AMOR EM CAMPO
39 Capítulo 38: Feriadão
Notas iniciais

curto intervalo entre as aulas de cinesiologia e neurobiologia, Gabriel enviou uma mensagem rápida para Rafaela, convidando-a para um café na cafeteria do campus.
Quando Rafaela empurrou a porta de vidro, seus olhos encontraram os dele na mesa central. Gabriel ria alto com os amigos do time, mas bastou a silhueta dela cruzar a entrada para que o sorriso do camisa dez mudasse de tom.
Gabriel levantou-se, puxou-a pela cintura e a beijou no meio do salão. Ela retribuiu sem pensar, ignorando os olhares ao redor.
Diego pigarreou alto, cortando o momento com um sorriso debochado.
— Estamos atrapalhando a pegação dos pombinhos? Querem que a gente dê licença?
— Pega leve com o garoto, Rafaela — Vinícius completou em falsa seriedade. — Se continuar nesse ritmo de maratona, o capitão vai precisar de fisioterapia intensiva antes da final.
— Calem a boca, seus idiotas — Gabriel retrucou, rindo e jogando-se de volta na cadeira. — Estou em plena forma física, valeu?
Rafaela sentou-se ao lado dele e Gabriel passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a para perto, enquanto ela pegava o copo de café que ele já havia pedido.
— O semestre está puxado? — ele perguntou em um sussurro, notando o cansaço discreto nos olhos dela.
— Leituras acumuladas, relatórios, artigos de neurobiologia… Minha cabeça está implorando por descanso.
— Nem me fale, nerdzinha — ele respondeu. — Eu também estou contando as horas para esse feriadão.
Gabriel esperou os amigos se despedirem para se inclinar na direção dela, baixando o tom de voz.
— Por falar no feriado… você já tem planos?
— Eu estava pensando em ir para Saquarema — disse ela, mantendo os olhos na xícara. — Ver minha família antes da viagem para a Alemanha. Pensei em te convidar para ir comigo.
Gabriel piscou, surpreso diante do degrau que o relacionamento acabava de subir.
— Você… quer que eu vá conhecer os seus pais?
— E a minha irmã também — completou Rafaela. Ao notar o espanto dele: — Se você já tiver outros planos, tudo bem. E, se achar que não é o momento, eu vou entender. Não quero que se sinta pressionado.
Gabriel cobriu a mão tensa dela sobre a mesa.
— Não é pressão, Rafa. A sua família significa tudo para você. E, se você me quer lá, isso significa tudo para mim também.
Os olhos dela se iluminaram.
— Sério mesmo?
— Sério — ele confirmou, sorrindo. — Quero conhecer a casa onde você cresceu, ouvir as histórias da Micaela… e tentar não morrer de medo do seu pai. Só promete que vai ficar do meu lado no interrogatório.
— Sempre.
Ao levar a xícara aos lábios, a porta de vidro se abriu e Letícia entrou. Usava fones brancos e mantinha os olhos cravados no celular, isolada de tudo.
Letícia ergueu os olhos por um segundo. Os olhares das duas se cruzaram pelo espaço. Não houve hostilidade, apenas um desconforto imediato que enrijeceu os ombros de Letícia antes que ela virasse de costas para fazer o pedido no balcão.
Rafaela soltou um suspiro pesado. Gabriel notou a mudança no rosto da namorada.
— Vocês duas… ainda estão na mesma? — perguntou ele.
Rafaela sentiu um aperto familiar se apertar na garganta. Queria desabafar. Queria contar a Gabriel sobre a inquietação sufocante que sentia a cada passo de Letícia pelo apartamento. Mas a lealdade falou mais alto; expor as feridas da amiga parecia uma traição.
— Sim — respondeu, opaca.
— Quer ir lá falar com ela? Eu te espero aqui.
— Não agora — determinou Rafaela. — Se ela quiser conversar, sabe onde me encontrar.
Letícia pegou o café e sentou-se em uma mesa distante, de costas para eles, o pé batendo freneticamente contra o chão. Rafaela observou a cena em silêncio. Sabia que aquele afastamento não era apenas mágoa: era medo e uma fuga desesperada da própria realidade.
⚽📖⚽
No grupo da família — o Keep Up With The Andrade’sinventado durante um hiperfoco febril de Miacela na vida das Kardashians —, Rafaela enviou a mensagem:
Rafaela: Oi, gente. No feriado, vou para casa. E o Gabriel vai comigo.
Três segundos depois, o chat explodiu.
Micaela: O QUÊ? 😱😱😱 NÃO ACREDITO QUE VOCÊ CONVIDOU ELE! O CUNHADO ESTÁ A CAMINHO! 🚗⚽✨
Mãe: Que bom, minha filha! Estou ansiosa para conhecer o seu namorado…
Pai: “Namorado?” Para mim, ele só vai ser considerado seu namorado depois que sentar comigo e pedir a minha bênção.
Rafaela: Pai… nós já estamos no século vinte e um.
Pai: Não me importa o século. E já avisa para esse rapaz que ele vai dormir no sofá.
Rafaela bloqueou a tela, sorrindo. Tentou voltar aos livros, mas não conseguiu se concentrar. Minutos depois, o som da chave na fechadura anunciou a chegada de Letícia.
O baque surdo da bolsa largada na sala e o estalo da porta do quarto vizinho se fechando cortaram o ar do apartamento. Logo em seguida, uma voz soou pelas paredes finas:
— Eu já falei que o meu celular descarregou no meio do caminho — a voz de Letícia saiu tensa. — Eu não estou mentindo para você, Guilherme. Eu saí do trabalho e vim direto para casa, eu juro por Deus.
Rafaela prendeu a respiração, o coração disparado contra o peito.
— Eu não tenho que te mandar foto de onde eu estou a cada dez minutos, para com isso! — o sussurro de Letícia oscilava entre a irritação e um choro engolido. — Eu estava sozinha. Tá, até depois... também. Também te amo, Guilherme.
A maçaneta girou de repente e a porta do quarto se escancarou. Letícia surgiu no corredor, os olhos vermelhos e o celular ainda apertado entre os dedos como uma arma. As duas se encararam por um segundo longo e tenso.
— Você ouviu? — Letícia perguntou, a voz cortante e direta.
— Não… — mentiu Rafaela, recuando um passo.
Sem responder, Letícia passou por ela como um facho de vento, trancando-se no banheiro. Rafaela permaneceu estática no corredor, ouvindo o barulho da torneira aberta com força. Quando a porta voltou a abrir e a amiga ensaiou o caminho de volta para o quarto, Rafaela criou coragem.
— Lelê…
Letícia parou no lugar. O corpo inteiro enrijeceu, os ombros subindo enquanto ela se apoiava no vão da porta, como se usasse o batente de escudo.
— Oi.
— Você… vai precisar trabalhar no feriadão?
— Sim — respondeu Letícia, ríspida, mantendo os olhos fixos no chão.
— Eu vou para casa — Rafaela tentou suavizar o tom, avançando meio passo. — O Gabriel vai comigo. Se você quiser, posso passar na casa da sua mãe, ver como ela está…
— Não precisa.
O corte foi seco. Mas Rafaela insistiu, abaixando a voz em um apelo manso.
— Poderíamos planejar para viajar juntas qualquer dia desses. Faz tempo que a gente não faz nada sozinhas.
Letícia soltou o ar pelo nariz, balançando a cabeça devagar.
— Você já vai viajar com o seu namorado, Rafa.
— Mas não é a mesma coisa, Lelê.
— Para mim, é. — Ela cruzou os braços sobre o peito e puxou as mangas compridas da blusa de frio, cobrindo até a metade das palmas das mãos. O movimento foi automático, mas revelador. — Ele não ia deixar que eu fosse de qualquer jeito.
A frase escapou. Um deslize mínimo, mas suficiente para fazer o ar sumir dos pulmões de Rafaela.
— O quê?
Letícia arregalou os olhos por uma fração de segundo, percebendo a brecha que abrira. Recuou a postura, virando espinho.
— Nada. Esquece o que eu disse.
— Letícia…
— Não começa, Rafaela! — o tom subiu em defensiva. — Eu estou exausta, tá? Não quero começar uma discussão.
— Eu não estou discutindo com você.
— Está sim! — A voz dela ecoou no corredor antes de despencar novamente para um sussurro ríspido e acusatório: — Você sempre acha que sabe mais sobre a vida do que eu. Que enxerga coisas onde não tem absolutamente nada.
Rafaela engoliu em seco, sentindo a garganta arranhar.
— Eu só estou preocupada com você, Lelê.
Um riso curto escapou dos lábios de Letícia. Ela encarou o teto por um segundo antes de voltar os olhos acesos para Rafaela.
— Preocupada com o quê, exatamente? Eu e o meu namorado discutimos às vezes, como qualquer casal do planeta. Ele fica chateado, eu fico chateada. É normal.
Rafaela deu um passo à frente.
— Ele fica chateado… ou ele te machuca fisicamente?
O maxilar de Letícia travou com tanta força que os tendões de seu pescoço saltaram sob a pele clara.
— Você não sabe porra nenhuma sobre o meu relacionamento — Letícia sibilou por entre os dentes.
— Eu sei que você não era assim, Lelê — Rafaela murmurou, a voz embargada pelo choro que segurava. — Cadê aquela garota forte, que não levava desaforo de ninguém para casa? Cadê você?
Por uma fração de segundo, os ombros de Letícia desabaram.
— E você também não era assim... — Devolveu Letícia, em um sussurro arrastado que carregava um veneno profundamente triste. — Agora você transborda o Gabriel... como se a sua existência inteira tivesse acabado de começar só porque um cara bonito e popular resolveu te olhar.
Aquilo atingiu Rafaela como um baque violento.
— Não é verdade, Letícia… Eu só estou feliz…
— É verdade, sim — Letícia respirou fundo, fechando as pálpebras com força. — Só que tem um pequeno detalhe nessa sua teoria, Rafa. Diferente de mim… você deu sorte.
— Letícia, não é uma questão de sorte, é…
— Cuida da sua vida, tá bom? Zé— a amiga a interrompeu. — Aproveita o seu namoro perfeito e para de inventar monstros onde não tem absolutamente nada.
Letícia puxou a porta com força. O clique da fechadura foi definitivo. Rafaela permaneceu estática no corredor escuro, ouvindo apenas o silêncio pesado da casa.
⚽📖⚽
Gabriel encarava a TV sem realmente assistir ao jogo. Em sua mente, ele já estava na estrada para Saquarema. Para o campus universitário, ele era o capitão dos Falcões, o astro dos gramados. Mas, na sala de estar de Rafaela, temia ser reduzido ao clichê do jogador de ombros largos e pouco repertório.
Uma almofada atingiu seu rosto. Diego o encarava do braço do sofá.
— Tá pensando demais, Gabriel. Isso é perigoso.
— A Rafa me convidou para passar o feriadão na casa dela — disse Gabriel, direto. — Com a família.
Diego ergueu as sobrancelhas.
— Família, tipo… pai superprotetor, mãe observadora, irmão pentelho e perguntas constrangedoras?
— Isso aí. O pacote completo.
— E você aceitou?
— Aceitei. Mas tô pilhado, porra. E se eles não gostarem de mim? Se acharem que sou só mais um troglodita do futebol?
— Olha para você, cara… todo preocupado em agradar o sogro. — Diego soltou um meio sorriso. — Mas o papo é reto: quando a gente gosta de verdade, dá esse frio na barriga bizarro mesmo. Mas relaxa, se a nerdzinha te chamou para entrar na casa dos pais dela, é porque ela já te escolheu, irmão. O resto é resto.
Daniel desceu as escadas, guardando o celular no bolso, e jogou-se no sofá do outro lado.
— Quem te escolheu para quê?
— O capitão vai conhecer a família da Rafaela em Saquarema e tá se borrando de medo. — Diego anunciou.
Daniel abriu um sorriso sarcástico.
— Aposto cinquentinha com você que o pai dela vai odiar esse mané no primeiro aperto de mão.
— Fechado! — Diego apertou a mão de Daniel no ar.
— Obrigado pelo apoio moral, seus otários — Gabriel murmurou, rindo da provocação dos dois.
O frio no estômago continuava ali, vivo. Mas, por baixo da zoação, havia algo muito mais forte guiando seus passos.
A estrada para Saquarema estava logo ali. E, dessa vez, Gabriel entraria em campo sem saber quais eram as regras — só sabia que queria jogar para valer.
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