A Última Sentença

4 3º dia, 20/07/2013


3º dia, 20/07/2013

Pela ironia do destino, era um dia cinzento. Estava frio, e as folhas do outono voavam com a brisa gelada que subia por debaixo do meu vestidinho negro. Não tinha ideia do que acontecia naquele lugar, por que tantas coisas de pedra se erguiam do chão, por que tanta gente chorava e se consolava, por que aquele lugar era tão... morto. Era só uma criança. Aos meus cinco anos, tornei-me órfã por parte de mãe. Agora éramos somente eu e papai, desgastado pelas crises emocionais de minha mãe, ou pelos dias estranhos, como meu psicólogo atual gostava de chamar.

Eu caminhava tranquilamente pelo cemitério, olhando para cima enquanto todos me encaravam com pena. Não me deixavam ver quem estava na caixa grande que todos olhavam e, às vezes, deixavam pequenos objetos. Se eu perguntava para alguém o que estava acontecendo e por que meu pai estava chorando, me lançavam um olhar acusador e simplesmente ignoravam a pergunta. Alguns até chegavam a gaguejar, mas não encontravam uma forma de dizer que minha mãe morrera.

Num canto escondido da sala de pedra, reconheci uma figura familiar. Aproximei-me de papai, que tinha o rosto inchado e os olhos vermelhos. Puxei a barra de sua calça escura, olhando para seus 1,85 de altura. Ele me olhou, puxando um lenço cor de vinho para secar uma ou duas lágrimas que ainda teimavam em escapar.

– Louise – ele suspirou. – O que precisa, pequena?

– O que está acontecendo, papai? Cadê a mamãe? E por que não me deixam ver o que tem na caixa grande?

Papai sorriu tristemente. Nem ele sabia como me explicar. Ele me levantou, carregando-me com cuidado. Por um momento, tive um relance do que se tinha dentro do caixão, mas vi somente flores. Porque todos choravam por flores? Ele percebeu que eu notara, e virou-me de costas.

– Não sei se entenderá agora, querida. Mas a mamãe foi para um lugar melhor. Lembra que ela estava um pouco tristinha? – Acenei com a cabeça, apesar de não concordar com a parte do “pouco”. – Então, agora ela vai ficar muito feliz. As coisas vão melhorar para ela, meu amor. Não precisa se preocupar. Ninguém te mostra o que está lá dentro por que é feio; vê que todos choram? Não é uma coisa boa de olhar.

– Mas... – papai colocou um dedo na minha boca, me calando.

– Shh, vai ficar tudo bem, meu amor. Um dia você me entenderá. Agora vamos para casa, vamos? – Não reagi e ele me pôs no chão, a fim de se despedir dos presentes ali.

Andei mais um pouco sem rumo pelo cemitério, aguardando papai. Um garotinho de olhos amarelados, quase dourados, me chamou num canto. Ele parecia ser mais velho que eu, com alguns centímetros a mais. Sua voz estridente sussurrou meu nome.

– Louise, vem aqui. Deixa eu te mostrar uma coisa. – Apesar de estranhar o porquê de o garotinho me conhecer, mas eu não o conhecer, segui-o. Ele seguiu por dentre os adultos, desviando de pernas e bolsas, assim como eu. Pegou um banquinho e colocou logo ao lado da caixa grande, e apontou para subir numa parte, enquanto ele subia na outra. – É a sua mamãe. O que ela está fazendo aqui?

Admirei o rosto calmo e sereno de mamãe, na ponta dos pés. Ela parecia tão feliz. Estava tendo bons sonhos, eu tinha certeza. Uma parte da sua cabeça parecia “amassada”, mas papai tinha dito que caíra e sem querer batera a cabeça. Deve ter machucado, tadinha. Seu corpo todo estava coberto por flores brancas que eu tinha visto, e somente seu rosto pálido era observado.

– Papai disse que ela foi para um lugar melhor. Quem sabe essa caixa é uma cama mágica? – Ele acenou com a cabeça.

– Minha tia disse que ela morreu. Bateu as botas, foi pro paraíso, caiu dura. – Arregalei os olhos para ele.

– Não! Mamãe não morreu! Ela só vai dormir um pouco, e depois ela vai voltar para casa!

– Tá bom. – O garotinho deu de ombros e desapareceu por meio das pernas envoltas em negro, deixando-me sozinha com o corpo de mamãe.

Estava atordoada. Não sabia se ela tinha morrido mesmo. Um colarzinho em seu pescoço me chamou atenção. Ergui o braço para toca-lo, mas nesse momento, mamãe abriu os olhos. Pulei do banquinho, assustada, mas logo subi de novo.

– Nunca se esqueça de quem é. – Mamãe moveu os lábios rachados. Logo, fechou os olhos novamente e foi para seu descanso eterno. Para mim, ela teve um pesadelo. Acordara por um tempinho, e logo depois voltou à dormir de novo. Aquela cama devia ser muito boa mesmo. Interrompendo meus pensamentos, senti braços me segurando com força.

– Louise! – Papai exclamou. – O que está fazendo? Vamos para casa. – E me levou no colo até o carro, atando meu cinto e fechando a porta. O motor ligara, estávamos já em movimento para casa. Eu olhava pela janela, pensativa. Nada fazia sentido.

– Papai – chamei, com a voz baixa –, a mamãe morreu?

Papai pareceu desconcertado e virou para me encarar por um momento, sua face escura pelas luzes poentes do sol. Fez que falaria alguma coisa, mas quando um farol tomou conta da minha visão e eu ergui a mão para tapar a luz forte, ele se virou rapidamente e segurou o volante muito forte. Mas era tarde demais.

A última coisa que eu vi foram os estilhaços de vidro voando em toda direção possível.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.