AMOR EM CAMPO
40 Capítulo 39: Família
Notas iniciais

Camisetas dobradas. Desdobradas. Dobradas cuidadosamente de novo.
Gabriel pegava uma peça de roupa, inspecionava o tecido, largava-a sobre a colcha e conferia a tela do celular pela milésima vez antes de voltar a encarar o interior da mala de viagem.
— Você está organizando isso há exatos vinte minutos — Rafaela comentou, observando-o enquanto permanecia sentada na beira da cama dele. — Você vai conhecer os meus pais, não o presidente da FIFA.
Ele passou a mão pela nuca, bufando.
— Tô bem, tá? Só… quero garantir que vou causar uma boa impressão.
Rafaela arqueou uma sobrancelha.
— Você? O cara que entra em campo com o estádio lotado sem pestanejar?
— Isso é completamente diferente — ele virou-se para ela. — No gramado eu sei exatamente o que estou fazendo. Eu domino as regras. Aqui… — apontou para a bagagem aberta — eu não faço a menor ideia se o seu pai vai me achar um metido a besta por causa da roupa.
Ela riu, aproximando-se para abraçá-lo pela cintura.
— Biel, relaxa. Meu pai só vai te analisar por umas… sei lá, duas horas. Depois disso, se ele te chamar para ajudar na churrasqueira, significa que você foi aceito.
— Ótimo. Sem pressão nenhuma — ele resmungou, embora os ombros tenham permanecido rígidos.
Rafaela segurou o rosto dele entre as mãos, forçando-o a olhar para ela.
— Eu não te levaria para a minha casa se não tivesse certeza do que sinto. E, quanto aos meus pais, você vai sobreviver.
Ele sustentou o olhar dela por um instante longo, deixando o nervosismo dar lugar a um sorriso discreto.
— Eu estou feliz — confessou baixo. — Só apavorado.
— É a combinação perfeita para uma viagem — ela provocou, dando-lhe um selinho.
Na manhã seguinte, depois de um café da manhã rápido, eles acomodaram as malas no porta-malas. Pouco depois, o carro de Gabriel já deixava para trás os primeiros sinais de Niterói. O silêncio dentro da cabine durou até o carro estabilizar na velocidade da rodovia.
Gabriel deu uma rápida olhada pelo retrovisor antes de quebrar a quietude:
— Como estão as coisas com a Letícia?
Rafaela, que olhava a paisagem pela janela, desviou os olhos imediatamente. O semblante fechou.
— Pior. Ela está me evitando, some pela casa e finge que eu não existo.
— Mas o que aconteceu de verdade, entre vocês nerdzinha?
Ela soltou um suspiro pesado, apoiando o cotovelo na porta.
— Eu vi um hematoma no braço dela. Não era grande, mas… não parecia ser um esbarrão. E, quando tentei falar sobre isso, ela surtou. Disse que não era nada, que o Guilherme só se estressa às vezes.
Gabriel travou no mesmo segundo. As mãos apertaram o couro do volante até as juntas dos dedos ficarem brancas.
— Me dá o endereço desse cara.
— Gabriel…
— Eu sei, eu sei! — ele cortou, soltando o ar com força pelo nariz. — Só… é difícil ficar sabendo de uma coisa dessas e fingir que não aconteceu. Me dá raiva.
— Eu sei que dá — ela disse, a voz embargada. — Mas, se você aparecer lá para tirar satisfações com ele, ela se fecha de vez. Ela já acha que a minha vida está 'perfeita' e que eu não entendo nada. Me sinto culpada por estar feliz, Gabriel. Parece errado vir viajar enquanto ela está presa naquela situação.
Gabriel ficou alguns segundos em silêncio, acompanhando a curva da pista enquanto organizava os pensamentos.
— Talvez eu seja péssimo nessas coisas… — ele soltou uma risada curta, sem humor. — Mas você não precisa ficar mal só porque ela está mal. Você pode se preocupar com ela e ainda assim aproveitar a viagem. As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
Rafaela olhou para ele. O aperto no peito dela cedeu um pouco. Ela estendeu a mão sobre o console e buscou os dedos dele, entrelaçando-os.
— Tá — ela murmurou, encostando a cabeça no banco. — Tá bom.
Quando o carro finalmente entrou nas ruas de paralelepípedo de Saquarema, a maresia entrou pelas janelas levemente abertas. Gabriel reduziu a velocidade até parar em frente a uma casa simples de muro baixo, telhado de cerâmica e um pequeno jardim na fachada.
Antes que ele pudesse desligar o motor, o portão de ferro se abriu com um estrondo. Uma garota baixinha, de tranças longas e sorriso largo, surgiu praticamente pulando na calçada.
— CHEGARAM! — ela gritou para o interior da casa. — ELES CHEGAAAAARAM!
Rafaela riu, abrindo a porta.
— Micaela… calma.
A garota correu até o carro e parou em frente a Gabriel assim que ele pisou fora do veículo. Antes que ele pudesse dar um passo, a câmera pendurada no pescoço dela subiu num movimento rápido e o flash disparou direto contra o rosto dele.
Gabriel piscou forte, levando a mão aos olhos enquanto pontos luminosos dançavam em sua visão.
Micaela ignorou a reação dele, checando a foto no visor.
— Então você é o Gabriel — disse, satisfeita. — É, você é bem melhor ao vivo do que nas fotos da página do time.
— Oi… — ele respondeu, ainda tentando recuperar a visão. — Você deve ser a Micaela.
— A própria. A irmã favorita.
— Dá um desconto para ela, Gabriel — Rafaela interveio, dando a volta no carro. — Ela estava esperando por isso há dias.
— Na verdade, há anos — Micaela corrigiu. — Achei que você ia ficar para titi… ai! — reclamou quando Rafaela lhe deu um beliscão no braço.
— Micaela! Que gritaria é essa na rua? — A voz da mãe veio do corredor interno, antes que Sônia aparecesse na porta, secando as mãos num pano de prato.
Ao ver a filha mais velha, o rosto de Sônia se iluminou.
— Minha menina… — puxou Rafaela para um abraço apertado. Depois, virou-se para Gabriel, medindo-o com um olhar caloroso. — E você é o Gabriel. Seja muito bem-vindo!
Gabriel estendeu a mão de forma polida, mas Sônia ignorou o gesto formal e o puxou para um abraço maternal sem cerimônia.
— É um prazer finalmente te conhecer, rapaz! A Micaela não para de falar de você desde que descobriu o seu perfil.
Gabriel piscou, um tanto desarmado pela recepção afetuosa.
— O prazer é meu, dona Sônia…
— Que dona Sônia o quê? Me chama só de Sônia. Entrem, a viagem deve ter sido cansativa! Estão com fome?
O tratamento descontraído ajudou a diminuir o ritmo dos batimentos cardíacos dele. Entrando na cozinha, porém, o clima do ambiente mudou levemente. Sentado à mesa de madeira estava o pai de Rafaela. Cabelos grisalhos, postura reta e um olhar calmo e penetrante.
Marcos levantou-se. Abraçou a filha demoradamente, antes de virar toda a sua atenção para Gabriel.
— Pai… esse é o Gabriel — Rafaela apresentou.
Gabriel deu um passo à frente, erguendo o queixo com respeito.
— Boa tarde, senhor.
Marcos estendeu a mão.
— Marcos.
— Gabriel.
O aperto de mão foi firme e durou meio segundo a mais do que o normal. Gabriel sustentou o olhar. Marcos soltou a mão dele primeiro.
— A viagem foi tranquila?
— Foi, sim, senhor. Obrigado por me receber.
Marcos fez um aceno curto com a cabeça.
— A casa é da minha filha. Quem ela traz é bem-vindo.
Rafaela observou os dois. O pai ainda avaliava Gabriel. Gabriel ainda sustentava o olhar. Ela soltou o ar devagar. Pelo menos o primeiro round não tinha terminado em desastre.
O almoço fluiu entre a travessa fumegante de lasanha de Sônia e as falas sem filtro de Micaela, que fez questão de expor antigas histórias de infância de Rafaela, incluindo uma famosa "lista de critérios para namorados" que a irmã escrevera aos quatorze anos.
Gabriel aproveitou cada provocação para rir de Rafaela, que tentava se defender, alegando que era apenas um projeto de pesquisa juvenil. Marcos falou pouco durante a refeição, mas interpelou Gabriel sobre seus planos para a faculdade e o futebol.
— E você está cursando o quê na faculdade mesmo, Gabriel? — perguntou, num tom tranquilo, porém firme.
— Educação Física, senhor.
Marcos fez um breve gesto afirmativo com a cabeça:
— E a sua intenção é tentar seguir carreira no futebol profissional ou você pensa em usar o diploma para outra área?
Gabriel não desviou o olhar.
— Eu quero jogar profissionalmente o máximo de tempo que o meu corpo aguentar. É o meu sonho desde moleque. Mas tenho os pés no chão. Penso em concluir a graduação, trabalhar com preparação física de alto rendimento… talvez abrir um centro de treinamento próprio no futuro.
Marcos o observou, processando a resposta.
— É bom ter um plano B. Futebol não dura para sempre.
— Eu sei, senhor. Meu pai pensa a mesma coisa.
Mais tarde, enquanto a casa silenciava para o descanso da tarde, Gabriel e Rafaela foram para o quintal dos fundos. Sentaram-se no degrau da varanda, sob a sombra de uma mangueira antiga.
— Você fica mais leve aqui — Gabriel comentou, abraçando-a de lado.
— Eu sei — ela confessou, encostando a cabeça no ombro dele. — Por isso que eu queria que você conhecesse isso.
Antes que pudessem continuar, Micaela apareceu, chacoalhando uma bola de futebol gasta.
— Vamos ver se você joga tudo isso mesmo, camisa dez, ou se é só marketing! — desafiou, chutando a bola para ele.
— Você pediu por isso, pirralha — Gabriel riu, levantando-se.
Ele começou a jogar fingindo tropeçar para dar espaço a Micaela, mas logo passou a fazer dribles curtos, girando ao redor da garota enquanto ela protestava e ria alto. Rafaela assistia a tudo, o peito aquecido pela cena. Em um dos lances, Gabriel piscou para ela, fazendo seu coração dar aquele salto familiar.
Passos lentos ecoaram atrás dela. Marcos aproximou-se, ocupando o lugar que antes era de Gabriel. Ficaram em silêncio por um tempo, apenas vendo a caçula tentar roubar a bola do atleta.
— Ele é rápido. Tem boa leitura de espaço — Marcos comentou.
— É, ele tem — concordou ela.
O pai mudou o foco, olhando para a filha.
— E você? Como está a preparação para o simpósio. Dezembro é logo alí?
— Ainda tenho muita matéria e trabalhos para fazer antes de sequer pensar na viagem. Tem dias que parece que vou enlouquecer, pai. Mas eu gosto.
Ele sorriu de canto.
— E o trabalho na livraria? Como vai o Alberto?
— Cada dia mais velho, coitado — ela respondeu prontamente. — Tento ajudar como posso.
Marcos bufou uma risada e passou o braço pelo ombro da filha.
No quintal, Gabriel agachou-se ao lado de Micaela, demonstrando com paciência como ajeitar o pé para chutar de chapa.
— E esse rapaz aí… você gosta mesmo dele?
Rafaela sustentou o olhar dele respondendo sem hesitar.
— Gosto. É sério, pai.
Marcos ficou em silêncio por um instante, observando o jogador no gramado antes de voltar a encarar a filha com um olhar mais compenetrado.
— Ele apoia os seus objetivos, Rafa? Porque esse simpósio agora é só o começo de tudo o que você planejou para a sua vida acadêmica. Você tem um caminho longo e brilhante pela frente, e quem estiver do seu lado precisa entender isso.
Rafaela sorriu, com uma certeza tão calma no peito que nem precisou pensar para formular a resposta:
— Apoia. Muito. O Gabriel é o meu maior fã.
O pai arqueou uma sobrancelha, fingindo uma ponta de indignação paternal antes de deixar escapar um meio sorriso afetuoso:
— Seu maior fã depois de mim e da sua mãe, mocinha.
Rafaela riu baixo, encostando a cabeça no ombro dele por um segundo.
— Sim, pai. Depois de vocês, claro.
Enquanto isso, aproveitando uma distração intencional de Gabriel, Micaela finalmente conseguiu interceptar a bola com o pé esquerdo e saiu correndo em direção ao espaço entre dois vasos de plantas, comemorando de forma espalhafatosa. O atacante levantou os dois braços para o alto, encenando uma derrota totalmente exagerada.
— GOL HISTÓRICO NO MARACANÃ DOS FUNDOS! — a caçula gritou, correndo em círculos.
Marcos riu vendo a animação da filha caçula, então levantou-se e deu beijo na testa de Rafaela e voltou para dentro.
Rafaela acompanhou o pai com os olhos.
No gramado, Micaela acabava de comemorar outro gol impossível, enquanto Gabriel fingia uma indignação dramática.
Rafaela observava a cena, sorrindo dessa vez, sem nenhuma preocupação escondida atrás dele.
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