A Última Lua
6 Be All My Sins Remembered
Notas iniciais
MORRO DO ALEMÃO/ RIO DE JANEIRO
— Eu não posso e não consigo acreditar numa coisa destas – ela gagueja – você tem certeza do que viu? (Tina)
Patrícia assente e por dentro das folhas, começa a procurar algo, o achando em seguida. Ela os entrega a Tina, que desesperadamente, avalia o conteúdo. Fotos provando quem matara Gael. Lágrimas descem desesperadamente do rosto de Tina; ver a forma como seu ex-marido havia morrido mexia com ela, mas o autor (a) deste assassinato era pior que tudo, doía o seu coração da pior forma possível.
— Como elx pode? – agora ela fita as fotos com raiva, seu globo ocular brilhava verazmente – só pode ser o pior tipo de monstro para matar uma pessoa desse jeito, a queima roupa... (Tina)
Patrícia começa a escrever, e após terminar, arranca o conteúdo e o dá para Tina, que entre lágrimas e gaguejos, lê em voz alta:
— Logo após que eu presenciei tudo isto, fui questionar elx por tudo isso... Foi o meu pior erro. Elx foi mais forte que eu, e com seu capanga, me amarrou inteira. — Tina engole em seco, estava horrorizada – logo depois, foi me dado à força um comprimido. Minutos depois, via apenas a escuridão e os meus sonhos. Acordei em casa, sem voz, e sem dignidade. Foi me deixado uma carta dx próprix dizendo que fizera, com seu dinheiro, uma cirurgia para arrancar as minhas cordas vocais, para que eu não pudesse contar para ninguém do ocorrido. E se eu tentasse escrevendo ou algo do tipo, elx arrancaria a minha vida. Mas elx não contava com as fotos que eu tirei, e finalmente superei o medo, tendo a coragem de mostra-las a você!(Tina)
As lágrimas que insistiam a cair descem velozmente pelo rosto de Tina, como cristais caindo do céu. Ela começa a soluçar, e sente dó da mulher a sua frente.
— Eu sinto muito... (Tina)
Patrícia apenas a fita com seu sorriso e com um olhar insinua a mulher que tudo estava bem. Já havia passado.
— Eu vou me vingar... – ela engole em seco – pela senhora, pelo Gael, pela minha família... (Tina)
Patrícia escreve, e Tina a acompanha, já lendo em voz alta:
— Eu acredito em você, por isso foi à escolhida para vir aqui! Faça o que achar melhor. Eu aceito as consequências depois, minha ratinha! (Tina)
Tina dá uma risadinha desesperada, e fita a mulher a sua frente. Patrícia deveria ter sido uma bela moça no passado.
— Se me permite perguntar... – ela continuava sorrindo entre as lágrimas – por que ratinha? (Tina)
Patrícia dá uma risada silenciosa, apenas mexendo os lábios, e escreve novamente;
— Foi um apelido carinhoso, de quando eu era professora, que dei aos meus alunos favoritos. Infelizmente hoje em dia estou incapacitada, mas morro de saudades de tudo... (Tina)
Tina assente; se sentia culpada por tudo, mesmo não tendo um dedo no assassinato de Gael.
Ela se levanta do sofá e se aproxima da porta, com as fotos do assassinato em mãos.
— Eu preciso ir, e se não se importar, quero ficar com essas fotos... (Tina)
Patrícia assente e sorri, afirmando com a cabeça. Logo após, referencia com suas mãos um tchau, deixando Tina abrir a porta da pequena casa e ir diretamente para o seu carro. Abrindo o automóvel, ela se joga lá dentro e começa a gritar de raiva.
Não conseguia acreditar naquilo tudo. Cada momento daquelas fotos passava em sua mente como imagens de um filme em HD, que insistiam em contar para ela todo o final trágico que havia ocorrido.
Tremendo, ela coloca as chaves na ignição e tenta dar partida, o carro acelera, mas morre no meio da rua, as lágrimas e os soluços insistiam em atrapalhá-la. Ela deita sua cabeça no volante, sem conseguir prosseguir.
Uma buzina começa a espernear, e uma voz masculina dentro do carro de trás invade seus ouvidos.
— PARA COM ISSO, SUAS MALUCA (Ademilson)
Tininha, irritada, abre a janela do carro e inclina seu corpo para trás, onde o homem moreno gritava e apertava a buzina.
— QUAL É O SEU PROBLEMA, EIN? (Tina)
— TA MALUCAS É? (Ademilson)
— EU TO MALUCA SIM; PARA COM ESSA BUZINA! (Tina)
O homem continua, xingando ela no meio da rua;
— NÃO VAI PARAR? (Tina)
A mulher pega no banco traseiro um machado e desce de seu carro, indo em direção ao do homem, que era velho e cinza.
— TA RECLAMANDO DO QUE? – ela se aproxima – TA MALUCO? (Tina)
A loura parecia uma louca no meio da rua, gritando e com um machado de ponta vermelha na mão. Ademilson desce do carro, afrontando a mulher.
— Você que é uma maluca com esse carro atravessado no meio da ruas – ele se aproxima dela – (Ademilson)
Tina percebe que ele era meio gago e colocava o s no final de palavras, em um uso inadequado.
— VOCÊ QUE É MALUCO – ela sobe o machado e desce no capô do carro, o perfurando – OLHA O QUE EU FAÇO COM O SEU CARRO! (Tina)
Ela continua a bater no veiculo, amassando ele inteiro.
— OLHA AQUI SE NÃO VAI PARAR – ela bate no farol, o estilhaçando em mil pedacinhos – OLHA O QUE EU FAÇO COM SEU CARRO... (Tina)
O homem entra em desespero, e em meio a desculpas, tenta parar a mulher que estraçalhava o seu automóvel.
— PARA SUA MALUCA – ele não se aproxima dela, com medo – POR FAVOR... MEUS FAROL (Ademilson)
Tina continua batendo, botando toda a raiva que sentia no momento em mira naquele carro; exprimia a sua veracidade por todos os problemas que estava enfrentando.
— Ai meu Deus do Céus... – ele parecia desesperado – meu carro... (Ademilson)
Tina para de machadar o carro, e ainda estressada, olha para o rapaz desesperado. Ainda tremendo, tira seu anel de diamantes do dedo indicador e o joga no capô do veiculo do homem desconhecido.
— Olha aqui... – ela aponta para o anel – pega isso daí e compra três carroças pra você! (Tina)
A mulher se afasta dele, o deixando abalado.
— O que eu vou fazer com isso, meu Deus...? (Ademilson)
Tina ignora o rapaz e entra no carro, e rapidamente, acelera ele para fora daquela comunidade do alemão. Já havia extravasado demais a sua angustia, e agora precisava encarar o mundo real, onde seus problemas eram inimagináveis.
*
AEROPORTO GALEÃO/RIO DE JANEIRO
Leslye sai pelas portas automáticas do despache junto de Leon, com suas malas, em direção ao hall principal do aeroporto. Estava perdida, pensou que desceria no aeroporto Santo Dumont, mas pelo visto, estava errada.
Giovanna a esperaria com uma plaquinha, tida sido clara para ela ser rápida e a encontrar logo. Leslye vestia um vestido à altura dos joelhos, que tinha comprado no Brasil. Tinha ido embora do país com aquele vestido, e voltava para ele com o mesmo.
Logo ela avista uma garota alta com cabelos negros e pele branca como mármore com uma plaquinha, onde dizia:
“Espero Leslye Júlia e Leon Bonaparte...”.
Leon sorri e caminha em direção à garota, e assim que se encontram se abraçam e trocam beijos de cumprimentos.
Fazia 10 anos que não vira Giovanna; tinha ido embora brigada com a garota, por um motivo banal. Desde então, se tinham se falado 1 vez era muito. A última vez que isso aconteceu, foi logo após a morte dos pais da garota, que sofreram um acidente em Paris, em novembro, por um ataque terrorista.
Eles tinham ido a trabalho, e a noite curtiam, quando foram atingidos pelas balas da arma de fogo.
As duas se abraçam e logo após, Giovanna sorri para ela ironicamente. Sabia da rivalidade de ambas, mas não resistira chamar a garota, que era a única de seu circulo social que Romeu não conhecia. Eles namoraram 5 meses, ele conhecia todas as suas amigas e toda a sua família, mas nunca mencionou Leslye e Leon. Também insistira em chama-la para concertarem de vez a briga do passado, onde Leslye, sem querer, queimou o cabelo da garota.
— Eu tenho certeza que não vai se arrepender... – elas se fitam – (Giovanna)
— Eu espero... (Leslye)
Seus olhares eram como facas afiadas se encostando, água e óleo se fundindo.
— Vamos? – ela agora olhava Leon – temos muito que conversar! (Giovanna)
Giovanna caminha pela frente deles, e os mesmos a seguem para a saída do aeroporto.
*
APARTAMENTO DE LILO/BARRA DA TIJUCA/ RIO DE JANEIRO
Lilo olha para o rosto do amado, que brilhava sob a luz do abajur. Victor era um garoto branco e louro, mas magro e baixo. Já Lilo era o oposto, alto e forte, esbanjava uma sexualidade distinta de várias outras mulheres.
Ele beija o garoto na face de sua cabeça e apoia o seu queixo.
— Mais um dia sozinhos no seu apartamento... –ele olha para ele de baixo – você está provocando o destino, sabia? (Victor)
Lilo se afasta e olha o garoto. Sentira a provocação. Há um tempo, Victor queria assumir um relacionamento para todos, o que espantava Lilo, que era um grande empresário. Ele tinha medo de sofrer as consequências de sua exposição no trabalho.
— A não ser que essa seja a sua intenção, claro... – ele engole em seco e fita o teto – talvez esse seu medo seja apenas uma desculpa para nos manter afastados... (Victor)
Sob a luz, Lilo sorri para ele sentido.
— Victor, você sabe que eu te amo – eles se fitam – do fundo do meu coração! E é por isso, que não posso arriscar estragar tudo! (Lilo)
— É. Por que o que os seus sócios pensariam se você fracassasse? Que eu estraguei você, que você se sacrificou e foi até o inferno por mim! (Victor)
— Victor, é claro que eu me sacrificaria por você – ele se aproxima – quando estou com você, ou mesmo sem, só penso em ti. (Lilo)
A aproximação deles estava irresistível, o hálito quente de Lilo roçava o canto do pescoço do loiro, fazendo-o se arrepiar.
— Eu desistiria do meu império por você, eu desistiria de tudo por você... – ele mentia. Amava o garoto, mas se sustentava com o seu trabalho. (Lilo)
Os dois se olham com tamanha intensidade, quase tocando os lábios um no outro.
— Todas as noites que passamos juntos são uma prova... – ele sorri – até perco a noção de tempo quando estou com você! (Lilo)
— Você está sempre exausto e faminto – ele o fita – (Victor)
— Mas não é por isso que eu estou fazendo essas coisas; de te esconder... – ele morde os lábios – (Lilo)
— Então, por quê? (Victor)
— Por que eu não quero te culpar pelos meus erros – ele, com o dedo polegar, roça carinhosamente a face do garoto – e é um menino que bota a culpa nos outros, não um homem! E é por isso que eu quero ficar com você, escondido, sem ninguém saber. (Lilo)
Eles apenas se olham, e Lilo se aproxima mais e mais... Em direção ao dedo anelar do garoto, ele amostra seu dedo, revelando um anel prateado. Uma aliança de namoro.
— Não vai demorar muito. Eu prometo. (Lilo)
Lilo fitava o dedo do garoto com a aliança que ele comprara a não muito tempo. Ele desce os lábios em seus dedos e beija o centro do anel, fazendo o garoto de arrepiar novamente.
Victor puxa Lilo para si, e eles quase voltam a se beijar, mas o homem o interrompe.
— Vou te levar pra casa... – ele sussurra em seus ouvidos – (Lilo)
Victor assente e Lilo se afasta, indo para o banheiro se vestir. Ainda enrolado nos cobertores, Victor fita o anel em sua mão e bota sua calma nele, acreditando que tudo ficaria bem.
*
CASA DE KAROL/ GRAJAÚ/ RIO DE JANEIRO
Nathalia limpa os vidros da sala com uma bucha, enquanto a mãe deitava no sofá vendo a novela das nove. A garota tinha longos cabelos pretos e não era muito alta, com um corpo magro.
Karol era o oposto dela. Obtinha cabelos loiros pintados e um corpo estrutural, que como Tina, não aparentava estar no ápice da idade.
— Essa novela é insuportável... – ela revira os olhos – (Karol)
Karol comia um pedaço de pão com queijo, em cima de seu estofado de couro falso. A casa onde as duas se encontravam era pequena, e na sala só tinha os móveis normais, com uma televisão e um vaso de flor – que estava morta.
— É chata? – ela continuava esfregando – então por que você não vem limpar...? (Nathalia)
— Por que eu já lavei o banheiro – ela olha para a filha – ta querendo se aproveitar de mim? (Karol)
Nathalia não responde e coloca a bucha no balde com água, e quando volta a se virar para os vidros ensaboados, avista um carro preto encostando-se à frente da casa de seu vizinho, Victor.
— Aí o Victor de novo... – ela dá uma risadinha – sempre chegando nesse carro cheio de insulfilm ébano. Eu já disse – ela se vira para a mãe – esse garoto está se envolvendo com um homem muito rico. (Nathalia)
As duas sempre viam o garoto chegar num carro luxuoso, e da última vez, conseguiram ver que era um homem – de não muita idade – que acompanhava o garoto de programa.
Karol se aproxima da janela e observa Victor saindo do carro e entrando em casa, com um enorme sorriso no rosto.
— Quando vamos poder usar nossa gravação? (Nathalia)
— Ela é muito valiosa, precisamos ter certeza de que ele está tendo um caso com esse homem... (Karol)
— Mais certeza do que já temos? – ela a interrompe e começa a caminhar pela sala, deixando o balde com a esponja no chão – mãe ele chega todos os dias com esse carro, já foi garoto de programa... (Nathalia)
— Mas o que nos garante que ele é gay...? Não temos contato com ele! (Karol)
— Eu tenho certeza de que já o vi ficando com um garoto numa festa – ela sorri – eu estou cansada de viver miseravelmente. Quero subir; não quero morrer no Grajaú, e as chances da minha vida estão nesta fita... (Nathalia)
— Eu não sei filha... – ela parecia tensa – (Karol)
— Foi você que o gravou e depois teve essa ideia... – ela fita a mãe com um sorriso esperançoso – nós iremos usar isso contra ele. Vamos conseguir todo o dinheiro que ele obtém desse rapaz, e finalmente vamos ficar ricas! (Nathalia)
*
APARTAMENTO DE GIOVANNA/ GRAJAÚ/ RIO DE JANEIRO
Leon coloca a última mala no quarto e volta para a sala, onde sentavam sua irmã e a sua prima. Sentia uma tensão entre as duas. Sabia da briga. Quando acidentalmente Leslye colocou fogo no cabelo da outra, a defendeu com unhas e dentes, mas não foi o suficiente para ela levar uma bronca.
— E então...? (Leon)
— Você poderia me deixar a sós com sua irmã? – ela sorri para ele – temos muito que conversar. (Giovanna)
— Claro – ele gagueja – vou andar pelas ruas... Relembrar os velhos tempos! (Leon)
Giovanna assente e Leslye sorri para o irmão, fitando-o com olhos que diziam que tudo ficaria bem. Ele sorri de volta e sai pela porta da frente, deixando as duas garotas sozinhas.
A morena senta ao lado da loura no sofá, apresentando um contraste entre as duas. Possuíam o mesmo tom de pele, mas os olhos e os cabelos eram totalmente distintos.
— Isso que você quer falar comigo... – ela engole em seco – a divida que tenho que te pagar por estar aqui... Está batucando em minha cabeça desde Seattle. (Leslye)
Leslye tinha medo de Giovanna pedir para ela fazer coisas obcenas, ou no meio da noite botar fogo em seus lindos cachos loiros.
— Por que você me chamou aqui? Não quer me trotar, né? (Leslye)
— Não, não – ela abre um sorriso – está tudo na paz! – elas se fitam – eu queria te fazer uma pergunta... (Giovanna)
Leslye apenas ouve.
— Você aceitaria mudar sua vida radicalmente? (Giovanna)
— Eu? Sei lá... – ela suspira – acho que não... Eu até gosto da minha vida parada; dizem que é legal ser diferente... (Leslye)
— Ser diferente é uma coisa, tosquinha é outra – ela aumenta o tom de voz – tem certeza que essa vida parada é legal? (Giovanna)
Leslye não responde; apenas a fita tentando descobrir aonde ela queria chegar!
— Eu posso mudar tudo... – ela sorri – posso te deixar morar aqui, posso te arrumar amigos, pretendentes... (Giovanna)
— Ah tá – ela é irônica – e quem é você para fazer isso? A fada madrinha da gata borralheira? (Leslye)
— Numa versão trabalhada na competência – ela se aproxima – (Giovanna)
— E você resolveu querer fazer tudo isso de graça? (Leslye)
— Claro que não – ela volta a se afastar – tem um preço... (Giovanna)
— O que? (Leslye)
— Te ajudo a ser cool, realizo todos os seus sonhos de popularidade... – ela fita a garota com seus olhos de gato – mas aí, você me ajuda numa vingança! (Giovanna)
Leslye dá uma risadinha nervosa e começa a negar com a cabeça.
— Vingança? – ela reprova – eu não sei não... Eu não gosto de violência! (Leslye)
— E que mané violência, minha filha? Minha vingança é só na paz – ela sorri – como vocês americanos dizem... Só love. (Giovanna)
Elas continuam se encarando.
— Até ai você só vai ter que conquistar o Romeu, uma delicinha né? – ela fica acuada – (Giovanna)
Leslye fica sem entender. Não conhecia Romeu.
— É? (Leslye)
— Orra – ela pisca – mas isso nos leva a segunda parte da vingança... Por mais delicinha que ele seja, você vai chutar o Romeu assim que eu quiser! (Giovanna)
— Esse é o preço? – ela a olha irritada – conquistar e chutar esse Romeu? (Leslye)
— Nada, além disso... – ela falava de uma forma elegante, como Leslye nunca tinha visto antes – (Giovanna)
A morena oferece a mão para a garota, como uma forma de fecharem o acordo.
— E aí? – elas continuam se fitando – topa ou não? (Giovanna)
*
PARQUE BOSQUE DA BARRA/ RIO DE JANEIRO
Joanna sentava na beira do lago, com Edgard ao seu lado. Desde que conhecera o homem, não tinham parado de se falar, e já se conheciam demais. Edgard era seu único amigo, a única companhia que ela tinha naquela imensidão. Ainda não tinha a coragem de procurar por sua família biológica, pois sentia que estivesse traindo o amor do pai e da mãe adotivos.
— Você precisa procurar por eles... – ele olha para ela – sabe disso! (Edgard)
Desde que conhecera a garota, Edgard não se reconhecia. Não tinha ido nenhuma vez fazer sexo forçado com Stephanie, que deveria estar surtando de felicidade por ele tê-la deixado em paz. Jojo mudava algo dentro dele, que ele tentava lutar contra.
— Não, eu não vou e não quero – ela balança a cabeça – (Jojo)
— Mas não é uma questão de querer ou não, você tem de procura-los – a garota fitava o lago – olha aqui... – ela se vira para ele – eu tenho certeza que essa sua nova família vai te tratar bem... (Edgard)
Essa foi uma das únicas informações que Joanna não tinha lhe contado: o sobrenome e os integrantes desta família!
— Como é que você pode ter tanta certeza assim? – ela o encara com seus olhos fundos e azuis – Eu já passei isso antes com meus avós. Eu não entendia por que eles me maltratavam tanto... (Jojo)
— Eu acho normal você ficar preocupada, claro... (Edgard)
— E toda vez que a gente volta pra casa pensamos que tudo vai se resolver, que eles poderiam estar só num dia ruim... – ela gagueja – só que nunca se resolve! (Jojo)
Edgard fita o chão, sem o que falar para a garota.
— E você sabe muito bem disso, Edgard... (Jojo)
— Pelo menos me diz que vai pensar no assunto... – ele engole seco e olha para ela – (Jojo)
Ela sorri.
— Isso eu posso prometer... (Jojo)
Eles se fitam, sorrindo. As maças do rosto de Jojo ainda o fascinavam, e cada vez que ela sorria, seus dentes brancos pareciam que o acordavam de um transe o iluminando.
— Isso também está me incomodando, mas tem outra coisa que está me preocupando muito mais... (Jojo)
— O que? (Edgard)
— A solidão (Jojo)
Ela pega uma pedra cinza e gélida e a ataca na superfície do lago, e ela rapidamente afunda.
— “Do atrito de duas pedras chispam faíscas; das faíscas vem o fogo; do fogo brota a luz”— ela cita – eu às vezes me sinto muito sozinha. Depois de tudo que aconteceu com meu pai... E mesmo não me conhecendo direito, você – ela suspira – está se tornando muito especial pra mim... (Jojo)
— Você também é muito especial para mim, Joanna – ele assente – (Edgard)
— Eu sinto que com você eu posso falar sobre tudo – ela dá uma risadinha – por isso que eu te amolo tanto... (Jojo)
Ele retribui a risada.
— Mas isso é verdade, você pode contar comigo pra tudo! – ele pega as mãos da garota – você sabe! (Edgard)
Eles se fitam diferente, com uma intensidade avassaladora. Jojo sente a eletricidade da mãos dos dois quando se tocam, e rapidamente a puxa para si. Estava vermelha. Nunca havia tido um relacionamento, o que era razão de muitas criticas da mídia.
Sem dizer mais nada, eles ficam em silêncio, acompanhados das luzes de vagalumes, observando o lago clareado sob a luz da lua.
*
APARTAMENTO GIOVANNA/ BARRA DA TIJUCA/ RIO DE JANEIRO
— Me deixa ver se eu entendi... – ela estava irritada – você quer que eu te ajude a trollar um ser humano? (Leslye)
A garota parecia indignada, o que deixou um pouco Giovanna sem reações.
— Um ser desumano – ela a fita – que merece ser zoado, trolado, tudo... (Giovanna)
— Tanto quanto eu mereci ser esmolambada antes de ir pra Seattle? – ela é irônica – (Leslye)
— Aquilo é... É passado – ela gagueja – olha pro futuro! Se você fechar comigo, não vai ter de se preocupar com nada. (Giovanna)
— Olha só... – ela é direta – eu posso ser deprimida, flopada e uma sem amigos! Mas otária – ela reprova com a cabeça – não! Se você acha que eu vou aceitar essa sua proposta em troca de popularidade, a otária aqui é você! (Leslye)
— Eu quero te proporcionar só alegria... – ela suplica para a garota – você deixa de ser assim e ainda por cima pega o Romeu... (Giovanna)
— Primeiramente, eu gosto de ser assim, apesar de ninguém entender isso – ela piscava rápido – segundo, eu não quero pegar esse cara. Se eu já vi ele alguma vez nem me lembro da cara... (Leslye)
Giovanna a interrompe.
— Ah então foi por isso que você ainda não topou – ela é sarcástica – se você visse... – ela revira os olhos derretida – olha, você nunca beijou um cara tão gato na sua vida... Alias você já beijou alguém na vida? Tão depressiva que tem cara que nem sai de casa... (Giovanna)
— Isso não te interessa – ela se levanta do sofá – e não, eu não quero me aliar a você! Inclusive vou ligar agora mesmo pro meu apartamento em Seattle dizendo para tirarem a plaquinha de aluga-se para a minha volta. A minha e a do Leon. Esquece-me! (Leslye)
A loira vai até sua bolsa de mão e pega o seu celular, discando um número e indo para a pequena cozinha do apartamento.
Giovanna sorri e sussurra para si;
— Você vai ver que não tem que querer priminha... (Giovanna)
Leslye coloca o telefone nos ouvidos e o sindico do apartamento a atende. Aquele condomínio dela era especialmente para brasileiros que moravam lá, então a maioria falava português.
XV: Alô é o seu Patrick? (Leslye)
XV: Sou eu sim, por quê? — ele grunhe – quem fala? (Patrick)
XV: Sou eu, a Leslye!
XV: Ah sim, reconheço. (Patrick)
XV: Então, eu queria dizer para o senhor que meu apartamento não está mais em condições de ser alugado... (Leslye)
XV: O seu apartamento já foi vendido — ele exclama – foi doado a leilão pela filha da irmã da dona, que tinha total poder sobre... (Patrick)
XV: Você está falando sério? — ela gagueja – não pode ser... Ela não pode... (Leslye)
XV: Ela tem total direito, foi à mãe dela junto com a sua que comprou esse apartamento — ele suspira – sinto muito, mas eu tenho que ir! To com a panela no fogo. (Patrick)
XV: Tudo bem... — ela segurava as lágrimas – me desculpe por incomoda-lo... (Leslye)
Ela desliga o telefone.
*
PRAÇA EDMUNDO REGO/ GRAJAÚ/ RIO DE JANEIRO
Stephanie caminha rápido por entre a rua da praça; tinha ido entregar a compra de um cliente de sangue, e seu carro tinha dado defeito na garagem.
Ela para no ponto de táxi e espera, com medo, um.
Leon andava pela praça, admirado com tudo que havia mudado desde que se mudara para Seattle.
A praça era relativamente pequena, e tinha um aglomerado de pessoas andando de um lado para o outro. Ele passa pelo ponto de táxi e fita uma garota alta, morena e bonita, de olhos verdes, totalmente distinta do que o pessoal do Grajaú vestia. Parecia uma gringa, uma modelo internacional. Ele se encanta por ela, e se aproxima.
Um taxi para na frente do ponto, e Stephanie tenta o pegar, porém é ignorada pelo motorista.
— AI, QUE ÓDIO (Stephanie)
Leon sorri para ela, que parecia uma onça de tão nervosa.
— Está sozinha, gata? (Leon)
Stephanie se vira para ele, e seus cabelos a acompanham com um movimento irreparável. Ela o olha de cima a baixo; nunca tinha visto um garoto tão bonito na vida. Seu tipo sempre fora os loiros de olhos azuis, com exceção de Edgard, claro!
— To – ela é seca – (Stephanie)
— Que pecado... – ele sorri – deveria ser proibido uma garota tão linda feito você, ficar sozinha. Ainda mais a noite... (Leon)
Stephanie apenas o olha com seus olhos famintos, que brilhavam sob a luz da lua.
— Quer que eu te leve em casa? (Leon)
Ela sorri.
*
SHERATON BARRA HOTEL / RIO DE JANEIRO
Jojo estava deitada na cama pensando. Tinha passado uma noite maravilhosa com Edgard, que a fizera se questionar. Será que deveria realmente pesquisar sobre a sua família? A curiosidade bate mais alto e ela se levanta da cama, indo até a sua mala pegar a sua certidão de nascimento. Aquele não era sua certidão de nascimento real; era apenas aquela que foi feita antes dela ser adotada por João.
Ela fita o nome de Gael, seu pai, e pega o notebook para começar a digitar. Nas primeiras páginas dos blogs de fofoca ficavam escritos
“Joanna Patterson é vista com homem misterioso em parque pela segunda vez...”.
Mas ela ignora e vai ao que interessa, jogando o nome de Gael no search de procuração. Joanna é levada a uma página do Google com várias matérias sobre Gael Costa França; ela aperta em uma e é direcionada a um site de empresas. Ela avalia a foto do homem estampada. Realmente se parecia com ela... Seus olhos correm pela reportagem sobre ele e se deparam com a foto do mesmo com uma garota, não desconhecida por ela. A semelhança era inevitável. Era também filha dele.
A garota da rua. Aquela que ela salvou de ser atropelada.
Stephanie Costa França.
*
APARTAMENTO GIOVANNA/ GRAJAÚ/ RIO DE JANEIRO
Leslye continuava encostada na mesa de vidro, sem conseguir acreditar na barbaridade da prima. Giovanna entra na cozinha, e a fita, encontrando a garota com os olhos cheios de lágrimas. Ela se aproxima da loura, com um ardor no rosto de satisfação. Para de frente para ela, no outro lado da mesa.
— Aconteceu alguma coisa, Leslye? – a ironia percorre sua voz (Giovanna)
Leslye levanta a cabeça e olha para a garota. Queria voar nela e queimar seus cabelos novamente.
— Larga de ser falsa – ela suspira – você sabe que sim! (Leslye)
Giovanna sorri novamente com um ar de satisfação, e deixa a cabeça pender pelo lado direito do ombro.
— É claro que eu sei o que aconteceu – ela a fita – e não vou mentir para a minha futura aliada. (Giovanna)
— E eu não vou me aliar a você – suas palavras são duras – por nada neste mundo. (Leslye)
— Nem por um instinto de sobrevivência? – ela a corta – pensa bem, se você fechar comigo, vai ter uma casa, não vai precisar ser despachada para a rua – ela caminha ate atrás da garota – agora, se não fechar... (Giovanna)
— Isso é uma ameaça? – ela interrompe a morena e olha para seu rosto, as duas se encaravam como se estivessem em uma batalha. Há 10 anos, tinha sido assim, quando a outra pensou que Leslye tinha queimado seu cabelo – (Leslye)
— É um convite à reflexão – ela sorri – eu diria até que uma segunda chance! E ai? – ela aperta os olhos – você vai ou não vai querer mudar de vida? (Giovanna)
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