A Última Chance
19 Capítulo 19 - E nem dá mais para esconder
Notas iniciais
— Ela está cantarolando de novo — Leah sussurrou para as outras duas criadas, olhando de relance para Annie. — Eu não entendo essa menina.
— Vocês são burras — disparou Jane, entrando no quarto.
— Jane! — Annie abriu um sorriso de ponta a ponta do rosto. — Bem quem eu queria ver.
E então ela, naturalmente, contou a Jane tudo o que havia acontecido.
— É, o sr. Charlie me disse — ela esperou que a garota tivesse terminado a história toda para dizer isso. — E ele contou a história de forma bem similar.
— Sério? — os olhos de Annie brilharam. — E, antes que você diga alguma coisa, eu sei que ainda tenho muito a fazer, blá blá blá.
— O que quer dizer?
— Quero dizer... Eu gosto dele. Isso não quer dizer que eu jogaria meu país de bandeja nas mãos dele. Trabalhei muito por isso. Não posso ser precipitada. Não posso... Você sabe.
— Se apaixonar?
— Se apaixonar é dar a alguém a capacidade de destruir você totalmente.
— Se apaixonar é confiar o suficiente na pessoa para ter certeza de que ela não vai fazê-lo — rebateu Jane.
Annie não respondeu de imediato.
— Não era ao amor que eu me referia.
Jane levou alguns segundos para entender.
— A senhorita não confia totalmente nele, não é?
Annie escondeu o rosto, se levantando.
— Tenho que ir.
— Charlie é um bom rapaz, Alteza.
— E isso deveria ser suficiente?
* * *
— Me diz de novo: por que eu estou te contando isso? — Charlie ergueu uma sobrancelha para Zack.
— Hã... Porque eu te enchi o saco.
— Certo. De novo: não aconteceu nada — o moreno mentiu, tentando soar descontraído.
Ele não sabia direito o que acontecera entre ele e e Annie, mas certamente não classificaria como "nada".
Depois da ligação de Charlie para casa, Quarta-feira tornou-se o dia oficial de todos os Selecionados ligarem para casa.
Annie estava com Charlie quando ele se lembrou da ligação. Eles correram até o telefone e Charlie discou o número. Depois de conversar com os pais e a irmã mais nova, Annie fitou-o:
— Posso falar com ela?
— Paçoca, a Princesa quer falar com você — disse ele ao telefone. — Posso passar para ela? Ok, então — ele entregou o telefone a Annie. — Ela deixou.
Annie sorriu.
— Olá!
— Oi! Você é a Princesa?
— Sim, sou eu.
— Então... Você é a namorada do meu irmão?
Annie enrubesceu e ficou feliz por Charlie não estar ouvindo a conversa.
— Não é bem por aí...
— Então vocês não fizeram aquela coisa de beijar?
— Por que o Charlie chama você de Paçoca? — perguntou a moça numa tentativa desesperada de mudar o assunto.
— Porque ele é bobão. Eu nunca consegui achar um jeito legal de chamar ele.
— Bem, eu o chamo de Pêssego. Longa história.
— Pêssego... — a garotinha refletiu. — Isso é brilhante!
— Annie! — a moça ouviu uma voz feminina chamá-la. Que estranho. Olhou em volta, mas não viu ninguém.
— Que foi? — respondeu a irmã de Charlie.
O chamamento vinha do telefone.
"Gosto do seu nome. Já disse isso? Gosto do seu nome"
"Por quê?"
"Traz boas memórias"
— Seu nome é Annie? — a Princesa perguntou.
— É.
— Ei, Annie é o meu nome!
— Eu roubei seu nome! — a irmã de Charlie começou a rir. — Espere um minutinho. Que é, mãe? — pausa. — Com a Princesa. É. É, a do Charlie. Tenho que ir, Annie. Tchau!
— Tchau, foi um prazer!
Annie desligou o telefone e encarou Charlie.
— Por que não me disse que o nome da sua irmã é Annie?!
— Annalise — ele corrigiu. — Sei lá. Mas é um ótimo nome, não é? Sempre vem de garotas que viram minha vida de cabeça para baixo.
Annie tentou ao máximo não corar. Era tão injusto que Charlie mexesse tanto com ela!
— Ainda estou te devendo uma aula de violão, não é? — Charlie lembrou.
— É, mas... Eu não posso agora. Tenho que ir, na verdade.
— Aonde?
Annie mordeu o lábio. A hesitação para responder deu a Charlie uma resposta.
— Jasper — ele suspirou.
Annie não disse se ele estava certo ou não, o que também foi uma resposta.
Sem dizer mais nada, Charlie beijou-a levemente nos lábios. Ela o fitou, surpresa.
— Para que foi isso?
— Para que você se lembre de mim — Charlie sorriu.
— Você está tornando as coisas muito difíceis, Hutton.
— Ou muito simples. Jasper está esperando. Ainda quer ir?
Jasper podia ser basicamente um príncipe, mas o charme de Charlie era incomparável. Principalmente agora que ele tinha noção de o que aquele charme causava em Annie.
Annie segurou-se para não pular no rapaz e beijá-lo direito. Ao invés disso, apenas disse:
— Tchau, Charlie.
— Tchau, Annie.
* * *
Depois do encontro com Jasper, Lucius arrastou Annie até uma reunião com a mãe e o Conselho. Como sempre que estava diante deles, a Princesa tentou não demonstrar o nervosismo colossal que sentia.
Principalmente quando ia para uma reunião com Charlie na cabeça, o que basicamente acontecia em todas as reuniões.
— Boa tarde — ela tentou sorrir e se sentou rapidamente na ponta da mesa. — Como estão?
— Jasper Blakewood. Michael Waysen. Zachary Woodsen. E Charles Hutton — Phileas Leon, um dos anciãos mais respeitados do Conselho, encarou Annie, o que fez com que ela se sentisse como uma garota de 14 anos prestes a ser colocada de castigo. — Esses nomes têm alguma relação para a senhorita?
— Tenho quase certeza de que são todos Selecionados — ela tentou expurgar o sarcasmo da voz.
— Esses quatro rapazes parecem ser os únicos com quem a senhorita conversa.
— Converso com Brad também — ela murmurou. — Brad Cavanaugh.
— Certo, que seja. A senhorita acredita que o futuro rei de Iléa está entre esses cinco rapazes? Porque, nesse caso, não compreendo o que os outros oito ainda estão fazendo aqui.
— Estou mantendo aqui exatamente quem eu acho que tenho que manter aqui — replicou ela, autoritária. — O senhor tem alguma oposição?
— Vamos falar sobre esses garotos — a Rainha America sorriu. — Annabelle parece ter passado muito tempo com Jasper nos últimos dias.
— Ele é um bom rapaz. Muito cortês, confiante e fala bem em público — disse Annie, temendo o que viria depois. Não conseguiria falar tão vagamente assim de Charlie. Só esperava que a relação deles não estivesse estampada no rosto dela. Não sabia se conseguiria lidar com isso.
— Parece ser um dos favoritos do público — intrometeu-se Lucius, lendo as anotações. — Possui vasto conhecimento na História de Iléa e nos costumes, além de ser educado e vir de uma família decente.
— Família decente?! — Annie ergueu o tom de voz. — Qual o seu conceito de família decente?! Você sequer conhece a família de algum dos rapazes! Isso aqui não vai virar uma disputa de Castas!
— Estou apenas apontando os motivos que tornam Jasper um candidato favorável ao trono de Iléa — defendeu o homem, calmo.
Annie odiava como ele sempre mantinha a calma, favorecendo-se do jeito enérgico dela.
— Certo, por que o senhor apenas não se junta às outras tiétes com uma camiseta e um pôster Team Jasper?
A Rainha America segurou um riso. Os respostões de America certamente haviam sido transmitidos nos genes da filha.
— Basta! — Phileas bateu com os papéis na mesa. — Próximo assunto. É de nosso conhecimento, Alteza, que a senhorita mantém Charles Hutton na disputa, apesar da oposição de seu mentor, Lucius.
— O sr. Charles vai ficar. Isso não está na discussão.
— A decisão não é inteiramente sua.
— A decisão final é dela, sim — America se intrometeu, cerrando os dentes. — O Rei Maxon apoiará qualquer que for a decisão de Annabelle, assim como eu e todo o povo. Os senhores não vão manipulá-la como tentaram fazer com o meu marido, não enquanto eu for Rainha dessa espelunca! — ela bateu com os papéis na mesa para imitar Phileas. — A reunião acabou.
Quando Annie saiu da sala, America a segurou:
— Criei uma bela bagunça por esse rapaz — ela sussurrou. — Espero que ele valha a pena.
— Eu também espero — Annie desviou o olhar. — Obrigada.
E saiu andando. Manter um rapaz da Quarta Casta sem nenhum motivo aparente não seria nada fácil, ela sabia disso. Mas mandar Charlie para casa seria infinitamente pior.
— Annie? — Charlie a viu e se aproximou. — Tudo bem?
Ela assentiu lentamente e o abraçou com força, afundando em seu peito. A Rainha America os fitava de longe com um leve sorriso.
— Annie, sua mãe...
— Minha mãe é uma das únicas pessoas que não dá a mínima para o que Lucius acha — disse a Princesa, sem soltá-lo. — E Lucius odeia você. Então, acredite quando digo que não sei o que aconteceria se ela não estivesse lá.
— Annabelle, a decisão é sua.
— Não funciona bem assim — ela torceu o nariz. — Mas vou fazer funcionar.
— O que quer dizer?
— Quero dizer... — ela mordeu o lábio. — Por favor. Não arrume confusão com Lucius.
— Mas é ele quem...
— Charlie. Por mim? — ela o fitou por um minuto.
Charlie suspirou.
— Como dizer não quando você me olha assim?
Annie sorriu.
— Obrigada.
* * *
— O senhor está quieto hoje, Hutton — Lucius abriu um sorriso presunçoso depois de ter provocado Charlie pela quinta ou sexta vez na aula de História. O rapaz não revidou uma vez sequer.
— Tente não soar tão decepcionado — comentou Zack, com um sorriso travesso no rosto.
Lucius ficou quieto depois daquilo. Depois que a aula acabou, Charlie correu até o ruivo.
— Ei. Valeu por colocar aquele babaca no lugar dele.
— Sem problemas — Zack deu de ombros. — Tem alguma coisa planejada para agora?
— Não...
— Ótimo, eu e os outros Selecionados vamos fazer um social amigável no salão de jogos. Coisa do Jasper.
— Estou ferrado, não estou? — Charlie abriu um sorriso travesso.
— Ah, pequeno Charlie — Zack suspirou, rindo, e arrastou o outro rapaz até o salão.
Os treze Selecionados se sentaram em pufes e um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente. Lucius havia liberado alguns salgados, então todos fingiam estar plenamente interessados na comida.
— A Princesa tem parecido estar mais distante esses dias — Jasper quebrou o silêncio, tentando soar casual. — Alguém notou?
A maioria dos Selecionados resmungou que quase não falava com a Princesa, enquanto Zack simplesmente disse:
— Não, não notei. Ela estava agindo normalmente nas últimas vezes em que a vi — Zack deu de ombros. — Você notou alguma coisa, Charlie?
Charlie quase cuspiu a coxinha que nem percebeu que estava mastigando. Quase não falava com os Selecionados sobre Annie — exceto com Zack e com Jasper às vezes —, e o plano de fingir que nem falava com a Princesa fora por água abaixo há algum tempo. Ele já se tornara uma ameaça diante dos outros rapazes, mas continuava fingindo que não sabia de nada.
— Não, não notei — respondeu rapidamente e voltou a comer a coxinha. Depois, pegou seu violão e ficou dedilhando no canto da sala, rezando para que os outros esquecessem que ele existia.
Não deu certo.
— Você só sabe essa música? — Brad ergueu uma sobrancelha e Charlie percebeu que estava tocando Lágrimas de Ouro de novo. — Sempre está tocando ela.
— É a preferida da Annie — Charlie deu de ombros.
Foi só quando as conversas baixaram e todos os olhares cravaram nele que percebeu o tamanho do estrago que havia feito.
— De quem? — Jasper ergueu uma sobrancelha.
— Da minha irmã mais nova. Annalise — respondeu Charlie rapidamente, e passou o resto do dia orgulhoso do próprio pensamento rápido.
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