AMALDIÇOADOS!
4 A Eternidade não é o bastante...
Notas iniciais
![]()
Se houvesse sol, as rosáceas da Abadia de Westminster projetariam uma luz violeta sobre as pedras das paredes, quebrando sua aparência de dureza. No entanto, mesmo se estivessem presentes, os azuis intensos e os vermelhos brilhantes dos vitrais não conseguiriam trazer a paz ao coração da jovem noviça.
Os cantos gregorianos continuavam a reverberar em meio ao espiralar dos incensários falando em redenção e no Paraíso. No centro, o trono da coroação onde trinta e oito reis e rainhas haviam se sentado contrastavam com o mundo espiritual e faziam imaginar as criptas onde muitos deles estavam sepultados...
A abadessa Calvera estava morta. Sua melhor amiga e conselheira deixara este mundo de uma forma brutal. Assassinada. Logo ela que fizera tanto pela Ordem e pelas crianças órfãs que a sociedade elitista ignorava...
“Ut vadas in pace, et Dominus faciet tecum”(Ide em paz e que o Senhor os acompanhem)
A benção final dada pelo Bispo tirou a noviça Saori de suas divagações. Ela elevou os olhos e fez o sinal da cruz. Olhou para o lado vendo suas companheiras cochicharem algo e, em seguida, prostrarem-se como toda religiosa ou fiel devia fazer. Acompanhou o movimento de forma automática, a lembrança da abadessa ainda fervilhando em sua mente.
– Irmã Saori... – a voz grave e enrouquecida era terna.
A noviça de olhos doces e intensos baixou a cabeça para receber a benção especial do Bispo Tatsumi. A intensidade do olhar forte e gentil a consolou e ela sorriu, timidamente.
– A vossa benção, senhor Bispo. – disse ela beijando o anel de ouro, finamente gravado com cenas em baixo relevo.
– Levante-se, minha criança e vamos conversar. – falou o Bispo.
Saori obedeceu e logo ambos caminhavam pelos corredores amplos da Abadia até chegar a uma sala imensa, povoada por esculturas grandiosas de reis e rainhas.
– Sente-se. – ele pediu apontando uma cadeira de espaldar alto.
– Não tenho muito tempo, vossa excelência. Com a morte da Abadessa, eu...
– Eu sei, jovem noviça. Nossa querida Calvera se foi e você, mesmo não tendo feito os votos perpétuos, tornou-se herdeira do trabalho que ela desenvolveu.
– Eu temo não ser digna de tal tarefa ...
– Você não está sozinha, enviei uma carta ao Santo Ofício pedindo que enviem alguém mais experiente que possa ajudá-la a continuar o trabalho iniciado por Calvera.
– Obrigada,Vossa Excelência. – disse a jovem quase num sussurro.
O bispo tomou a mão pequena e delicada entre as suas e sorriu.
– Agora vá, creio que a tempestade amainou e está ficando tarde. Lembre-se, não se deve andar à noite nestas ruas.
Saori assentiu com um gesto de cabeça e se levantou. Ao caminhar pelos corredores imensos para encontrar as outras noviças e voltar ao convento, ela deu-se conta que ainda estava escuro devido à tempestade. O ar úmido a fez sentir uma repentina sensação de frio. Olhou para o céu e fez o sinal da cruz. Lembrou-se de ter ouvido, quando criança, que os raios eram a manifestação de um poderoso deus grego chamado Zeus e quando, ao ingressar na Ordem, todas as lendas pagãs tiveram de ser deixadas para trás.
– Vamos? – perguntou uma das noviças.
– Acho que devemos esperar, a tempestade ainda está forte.
Assim que terminou a sua fala, Saori sentiu um forte arrepio na base da espinha. Olhou um tanto assustada paras as sombras projetadas em determinados pontos da Abadia, mas não viu nada além da escuridão singular. Levou a mão ao rosário e fechou os olhos pedindo serenidade e proteção. Juntou-se ao grupo de freiras e noviças, pensando em como a vida podia ser desafiadora e cruel, mas ainda assim, devia manter a fé na força divina e preparar-se para os muitos percalços que teria de enfrentar. Diferente de Calvera, a madre superiora Hilda era fria e severa com o agravante de posicionar-se sempre ao lado dos poderosos e não dos menos desafortunados. Desconfiava que ela se tornara freira por uma imposição e não por vocação, o que explicaria o amargor e ressentimento que sentia nela.
O Bispo as viu esperando e acenou novamente, fazendo com que Saori ainda tivesse esperança que o apoio dele amenizaria as coisas. Enquanto isso, um par de olhos rubros perscrutava a escuridão da Abadia como se fosse um amante ardente...
0000****0000****0000
Milo abriu os olhos cansados com muita dificuldade. Seu corpo nu estava pesado, dolorido e, para a sua surpresa, cheio de vergões e manchas roxas. A cama não estava desfeita, o tom bronzeado de sua pele contrastava com o vermelho da colcha ou aquilo seria... sangue?
Ergueu-se num rompante e então apertou os dentes num esgar de dor. Havia sangue manchando as suas coxas, podia enxergar devido à fraca luz da lamparina de azeite e um vento úmido que fazia ondular o brilho dourado da chama por toda a sua pele. A janela estava aberta mostrando as nuvens escuras iluminadas por raios, de tempos em tempos, como se uma batalha celeste estivesse acontecendo...
Por Deus... O que aconteceu? Pensou o grego, tentando lembrar-se das horas anteriores sem nenhum sucesso. Levou a mão à cabeça latejante e imagens de rostos carcomidos pela morte e decomposição inundaram sua mente, assim como um sorriso diabólico e malicioso que ameaçava excitá-lo. Sentiu frio, como se um ar congelante penetrasse em sua pele e ossos, para então explodir em um calor abrasante, próprio do mais inóspito deserto.
Estarei enlouquecendo ao permitir a passagem deste espírito? Será que Imnotep pretende se apossar de mim, completamente?Ou será que todo esse tempo eu fui enganado e possuído por um demônio? Perguntava a si mesmo ao sentir-se vulnerável e ferido.
Batidas insistentes na porta o levou a interromper suas dúvidas tão cruéis quanto aquela estranha amnésia.
– Sim... – falou o vidente, sua voz estava rouca e ele sentia a garganta seca e arranhada.
– Milo! Você está bem? – perguntou Shina com um tom aflito.
– Estou. – mentiu ele. – O que quer?
– Bem, você nos deixou há horas e... as crianças o estão esperando.
– Esperando?
– O jantar! Você esqueceu o jantar?
Por alguns segundos, flashes rápidos pipocaram na mente de Milo. O jantar, as crianças e... Camus! Sim, o ruivo estivera ali, mas Shina não tocara no assunto.
– Já estou indo. Por favor, entretenha as crianças mais um pouco.
– Elas estão com medo da tempestade e, para ser sincera, eu também estou. Sabe que tenho um trauma com raios e trovões. Por favor, não demore.
Com dificuldade, Milo levantou-se da cama. A banheira em seu quarto estava cheia e ele podia ver o vapor escapando por sobre a superfície da água. Entrou dentro dela e se abaixou lentamente, o simples esforço de sentar enviando faíscas de dor fazendo-o gemer baixo. Merda! O que Imnotep aprontou desta vez? Ele nunca se apossou do meu corpo para o sexo e eu nunca... Merda!
Aos poucos, a água morna fez o corpo de o vidente relaxar e ele fechou os olhos e serenou suas emoções. Palavras desconexas se desenharam em sua mente: “saudade”, “você me pertence”, “seu corpo é meu”... Assim que as imagens tomaram corpo, ele abriu os olhos de repente, revendo o momento em que o homem chamado Camus o fitou de forma íntima, o brilho do fogo refletindo nas íris rubro acastanhadas...
Ele esteve aqui, eu lembro. Mas então, porque não consigo lembrar o que aconteceu entre nós?
Esquecendo a dor, Milo saiu de dentro da banheira, vestiu o roupão pendurado ao lado da banheira e secou os cabelos com uma toalha. Aos olhos da sociedade, ele construíra um personagem para si, tomando a sensualidade que lhe era natural e usando-a para manter as atenções que recebia. Apesar dos desejos que despertava, não era um libertino, nem ia para a cama com todos aqueles que se intitulavam seus amantes.
À bem da verdade sabia flertar, seduzir com sua beleza e com isso assegurar as doações que, junto ao que ganhava com as apresentações de seu show de vidência, ajudava a manter a mansão e o sustento das crianças órfãs, cada vez mais comuns na sociedade londrina.
No entanto, o que somente sua parceira e confidente sabia, era que ele jamais se deitara com um homem. Na maioria das vezes, o que era alardeado como um encontro se convertia em situações exóticas de sessões particulares de vidência ou boas conversas cheias de aconselhamento. Descobrira que os nobres gostavam de contar vantagens, fossem elas verdadeiras ou não. A futilidade e o ego inflado eram o ponto fraco de muitos que detinham aquela posição e a sociedade libertina incentivava todo o tipo de relação superficial e fundamentada no erotismo.
Ele próprio não era moralista e sentia desejo como todo mundo. No entanto, desde que descobrira o dom da vidência, uma revelação lhe fora feita ainda quando muito jovem: “Você vê e sente coisas que não pode explicar, menino. Aos poucos, descobrirá que o seu poder está ligado a um espírito antigo que está além da sua compreensão. Mantenha seu corpo intocado até que ele reencontre o que busca pelos séculos. Siga as orientações dele e se torne famoso. Use esta fama para ajudar aqueles que serão iguais a você e, talvez um dia, você também encontre o que sua alma anseia.”
As palavras da velha cigana haviam sido guardadas em sua mente infantil, enquanto seus amigos riam e o deixavam para trás com a velha doida.
Quando a sua vida tomou um rumo inesperado devido à morte trágica e repentina de seus pais, ele se viu órfão e sozinho com uma mansão cheia de empregados e dívidas que não compreendia. Sem parentes próximos, foi levado para um orfanato nos arredores de Londres e lá cresceu tendo visões e premonições que o levaram a conhecer pessoas influentes e acreditar que tudo mudaria para melhor.
Acabou aconselhando duques e até a rainha, ganhando fama e retomando a mansão de sua família. Jurou ajudar aqueles nas mesmas condições que um dia enfrentara e acolhia as crianças que ninguém desejava, como os filhos das prostitutas, mendigos e até os ilegítimos que eram largados em becos escuros.
Agora, deixava que sua falsa fama se espalhasse, porque assim se mantinha sob a atenção da sociedade e, em contrapartida, angariava fundos para as suas ações. Era um preço até baixo para manter uma promessa feita a si mesmo e à velha cigana.
Vestiu uma túnica leve e uma calça folgada, deixando os cabelos soltos e ainda úmidos. Não sabia o que pensar e estava bastante perturbado. Jamais tivera uma experiência de amnésia ou possessão desta forma. Porém, havia algo mais urgente a ser tratado. Em sua última visão, vislumbrara o rosto deformado do assassino que aterrorizava Londres. Os olhos vermelhos encarando-o com perversidade, raiva e dor...
Desceu as escadas devagar e viu a imensa sala de jantar tomada por diversos pares de olhos pequenos e brilhantes. As crianças sorriram ao vê-lo e ele correspondeu, também sorrindo. Amava aqueles seres inocentes que, mesmo em meio à dor e abandono, conseguiam manter sua inocência e sonho de felicidade.
Seus lábios mantiveram o sorriso, até ver a sala inteira ser imersa em uma névoa ondulante. Imagens de homens com cabeças de animais o saudavam, degraus de pedra polida mostravam o caminho para uma porta adornada com desenhos e estranhas engrenagens, a escuridão premente chamando-o...
– Milo! – gritou Shina ao ver seu amigo oscilar e cair inconsciente logo após ter descido a escada.
0000****0000****0000
Um relâmpago iluminou o céu e o trovão veio logo depois. Camus olhou para o céu com a cabeça latejando de dor. Seu coração estava disparado como se tivesse corrido por quilômetros. Vozes em sua mente gemiam, enquanto ele ofegava e sentia o corpo formigar como se tivesse sido picado por mil abelhas. A chuva o deixara encharcado e ele mal via as construções a sua frente.
Foi com dificuldade que achou uma carruagem negra estacionada em meio ao temporal. Abriu a portinhola e entrou, sentando no banco acolchoado. O condutor não estava a postos, o que era compreensível com aquele tempo. Então o ruivo fechou os olhos e esperou que o tempo acalmasse. Estava ofegante e, mesmo assim, tentava lembrar a razão de ter saído e enfrentado o mau tempo.
O que está acontecendo comigo? Como posso não me lembrar de ter saído de casa?
A pequena porta se abriu e o condutor que acabara de voltar, olhou para o seu passageiro e disse:
– Não poderei levá-lo se a chuva forte persistir. As ruas ficarão alagadas e perigosas.
Camus olhou-o com tanta frieza que o homem sentiu como se o inverno tivesse chegado.
– A chuva vai parar. – disse o ruivo.
Um vento frio chegou junto de um estrondo. Um raio acabara de cair sobre um poste, derrubando-o. O condutor fez o sinal da cruz e Camus apenas olhou. A chuva inclemente parou como por encanto, enquanto o ar frio balançava tudo o que encontrava pela frente. Uma neve fina tomou o lugar dos pingos de chuva, fazendo o condutor arregalar os olhos sem entender aquele fenômeno.
– Leve-me para este endereço. – disse Camus estendendo um cartão.
O homem subiu na carruagem e obedeceu. Estalou o chicote no ar e fez com que os cavalos disparassem. No interior, Camus fechou os olhos novamente e imagens de colunas imensas e gélidas surgiram estendendo-se rumo às línguas de fogo que dançavam sobre o gelo. Olhos fogosos se prenderam aos seus e se regozijaram quando ele demonstrou surpresa. De imediato, o ruivo abriu os olhos, despertando como se tivesse cochilado de olhos abertos. Ajeitou-se no banco e sentiu as vestes molhadas se tornarem gélidas. No entanto, para sua surpresa e desconforto, sua pele fervilhava como se estivesse com febre e seu peito estava oprimido como há muito tempo não sentia...
– Cocheiro... Por favor, pare! – disse ele.
O condutor obedeceu e Camus abriu a porta e saiu cambaleante. Estava diante da Abadia de Westminster e a chuva recomeçara. Ele não soube a razão de ter parado ali, apenas seguiu em frente até vislumbrar alguns vultos que caminhavam em sua direção.
Tonto e ofegante, ele deu três passos e caiu. De imediato, uma das noviças correu ao seu encontro e ajudou-o a sustentar o corpo.
– Alguém ajude! – gritou ela, enquanto suas irmãs levavam a mão ao crucifixo e arregalavam os olhos.
De repente, saído de uma das ruelas adjacentes, um jovem apressou-se em atender ao pedido.
– Pode deixar, irmã. Eu conheço este homem! – disse Seiya ajudando a levantar o ruivo que, aos poucos, voltava à consciência.
Saori fitou o jovem, admirando a presteza e a confiança dele. Havia algumas pessoas fugindo da chuva, mas nenhuma delas fizera um movimento em sua direção. No entanto, aquele jovem rapaz não hesitara em nenhum momento e, quando um relâmpago iluminara o céu, ela imaginou-o como um anjo guerreiro que ouvira o seu chamado.
– Obrigada, acho que ele se sentiu mal. – disse ela com um sorriso preocupado.
Seiya fitou os olhos grandes e aflitos da noviça e sentiu uma estranha inquietação. Ela parecia um anjo, mas, ao mesmo tempo, era a moça mais bela que já vira em sua vida. Que desperdício! Pensou ele e, em seguida, repreendeu a si mesmo. Bem, Deus deve gostar de ter beldades como ela ao seu serviço e não somente aquelas freira velhas e rabugentas.
– Eu vou levá-lo para casa, irmã...?
– Eu me chamo Saori.
– Irmã Saori. Bem, vou levar o senhor Camus para casa. Devo mandar uma carruagem para buscar a senhora?
– Não, obrigada. O convento fica perto daqui e a chuva já está arrefecendo. – disse ela com um sorriso tímido.
Por alguns segundos, Seiya viajou no movimento angelical daqueles lábios e então, despediu-se.
Camus levou a mão aos cabelos molhados e olhou para Seiya que o fitava preocupado.
– O que aconteceu? – perguntou o ruivo.
– O senhor desmaiou. Se não fosse a irmã Saori gritar por ajuda eu temo que o senhor ficaria em pior estado. Sorte que eu estive em sua casa e lá, sua governanta me informou que tinha saído.
– Eu desmaiei?
– Sim. Não se lembra de ter se sentido mal?
– Não. – respondeu Camus preocupado com o fato de não lembrar nem de ter deixado sua casa.
No alto da Abadia, entre as torres singulares, uma sombra desceu sobre elas, abraçando-as com a possessividade de um amante. Logo, um par de olhos vermelhos uniu-se a elas e ambos pareceram gargalhar quando os sinos badalaram com força, fazendo vibrar as paredes espessas e frias...
0000****0000****0000
“Ela não está doente, ela está morta.”
A frase dita com tanta naturalidade fez Victor duvidar do que ouvira. Porém, a expressão serena e fria de Hyoga confirmava que sim, ouvira e, muito bem.
– Senhor Hyoga, creio que necessito de maiores explicações. – disse o médico procurando a bandeja com café sem demonstrar nenhuma surpresa.
– O senhor entenderá quando aceitar o trabalho e se mudar para a mansão. A razão de eu tê-lo procurado é por saber sobre suas pesquisas sobre a origem da vida e... da morte.
Isaak olhou na direção de Ikki, preocupado por Hyoga ter deixado o serviçal ficar presente.
O japonês permanecia impassível, como se estivesse escutado uma frase banal, embora interiormente, ele se perguntasse o significado de tudo aquilo. Sentia que seu patrão possuía um segredo, aquela mansão enorme com tantos quartos e mistérios o intrigara, porém sua intenção mais urgente era prover a segurança e sustento do irmão. No entanto, se o jovem Hyoga tinha propensão à loucura, deveria deixá-lo imediatamente...
Victor pigarreou e então se rendeu.
– Muito bem, eu aceito a sua proposta.
Hyoga sorriu e olhou na direção de Ikki. Notou a sutil mudança no japonês e fitou-o bem dentro dos raros olhos azuis. Os orientais costumavam ter olhos escuros, mas Ikki revelara-se uma exceção. Aliás, uma bela exceção.
O jovem não sabia a razão, mas não tinha o mínimo pudor em revelar-se para ele, queria que ele soubesse de tudo o que lhe dizia respeito e a constatação do fato o fez estremecer. Preciso de um amigo! Tentava convencer a si mesmo, enquanto sentia que havia uma ligação estranha entre ele e o oriental.
Quando Victor pegou suas malas e os seguiu, Ikki postou-se atrás deles. Porém, quando adentraram a rua estreita, dois rapazes franzinos colocaram-se a frente de Hyoga e de Isaak em posição ameaçadora.
À luz amarelada da rua, Hyoga fitou a lâmina fria, afiada e longa que os dois empunhavam. Havia uma cicatriz profunda na face de um deles. Porém, antes que eles anunciassem o assalto, Ikki saltou de forma inexplicável e ágil por sobre os dois com uma Wakizashi em cada mão. A forma com que ele desarmou os dois, colocando a ponta da espada curta no pescoço de cada um fez com que todos ficassem com a respiração em suspenso.
– Deseja que eu os mate? – perguntou ele a Hyoga.
O jovem sentiu um arrepio de admiração e, ao mesmo tempo, uma excitação diferente e inédita. A postura rija do corpo do japonês e a autoridade com que ele falava mexiam consigo. Acostumado sempre à docilidade materna, pouco convivera com a força masculina e Ikki encerrava em si tudo o que admirava em um homem. Era destemido, discreto e mortal...
– Não, deixe-os ir.
Ikki franziu o cenho.
– O senhor tem certeza?
– Tenho, creio que ambos não nos oferecem mais perigo.
O japonês não gostou da estranha benevolência, mas obedeceu vendo os dois correrem como se estivesse fugindo do demônio.
Victor suspirou, aliviado e Isaak também. Apesar de não concordar com a presença constante do oriental, o preceptor tinha de admitir que Ikki era competente em proteger Hyoga e isto lhe bastava.
– Vamos. – disse Hyoga e seu olhar se deteve no rosto impassível do japonês. – Obrigado, Ikki, você salvou a vida de todos nós. Assim que chegarmos, vou recompensá-lo.
O japonês nada disse. Em seu íntimo, acabara de tomar uma decisão. Como recompensa, exigiria saber o segredo de seu patrão e então decidir se valeria a pena permanecer ou seria melhor deixar a mansão.
Alheio aos acontecimentos, Shun perambulava pela mansão desfrutando de uma rara liberdade. Entrou na ampla biblioteca cujas paredes altas eram repletas de livros com encadernações belas e trabalhadas em couro. Pegou um livro de capa escura que continha um desenho em alto relevo, uma estrela de cinco pontas inserida em um círculo dourado. Conhecia o idioma estrangeiro e aprendera a ler com seu irmão, porém aquele livro tinha passagens em uma língua estranha que ele não compreendeu. Então, colocou o livro, novamente no lugar e saiu.
O corredor extenso, cujas paredes estavam revestidas de retratos e obras de arte estavam na penumbra e, de repente, a porta proibida... Era estranho que dentre todas as portas da mansão, aquela parecia ter um imã que o atraía de forma violenta e inexplicável.
Shun mordeu o lábio inferior e tocou na madeira escura e polida, sentindo um arrepio de contentamento infantil. Sabia que ela estava trancada, mas, com um sorriso travesso, lembrou-se de quando aprendera a desmontar artefatos com pinos e correntes. Se conseguisse algo pontudo e fino poderia abrir aquela fechadura.
Com o entusiasmo próprio da infância, ele correu até a cozinha da mansão, esgueirando-se como se fosse um ninja. Em sua imaginação, ele vestiu-se de guerreiro das sombras até achar um pequeno pino abandonado. Pé ante pé, ele desviou dos empregados que preparavam a refeição da noite.
Rapidamente, ele voltou à porta misteriosa, enfiou o pino até ouvir um pequeno clic. Em seguida, abriu-a, devagarinho. O que viu em seguida o fez estancar e abrir a boca...
– Pela deusa Amaterasu... – murmurou o menino ao ver o corpo de Natássia flutuando em meio ao líquido translúcido.
Natássia parecia dormir, mas havia algo estranho no ambiente, uma densidade que Shun não soube explicar, mas que sentia fortemente em todo o seu corpo. O quarto não estava escuro, havia uma lamparina acesa, mas o líquido onde Natássia se encontrava parecia ter luz e vida própria, o que atraiu o menino.
Shun foi chegando cada vez mais perto, até ouvir algo bater nos vidros da janela alta. O som o fez desviar o olhar e encarar a imagem escura que surgiu de repente. O garoto arregalou os olhos e sacudiu a cabeça. Mas o que é isso?
Embora sentisse medo, era descendente de samurais. Afastou-se de Natássia e foi até a janela, porém quando olhou através da vidraça, nada havia ali.
Devo ter imaginado coisas. Ele repetiu para si mesmo, quando olhou para baixo e viu a chegada de Hyoga e os outros em uma carruagem negra. Seu irmão foi o primeiro a descer e verificar o ambiente, fazendo-o sorrir e esquecer o incidente. Tratou de deixar o aposento e correr para esperá-lo e assim evitar que ele descobrisse a sua desobediência.
Ikki olhou a imensa porta de entrada e pensou que adentrar a mansão era como entrar num mundo completamente diferente. As palavras de Hyoga ainda reverberavam dentro de si e ele decidiu que quanto mais cedo esclarecesse a questão, melhor seria para as decisões que pretendia tomar.
Shun veio ao seu encontro, fazendo-o sorrir de forma discreta.
– Irmão! – disse o menino olhando-o com vivacidade.
– Olá, Shun. O que fez na minha ausência? – perguntou Ikki.
– Nada demais. Poderemos treinar depois do jantar?
– Veremos. Antes tenho que falar com o senhor Hyoga.
Hyoga já tinha entrado na mansão e instruído Isaak para que acomodasse o doutor Victor. O médico estava espantado com a riqueza do lugar. O extravagante se misturava ao bom gosto, imensas cortinas pendiam das janelas altas e os móveis escuros compunham um ambiente requintado e instigante. Tudo aquilo lembrava a Victor que já vivera em um lugar assim e já desfrutara do conforto que o dinheiro e a posição social podiam oferecer. Mas, isso, fora bem antes... Antes que se tornasse um pária por sua curiosidade e capacidade.
Assim que Isaak acompanhou Victor, Hyoga olhou na direção de Ikki cuja postura corporal mostrava que ele estava tenso, porém controlado.
– Vamos, faça a pergunta que deseja desde que deixamos aquele lugar. Sei que deseja fazê-lo. – falou Hyoga.
A forma destemida com que o jovem se dirigiu a ele fez Ikki franzir o cenho. Hyoga o intrigava pela postura fria e generosa com que alternava suas ações. Havia nele uma força estranha e oculta capaz de atrair e repelir, ambas ao mesmo tempo.
– Ouvi sobre sua mãe. Desejo entender o porquê de chamar o médico e o que ele pretende fazer.
Hyoga sorriu friamente, depois olhou bem dentro dos olhos do japonês e disse:
– Me acompanhe. Você merece saber toda a verdade.
0000****0000****0000
Milo estava em seu quarto e permanecia inconsciente sob a vigilância de Shina. A jovem estava preocupada com o desmaio do vidente e, quando adentrara o aposento e vira as manchas de sangue sobre a cama, ficara ainda mais aterrorizada. Imediatamente, enviara um empregado para que trouxesse o médico e assim que Milo acordasse, pediria explicações sobre tudo aquilo.
Ah, Milo... O que está acontecendo com você? Murmurou a jovem, enquanto acariciava os cabelos loiros do vidente.
O grego parecia dormir. A respiração fraca só se evidenciava com um leve levantar do peito forte. Shina pegou um pano molhado e colocou-o sobre a testa do vidente que exibia pequenas gotas de suor.
Em sua inconsciência, Milo viu-se em um templo destruído onde o vento cheirava a putrefação e insetos rastejavam em meio às colunas de pedra. Sombras grotescas eram iluminadas por archotes tremeluzentes e uma imensa parede estava coberta por escaravelhos, milhares deles...
O vidente não sentia medo e sim um chamado sutil e baixo como o som produzido pelo farfalhar das asas dos insetos. Apesar de saber que ali era o Egito, sentia frio e ouvia um rastejar brumoso e constante na escuridão fétida.
Aproxime-se... Dizia uma voz inumana que mais parecia uma mistura de sons selvagens transformados em fonemas.
Milo se aproximou e viu um egípcio em meio aos destroços entoando palavras rituais com a voz sepulcral dos mortos. Ao seu lado, havia outro ser que destoava do ambiente. Ele estava nu e seu corpo reluzia com uma perfeição anatômica que transcendia o humano. Era imenso, quase um gigante.
Seja bem-vindo, grego... Teu corpo é tão vivo e prazeroso que permitirei uma vida longa para ti!
A voz do ser era fria e potente. Havia um brilho malicioso nos olhos claros e faiscantes como se fossem gemas preciosas refletindo a luz do sol. Ao lado dele, o homem continuava invocando forças que Milo não compreendia, mas sabia ser demasiado exigente para um ser humano.
Os olhos do egípcio reviraram as órbitas e ele estremeceu, enquanto o ser ao seu lado tomava-o nos braços e cravava os dentes na curvatura do seu pescoço. A cena dantesca parecia uma luta corporal, onde o estranho ser atraía o egípcio em direção ao corpo de forma violenta, até que ele cedesse e findasse a ladainha em meio aos destroços e se deitasse no chão frio...
O ser parecia ter duas chamas flamejantes ao invés de olhos e elas arderam junto a um sorriso implacável que surgia em seus lábios inumanos. O egípcio ofegou e olhou na direção de Milo, como se falasse com os olhos. Em seguida, o vidente presenciou a união dos corpos em uma estranha comunhão erótica.
Diga seu nome... E diga a quem pertence... Murmurou o estranho ser ao penetrar o egípcio.
Um grito, seguido de ofegos entrecortados, cortou o ar do templo e Milo presenciou a cena com o coração disparado. O egípcio era penetrado com força por um ágil pênis fantasmagórico. Viu os movimentos dos quadris e ambos chegarem ao orgasmo de forma selvagem, os gozos se liquefazendo e dançando ao redor dos corpos unidos, o sêmen jorrando como lava transformada em bruma.
Diga seu nome... E diga a quem pertence... repetiu o estranho ser.
Meu nome é... Imnotep... E pertenço a Loki, meu amante, meu deus e meu senhor.
Assim que o egípcio respondeu, uma horda de escaravelhos, serpentes e aranhas brotaram das paredes do templo, enquanto o ser gargalhava e olhava na direção do vidente.
Compreendeu agora, vidente...? Sabe quem eu sou e como tenho acesso a ti? Perguntou ele, enquanto a terrível escuridão se abatia sobre o lugar.
Milo recuperou os sentidos e abriu os olhos, encontrando os olhos escuros do doutor Shura.
– Ele acordou. – disse o médico.
– Graças a Deus! – falou Shina.
Shura não costumava atender pacientes vivos, especializara-se em desvendar os mistérios da morte, porém não deixaria de atender alguém numa noite como aquela em que muitos médicos, apesar do juramento de Hipócrates, se recusavam a sair de casa.
– Senhor Milo, quantos dedos eu tenho aqui? – perguntou o médico mostrando a mão direita.
– Cinco. – respondeu o grego tentando se levantar.
– Espere... não faça movimentos bruscos. – disse Shura.
– Eu estou bem, eu preciso sair e falar... com ele.
– Ele quem? – perguntou o médico.
– Camus. – falou o grego, enquanto Shura franzia o cenho.
– Fique calmo, logo vocês se encontrarão. Mas, por ora, o senhor e Camus devem descansar.
– Como sabe?
– Eu o atendi antes do senhor e ele também mencionou uma urgência em encontrá-lo. Creio que este é mais um dos mistérios que ronda esta noite singular... – disse Shura, enquanto Shina empalidecia e Milo fechava os olhos e sentia os olhos rubros de Camus sobre si, assim como a boca na sua...
0000****0000****0000
A viagem tinha sido cansativa, porém Saga estava animado em reencontrar o irmão. Nem mesmo o barco lotado de turistas, prontos para desvendar os mistérios do Nilo naquele calor escaldante o aborreceu. O velho Egito com suas ruelas estreitas e aromas que enchiam as narinas mantinham sua atenção e apreciação.
As pirâmides e a grande Esfinge assumiam sua imponência contra o céu alaranjado do entardecer. Por alguns instantes, Saga observou a linha do horizonte parecendo ver uma procissão fantasmagórica de seres zoomórficos que lhe sorria com malícia e um exército de mortos esqueléticos brandindo suas armas. Piscou duas vezes e tudo voltou ao normal.
Estou cansado. Repetiu para si mesmo, enquanto continuava a sua jornada. Lembrou-se das palavras do belo vidente: “Seu irmão precisa de ajuda. Sugiro que o traga de volta à Londres, imediatamente.” Um arrepio na nuca o fez levar a mão ao pescoço e massageá-lo. Ao mesmo tempo, Jamil Nasser, o guia que contratara, não parava de falar sobre as belezas e excentricidades da terra dos antigos faraós.
O sol vermelho se pôs no horizonte e a temperatura baixou, fazendo-o fechar o casaco.
– É melhor deixarmos para ir de encontro ao seu irmão pela manhã. – disse o guia.
Saga se empertigou e olhou para o homem com sua decisão tomada.
– Eu quero fazer isso agora! – teimou o grego.
O guia coçou a cabeça coberta e fitou o estrangeiro. Pela aparência, Saga era um homem rico e poderia dispensar-lhe uma bela backsheesh.
– Como quiser senhor. Mas deixe-me avisá-lo que a noite no Cairo é perigosa.
– Aviso dado. – respondeu Saga com desdém.
O guia sorriu, sabia muito bem o pensamento daquele turista. Todos achavam que os deuses antigos haviam se extinguido junto com a elite dominante. Ledo engano! Na concepção do guia, era apenas uma questão de tempo até os deuses, ainda desconhecidos e sombrios, despertarem de seu sono milenar e o Egito expandir seu poder a todas as terras...
Fale com o autor