnologia não estava preparada para aquela estrela ou aquilo!
De trajes negros, ternos, vestidos e outras roupas de gala, assim estão todos na cabine central. A fraca luz da um tom sombrio e triste, lembrando um velório, porem se estivesse mais claro daria para ver, que mesmo os mais ricos e poderosos dos sobreviventes daquele povo, estão desgastados, em espírito, corpo e até mesmo suas roupas. Durante um tempo cujo não foi contado o silencio se manteve, até que um homem de cabelos brancos e barba serrada como aquelas que estão dias por fazer, se manifestou, e ele é o único de vestes simples entre todos:
– Ha quanto tempo as bases estaladas estão aguentando os ataques?
Com susto os homens e mulheres virão seus rostos, saindo do profundo devaneio. Mas apenas um responde, era um homem que vestia terno, também tinha o aspecto de quem não dormia a dias e precisava tratar da aparência, olhos azuis, barba e cabelo loiro, ombros largos, postura firme e imponente, definitivamente era um militar.
– Senhor! Me perdoe, pode repetir a pergunta?
– Quanto tempo ainda podemos extrair suprimento daquele inferno! Quanto tempo sobreviveremos com o que conseguimos pegar. — Já não era mais uma pergunta, la no fundo ele já tinha uma resposta.
– Podemos continuar extraindo por uma semana talvez. Nossos escudos são resistentes, mas eles são insistentes e em uma quantidade! — olhos se arregalam — Deus parecem formigas. se continuar assim presidente... Será dois por um, perderemos muito mais do que conseguimos repor.
– E se pararmos agora e trazer de volta os operários que estão la embaixo?
– Senhor — olhos se enchem de lagrimas ao lembra da imagem que acabara de ver antes de entrar naquela reunião — Nos só temos... Ainda temos alimento graças a isso — A barriga de todos roncam ao lembrar da fome, uma sinfonia dolorosa.
Uma mulher de meia idade, vestido de luxo com brilhantes espalhado por todo o corpo, cabelos e olhos negros. Uma mulher elegante, mas naquela situação sua elegância transformou-se em ofensa. Mentalmente abalada dirige suas palavras com fúria ao eleito 10 anos atrais presidente.
– Pelo amor de Deus! Você é cego ou insensível? — se vira e começa um discurso para todos: Estamos aqui para rezar por nossas almas? Vocês são os mais ricos é podero.. Haharsrsr — rindo, ou grunhindo talvez — ricos! Hahaha. E poderosos dos que restaram de nós, e mesmo assim temos que passar um dia de fome para poder comer no outro. As outras classes abaixo de nós precisam passar dois dias de fome para que nós não tenhamos que fazer isso, e descendo ainda mais nesta pirâmide os dias aumentam, até que chega lá em baixo! Onde não tem comida, e morrem de fome ou... — A pausa não é dramática, e necessária para não passar mau de nojo ao lembrar do que viram antes de entrarem ali. Engole a seco, e continua — Ou comerem uns aos outros!
O militar retorna a palavra, ele que é o ministro da Guerra, o que é estranho elegerem um ministro da guerra muito antes mesmo desta ideia ser cogitada, antes mesmo de descobrirem aquele mundo, parece que os humanos sempre mantém sua natureza, mesmo quando não precisam ser.
– Senhor. Ela tem razão. Sei que é difícil para você tocar neste assunto, seu filho era meu amigo, e o senhor sabe que eu morreria no lugar dele se pudesse.
– Nem deixaram um corpo para que eu pudesse velar — Diz o presidente ameaçando chorar.
– Esse crime já foi resolvido, os rebeldes canibais e toda a sua escoria estão mortos presidente — Fala um segundo militar, mais jovem que o primeiro, cabelo preto espetado, olhos castanhos claros de postura forte mas traços angelicais no rosto, quase andrógeno.
A mulher elegante retorna a palavra, rindo com ironia e humor sombrio, em cada uma das letras das palavras que falava existe uma gargalhada escondida:
– Seu filho não é o único que não tem corpo para velar, ou por acaso se esqueceu da ultima decisão sugerida pelo ministro de energias e suprimentos — ela olha para um canto escuro, onde um senhor se esconde nas sombras, sem se mover, de cabeça baixa, seu corpo ainda esta vivo mas sua alma já morrera.
– Isso foi necessário mulher — fala com imponência — E ele era seu filho também!
– Necessário!
– Sim, não podemos gastar energia cremando — se engasga com as palavras — cremando milhares de corpos!
– E então decide criar uma constelação de corpos no espaço, nos rodeando como anéis de um daqueles planetas. Quando eu estava no seu lado do discurso, apoiando sua campanha, sua pesquisa de uma nova rota para um provável planeta habitável...
– Que eu encontrei! Estava certo!
– Você disse que nossa estação era uma esperança, um começo verdadeiro e não um final, que éramos a nova via lactea. Mas este lugar — olha para o teto, para o chão, faz um círculos com os olhos marejados — Este lugar é um cemitério, uma lapide.
Lagrimas começam a juntar nos olhos do presidente, mas nada de abalo, ele segura como uma represa segura milhares de litros de água. O militar loiro, ele que é o ministro da guerra toma a palavra:
– Não podemos mandar mais operários para morrer, perder mais material, perder energia senhor.
O garoto de aparência angélica e postura firme, ele que é o segundo no comando das forças armadas, decide então divulgar seu plano.
– A maioria deles estão se agrupando a Leste da nossa ultima base de extração ainda de pé. La seria um bom lugar para começar.
O presidente assustado pergunta — Mas ministro, o senhor não havia me dito que estes que estão a Leste não fizeram nada, eles são apenas. — É interrompido.
– Não podemos acabar com todos de uma vez, os que nos atacam estão muito espalhados e demandados, então pensamos que a melhor forma de começar é com o medo. — Responde o segundo no comando, o homem ironicamente angelical. Enquanto o ministro, preferiu ficar calado.
– Saiam!!! — Grita o presidente — Eu preciso pensar.
Um dia se passou, e o presidente se manteve na sala, sozinho. Sua esposa, companheiros, empregados, e outros entraram varias vezes para oferecer ajuda, mas ele negou todas, não comeu nem bebeu nada.
No dia seguinte. Pálido com a boca seca e rachada, olhos profundos e pele ressecada, seria uma rocha se esfarelando se não fosse dois rios que percorriam seu rosto, rios salgados, eram lagrimas! Em fim a represa estourou, e começou a chorar. Sem dizer uma só palavra, o presidente saiu da sala e se deparou com o ministro, e com um leve acenar de cabeça a ordem foi dada.
* * *
Não tem como dizer como era aquele lugar, porque nada sobrou. Mas uma coisa eu sei, eram criaturas pacíficas, não foram eles quem negaram os pretensos visitantes, porem também não discordaram da decisão dos Elementais. Sua omissão custou muito caro.
Um ser meio humanoide, se é que tinha algo de humano, e meio quadrúpede, um cavalo ou animal de casco talvez. Ele ensinava para as crias de suas crias a historia de seu povo, era o ancião entre os seus. Dezenas de pequenas outras criaturinhas o rodeavam, e as progenitoras deles assistiam a poética aula, mães cuidadosas e zelosas aprendiam novamente, todos aprendiam também. Em um momento um dos pequenos perguntou o que era aquela coisa estranha no seu, negra, mais negra que a aquela noite estrelada, mas antes que o ancião pudesse responder, o objeto deixou sua postura sombria, e começou a brilhar aos olhos daqueles que ali o observaram. Todos se admiraram com a luz azul esbranquiçada que emanava do cubo, mas o ancião não! Ele já sabia o que estava acontecendo, não entrou em pânico e nem correu, virou-se para trais e disse chorando algo, cujo se fosse repetir em palavras seria — Acordamos para dormir, saímos de casa mas no fim voltamos para nossa amada mãe.
De longe se viu um raio azul esbranquiçado cruzar os céus. Os Elementais correram mais rápido que qualquer tempestade pode conseguir ser. Quando chegaram minimamente próximos só restava uma montanha de poeira, um reino submerso em cinzas, uma criatura normal não conseguiria ver o que tinha lá dentro, mas eles eram diferente, sua visão e sentidos mais aguçados. Então puderam ver, restos de corpos, restos de moradas, restos de almas, e nem uma vida. Os Elementais tinham muitas cores, cores que variam entre eles, mas neste momento são apenas uma, todos eles, milhares reunidos.
Vermelhos, todos eles são vermelhos agora, e do céu pode-se ver um mar vermelho cobrir a imensidão do horizonte.
Pronto, esta dado o inicio, ou o fim. Começa a guerra.
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