O início de novembro já trazia o clima das festas de fim de ano. Amanda estava sentada em um banco de praça, envolta em um cachecol grosso e um casaco escuro. O vento gelado soprava, carregando consigo o aroma de castanhas assadas e o perfume dos pinheiros que decoravam as vitrines ao redor. À sua volta, pessoas apressadas compravam presentes enquanto as luzes natalinas piscavam em ritmos hipnóticos, refletindo nos poucos flocos de neve que começavam a cair.

O celular em sua mão vibrava insistentemente, mas Amanda hesitava em responder. Seus dedos apertavam o aparelho com força enquanto ela encarava a mensagem recém-recebida. Murmurou para si mesma, o tom carregado de ironia e exaustão.

— Natal em casa. Claro. Porque passar três dias sob o mesmo teto que a ‘família feliz’ parece a melhor ideia de todas, certo? Obrigada por me lembrar, pai.

Uma risada curta e sem humor escapou de seus lábios. Amanda balançou a cabeça, tentando processar os pensamentos que se atropelavam em sua mente.

— Família feliz. Quem ele pensa que engana? Talvez eles consigam fingir muito bem na frente dos vizinhos, mas eu estive lá. Eu vi as vezes em que a felicidade acabava assim que as portas se fechavam.

O olhar de Amanda ficou vazio por um momento, fixo nas luzes da praça. Uma memória dolorosa ressurgiu, vívida demais para ser ignorada.

— E ele quer mesmo que eu finja que não lembro? Que não lembro daquelas noites em que ele gritava até a garganta doer e que, algumas vezes, foi além disso? Quando eu era pequena, achava que era só um pesadelo, que ia acabar quando amanhecesse. Mas não acabou. Ele diz que mudou, mas...

Amanda suspirou profundamente, ajeitando o cachecol ao redor do pescoço, como se quisesse se proteger não só do vento cortante, mas também das lembranças que insistiam em voltar.

— Ele ainda não entendeu, não é? Eu não pertenço mais àquele lugar. Eu saí porque precisava respirar, porque precisava de espaço... porque não dava mais para continuar sendo a filha perfeita que todos esperavam, em uma família quebrada.

Ela cruzou as pernas, tentando reorganizar os pensamentos.

— Mas, claro, ele acha que tudo pode ser resolvido com um jantar à luz de velas e mais uma rodada de “O que Amanda está fazendo da vida?”. Como se eu quisesse responder isso.

Por um momento, Amanda apertou os lábios, pensativa.

— Eu sei o que vai acontecer. Vou chegar lá e encontrar minha mãe tentando esconder o nervosismo com o peru que ‘não está perfeito’. Rebecca, minha irmã, vai perguntar por que eu ainda não tenho alguém especial – porque, na cabeça dela, a vida só faz sentido se você tem um anel no dedo e duas crianças correndo ao redor da árvore.

Amanda abaixou a cabeça, suspirando profundamente.

— E meu pai... bem, ele vai apenas sorrir. Aquele sorriso gentil que me faz sentir a pior pessoa do mundo por dizer ‘não’. Mas a verdade é que aquilo é apenas um recorte do que somos.

O celular vibrou novamente em sua mão, trazendo-a de volta ao presente. A mensagem ainda piscava na tela, destacada no visor:

Pai:

Estamos esperando você. Por favor, venha.

Amanda leu as palavras mais uma vez, os lábios formando uma linha tensa.

— É só um fim de semana, Amanda. Você consegue. Sorria, ria das piadas sem graça do tio Harold, coma biscoitos demais e finja que não se sente um alienígena no meio de sua própria família. Quando o relógio bater meia-noite no dia 26, você pode pegar o primeiro trem de volta e esquecer tudo... até o próximo ano.

Guardando o celular no bolso, Amanda deixou o olhar vagar pela praça. Crianças corriam com gorros vermelhos de Papai Noel, casais tiravam fotos em frente a uma árvore gigante decorada com estrelas douradas, e adultos apressados carregavam sacolas abarrotadas.

— Natal. Esse conto de fadas em que todo mundo acredita. Não importa quantos anos passem, a expectativa é sempre a mesma: paz na Terra, amor entre os homens... e todas essas coisas que só existem nos comerciais de TV.

Ela esfregou as mãos para se aquecer, um suspiro escapando.

— Talvez o problema seja comigo. Talvez eu seja incapaz de ver a magia que eles veem. Mas, honestamente, eu não sei se quero tentar.

Levantando-se, Amanda começou a caminhar pela praça, os passos lentos enquanto observava as luzes piscando acima. O celular vibrou novamente no bolso. Relutante, ela o tirou, permitindo que a luz da tela iluminasse seu rosto por um breve momento.

Pai:

Estamos esperando você. Por favor, venha.

Ela hesitou, os dedos pairando sobre o aparelho. O convite parecia tão simples, mas carregava um peso que ela não estava certa de suportar. Depois de alguns segundos, apertou o botão de bloqueio. Sem olhar para trás, continuou caminhando, afastando-se do convite, das memórias e de tudo o que a prendia ao passado.

— Tudo bem, Amanda. Você vai sobreviver. É só Natal.

Amanda entrou em seu apartamento, fechando a porta atrás de si com um leve suspiro. O pequeno espaço exalava aconchego, com prateleiras lotadas de livros cobrindo uma das paredes e uma árvore de Natal discreta no canto, decorada com luzes brancas e enfeites prateados. A cozinha americana, impecavelmente organizada, tinha apenas uma pilha de contas sobre o balcão para quebrar a perfeição.

Ela tirou o casaco pesado, pendurou-o no gancho ao lado da porta e largou a bolsa no sofá. Jogando-se ao lado dela, deixou a cabeça cair para trás, encarando o teto enquanto murmurava:

— Casa, doce casa... ou, no meu caso, casa, doce lugar onde as contas me perseguem.

Seus olhos pousaram nas contas empilhadas, e ela suspirou novamente, estendendo a mão para o celular na mesa de centro. Uma mensagem de seu pai brilhava na tela, ainda não respondida.

Pai:

Sentimos sua falta. Sua mãe vai adorar te ver. Pense com carinho.Você não quer decepcionar a sua mãe, né?

Ela franziu a testa e bloqueou o telefone, colocando-o de volta na mesa com um estalo de irritação. Ficou olhando para o vazio por um longo momento antes de balançar a cabeça.

— Passivo agressivo! Como ele sempre foi. Sempre tentando me manipular.

Ela foi até a cozinha, abriu a geladeira e avaliou o conteúdo escasso: uma caixa de leite quase vazia, algumas verduras tristes e um pote de sobras. Pegou um copo de água, encostando-se no balcão enquanto observava novamente a pilha de contas.

— Aluguel, pago. Internet, pago. Celular... quase pago. O resto? Dá para enrolar mais uns dias.

Depois de um longo gole d’água, Amanda fechou os olhos, respirando fundo. Era uma tentativa de afastar o peso que parecia crescer em seus ombros. O som abafado de risadas vindo da rua alcançou seus ouvidos, e ela desviou o olhar para a janela. Casais e famílias passeavam, sacolas de compras nas mãos, luzes brilhando sobre suas cabeças.

— Eu sei o que eles esperam de mim. Mas estar lá? Não é só um fim de semana. É reviver tudo o que eu passei.

O celular vibrou de novo, como se exigisse sua atenção. Ela suspirou e o desbloqueou, apenas para ver mais uma mensagem.

Pai:

Amanda, estamos todos esperando por você. Por favor, venha.

Amanda olhou para a tela, os dedos apertando o aparelho com força antes de soltá-lo sobre a mesa.

— Eu não consigo, pai. Eu não consigo sentar naquela mesa e fingir que está tudo bem. Fingir que o passado não aconteceu, que as coisas não são complicadas demais para um convite tão simples resolver.

Ela voltou para o sofá e se encolheu em um canto, abraçando os joelhos enquanto encarava a árvore de Natal discreta no canto do apartamento. As luzes piscavam devagar, lançando reflexos suaves pelo cômodo.

— Talvez seja egoísmo. Talvez seja covardia. Mas é o que eu consigo lidar agora.

Do outro lado da sala, seu diário de ideias estava aberto na mesa de centro. Amanda esticou a mão, puxando o caderno para o colo. Na página inicial, o título “Conto de Natal” estava escrito com sua caligrafia inclinada. Abaixo, anotações soltas ocupavam os espaços vazios: “amor de natal,” “um homem desesperado,” “uma mulher com tudo a perder.”

Ela mordeu a tampa da caneta, pensativa, antes de começar a escrever novamente.

— Talvez a única coisa que eu consiga lidar agora seja isso.

E assim, enquanto a cidade vibrava lá fora com o espírito natalino, Amanda se perdeu entre as palavras, criando um mundo onde ela podia decidir o final.


Amanda acordou ao som insistente do alarme, um som agudo que parecia atravessar o apartamento gelado como uma lâmina. A luz cinzenta da manhã filtrava-se pelas cortinas, lançando sombras suaves no quarto. Ela se levantou relutantemente, estremecendo ao sentir o frio do piso de madeira sob os pés. Vestiu-se rapidamente: um suéter grosso e calças confortáveis, arrematados por um casaco pesado. Jogou a bolsa no ombro e saiu apressada, os passos ecoando no corredor do prédio. Ela morava em um prédio barato em Inwood, onde o aluguel era relativamente mais barato.

Manhattan estava viva como sempre. Táxis amarelos corriam pelas ruas, pedestres se espremiam nas calçadas, e o som das buzinas competia com o burburinho das conversas. Amanda manteve a cabeça baixa enquanto atravessava o caos organizado da cidade, os dedos enfiados nos bolsos do casaco para se proteger do vento cortante.

Quando finalmente alcançou o edifício onde trabalhava, parou por um instante, observando sua fachada imponente. O arranha-céu com janelas espelhadas refletia o céu de inverno, cinza e inexpressivo, como se zombasse de seu humor. Ela respirou fundo, atravessou o saguão movimentado e entrou no elevador, tentando se preparar mentalmente para o dia que prometia ser desafiador.

A reunião aguardava no 23º andar. Amanda entrou na sala de conferências com o coração pesado. A longa mesa de madeira estava rodeada por seus colegas, todos com expressões tensas e olhares fixos em anotações ou laptops. Na cabeceira, Richard Davenport, o editor-chefe, exibia sua costumeira postura imponente, os dedos cruzados sobre a mesa enquanto seus olhos varriam a sala como um farol.

Richard tinha 55 anos, e sua aparência parecia calculada para intimidar. A calvície reluzente era compensada por sobrancelhas espessas e um olhar duro, quase predatório. Ele usava ternos caros que acentuavam sua figura robusta, e sua voz grave cortava o ar com precisão cirúrgica. A expressão permanentemente mal-humorada dava a impressão de que ele enxergava o mundo como uma sucessão de problemas a serem resolvidos – e pessoas a serem descartadas quando se tornassem inconvenientes.

Amanda se sentou no canto, tentando passar despercebida. Não demorou muito para que Richard se dirigisse diretamente a ela, sua voz cortante como o frio do lado de fora.

— Amanda, nós pedimos ideias que capturem o espírito do Natal. Algo que inspire nossos leitores e venda exemplares — começou ele, olhando-a fixamente. — O que você trouxe… não tem isso. Parece vazio.

Ela sentiu o estômago afundar. Limpou a garganta, tentando soar confiante, embora sua voz tenha saído hesitante.

— Eu… posso trabalhar nisso. Refinar. Trazer algo novo. Só preciso de mais tempo.

Richard balançou a cabeça, impassível.

— O problema é que o tempo acabou. É novembro e precisamos de resultados agora. E, francamente, acho que sua paixão por este trabalho… sumiu.

Amanda arregalou os olhos, surpresa, mas ele continuou antes que ela pudesse protestar.

— Talvez seja melhor darmos um tempo. Estou dispensando você, Amanda. Espero que entenda.

Por um instante, o mundo dela parou. As palavras ecoaram em sua mente, cada uma pesada como uma pedra. Ela tentou encontrar algo para dizer, mas tudo que conseguiu foi murmurar um fraco:

— Entendi.

Amanda se levantou, os olhos fixos no chão, e saiu da sala sob o olhar constrangido dos colegas. Cada passo parecia mais difícil que o anterior. Ao atravessar o saguão novamente, sentiu o peso do que acabara de acontecer: o emprego que havia sustentado sua vida nos últimos anos havia desaparecido em questão de minutos.

Quando as portas do prédio se fecharam atrás dela, Amanda parou na calçada, encarando o céu opaco. A cidade parecia tão indiferente quanto Richard havia sido. Respirou fundo, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam escapar.

— É isso, então — murmurou para si mesma, enquanto a realidade começava a se infiltrar. — Estou completamente ferrada.


Amanda deixou o edifício com passos apressados, o eco das palavras de Richard ainda reverberando em sua mente. A manhã gelada de Manhattan não parecia oferecer conforto, e o vento cortante fazia seu casaco parecer insuficiente. Perdera o emprego, sua estabilidade, e a segurança que, mesmo precária, parecia certa.

Enquanto caminhava, quase sem rumo, avistou uma cafeteria no térreo de um prédio vizinho. As janelas de vidro mostravam um ambiente lotado de pessoas de ternos bem cortados, ocupadas com celulares, laptops e conversas apressadas. Algo na normalidade caótica da cena a atraiu.

Amanda entrou e foi recebida pelo aroma familiar de café recém-passado e o zumbido constante de vozes. A fila era longa, mas ela não se importou. Precisava de um momento, algo que a ajudasse a se ancorar na realidade que parecia desmoronar ao seu redor.

Quando chegou ao balcão, pediu de forma mecânica:

— Um café preto, por favor.

Com o copo quente em mãos, olhou ao redor. Todas as mesas estavam ocupadas, e encostar-se a uma coluna perto do balcão parecia sua única opção. Ela observava o movimento – executivos gesticulando, baristas trabalhando em ritmo frenético, o som insistente de máquinas de espresso – quando um homem chamou sua atenção.

Ele estava de costas, alto e imponente, o terno escuro ajustado aos ombros largos. Mesmo parado, havia algo inquieto em sua postura, como se sua mente estivesse resolvendo cálculos complexos ou equilibrando decisões impossíveis.

O barista chamou:

— Gabriel Warren!

O homem virou-se rapidamente para pegar seu pedido, mas, no processo, esbarrou em Amanda. O café que segurava derramou-se em cheio na blusa dela, quente o suficiente para fazê-la soltar um grito abafado.

— Ai, meu Deus! — exclamou Amanda, olhando para a mancha que se espalhava pelo tecido claro.

Gabriel arregalou os olhos, claramente surpreso e desconcertado. Ele largou o copo vazio e, num gesto rápido, pegou um punhado de guardanapos no balcão.

— Ah, não! Desculpe, foi sem querer! Você está bem? Que descuido o meu — disse ele, aproximando-se para tentar ajudá-la.

Amanda deu um passo para trás, o rosto misturando dor, irritação e exaustão.

— Está tudo bem. Quer dizer, claro que não está, porque meu dia já estava uma maravilha, e agora estou... assim!

Gabriel parou, segurando os guardanapos como uma bandeira branca improvisada. Soltou um suspiro culpado, examinando a mancha que ele mesmo causara.

— Deixa eu resolver isso. Eu vou pagar a limpeza. Ou, melhor ainda, comprar uma blusa nova para você. Tem uma loja no outro lado da rua. Por favor, é o mínimo que posso fazer.

Amanda cruzou os braços, ainda segurando o café com a outra mão.

— Eu nem sei quem você é.

Gabriel hesitou por um instante antes de se apresentar:

— Gabriel Warren.

Ele esperou, como se isso explicasse tudo.

Amanda arqueou uma sobrancelha, cética.

— Eu sei, ouvi a barista — respondeu finalmente, depois de um momento de hesitação.

Gabriel sorriu, um sorriso genuíno, levemente arrependido.

— Qual o seu nome? — pergunta ele com um tom de curiosidade.

— As pessoas costumam me chamar de Amanda.

— Prazer em conhecê-la, Amanda. Bom, apesar das circunstâncias… me deixe consertar isso.

Amanda pega seu casaco, ainda tentando processar tudo o que aconteceu. A demissão, as preocupações com as contas, o café quente queimando sua pele, a mancha na roupa. Ela sente um misto de frustração e desespero, mas não consegue evitar que as lágrimas ameaçam escapar. Com os ombros curvados, sai da cafeteria, caminhando rapidamente para longe daquele lugar lotado de rostos indiferentes. A chuva começa a cair forte, o som da água batendo nas calçadas ecoando enquanto acelera o passo, tentando se proteger da tempestade que parece simbolizar o turbilhão interno.

Ela coloca o casaco sobre a blusa manchada, tentando cobrir a sujeira. Seus pensamentos se confundem com as gotas de chuva que caem sobre ela. As palavras do chefe ecoam em sua mente, e o peso da responsabilidade parece ser mais difícil de carregar a cada passo.

Enquanto anda sem rumo, de repente, percebe alguém a seguir de perto. Gabriel, que até aquele momento estava distante, se aproxima com passos rápidos, segurando um guarda-chuva grande, tentando alcançá-la.

— Amanda, espera!

Ela se vira lentamente, surpresa ao vê-lo. Gabriel está parado a alguns metros, com a expressão preocupada, como se tivesse hesitado por um momento antes de se aproximar.

— O que você está fazendo aqui? — Ela fala com a voz embargada, tentando esconder a tristeza.

— Eu… eu não queria te deixar assim. Sei que foi um acidente, mas parece que você não está bem. Posso te ajudar de alguma forma? Eu realmente sinto muito.

Ele olha para ela com uma expressão sincera, mas há uma mistura de desconforto e preocupação nos olhos. Naquele momento, Gabriel sente uma pontada de dúvida. Será que tudo isso é realmente por causa de um café derramado? Ou será que há algo mais? Ele tenta se convencer de que o impacto da bebida foi só a gota d'água para um dia já complicado, mas não consegue deixar de se perguntar se ela está tão mal por causa disso.

Amanda, por um momento, sente o peso da situação e se vê vulnerável diante dele, mas tenta manter a compostura.

— Não se preocupe. Está tudo bem. Eu só… preciso de um tempo para pensar.

Ela começa a andar novamente, mas a chuva começa a cair com mais intensidade, e as lágrimas que tentava esconder começam a se misturar com a água da chuva. Gabriel, percebendo que ela não está bem, corre até ela, abrindo o guarda-chuva e colocando-o sobre ambos.

— Amanda, por favor… Me deixe ajudar. Eu insisto, você pode pensar nisso que está passando em um lugar mais quente e protegida da chuva.

Antes que ela possa protestar, ele coloca a mão suavemente sobre o seu braço, com uma expressão calma e confiante.

— Vamos até a loja. Eu quero te comprar uma blusa e, se você quiser, podemos conversar. Eu sei como é… ter um dia ruim. Deixe-me ser útil. Eu não vou conseguir me perdoar por deixar uma moça suja de café em um dia como esse.

Amanda olha para ele, sem saber o que fazer. Ela nunca foi boa em aceitar ajuda, especialmente de estranhos. Mas, naquele momento, algo na atitude dele a faz hesitar, e sente que talvez poderia deixar a tempestade interna se acalmar por um instante.

— Tá bom. Podemos ir.

Ele sorri levemente, sentindo que finalmente conseguiu algo mais que uma desculpa. Ele começa a guiá-la, protegendo-a da chuva com o guarda-chuva enquanto a leva para uma loja próxima.


Ao entrarem na loja, ela segue direto para a seção de roupas mais simples, sem olhar para os lados. Sabia que não tinha condições de gastar em algo mais sofisticado. Pegou a primeira segunda pele básica que encontrou, a mais barata, e entrou rapidamente no provador. O ambiente era silencioso, exceto pelo som distante das roupas sendo mexidas nas araras. Ele, que a seguiu de perto, ficou parado perto do balcão, sem saber o que fazer. Observava em silêncio enquanto ela se trocava rapidamente.

Ela se sentia desconfortável, apressada, sem querer fazer mais cena do que o necessário. Mas a solidão era imensa. Tentava se livrar do que aconteceu mais cedo, mas ainda estava imersa na frustração e nas dúvidas sobre o futuro.

De repente, a porta do provador se abre. Ela sai rapidamente, com o novo conjunto ajustado ao corpo. O cabelo estava úmido da chuva, um pouco desalinhado, e o rosto levemente vermelho dos últimos momentos de tensão. Seus olhos, agora mais intensos devido ao embaraço, pareciam vulneráveis, fazendo-a parecer ainda mais jovem do que sua idade real. Mesmo com a roupa nova, a sensação de fragilidade a acompanhava.

Ao vê-la, ele se surpreende. Fica parado por um momento, observando-a com atenção. Seus olhos grandes e verdes se destacam, e ele quase se perde no olhar dela. Quando ela chora, os olhos ganham uma profundidade única, como se cada lágrima contasse uma história. Ele sente como se estivesse vendo não apenas uma mulher bonita, mas alguém com um passado não revelado, uma mulher ainda se encontrando.

Ela tinha uma beleza serena e introspectiva. Exalava uma suavidade que a tornava cativante, mas também transmitia força, como se carregasse o peso de suas próprias batalhas internas. Era o tipo de mulher que estava sempre no limite entre a vulnerabilidade e a resistência. Ele sentia que ela era mais do que apenas uma imagem agradável; havia camadas de sentimentos escondidos em seu olhar.

Desconfortável com o silêncio, ela tenta aliviar a tensão, olhando para ele com um sorriso tímido.

— Então… parece que não foi tão difícil, né?

Tenta brincar com a situação, mas sua voz ainda revela um leve tremor, uma sensação de vulnerabilidade que não consegue esconder. Ele, ainda surpreso com a beleza e a força que emanam dela, tenta esconder a curiosidade, mas não consegue evitar.

— Não, não foi. Você... fica bem, na verdade... em qualquer roupa.

Ela o olha, desconfiada, mas o sorriso suaviza, como se as palavras dele tivessem tocado algo dentro dela, algo que ela não sabia que ainda estava ali. Suas bochechas ficam coradas.

— Agradeço a ajuda. Não precisava... mas, obrigado.

Ela observa o novo conjunto de roupas, agora ajustado ao seu corpo. A peça, simples, mas confortável, parece aliviar um pouco o peso do dia, embora não apague a sensação de frustração que ainda a acompanha. Gabriel percebe a tensão, mas permanece quieto, aguardando. Algo na forma como ela se move, com o olhar distante, diz a ele que há mais por trás daquela fachada do que ela está disposta a revelar.

— Imagino que tenha sido um dia difícil, né? Não quero invadir, mas... se quiser conversar...

Ela o encara, hesita, e por um breve momento, sente uma vontade quase desesperada de se abrir com ele. Mas a exaustão a impede. Está cansada demais para qualquer explicação, para qualquer pessoa.

— Eu agradeço pelas roupas secas.

Ele sorri levemente, um sorriso que transmite compreensão, e balança a cabeça em sinal de que entende. Eles caminham até o caixa em silêncio. Sem esperar uma reação, ele faz o pagamento, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Gabriel observa por um momento, sua expressão marcada por uma preocupação sincera. Algo nela o intriga, e ele sente que há mais a ser revelado, mais do que ela está disposta a mostrar. Mesmo sem querer forçar, ele não consegue deixar de tentar. Ele é atraente de uma maneira sutil, com traços definidos e uma postura confiante que o torna ainda mais difícil de ignorar. Seu olhar, sério e atento, não faz questão de disfarçar o interesse genuíno por ela.

— Posso te levar para tomar um café? Aí a gente pode conversar, se você quiser. Eu também trabalho aqui por perto e estou com um tempo livre. Você pode me contar o que aconteceu.

Ela hesita, o convite parece tentador, mas algo dentro dela se fecha. Não sabe se está pronta para dividir suas emoções com um completo estranho, mesmo que ele tenha sido tão gentil. A vontade de aceitar é grande, mas ela ainda está se segurando.

— Agradeço a oferta, mas eu... preciso ir para casa. Obrigado mais uma vez pela roupa.

Com um suspiro, tenta manter a compostura e se vira para sair. Ele percebe a decisão dela, mas, antes que ela dê um passo, faz algo que não esperava.

— Tudo bem. Mas, olha... se mudar de ideia, esse é meu número. — diz, então pega o celular dela da mão rapidamente. Ela o encara, surpresa, sem ter tempo de protestar. Ele digita o próprio número e, ao ligar, faz um gesto indicando que ela pode ligar para ele sempre que precisar. — Assim, você tem meu número, e eu o seu.

Ela o observa, sem saber o que dizer, mas algo na atitude dele a faz relaxar por um momento. Ele é imponente, mas de um jeito acolhedor, o tipo de pessoa que transmite confiança sem ser arrogante. Ela respira fundo, acenando com a cabeça.

— Obrigada. Realmente, só... Preciso de um tempo sozinha.

Ele a observa sair. Fica parado, olhando para a porta da loja, pensativo. Algo nela, uma mistura de vulnerabilidade e força, o deixou intrigado. E, de algum modo, ele sentia que não seria fácil esquecê-la.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.