Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a Morangochan :3 Peço perdão pelo tempo que levou para esse capítulo ser postado. Em fevereiro eu me mudei para Fortaleza e ainda estou em processo de adaptação. Ou seja, além de ter ficado sem tempo, peguei uma vibe de bloqueio criativo. Por sorte não foi um bloqueio que durou muito tempo. Estou de volta. Talvez esse capítulo não seja tão emocionante para você, mas achei que deveria ter um capítulo como esse pra acalmar as coisas, introduzir novos assuntos e preparar você para o que vai vir no próximo capítulo. Vai ser babado :v PS: me perdoem (e avisem nos comentários ou privado) se houver algum erro de digitação ou ortográfico. Estou sem editor com corretor e dei uma revisada no capítulo, mas as vezes algumas coisas escapam, né? Boa leitura ♥

Tão raro quanto o sol, é o crepúsculo de Shaper's Green. A imensidão laranja jazia numa moldura que era a janela da sala, perfeitamente calma e harmônica.

"Irônico" é a palavra que me é conveniente quando se trata de resumir o modo como dias bonitos acabam com a minha vida. Pois, enquanto as nuvens balançavam nos céus sob o ritmo no vento meus olhos lacrimejavam, meu coração ainda estava à mil, a pia se encontrava toda vomitada e meu corpo completamente empapado de suor.

Nathan foi perfeitamente claro em nossa conversa quando explicou que as consequências de minhas ações seriam bem infelizes. Desde então não pude impedir o pânico que vinha crescendo dentro do meu peito. Para ser franca, estava com tanto medo que mal me aguentava em pé.

"Lastimar" significa arrepender-se ou, na maioria das vezes, desejar que algo nunca tenha acontecido. Por exemplo, eu lastimava por não ter dado ouvidos a Elizabeth quando ela me disse para não falar nada com Amanda Byron. E como nota adicional de minha frustração: não acredito que me deixei impressionar apenas por um par de peitões.

Claro que além da raiva e frustração, tinha a vergonha de mim mesma, a decepção. Onde estava a Lílian Maxine madura que prometi ser? O medo de ser surrada não chegava aos pés do que sentia só de pensar na reação de Mila caso descobrisse o que estava acontecendo. Claro que eu não sabia exatamente o que ela faria quanto a isso, já que não nos conhecemos muito bem. Porém minha imaginação conseguiu criar várias reações, cada uma me deixando mais preocupada do que a outra.

Para agravar meu estado o toque do celular era constante, ensurdecendo meus ouvidos e tirando o pouco de juízo que me restava. Verifiquei novamente quem estava mandando tantas mensagens e era Elizabeth, claro. Se bem que a atitude da garota não era absurda, pois reconheço ter agido de modo estranho após Nathan me arrastar para conversarmos. Mas a questão é que eu não estava pronta para dividir minhas questões com ninguém, nem mesmo com ela.

— Será que dá pra parar pelo menos por um minuto?!

Recompor-me seria ainda mais difícil com o celular tocando a todo instante. E eu sei que não precisava ter gritado e arremessado o aparelho para o outro lado da sala, mas aquele era meu limite. Para explodir, faltava menos do que um grão de arroz. Respirei fundo mais uma vez, na tentativa de me acalmar antes de me deitar ali mesmo no chão.

Traumatizada pelos acontecimentos de um dia ensolarado, a pálida manhã de sábado nasceu como um trunfo. Enquanto trançava meu cabelo como dizia o rito, recordava-me de um sonho bizarro sobre uma garota que abria um buraco com o próprio punho na calçada de concreto.

Não demorou muito para concluir que ficar trancada no apartamento o dia todo não era uma opção saudável. Por isso decidi que seria melhor sair para caminhar, aproveitando o fato de que ainda não chovia. Vesti minhas calças, moletom e calcei um par de botas. Saí e tranquei a porta do apartamento. Eram nove da manhã, normalmente os moradores vão trabalhar às sete ou oito, o que faz ter sempre um reboliço dentro do elevador. O horário tardio era o que me dava garantia de uma descida tranquila até o primeiro andar.

A senhora de queixo comprido da portaria usava um coque e estava de cara enfiada num jornal como habitualmente fazia. O chão estava muito limpo, mas nada de novo era perceptível. E eu só estava olhando para a porteira, pro chão, pro teto e para as teias de aranha porque era uma tentativa ridícula de não pensar no CLEAS.

Respirei fundo mais uma vez, pus as mãos dentro dos bolsos e fui andando pela calçada até me deparar com vários moradores do Green Place amontoados. A curiosidade fez com que eu me aproximasse e tentasse ver do que se tratava ficando nas pontas dos pés.

— Cidadãos, por favor, se afastem. Não podem ficar perto do buraco, é para a segurança de vocês. — dizia o bombeiro.

— Buraco?

A primeira coisa que pensei foi em meu sonho. Então me pus a dar uma risada nervosa, afinal era uma coincidência incrível sonhar com um buraco aberto no concreto, ir para rua e encontrar um igual.

— O bombeiro disse para se afastar.

Ergui os olhos deparando-me com a figura magra de Nathan e na mesma hora senti o estômago revirar. Eu não tenho nada contra o loiro, muito pelo contrário. Ele vem me ajudando desde que nos conhecemos e eu seria incapaz de desprezá-lo só por ter me aterrorizado ontem. Mas como já falei, simplesmente não quero lembrar de nada relacionado ao ocorrido com Amanda Byron, coisa que Nathan possivelmente me lembraria ali.

— Oi. — o cumprimentei. Creio que meu desconforto era visível a quilômetros de distância. Mas por algum motivo ele resolveu fingir que não havia reparado.

— Não acha intrigante um buraco como esse aparecer da noite para o dia?
Se para ele o misterioso buraco era intrigante, imagine o que o buraco seria se ele tivesse sonhado com o mesmo ao invés de mim.

— Mas por que todos estão tão alarmados por causa de um mísero buraco? — questionei com os braços cruzados rente ao peito.

— Porque a moradora do segundo andar caiu nele.

Escancarei os olhos com espanto. Em meu rosto claramente lia-se um "o quê?!". Pelo visto eu havia subestimado o tal buraco que nem ao menos pude ver por conta da quantidade de pessoas em volta.

— Os óculos dela estavam em manutenção. Ela caiu porque pensou que o buraco era uma mancha gigante de chiclete na calçada.

— E por que teria uma mancha gigante de chiclete na calcada?

Ele deu de ombros:

— Estou repetindo o que me disseram.

Permanecemos por quase um minuto olhando o tumulto com as mãos enfiadas nos bolsos.

"Diga que vai embora, mande ele ir pastar".

"ESPERE! Mande ele ir pastar, mas seja delicada"

O loiro virou-se para mim:

— Posso falar com você?

— Claro.

A resposta automática me fez querer dar vários tapas na boca para castigar a mim mesma. Porém consegui conter-me, não deixando evidente o que estava sentindo. Eu sabia que Nathan ia querer falar sobre ontem e isso me desanimava muito porque eu não queria conversar sobre isso, mas também não queria dizer para Nathan calar a boca. Então, na espera de um milagre, me fiz de desentendida:

— Do que se trata?

Primeiro pediu para que nos afastássemos dali. Concordei com a cabeça e seguimos andando pela calçada tomando um pouco de distância do tumulto em torno do buraco. Quando já tínhamos andado o suficiente, ele começou:

— Eu te assustei muito ontem, não é mesmo?

— Sim. — não pude discordar.

— Sinto muito por isso. Acho que exagerei.

Nathan era do tipo de pessoa que conversa sem tirar os olhos dos seus. Eu conheci um cara assim na escola militar, as vezes ele chegava a ser intimidante. Dizem que o olho é o espelho da alma. Pois bem, eu não queria ninguém encarando os meus espelhos.

— Você me perdoa? — o loiro quis saber.

— Sim, claro. — respondi. Nathan pareceu mais aliviado com a resposta, como se tivesse soltado um pesadíssimo saco de batatas.

— Obrigado.

— Mas... — balbuciei. Nathan automaticamente arqueou as sobrancelhas.

— Por que você se importa?

— Quê?

— Estou perguntando por que se importa. Nos conhecemos a pouco tempo, somos apenas vizinhos. Você não tinha a obrigação de fazer nada por mim.

Talvez eu tivesse sido rude, o que não era minha intenção. Era possível que Nathan se ofendesse e me achasse uma mal agradecida. Porque mesmo que ele tivesse exagerado, como quando falou que Charlie Peters mandaria gente para me matar, Nathan deu um jeito de me tirar de cena e aquilo foi fundamental para que eu mesma não piorasse a situação.

— É essa a impressão que você tem de mim?

"Sim" e "não", ambas pareciam ser respostas erradas. Desviei o olhar e cocei a cabeça. Como eu poderia explicar sem parecer uma cretina?

— Eu não quero parecer idiota. Não ache que eu sou idiota, por favor. Eu só...

Eu tentei, busquei, rebusquei e até implorei para que meu cérebro bolasse alguma coisa legal para dizer, mas nada veio. Pus a mão na testa a fim de obter alguma saída, e nada veio.

Infelizmente eu já tinha experiência com esse tipo se conversa, e nessas conversas as pessoas me davam as costas ou me cortavam. Porém, Nathan permanecia paciente com as mãos nos bolsos para aquece-las, sem mudar de posição, mostrando que estava realmente disposto a ouvir minha resposta.

— Eu... eu não consigo pensar com você me olhando. Pode parar de me olhar um minutinho, por favor?

Confesso que não era lá minha intenção fazer Nathan rir da minha cara, mas foi o que aconteceu. Ele expôs suas mãos e tapou os olhos.

— Assim está melhor?

— Sim. — ri em conjunto. — Hum, ok, pode olhar.

— Que rápida! — surpreendeu-se destapando os olhos. — E qual foi o resultado?
Respirei fundo e então falei:

— Eu não quero parecer idiota, é só que... Você me ajudou e nem somos amigos. Nunca vi isso acontecer antes, entende?

— E o que te faz pensar que nós não somos amigos?

A resposta do loiro fez meu peito aquecer. Foi a mesma sensação de quando Elizabeth veio me procurar no segundo dia de aula. Aquele sentimento de alívio em saber que não estou sozinha. Seria covardia conter um sorriso naquele instante, por isso o libertei.

— E por que você não pergunta pra ele já que são tão amigos?

— Ah, Elizabeth, não seja chata e ciumenta. Só porque ele nos considera amigos não significa que automaticamente sejamos melhores amigos e eu tenha a intimidade de perguntar o porquê do CLEAS ter atacado ele.

— Certo, você venceu desta vez. Mas vou logo avisando que não lembro detalhadamente o que aconteceu, ok?

— Ok.

— O Nathan entrou para a Elite Acadêmica de Shaper's Green há uns dois anos. E no ano em que ele ingressou, conseguiu vencer as eleições de presidente do grêmio estudantil. Não me pergunte como ele fez isso. Mas quando assumiu o cargo, ficou insatisfeito com o CLEAS e criou um blog para falar sobre isso.

— As postagens do blog falavam exatamente o que?

— Disso eu não sei. Não dei muita atenção quando ouvi os boatos. Mas como todo mundo estava falando disso o tempo todo, acabei resolvendo ler também.

— E aí?!

— Tudo foi deletado. Charlie Peters tanto pode ter hackeado a conta de usuário como também pode ter ameaçado o Nathan de tapa se não tirasse o blog do ar. Ninguém tem muita certeza do que realmente aconteceu. Mas que o Nathan foi pressionado, ele foi. E não demorou nem dois dias pra aparecer na escola de olho roxo.

— Espera aí. Você disse que isso tudo foi há dois anos. Então por qual motivo o Charlie atacou o Nathan na semana passada?

— Eu não sei exatamente.

— E o que você sabe exatamente?

— Ouvi um boato de que outro blog está ativo, mas o autor é anônimo.

— Onde você ouve isso?

— Na escola, ué. Deixa eu te dar uma dica: trate as conversas dos corredores como fonte de informação.

— Que coisa feia, Elizabeth!

— O que é? Você já escutou a conversa dos outros também!

— Isso não entra em questão agora! Mas espera aí. Se estava anônimo, como o Charlie Peters concluiu que o responsável pelo novo blog era o Nathan?

— Acho que por a temática desse blog do anônimo ser parecida com a do antigo blog do Nathan, Charlie deve ter pensado que era ele de novo, mas desta vez usando o anonimato para escapar da culpa.

— Que absurdo! Então ele simplesmente julgou que Nathan era o responsável e pronto?

— Infelizmente é assim. E todo mundo sabe que o Charlie não recua até ser convencido do contrário. Isso é o que é preocupante.

— Como assim?

— Porque eu não acho que Nathan esteja disposto a provar que é inocente. Parece até que ele nem liga se apanha ou não.

Meu celular tocou, o identificador indicava que era Mila. Atendi e fui informada que a mesma estava na porta do Green Place para que pudéssemos ir almoçar. Avisei a Elizabeth pelo bate-papo do Windowlady que sairia com Mila e que voltava mais tarde. Saí de meu apartamento, mas antes de entrar no elevador olhei por cima do ombro a porta do apartamento de Nathan. Tudo estava em silêncio.

Bati a porta do carro e afivelei o cinto. Mila, atenciosa como sempre, perguntou como eu estava me sentindo e se tudo estava bem.

— O dinheiro que estou te dando para passar a semana está sendo o suficiente?

— Claro. Gasto com sabedoria. — respondi dando toquinhos na têmpora com o indicador. Ela deu risada.

— Não hesite em me pedir mais.

Fomos ao culinária mágica como de costume. E aquele, mais uma vez, não estava sendo um almoço tranquilo e de clima ameno.

— Você se importa se eu escolher nossos pratos?

— Não.

"Caramba, isso nunca aconteceu. Tem alguma coisa rolando aqui?!"

"Calma, vamos ser racionais. Só por que ela quer escolher os pratos não significa que algo de errado esteja acontecendo".

Acho que era normal achar que qualquer coisa estava fora dos eixos naquele restaurante. Afinal, foi lá que eu quase tive um ataque de pânico e abri um biscoito que dizia "você vai se ferrar de verdade". Por isso não me parecia tão esquisito começar associar aquele lugar à coisas ruins.

De qualquer maneira, a paranoia me distraiu tanto que por uns minutos sequer lembrei que estava mantendo segredo sobre o CLEAS. E tive, inclusive, usar o artifício da mentira todas as vezes em que ela perguntava se estava tudo bem.

Devo ser uma péssima atriz mesmo.

Quando demos a refeição por encerrada, uma garçonete da minha idade deixou dois biscoitos lunares da sorte para minha tutora e eu. A garota girou os calcanhares e me olhou por cima do ombro com aqueles dois orbes negros antes de passar pela porta da cozinha e sumir; senti todo o meu corpo tremer.
"Seja REALMENTE sábia ao gastar seu dinheiro".

Enquanto tentava processar a mensagem, Mila pediu a conta. Olhei para os lados discretamente. Esses biscoitinhos da sorte não deveriam ter previsões genéricas assim como horóscopos?

"Tem alguém me espionando?"

"Deve ser uma coincidência, não é possível"

"Se não é possível, como isso está acontecendo?"

— Você tem certeza? — indagou Mila, aflita.

— Sim, seu cartão foi recusado. — disse a garçonete mais velha.

— Certo. — ela falou, talvez tentando manter a calma. Suas mãos trêmulas reviraram a bolsa em busca da carteira. Ela sacou outro cartão e entregou a mulher. — Tente este.

A conclusão foi como um monte de concreto caindo no chão de uma só vez. Para mim agora estava claro o porquê dela ter aceitado o contrato que nos deixaria afastadas por semanas. Não era porque eles pagavam demais e sim porque pagavam o suficiente. Mila estava quebrada.

Notas finais
Venha curtir a página oficial de A órfã doce, onde você recebe notícias em primeira mão sobre a narrativa e os avisos de postagem: https://www.facebook.com/AOrfaDoce/ Gostou do capítulo? Deixe sua opinião nos comentários. Críticas construtivas podem me ajudar a aperfeiçoar ainda mais esta história.