A última noite
1 Capítulo único
Notas iniciais
A noite caía, e Nisha podia sentir seus músculos completamente exaustos. Todos os dias era relembrada de que não era mais a jovem loba de duas primaveras de idade ― caçadas que outrora pareciam curtas e revigorantes agora pareciam eternas; ponderava não apenas duas, mas talvez dez vezes antes de engajar em qualquer tipo de conflito; e deitar sobre a grama se tornou a melhor recompensa que poderia ter na vida.
A loba negra sempre teve leves tons mais claros salpicados em suas costas. Thunder dizia que seu pelo parecia até um lindo céu estrelado. Mas agora já havia incontáveis pelos brancos perto de seus olhos e em seu focinho. Assustou-se quando percebeu isso pela primeira vez em seu reflexo na água. Lembrou-se de que Thunder estava junto, e que ele riu. Nisha argumentou que ele jamais perceberia esse tipo de mudança, já que seu pelo sempre foi branco feito as nuvens do céu.
Thunder.
Pensar no lobo fazia seu corpo doer mais do que já doía. Sequer havia se passado uma estação desde que seu amado companheiro havia morrido. Tudo ainda parecia irreal demais. Ela sempre esperava que ele fosse voltar de sua patrulha pelo território a qualquer instante. E dia após dia, ele não retornava. Ela sabia que jamais iria. Afinal, viu seu corpo mole e sem vida na sua frente. Mas sempre que acordava, esquecia-se que ele não estava mais ali. Não era nada fácil se acostumar a estar sem ele já que se conheceram com duas primaveras e continuaram unidos até as oito ― um marco e tanto.
Ele era muito diferente dela. Enquanto Nisha pensava e repensava suas ações em sua cabeça, Thunder já estava fazendo. Ele era estrondoso e sem medo, adorava uivar, seja para a lua ou para o sol, ao passo em que ela era uma sombra silenciosa na floresta. Estrategista, analisadora e voraz. Ele estava constantemente sorrindo, brincando sem parar com os filhotes, mesmo quando eles começavam a irritá-lo um pouco ao morderem sua cauda forte demais. Ele nunca se importava, embora Nisha o dissesse para discipliná-los rapidamente. Ela podia ser muito séria, mas ele a fazia rir. Mais que tudo, fazia com que relaxasse. Era seu conforto. Junto de Thunder era quando se sentia mais segura, quando sentia que podia soltar a lufada de ar que segurou por tanto tempo e baixar sua guarda.
De alguma forma, Nisha sempre acreditou que ela partiria primeiro. Nunca pensou na possibilidade de continuar vagando por aí sem seu adorado Thunder. Mas lá estava ela. Ela tinha de ser forte por seus filhotes. No dia em que Thunder partiu, eles mal haviam explorado a vida fora da toca. Ainda eram jovens demais, pequenos demais e delicados demais, mesmo que sua visão e audição começassem a melhorar. O lobo chamou Nisha para uma caminhada juntos, até que, visivelmente exausto, deitou-se na grama. O dia estava amanhecendo, e o sol estava lindo, embora ela preferisse a luz das estrelas. Ele, então, lambeu seu focinho e se despediu. Nisha estava incrédula, mas conseguia ver que ele já não tinha forças para levantar. Seus olhos se apagaram, sua musculatura relaxou e seu corpo esfriou.
Ali, ela chorou como nunca antes. Com o focinho enterrado em seu pelo, fungando por seu cheiro uma última vez, temendo esquecê-lo para sempre. Seus gritos de negação podiam ser ouvidos à distância. Não conseguia parar de chorar, e não queria voltar para a toca. Não queria olhar seus filhotes e se lembrar dele. Sua garganta apertava, e seu coração parecia minúsculo. Os dois haviam passado mais tempo da vida juntos do que separados. E agora? Como prosseguir? Ainda que constantemente se planejasse para tudo, sempre um passo a frente, jamais havia se planejado para aquilo.
E ainda que quisesse desaparecer, não o fez.
Eventualmente conseguiu dizer adeus ao corpo de Thunder. A natureza cuidaria dele agora. Derrotada, voltou para a toca, onde os filhotes ainda dormiam pesadamente. Mesmo após acordarem, eram pequenos demais para entenderem. Nisha não sabia se isso lhe aliviava, por não terem que sentir o peso do luto, ou se a entristecia, por mal conseguirem lembrar do sangue de seu sangue. Ao invés disso, era Husik a quem tinham como figura paterna.
Husik era um lobo gentil de quatro primaveras que aceitou ser companheiro de Nisha e cuidar dos filhotes. Sua pelagem era um misto de cinza e preto, e Nisha apreciava sua companhia. Ele era educado e competente. É claro, não dava para compará-lo a Thunder ― qualquer um seria nada se fosse assim; eles possuíam uma sinergia inigualável após tantas e tantas estações juntos. Mas Husik era bom. Gostava dele. Mas não conseguiria amá-lo. Ao menos, não agora. Ela não queria ter de buscar um companheiro novo, mas a necessidade falava mais alto. Estava cansada demais de tudo para cuidar sozinha de cinco filhotes. Husik estava ciente. Mas se sentia feliz por estar junto à Nisha. Estar em uma alcateia novamente lhe dava uma sensação de dever cumprido, de um propósito. O macho havia vagado sozinho por tempo demais. E adorava estar junto aos filhotes. Nisha sorria levemente sempre que os via brincando juntos. A felicidade de sua ninhada a contagiava, e torcia para que Thunder pudesse ver isso de algum lugar.
Agora, estava deitada junto de Husik. Haviam caçado juntos mais cedo. Apesar do cansaço, os filhotes comeram bem, e agora dormiam amontoados um no outro, escondidos dentro da modesta toca da alcateia: um singelo buraco com grama por perto. Os cinco eram muito unidos e cresciam mais a cada dia. Ainda era primavera, com suas folhas verdes, flores de todas as cores e pássaros cantarolando suas canções, e os filhotes pareciam saudáveis e fortes. Além disso, também pareciam alegres, o que acalentava a mente da loba.
Nisha observava o céu estrelado e a lua cheia, enorme e deslumbrante. Um vento frio balançava seus pelos e um sussurro atravessava seus ouvidos. Parecia um uivo. Parecia Thunder. As estrelas brilhavam cada vez mais, enquanto que seu coração parecia estranhamente... lento. Cansado.
A natureza a chamava.
Thunder a chamava.
Sua hora havia chegado, finalmente. Sabia disso.
― A noite está linda, não acha, Husik? ― Perguntou, sua voz saindo mais fraca do que planejava. Ela não sabia como lhe dizer o que queria lhe dizer. Respirou fundo e se concentrou.
― Sim, Nisha. Sem muitas nuvens no céu. Adoro poder observar as estrelas assim.
Os dois permaneceram em um silêncio inquietante para a loba.
― Husik, quero que saiba que pode carregar o nome da alcateia Noctis consigo se quiser. E se não quiser, tudo bem. Eu aprecio toda a sua ajuda, do fundo de meu coração.
O lobo absorveu lentamente suas palavras e se voltou para ela com um semblante assustado, temendo tudo o que havia dito.
― Do que está falando?
― Eu não verei outro nascer do sol. ― Disse calmamente, enquanto os sussurros pareciam ficar cada vez mais altos em seus ouvidos. Queria poder respondê-los. Ansiava em estar junto de Thunder outra vez, embora o pensamento de deixar seus filhotes lhe doía. Queria poder vê-los adultos e fortes. Queria que eles pudessem tê-la visto mais jovem, que tivessem conhecido sua outra versão, incansável e astuta. A natureza tinha outros planos, no entanto.
― Nisha, você tem certeza? Caçamos hoje, você parecia bem o tempo todo. Algo aconteceu? ― Husik ficou agitado e nervoso, seus pelos estavam eriçados e o lobo estava de pé.
― Estou apenas velha e cansada. Espero que você possa viver uma vida longa e proveitosa como a minha, Husik. Você com certeza merece, sei disso. Por favor, cuide desses filhotes com a própria vida. É só o que lhe peço. Busque outra companheira, faça o que for preciso. Mas cuide deles. Eles também são seus. Eles te amam, e agradeço por lhes amar de volta.
― Eu sei disso, e prometo que o farei. ― O lobo lambeu delicadamente a testa de Nisha, nervoso e estático. Acreditava em todas as palavras que dizia à Nisha. Cuidaria dos filhotes com todo amor e cuidado, e faria de tudo para que a ninhada sobrevivesse, mas não conseguia acreditar que ela estava mesmo partindo, mesmo que ouvisse sua voz fraca e lenta, mesmo que visse seus olhos cansados pairando no horizonte e mesmo que sua cabeça já mal conseguisse se sustentar. Husik se sentia honrado por ter tido a chance de dividir uma pequena parte de sua vida com Nisha, e por ter a ninhada em sua responsabilidade agora. Mas não se sentia pronto para vê-la partir, mesmo que sempre soubesse que isso poderia acontecer a qualquer momento.
― Obrigada, Husik. Por tudo. ― O lobo lhe respondeu algo, mas ela já não conseguia mais ouvir. Os sussurros estavam mais e mais altos. Quase conseguia decifrá-los. Quase conseguia senti-los tocando em seus pelos.
“Já estou indo. Estou pronta.” Pensou. Havia vivido uma vida longa, com muitas ninhadas, experiências, sorrisos, lágrimas e sangue. Havia visto de tudo um pouco. E havia sentido o amor incondicional de seus filhotes e de Thunder. Agora, era hora de ir. Naquele instante, a loba pôde ver Thunder em sua frente, sorrindo como sempre, com seus pelos brancos brilhando à luz da lua, etéreo. Com aquela visão, seus olhos alaranjados brilharam uma última vez, para que pudessem, enfim, descansar para sempre. Husik uivou melancolicamente por ela, e pouco tempo depois os filhotes acordaram, saindo lentamente da toca com a comoção. Confusos, mas ao mesmo tempo entendendo rapidamente o que se passava, e começaram a uivar junto de Husik. Sentiam dor, saudades e angústia. Mas de alguma forma também se sentiam abraçados e protegidos.
Um vento gélido balançou toda a folhagem perto de Husik e dos pequenos. A grama parecia dançar ao som alto da ventania, e os galhos das árvores próximas balançavam sem parar, fazendo com que diversas folhas verdes caíssem e rodopiassem delicadamente. Sementes de dentes-de-leão voavam junto, deixando que o vento as levasse para perto da família. Sem que os lobos pudessem perceber, uma singela estrela começava a brilhar no céu, perto de outra, que brilhava mais forte do que todas.
Em algum lugar, Nisha caçava uma uapiti ao lado de Thunder. Voraz e estrategista como sempre.
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