AKAI ITO 01 - Amor a segunda vista

48 Capitulo 49 - A CONFUSÃO ME BATEU MAIS FORTE QUE UM SOCO


Annabeth

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Alguns dias monótonos se passaram, eu já estava com saudade da Alemanha.

— Um BarMix? – Perguntei a Thalia surpresa

— Eu volto pra Alemanha em alguns dias, preciso me divertir – Ela suplicou – Por favor!

— Quando? – Perguntei cedendo

— Sábado à noite – Ela me analisou – Eu sei que você quer ir...

— Eu tenho alguns projetos pra desenvolver – Eu revirei os olhos

— Seus serviços já foram contratados por três empresas em apenas duas semanas, desde que chegou, se você rejeitar alguns, não fará diferença... Você sempre terá uma fila de contratantes – Ela resmungou

Ela tinha razão, eu nunca ficava sem trabalho, mas eu havia voltado no intuito de uma entrevista para um trabalho fixo, a entrevista aconteceria no domingo à noite, em um restaurante aqui perto, a escolha entre ficar ou voltar pra Alemanha dependia disso.

— Ok! – Eu cedi – Eu realmente estou precisando me divertir.

Confesso que eu estava um pouco desanimada, voltar para minha cidade natal talvez não tivesse sido uma das melhores coisas. A Piper já havia chegado da lua de mel, mas ainda estava ocupada com a mudança de apartamento, que inclusive, eu ajudei a decorar, já que além de arquiteta eu tinha uma qualificação em projetista e designer. Eu nunca mais tinha visto o Percy, e talvez não fosse legal vê-lo. Ele era noivo, segundo Hazel apenas simbolicamente, já que ele havia proposto apenas que ela fosse morar com ele, mas eu já morei com uma pessoa, e eu sei que aquilo significava mais do que um relacionamento de namoro.

— Thalia, eu vou dar uma volta pela cidade – Avisei – Você se vira com o jantar.

— Eu? – Ela me olhou horrorizada

— É... Você!

— Eu estou indo pra casa do Jason – Ela entortou a cara

— Não dê uma de irmã babona agora – Eu ri. – Piper não está podendo receber visitas por conta das reformas que ela fez.

— Seus projetos – Ela revirou os olhos

— Sim, e ficaram incríveis – Eu sorri.

— Ah! – Thalia pareceu se lembrar de algo – Fui à academia do condomínio mais cedo e tive uma leve impressão de ter visto dona Sally por aqui.

— Isso é um condomínio novo, dona Sally mora bem longe daqui – Eu sorri com a ideia idiota – Deve ter sido apenas impressão mesmo.

Troquei de roupa rapidamente, coloquei uma calça jeans, um tênis All Star meio surrado e uma camisa regata branca um pouco folgada e com as entradas dos braços tão largas que parte das minhas costelas apareciam, mostrando o top preto e deixando a minha tatuagem da costela aparecendo. Sim, Thalia me convenceu a fazer mais duas, ela bem que disse que fazer tatuagens era viciante, por isso eu amava a Thalia, ela me deu coragem pra mudar, não só minha personalidade, mas também fisicamente. A tatuagem era uma coruja que pegava a lateral do seio, e parava quase no meio da cintura, e a outra eram umas estrelas atrás da orelha. Peguei um casaquinho leve, já que eu não tinha horário pra voltar, ajeitei meu cabelo, já que por ser ondulado e estar em um corte irregular, precisava de uns ajustes de vez em quando. Peguei as chaves da moto, o capacete e sai.

Encarei minha tatuagem no antebraço, ela era discreta o suficiente para esconder com apenas o ângulo de posição do braço, eu não gostava muito de mostra-la, as pessoas sempre perguntavam o que significava e era constrangedor pensar o significado real dela, já que teoricamente a outra ponta da minha linha vermelha usava uma aliança de noivado e saia por ai desfilando com uma ruiva bonitona.

Eu morava na cobertura 25º andar, mas quando o elevador chegou no 10º ele parou, virei o braço para trás para esconder a tatuagem, seja lá quem fosse entrar, poderia ser uma pessoa curiosa. Comecei a ler os avisos pregados na parede do elevador, que tinha uma membrana aveludada cor vermelha, bem clássico.

— Boa tarde! – Uma voz masculina disse calmamente e depois pigarreou como se tivesse tomado um susto – Oh... – Ele tentou balbuciar algumas palavras

Eu virei meu rosto para ter noção do que estava acontecendo, meu capacete caiu.

— O que...

— O que você está fazendo aqui? – Percy interrompeu minha pergunta, com a pergunta que eu ia fazer.

Eu me abaixei pra pegar o capacete. Meda... A tatuagem, se ele visse saberia que eu fiz pensando nele. Com cuidado virei o braço em um ângulo que ele não pudesse ver.

— Eu moro aqui... – Eu gaguejei

— Mora? – Ele deu um tom de oitava na voz.

Percy vivia todo social, camisa social longa, calças Jeans esporte fino, sapatos da marca vans, que era um esporte fino. Ele era visivelmente um jovem de vinte três anos bem sucedido, reparei que ele segurava um capacete.

— É... Na verdade minha mãe morava, eu estou ficando aqui. – Eu corrigi. – E você?

— Minha mãe mora aqui – Ele parecia nervoso – Se mudou há pouco tempo, eu vim ver... A Julia e ajeitar algumas coisas que ela pediu. – Ele suspirou e coçou a cabeça, mania antiga de quando ele ficava nervoso. Eu sorri por ter lembrado.

— Poxa, isso foi inesperado – Ele deu um sorriso sem graça.

Ele me deu uma bela olhada, bem interessada, seus olhos pararam na parte da camisa que mostrava parte da minha tatuagem da costela e despois desviou o olhar como se tivesse faltado ar para respirar. O silencio nos inundou, o elevador parou no estacionamento e eu fui para um lado, e ele foi para o outro. Rapidamente coloquei meu casaquinho por cima da camisa, merda, eu não parava de tremer. Dei partida na moto e saí, eu sabia que ia me encontrar com ele na saída, e era por isso que eu estava tão nervosa.

Percy parou a moto ao lado da minha, e subiu à viseira, eu fiz o mesmo.

— O que vai fazer agora? – Ele perguntou

— Uma volta – Eu sorri, mas ele não poderia ver por conta do capacete.

— Uma corrida – Ele sugeriu

— Você é um idiota – Eu continuei sorrindo

— Serio... – Ele pareceu estar sorrindo também

— Ok! – Eu aceitei – E depois um shake? – Sugeri

Os olhos dele se arregalaram em surpresa e pareceu ficar relutante sobre minha sugestão. Merda, eu acabei o chamando pra sair, sem nem perceber, agora eu levo um fora e tento jogar a moto em algum buraco.

— Fechado, quem perder paga – Ele fez o motor da moto roncar.

Eu suspirei aliviada com a resposta dele. Nós aceleramos e corremos juntos.

Percy

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Eu não conseguia parar de sorrir, não acreditava que estava apostando uma corrida de moto com a Annabeth e com direito a curvas da morte. Tinha medo de a qualquer momento eu acabar caindo e perceber que era um sonho. Annabeth pilotava muito bem, tão bem que me surpreendi, ela fazia ângulos nas curvas perfeitos, estava inclinada sobre a moto em um ângulo perfeito, cortando o vento em cada virada. Primeiro ela saiu na minha frente, depois eu acabei passando dela, então mais uma vez ela me alcançou e ficamos lado a lado. Era surreal viver aquilo, depois de muito tempo eu parecia estar me divertindo de verdade, fazendo o que eu amo, ao lado da pessoa que eu... Desfiz o sorriso e diminui a velocidade, eu a deixei ganhar, viver desse momento era muito pra mim, eu já cometi o erro pela segunda vez de protelar uma conversa com ela, cometi o erro de aceitar passar a tarde com ela. Era errado, eu não podia fazer isso com a Rachel, eu não podia ficar perto da Annie, porque quanto mais eu ficava perto da Annie, menos vontade eu sentia de ficar com a Rachel e foi ela quem esteve ao meu lado quando eu mais precisei.

Estacionamos a moto, mas eu não sai dela. Estávamos em frente ao “Shake Mania Saudável” da cidade, viemos aqui algumas vezes em nosso tempo de namoro. Annabeth saiu da moto e veio em minha direção, ela mantinha um sorriso despojado como se tivesse entendido minha relutância.

— Eu ganhei, mas acho que vou ter que pagar minha própria conta – Ela sorriu sem mostrar os dentes. Ela sabia que eu não ia ficar.

— É complicado – Eu dei um sorriso forçado e encarei a aliança.

— Eu entendo – Ela suspirou – A gente se vê por ai.

Quando a Annabeth virou as costas e entrou no estabelecimento, meu coração se apertou. Eu queria ir embora, cheguei a colocar o capacete de volta, mas então... Eu desmontei da moto.

— Droga! – Eu disse a mim mesmo – Sempre sendo o idiota.

Eu entrei no estabelecimento e ela já estava fazendo o pedido. Olhares sobre ela, sempre olhares, tive que me conter.

— Um de milho verde – Ela pediu

— Dois de milho verde – Eu pedi sem nem mesmo saber se era gostoso.

Annabeth olhou pra trás surpresa, mas eu estava muito perto dela, que acabou que ela se bateu em mim. Choque passou pelo meu corpo.

— Eu perdi a corrida, tenho que honrar meu compromisso – Eu tirei a carteira pra pagar.

— Eu já paguei o meu – Ela sorriu – Deixa pra próxima

“Deixa pra próxima” Isso me deixava tão nervoso, como se a ideia de estar com ela novamente, fosse possível. Nós sentamos em uma mesa.

— Você tirou a barba – Ela reparou. Eu corei

— E você devia deixar o cabelo crescer – Brinquei

— Eu gosto do meu cabelo assim – Ela deu um risinho

— É... – Eu disse desanimado – Eu também – Admiti e desviei o olhar.

Annie riu e voltou a tomar o Shake.

— Você pilota bem – Eu quebrei o silencio.

— Eu tive um bom professor – Ela me encarou, ainda com o canudo na boca.

Podia jurar que a temperatura subiu uns 10°.

— O medico? – Perguntei evitando contato visual

— Você, cabeça de alga – Ela disse em um tom brincalhão – Você criou em mim essa paixão por motos.

— Que bom que pelo menos esse tipo de paixão eu deixei em você – Pegou mal eu sei, mas não consegui evitar. Foi um silencio mais alto que já existiu entre nós.

— Eu...

— A gente não pode ficar se encontrando sempre – Eu interrompi, sei la o que ela ia falar. – Acho que não é legal pra nenhum dos dois.

— Eu não tenho nada a ver com nossos encontros, Percy... Eles simplesmente acontecem, não controlo isso – Ela deu de ombros. – Eu nunca ia imaginar que sua mãe havia comprado um apartamento onde eu moro, e que exatamente hoje você estaria saindo de lá no mesmo horário que eu, em um mesmo meio de transporte que eu. – Ela disse irritada.

— Eu sei, mas... Talvez a gente não tenha que se falar toda vez que nos encontrássemos – Eu fitei a mesa. Agora a temperatura diminuiu uns 330°

— Se é dessa forma que você quer... – Ela suspirou – Então acho que preciso ir.

— Eu quis dizer das próximas vezes, não hoje – Eu a puxei de volta pra cadeira.

— Você me confunde com suas contradições – Ela disse irritada – Eu não te entendo e isso não tem nada a ver com minha lerdeza, você diz essas coisas e ao mesmo tempo me puxa pra perto de você. – Ela me fitou

Lembrei-me do dia da praia, onde eu fiz a mesma coisa, enquanto ela tentava ir embora eu segurei as pontas de seus dedos e pedi pra que ficasse.

— Eu não esperava que você voltasse – Eu admiti – E quando eu te vi, eu não estava preparado pra isso.

— Nenhum de nós dois estávamos – Ela suspirou – Eu sinto muito por ter voltado tarde demais.

— Muito tarde – Eu a fitei. Annabeth encarou minha aliança e desviou o olhar.

— Eu estou tentando não ficar no seu caminho, só que você está dificultando isso – Ela parecia nervosa. – Quando puxa a conversa, quando insiste em mantê-la, é difícil evitar gostar disso.

O Estabelecimento estava vazio, quase ninguém gostava de ter uma vida saudável, como tomar Shake ao invés de um Milk Shake.

Eu sorri em ironia.

—É, eu estou dificultando– Admiti – É difícil não querer ficar ao seu lado, quando eu já estou. Se eu não te vejo, eu não quero me encontrar com você, mas quando eu me encontro eu não quero que o tempo passe rápido.

— Eu deixei de ser lerda – Ela fitou a mesa – Mas contradições ainda me confundem

Eu ri. Porem não quis ser mais claro que aquilo, ou eu poderia acabar falando algo que eu provavelmente me arrependeria. Olhei o relógio, já era tarde... Rachel provavelmente iria dormir na minha casa. Eu não queria ir, mas eu precisava. Annabeth pareceu entender que eu precisava ir, com certeza ela estava mais esperta.

Nós caminhamos juntos até o lado de fora, já estava no entardecer, o vento soprava com facilidade o seu novo corte de cabelo, que a deixava mais madura e mais atraente. Seu olhar sobre um ponto cego a sua frente, era tempestuoso em seus grandes olhos cinza. Paramos ao lado da minha moto, ela colocou uma mexa do seu cabelo atrás da orelha e eu percebi três estrelas tatuadas. Eu havia percebido mais cedo que ela tinha uma na parte lateral do seu corpo, embora eu não tivesse conseguido decifrar o que era. Eu a analisei, ela era tão culta e tão despojada ao mesmo tempo, combinava perfeitamente em salto, vestido de seda longo e maquiagem pesada, como no casamento, mas também combinava perfeitamente em calça jeans, tênis surrados e camisas folgadas e modernas como agora. Automaticamente minha mão se ergueu até seu pescoço tentando ter livre acesso para a visão da tatuagem, minhas mãos tremeram quando eu percebi meu próprio ato, mas continuei.

— Você realmente mudou – Eu sussurrei – Adotou uma personalidade mais forte.

— Sai do armário – Ela sorriu. – Andar com a Thalia, me fez bem, eu posso ser eu mesma – Ela deu uma olhada em si – E ser outra pessoa sem mudar minha personalidade – Ela se referia a quando acabava se tornando mais culta e social.

Eu ainda mantinha minha mão em seu pescoço e tirei com dificuldade. Ela era diferente e igual ao mesmo tempo, olhar pra ela me fazia lembrar do quanto ele teve que se esforçar para estar aqui. Eu tinha orgulho de vê-la totalmente estruturada.

— “Porque ter uma ambição em se tornar uma pessoa diferente é importante. Querer mudar deve ser um objetivo alcançado” – Eu recitei a frase que um dia ouvi dela

— Quem te deu esse conselho idiota? – Ela despojou do sorriso que eu amava ver

— Uma garota com quem eu namorei – Eu sorri de volta.

Eu me vi ainda encarando seu sorriso, me aproximei um pouco mais, era como se eu estivesse hipnotizado com o momento que se criou. Com o barulho fino das pessoas andando pelas ruas, com o vento suave batendo em nossos rostos, com nossos sorrisos se formando, com o passado se tornando o presente.

— “A psicologia diz que quando a pessoa olha diretamente em seus lábios, é porque ela quer te beijar” – Ela continuou sorrindo.

— Serio? Quem disse algo tão idiota como isso? – Eu segurei seu rosto

— Um garoto com quem eu namorei – Ela mordeu os lábios.

Nossos olhos se encontraram, eles sempre se encontravam e se desviavam, mas dessa vez eles se prenderam. Uma pontada em minha cabeça fez por um segundo a razão transparecer... Eu não podia, não podia fazer isso com a Rachel, eu tinha que me afastar agora, ir pra longe, correr talvez. Hesitei, mas fui surpreendido com um beijo. Não foi um beijo de língua, foi apenas o tocar dos lábios, mas foi o suficiente pra meu corpo entrar em chamas.

— Ai meu Deus – Annabeth se afastou automaticamente – Percy, me desculpe... Eu... Eu sinto muito. – Ela me encarou assustada e tentou se afastar.

Sim, era pra eu ter a deixado ir. Era pra eu ter ficado com raiva desse beijo roubado, mas a única coisa, que eu não havia gostado disso foi dele ter sido tão simples. Ela já tinha dado dois passos para longe de mim, então eu reagi... Eu tentei, eu juro por Deus que eu tentei resistir, mas era impossível. Eu a puxei pelo braço de volta pra mim e a beijei, beijei intensamente e loucamente, desesperadamente. Seis anos sem provar daquele beijo, sem sentir seus doces e macios lábios por seis anos, seis anos imaginando esse exato momento... Eu estava em combustão.

Me afastei rapidamente e a encarei, nossas respirações falhadas, nossos olhos em surpresas com a loucura feita. Isso nunca deveria ter acontecido, eu queria sair... Meu Deus, eu queria sair, eu tinha que ir embora, mas eu apenas a puxei novamente e a beijei, só que dessa vez em um ato consciente, em um ato de desejo e saciedade. Todo sentimento passado voltou à tona, era como se eu estivesse aberto à válvula de escape das minhas frustrações, como se meu corpo todo estivesse dizendo “Ei, idiota é aqui mesmo que você pertence, para de se iludir, você não vai ser feliz longe disso”. Eu me afastei novamente, mas dessa vez eu ainda segurava seu rosto, nossas testas estavam coladas e precisávamos de ar.

— Droga Annie – Eu sussurrei ainda de olhos fechados – Porque você tinha que voltar? – Eu dei mais um beijo, dessa vez mais leve. – Eu não vou conseguir parar... Por favor– Eu supliquei – Vá!

Se ela não fosse capaz de se afastar de mim, eu não seria capaz de me afastar dela.

— Eu sinto muito – Ela sussurrou com um leve tom de choro. Então ela me beijou novamente e correu para longe de mim.

Eu fiquei tão sem chão que precisei sentar nas cadeiras que ficavam do lado de fora do estabelecimento, Annabeth partiu em velocidade. Dei um grande suspiro tentando acalmar meu coração, coloquei as mãos sobre a cabeça... Eu estava ferrado. A confusão me bateu mais forte que um soco na cara, eu não tinha idéia do que eu ia fazer, eu precisava me afastar dela, eu precisava fugir desse sentimento... Eu traí a Rachel, eu me senti um lixo, mas bem lá no fundo, bem no fundo, lembrando desse momento com a Annie, eu sorri.