A Árvore de Corvos
6 Capítulo Cinco
Notas iniciais

Wu ainda não havia se acostumado a dormir no quarto dos candidatos, por isso, quase todos os dias ia até o dormitório dos guardas porque havia esquecido algo lá. Naquela manhã, o que estava faltando era um simples par de meias. O jovem desceu até o local levemente irritado consigo mesmo por causa daquilo e ao abrir seu baú de roupas, ficou surpreso ao ver que não haviam meias algumas ali.
O guarda olhou ao redor confuso, procurando se tinha alguém no quarto e ao notar que estava sozinho foi até a cama de outro guarda, Daniel Yin, abrindo o baú dele.
— Eu sabia — murmurou para si mesmo ao ver vários pares de meias suas no local.
Depois de pegar de volta às peças, dando mais uma olhada no baú do guarda, achando uma colônia, após aprovar o perfume, espirrou sobre si mesmo antes de guardar no lugar.
Pronto para sair, levando seus pares de meias consigo, bem protegidos em seus braços, como se o outro guarda fosse aparecer e os roubar de novo dele, Wu voltou a subir para seu quarto atual.
Estava tão distraído notando que uma das meias estava com uma mancha escura que não percebeu a rainha vindo em sua direção.
— Guarda Fang? — Cherry chamou em um tom de voz normal, mas devido a concentração do homem, o mesmo deu um pulo assustado deixando as meias rolarem escada abaixo.
— Pelos corvos! — exclamou assustado levando a mão ao peito enquanto tentava se recuperar — Ch... minha rainha! — corrigiu-se rapidamente fazendo uma mesura desajeitada.
— Te assustei, Guarda Fang? — a ruiva perguntou arqueando uma sobrancelha, com um sorrisinho divertido em seus lábios.
— Hm, não... eu só estava... é...
— Conversando com suas meias? — Cherry completou divertida.
— Não! É só que eu acabei de recuperar elas e eu notei uma mancha... — o guarda tentava se explicar, se enrolando mais.
— Você as havia perdido? — ela arqueou a sobrancelha novamente se controlando para não rir da situação.
— Não exatamente... elas foram sequestradas e abusadas por aquele pé grande, ainda por cima as manchou!
— Alguém roubou suas meias? — a rainha perguntou sem conseguir mais conter o riso com a explicação do guarda.
— Sim! — ele exclamou alto e então arregalou os olhos — Mas não desse jeito... quer dizer, voc... a senhorita não vai mandar prendê-lo, né? É uma coisa que a gente faz, sabe? Ele pega minhas coisas, eu pego as dele, é meio que consentido — franziu o cenho — acho... De qualquer forma eu também peguei um pouco da colônia dele então a menos que a senhorita queira prender nós dois não há necessidade para isso...
— Wu? — Cherry o chamou rindo da tagarelice dele.
— Não que a senhorita não possa fazer isso, já que é a rainha... — ele continuou sem notar o chamado — Se quiser pode mandar nós dois sermos enforcados por isso, mas por favor, não faça! — arregalou os olhos — são só meias e um pouco de perfume, era cheiroso, sabe?
Cherry escondeu o riso e se aproximou dele, se inclinando um pouco para cheirar seu pescoço, sem encostar nele contudo.
— Realmente, bem cheiroso — ela concordou voltando a se afastar, notando que o guarda havia congelado, os olhos arregalados — Guarda Fang?
— É... eu... hm... — Wu tentava falar alguma coisa sem muito sucesso, pasmo com a atitude da rainha, que continuava controlando o riso.
— Eu estava te procurando — ela contou divertida — Mas eu preciso de você são para conversamos, está tudo bem?
— É... — O guarda respondeu bobo.
— Pelos Corvos, Fang! — a rainha exclamou — Se você está assim agora não quero nem imaginar quando eu falar contigo... — riu baixo — Vamos encontrar um lugar para sentarmos, certo?
— Certo... — ele assentiu e a ruiva revirou os olhos o puxando pelo braço para irem até uma das salas do Palácio, fazendo ele sentar.
— É sobre o torneio — começou a falar de pé, na frente dele — Depois do que aconteceu com o Duque Gallagher, você sabe que só resta você e o Marquês Cavendish, certo?
Wu se endireitou ao ouvir sobre o que se tratava o assunto e assentiu, a expressão boba se transformando em uma ansiosa e um pouco tensa.
— Eu já fiz minha escolha — Cherry continuou o olhando — Você sabe que o Marquês é um homem bem influente, não sabe? Ele é dono de muitos das terras aqui do reino e tem uma voz bem forte no conselho por causa de seu pai, que era o chefe antes de falecer e Ethan tomar seu lugar...
Conforme a rainha falava, a expressão do guarda ia desmoronando aos poucos, mesmo que ele tentasse esconder. Apesar de desde o início saber que não tinha chances reais com ela, depois do último encontro ele havia se permitido sonhar um pouco mais.
— Além disso, ele se saiu razoavelmente bem nas provas e se mostrou bem educado — ela continuou apesar de notar a expressão do guarda — Então, minha decisão não foi difícil, ontem mesmo eu contei para o Marquês e ele já está se preparando, só faltava eu encontrar você.
— Ah, eu en... — Wu começou a falar, seu coração doendo com tudo o que ela lhe dissera, mas foi interrompido antes de continuar.
— Não foi difícil chegar a minha decisão, Guarda Fang — Cherry repetiu o olhando intensamente — Porque no momento que você me falou aquelas coisas na porta do meu quarto eu percebi que não quero me casar com um título, eu não preciso de um homem para assegurar meu poder, preciso de um que me apoie e esteja ao meu lado, independentemente de qualquer coisa. Eu não preciso do Marquês, Guarda Fang, eu quero você.
Wu piscou, demorando alguns segundos para processar o que a rainha estava dizendo, sua expressão passando da tristeza para a surpresa aos poucos.
— Desculpa, mas não sei se eu entendi muito bem...
— Eu escolhi você, Wu Fang — Cherry sorriu para ele — Você venceu o torneio.
———
Ele foi embora. Crystal andava pelos corredores apressada, sem enxergar direito por onde ia. Apenas queria sair dali. Ele foi embora. As palavras do guarda Logan ecoavam em sua cabeça a cada vez que ela se recusava a acreditar em tal fato. Aquilo não poderia estar acontecendo. Niklas não poderia ter ido embora. Não assim.
Enquanto vagava pelos corredores do castelo todo tipo de sentimento percorria a mente da condessa. Decepção. Tristeza. Dor. Raiva. Quem ele pensava que era? Para quebrar uma promessa? Deixar a garota que nem uma tola apaixonada esperando uma simples conversa? Como pudera se permitir ser tão estúpida?
Seus passos ganhavam mais força à medida que caminhava, a essa altura a dama já tendo saído do castelo, caminhando em direção a Árvore dos Corvos mesmo que sem perceber. Seus pensamentos estavam um turbilhão. Cega pela indignação de ter sido deixada pelo duque.
Ele foi embora.
As palavras do guarda ainda ecoavam em sua cabeça. Pelos corvos, pensava, como eu pude ser tão estupida?
Crystal começou a se sentir sufocada por aquele turbilhão de sentimentos e, naquela hora, a única coisa que conseguiu fazer para extravasar tudo aquilo, foi chorar. Sentiu as lágrimas já correndo por sua face continuamente e os soluços a interromperem a respiração por intervalos aleatórios. Ela sentou-se em um banco, aos pés do velho Carvalho infestado de corvos e se permitiu ao sofrimento de um coração partido.
Enterrada em sua tristeza, não notou o homem que se aproximava a passos lentos dali. E permaneceu sem se dar conta até que ele estivesse à sua frente. Quando o reconheceu, sentiu o coração descompassar juntamente com outro soluço, a raiva acabando por prevalecer em meio a sua confusão:
— O que você está fazendo aqui? — Crystal tentou manter o máximo do que restava de sua dignidade ao fazer essa pergunta.
Niklas, que até então esperava um encontro completamente diferente, a encara surpreso por ver as lágrimas em seu rosto, sem entender o porquê de a mulher estar assim e sentiu o coração partido ao vê-la daquele jeito, mas tentou fazer uma expressão leve no rosto ao responder:
— Milady sabe mesmo se esconder quando quer... — O duque fez uma reverência a mulher e a encarou preocupado — O que aflige a senhorita? — Prosseguiu, apesar de receoso com a resposta da dama.
— Pelos corvos! — Exclamou a mulher exasperada, se levantando do tronco e o encarando possessa — Estou mesmo recebendo esse questionamento? Como se Sir Niklas não soubesse!
— Admito que estou um pouco confuso, sim, quanto ao porquê de Milady estar triste — Falou em um tom de voz baixo, surpreso com a fúria da Dama.
Crystal enxuga as lágrimas que ainda teimavam em cair-lhe pelo rosto, sem acreditar que ele estava mesmo se fazendo de desentendido.
— O motivo de minhas lágrimas é o duque, que me fez uma promessa e quando acordei a notícia que tive era a de que tinha ido embora. — Explicou deixando escapar um soluço contido, tentando a todo custo manter a dignidade diante da situação.
Sir Gallagher abriu a boca por um momento e tornou a fechá-la, franzindo o cenho com a acusação e então soltou um suspiro pesado, dando alguns passos na direção da dama, verificando se seria aceito. Ela não proferiu nada durante aquele momento.
— Peço mil perdões por fazer a senhorita pensar que eu havia partido. A verdade é que eu estava resolvendo meus últimos assuntos com a rainha. Depois disso tudo o que fiz foi procurar a senhorita, para conversamos, exatamente como eu prometera.
A Condessa encarou-o hesitante, mordendo o lábio com a resposta e vendo a verdade em seus olhos. Por fim, ela suspirou, mais calma.
— Cherry foi gentil com o Duque? Ao tirá-lo da competição? — Questionou tentando recuperar um pouco da compostura.
— Tirar-me da competição? — Ergueu as sobrancelhas surpreso — A rainha não me tirou da competição — Balançou então a cabeça em negação.
— Não? — Crystal estava confusa — Mas todos disseram que você não estava mais no torneio... — Tentou entender o que acontecia.
Niklas sorriu, paciente, dirigindo um olhar carinhoso a condessa. Ela era adorável e, agora mais do que nunca, ele percebia tal fato.
— E de fato eu não estou mais no torneio, Lady Crystal. Mas não foi porque a rainha me tirou. Eu escolhi abrir mão da competição. — Deu mais um passo na direção dela.
— Eu não entendo... — A Dama Real balançou a cabeça, sentindo o coração se acelerar. Será? Será mesmo que era o que estava pensando? Pelos corvos...
— Milady... — O duque pegou na mão dela, sorrindo ao sentir a luva sob seu toque — Eu entrei nessa competição pela mão da Rainha. Acima de tudo pelo meu dever como cidadão de Ravengard, queria a prosperidade do Reino em que vivo, sem propensão nenhuma romântica. Esperava que acabasse me apaixonando pela Rainha Lestrange conforme o tempo passasse. Contudo, toda a minha experiência com estratégias e diplomacia, não estava preparado para o encanto que a Dama Real me causou. Embora eu tentasse resistir a todo custo — Riu baixo acariciando sua mão — Lady Crystal, a senhorita chegou como uma tempestade e revirou meu mundo de cabeça para baixo. Mas que surpresa a minha, foi perceber que ele ficava muito mais bonito desse jeito — Continuou, se aproximando mais dela.
A Condessa, surpresa com suas palavras, permaneceu em seu lugar, sem conseguir se mover, hipnotizada pelo homem a sua frente e por suas palavras. Sentia como se houvesse borboletas em seu estômago e um sorriso começava a surgir em seu rosto.
— Portanto, — Niklas sorriu também para ela, aliviado por ser acreditado — não havia mais sentido eu permanecer competindo pela mão de uma mulher, sendo que Milady já havia roubado meu coração.
— Eu roubei seu coração, Duque Gallagher? — A mulher sorria mais ainda, sem conseguir conter a felicidade ao ver que era correspondida.
— Roubou..., mas eu não o quero de volta, pois sei muito bem que a senhoria irá cuidar muito bem dele — Sorri de lado, colocando uma mão na cintura da condessa, a puxando delicadamente para si.
— De certo que irei — Confirmou, assentindo enquanto levava as mãos aos seus ombros — Assim como o senhor irá cuidar do meu, que o roubou desde a primeira vez que o vi.
O homem sorriu largo com as palavras da jovem dama e levou uma mão ao rosto dela, acariciando ali, delicadamente, admirando suas feições, completamente encantado com a beleza da mulher a sua frente. Os rostos foram se aproximando, como que atraídos por ímãs. Crystal fechou os olhos com a carícia, envolvida com a presença do Duque, sentindo o roçar das bochechas uma na outra, a aspereza da sua barba, seu cheiro cítrico característico e, por fim, seu hálito fresco e suas bocas unidas num beijo calmo e carinhoso. Um suspiro se soltou de ambos enquanto eles descobriram a boca um do outro, sem pressa e sem querer estragar aquele momento.
Entretanto, o momento foi estragado pelo crocitar de um corvo, fazendo o casal levar um susto pela proximidade do barulho e se afastarem um pouco. A ave pousa no braço do homem, encarando os dois. Crystal sentiu sua respiração ficar suspensa ao pensar na possibilidade do que aconteceria naquele momento. Niklas, no entanto, ficou boquiaberto ao ver o corvo arrancar uma de suas penas e o entregar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. A lenda dos corvos era, de fato, real.
Quando a ave voltou para um dos galhos mais altos do antigo carvalho, o duque olhou, ainda surpreso, para a dama, que, por sua vez, tinha um largo sorriso no rosto com o acontecimento.
— Recebemos uma pena... — Ele balançou a cabeça, ainda absorvendo o fato, fazendo a condessa rir e levar uma mão ao seu rosto acariciando.
— Somos almas gêmeas, Duque Gallagher — A mulher não conseguia se conter de felicidade, contagiando o homem também, que a ergueu, segurando em sua cintura e girou pela clareira, aproveitando aquele momento único e precioso.
Niklas Gallagher era um perfeito cavalheiro e Crystal Freya estava completamente apaixonada por ele.
———
Wu ainda não acreditava que havia sido o escolhido pela rainha. Ela o queria. Ele, no lugar de todos os outros candidatos que passaram por ali, no lugar de nobres que poderiam oferecer muito mais que um simples guarda real.
O homem ainda estava meio abobado com a notícia e mesmo dias após a notícia ele ainda era pego com um sorriso bobo no rosto enquanto andava pelo palácio. Ele se casaria com a rainha de Ravengard. Mas, principalmente, ele se casaria com ela, Cherry, a mulher por trás da coroa, aquela que ele amava.
Naquele dia, quando o guarda acordara, havia decidido fazer algo diferente. Estava de folga, já que mesmo como noivo da rainha, insistia em manter seus turnos em sua guarda pessoal. Pedira a um dos serventes entregar um bilhete pra rainha junto com a bandeja de café e uma flor que ele mesmo havia colhido, combinando um encontro naquela tarde.
Wu passou o dia pensando no que fazer e onde levá-la, após planejar tudo, fora tomar um banho e se arrumar para sua rainha.
No horário marcado, esperava a ruiva aos pés da escada principal, onde dissera que a encontraria. Estava com um sorriso largo no rosto, vestindo-se com uma de suas melhores roupas, apesar de não serem tão luxuosas como de um nobre.
Cherry não demorou a aparecer, com um sorriso curioso no rosto, já que no bilhete não dizia para onde iriam.
— Olá, Guarda Fang — cumprimentou-o, sorrindo enquanto Wu fazia uma reverência.
— Minha rainha — ele pegou sua mão, depositando um beijo delicado ali — Me concede a honra de sua companhia?
— A agenda de uma rainha não costuma ser muito livre, mas farei uma exceção para meu noivo — Cherry sorriu com aquilo — Onde iremos?
— É uma surpresa — o guarda sorriu mais largo, oferecendo-lhe o braço — Confia em mim?
— Acho que isso já está claro, meu guarda — a ruiva falou enquanto envolvia seu braço no dele e o sorriso do homem só aumentou ainda mais ao ouvir o pronome possessivo.
Os dois caminharam para fora do castelo, onde um cavalo selado os esperava.
— Me acompanha em um passeio? — Wu perguntou enquanto caminhava até seu cavalo.
— Seria um prazer — Cherry sorriu com aquilo e com a ajuda do guarda, subiu com ele no cavalo, ficando em sua frente e sendo abraçada por ele, que tomava as rédeas.
— Devo dizer que a senhorita está especialmente cheirosa nesse dia, minha rainha — ele murmurou perto de seu ouvido, fazendo a jovem se arrepiar levemente.
— Assim como o senhor, Guarda Fang — respondeu se ajeitando melhor em seus braços, sorrindo.
Os dois partiram então para um cavalgar sem muita pressa, aproveitando a companhia um do outro enquanto Wu os guiava até onde pretendia levá-la.
Pouco depois, chegaram ao topo de uma montanha, onde o rapaz descera e ajudara a ruiva a descer também.
— Quando eu era criança, meu pai me trazia com minha irmã aqui, para vermos o pôr do sol — ele contava enquanto levava a rainha até mais perto da beirada, com segurança — Eu sempre fui apaixonado por esse lugar, gostaria de dividi-lo com você.
Cherry sorriu boba com a beleza do local, ainda faltava um pouco para escurecer, o céu estava ficando alaranjado, mas só a vista já era de tirar o fôlego, de um lado era possível ver um vasto oceano azul, as ondas batendo em algumas rochas que haviam por ali, enquanto do outro estava uma visão privilegiada do vilarejo e do palácio.
— É incrível... — ela murmurou baixo, ainda absorvendo todos os detalhes do lugar — Obrigada por me trazer aqui, Wu — se virou para ele ao falar seu nome e o abraçou, realmente feliz por aquilo.
O guarda prontamente a abraçou de volta, sorrindo largo.
— Eu sei que nosso relacionamento não é o mais usual, afinal você é uma rainha e as circunstâncias que nos possibilitaram são bem inusitadas e, bom, inimagináveis — ele riu, um pouco nervoso, soltando o abraço para olhá-la melhor — Mas, apesar do torneio e a senhorita ter me escolhido como vencedor... eu quero fazer isso da maneira certa — falou mexendo no bolso — Eu te trouxe aqui para compartilhar mais que o pôr do sol, também queria compartilhar meu amor pela senhorita, minha rainha... — ajoelha-se no chão — Eu sei que tecnicamente já estamos noivos e isso pode ser meio redundante, mas você aceita se casar comigo, Cherry Lestrange? — abriu a caixinha que carregava consigo, onde havia um anel simples, porém belo, com um rubi pequeno no centro.
A ruiva ouvia a tudo atentamente, seu coração acelerando a cada palavra e ao ver o rapaz ajoelhado e o anel, colocara a mão na boca, os olhos marejando, surpresa.
— Eu adoraria me casar com você, Wu Fang — ela murmurou com a voz um pouco falha, rindo boba — Não poderia estar mais feliz em aceitar seu pedido — completou enquanto o guarda sorria largo, pegando sua mão e colocando o anel, que coubera perfeitamente em seu dedo — Seu bobo — riu o fazendo levantar e o abraçando mais uma vez, depois segurando seu rosto e lhe beijando delicadamente, conhecendo sua boca.
Os dois ficam um tempo ali, apenas aproveitando a companhia um do outro e a vista maravilhosa. Após o sol se pôr por completo e o céu escurecer o guarda suspirou, voltando o olhar pra ela.
— Hora de irmos, minha rainha — ele falou com um pouco de pesar e Cherry suspirou também, mas concordou.
— Vamos, meu cavaleiro — a ruiva sorriu, o fazendo sorrir também, bobo.
— Eu amo você — Wu a olhava nos olhos ao dizer aquilo, o que faz o coração da rainha se acelerar pela intensidade de suas palavras.
Ela não respondera, contudo, se aproximou um pouco mais dele e lhe deu outro beijo, delicado.
Wu sorriu em seus lábios a correspondendo com amor, acariciando o rosto que por anos pensara em tocar.
Quando se separam o guarda depositara um beijo carinhoso em sua testa e então ajudara a noiva a subir novamente no cavalo.
Os dois não tinham pressa de voltar, aproveitando o passeio e a presença um do outro, os braços do guarda ao redor dela, a abraçando enquanto cavalgavam.
Ao chegarem ao palácio, Wu desmontou do cavalo e a ajudou prontamente, depositando um beijo em sua mão, onde havia colocado o anel de noivado.
A rainha lhe deu um sorriso largo e entrelaçou seus dedos e seguiu para a entrada do palácio, sem se importar com o que os outros pensariam.
— Minha vez de te mostrar uma passagem secreta — Cherry comentou sorrindo marota, fazendo o homem arquear a sobrancelha em curiosidade.
— Onde, minha rainha?
A ruiva apenas sorriu em resposta, subindo um lance de escadas e parando em frente ao quadro de sua avó.
— Aqui — ela murmurou e, parecendo apertar o nada, faz a pintura se afastar, revelando uma passagem até então desconhecida pelo guarda.
— Aonde ela nos leva? — Wu estava curioso demais com tudo aquilo, mas a ruiva apenas riu, segurando sua mão e o trazendo para dentro do local, fechando em seguida.
Cherry seguia na frente, sem soltar sua mão, guiando pela passagem mal iluminada. Eles sobem poucos lances de escadas e então o local parece se estreitar mais, ficando mais escuro também e os obrigando a andar mais perto um do outro.
Após andarem um pouco mais o guarda escuta um barulho ao longe e, em reflexo, puxa a rainha pra si. Mas, talvez por ter calculado errado a distância que se encontravam e a intensidade que a puxara, ela fora de encontro a ele, quase o desequilibrando e lhe fazendo abraça-la forte para não caírem.
Wu olhara ao redor em busca de alguma possível ameaça, mas a mulher não prestara atenção em nada disso, apenas no corpo do, agora, noivo colado ao seu. Seus olhos se prenderam nos lábios do homem, comprimidos em uma linha fina de concentração.
— Acho que foi só um an... — O guarda não conseguira completar a frase, pois ao se voltar para a rainha e se deparar com aquele olhar intenso perdera totalmente a fala, seus olhos descendo para sua boca também.
Os dois nunca estiveram tão pertos, não daquela forma e não naquela situação, sozinhos, no quase completo escuro... Cherry mordia seu lábio inferior e aquilo parecia o atiçar ainda mais, fazendo o guarda soltar um grunhido baixo, que deixara a rainha arrepiada. Wu a abraçou mais firme e ela, em contrapartida, subiu uma de suas mãos para os cabelos dele, acariciando o local e então, finalmente, o beijando da forma que queria. O guarda não se fez de desentendido, prontamente retribuindo o beijo da mulher, a inclinando um pouco e a encostando na parede do local.
Aquele beijo fora algo totalmente novo para os dois, mais voraz e intenso que todos os outros dados anteriormente. Eles perderam a noção do tempo, concentrados apenas nos lábios um do outro, aproveitando o máximo que conseguiam. Quando o ar faltara e eles foram obrigados a se soltar, ambos possuíam os lábios vermelhos e levemente inchados, além da respiração descompassada. Não falaram nada por um tempo, nem desviavam o olhar um do outro, conectados daquela forma tão única e nova para os dois. Wu fora o primeiro a acordar do transe, abrindo um sorriso e acariciando o rosto da noiva, passando os dedos delicadamente por seus lábios inchados.
— Tão linda... — comentou quase que para si mesmo, admirado com a beleza dela.
Cherry também sorriu, de maneira tímida, e suas bochechas acabaram corando já que ela não estava acostumada àquele tipo de carinho.
— Obrigada, meu guarda — ela o respondeu inclinando a cabeça para sua mão e fechando levemente os olhos, aproveitando a sensação de seus dedos em sua pele.
O sorriso do homem se abriu ainda mais com aquela entrega dela, continuando o carinho por um tempo.
— Receio que temos que continuar, minha rainha — murmurou por fim, lhe dando um selinho breve.
Cherry soltou um suspiro, mas assentira, abrindo novamente os olhos.
— Por aqui — disse segurando sua mão novamente e voltando a guiar até o fim da passagem, que abria diretamente para o quarto dela, deixando o guarda sem reação.
Ele nunca havia entrado no quarto da rainha, tivera apenas alguns vislumbres enquanto estava de guarda em sua porta. O ambiente era bem amplo, a cama em dossel ocupava o centro do cômodo e os detalhes em cores vermelhas deixava tudo ainda mais com a cara dela.
— Como...? — Wu ainda estava sem acreditar que havia uma passagem que ele não conhecia e, pior, que dava aos aposentos reais.
— Eu encontrei nos diários secretos da minha avó — Cherry contou rindo da cara do homem — Ela mesma que criou essa passagem e nunca contou a ninguém.
— Eu... É... — O guarda franzia o cenho sem saber exatamente o que falar — Não é perigoso? — perguntou por fim.
— Como eu disse, ninguém mais sabe — a rainha sorriu — e é a minha única forma de sair um pouco — suspirou — eu estou confiando em você para esse segredo, peço, por favor, que não tire isso de mim — ela o olhou intensa e Wu, mesmo achando que alguém poderia descobrir, não conseguiu fazer outra coisa que não fosse assentir, ele não faria isso com ela.
Cherry sorriu com sua resposta e lhe deu um beijo na bochecha, como forma de agradecimento.
— Eu preciso ir, minha rainha — ele falou por fim.
— Dorme aqui — a ruiva pediu, no entanto.
— Não seria apropriado...
— É uma ordem, guarda Fang — ela o interrompeu, de maneira incisiva, fazendo o homem suspirar e depois rir.
— Seu primo não ficaria feliz se descobrir que eu dormi aqui...
— Então é melhor que o senhor acorde cedo e saia pela passagem, guarda — Cherry piscou para ele e se afastou, indo até seu banheiro para trocar de roupa.
Wu balançara a cabeça rindo e aproveitara aquele tempo para observar melhor o quarto, notando os detalhes que deixavam o cômodo ainda mais com a cara da mulher.
Cherry voltou um pouco depois com uma camisola longa na cor vinho, os cabelos soltos caindo em cascata por seus ombros, visão que deixou o guarda literalmente de boca aberta.
— Cuidado para não babar, Fang — ela comentou divertida, indo para a cama — Você não vem?
Ele pisca tentando voltar ao normal, sem muito sucesso, não conseguia tirar a cara de bobo do rosto.
— É... eu... — ele se enrolava tentando encontrar algo pra dizer — roupa — apontou pra si mesmo.
A rainha balançou a cabeça ainda rindo e voltou até ele.
— Deixa eu te ajudar — ela murmurou enquanto tirava a capa do homem devagar, depois o colete, lhe deixando apenas com a camisa de baixo, sorrindo ao vê-lo daquela forma — Tire o cinto e os calçados e venha — disse de forma autoritária indo novamente para cama, onde deita.
Wu, que enquanto ela o despia ainda estava atônito, pareceu finalmente acordar com aquela ordem.
— Sim, minha rainha — disse por fim, com alguns segundos de atraso e fez como ela dissera, tirando e indo até a cama — eu... — ele se enrolava sem saber como deitar na cama, fazendo Cherry revirar os olhos e o puxar.
— Desculpa... — ele pediu, seu coração estava acelerado por estar na mesma cama que a mulher, que não estava tão diferente dele, apesar de não demonstrar.
— Não se desculpe e não pense besteiras, guarda Fang, iremos apenas dormir — Cherry o cortou, se divertia com a situação.
— Eu não pens...
— Ótimo — ela o cortara novamente — Boa noite, Fang — disse desligando o abajur ao lado da sua cama e se ajeitando na cama, pegando o braço dele e colocando embaixo de sua cabeça, se aconchegando.
Wu ainda estava totalmente paralisado com a situação, o que fez Cherry revirar os olhos e lhe dar uma cotovelada.
— Aí... — ele resmungou se contraindo.
— Agora sim — a ruiva sorriu se aconchegando melhor nele e fechando os olhos.
O guarda, finalmente relaxando um pouco mais, a abraçou e depositou um beijo em seus cabelos.
— Boa noite, minha rainha — murmurou por fim fechando seus olhos e adormecendo com ela.
———
Crystal estava andando de um lado para o outro em seus aposentos, sem conseguir conter sua ansiedade. Duque Gallagher voltava para a corte naquela tarde, depois de resolver umas pendências antigas, e havia mandado um bilhete para a condessa a convidando para um passeio pelos terrenos do castelo. A partir do momento em que terminara de ler suas palavras escritas, a Dama Real não se conteve mais em ansiedade. Escolheu sua roupa e fez de tudo para estar apresentável para o amado. O tempo que haviam passado longe fora demasiado longo que já sentia saudades do Duque e queria que aquele passeio fosse perfeito.
Na exata hora combinada, ouviu-se uma batida na porta dos aposentos da condessa e o Guarda John anunciou a chegada de Niklas, que apareceu logo em seguida, com um sorriso no rosto, sorriso esse que foi prontamente retribuído pela dama quando essa correu para os seus braços, querendo matar as saudades. O homem riu baixo a apertando em seus braços e inspirando seu cheiro.
— Pelos corvos, como eu senti a falta da senhorita — disse baixo e em seguida a colocou no chão, encarando-a carinhoso.
— O Duque também fez muita falta por aqui… na próxima vez eu irei junto para não ter tamanha saudades — Riu então, sentindo-se muito mais leve com a presença dele.
— Já que é assim, farei questão que Milady me acompanhe na minha próxima viagem — Concordou fazendo uma mesura galante — Mas primeiro de tudo, quero que a senhorita me acompanhe no passeio pelos terrenos do castelo — Piscou então, oferecendo-lhe o braço, que a condessa prontamente aceitou.
Os dois então se dirigem para o lado do fora do castelo, Niklas guiando o caminho até os estábulos. Ao ver o local a dama hesitou um pouco, lembrando do último susto que tivera com os cavalos.
— Vamos cavalgar? — Perguntou um pouco receosa, encarando o homem.
— Fique tranquila, Milady, eu não vou deixar nada acontecer com a senhorita — Disse a olhando carinhoso — Mas se preferir ainda sim, não cavalgar, faremos outra coisa — Garantiu.
A Condessa mordeu o lábio, ainda um pouco indecisa, mas não demorou a assentir. Sabia que podia confiar nele.
— Tudo bem, vamos cavalgar — Decidiu, por fim — Mas não quero ir sozinha em cima do cavalo — Completou, fazendo Niklas sorrir largo.
— Não se preocupe, é a desculpa perfeita para ficar com a senhorita em meus braços — Falou galante, inclinando-se em outra mesura, deixando a mulher levemente corada.
— E eu que já achava Sir Niklas galante — Comentou com um sorriso divertido, mas ainda ruborizada, o que deixou o duque completamente encantado.
— Agora toda minha atenção e charme são seus Milady. Quero sempre colocar um sorriso em seu rosto e lhe fazer a mulher mais feliz desse reino — Disse por fim, beijando a mão dela, sobre a luva azul bebê que usava naquela tarde. A condessa deu um suspiro, apaixonado e tornou a caminhar até os estábulos com ele, feliz.
Assim, pediram ao cavalariço para selar um cavalo e logo os dois estavam trotando pelos campos ao redor do castelo, Crystal nos braços do Duque, deixando que sua segurança tomasse conta dela.
A paisagem era encantadora. Pequenos vales se estendiam para o horizonte, o sol da tarde batendo na relva, até alcançar o lago do palácio. Era realmente um lugar magnífico. Os dois ficaram admirando a paisagem durante um tempo, em silêncio, à medida que se aproximavam da margem mais afastada do lago. Niklas parou na sombra de uma árvore, para o cavalo descansar e ajudou a condessa a descer, colocando-a no chão.
— Obrigada, Sir Niklas — Sorriu sincera, sem ter mais tanto receio do cavalo.
— Ao seu dispor, Milady — Devolveu, oferecendo-lhe o braço e começando a andar com ela em direção a um pequeno cais que havia ali.
— Já esteve aqui? — A mulher perguntou segurando-se em seu braço enquanto andava. Era bom demais estar ao seu lado.
— Nessa parte ainda não, nunca tive muito tempo para admirar a beleza de nosso reino — Sorriu fraco, olhando para a moça — Mas quem sabe a senhorita não me apresente mais algumas? — Sugeriu, abrindo mais o sorriso.
— Seria uma honra, Duque, conheço alguns lugares secretos muito bons de se conhecer — Brincou, marota.
— Vou querer conhecer todos eles, Milady — Niklas respondeu, com um sorriso de lado.
— Temos um acordo então –- a mulher piscou e andou com ele pelo cais, entretanto, havia uma régua de madeira mais levantada que o restante e a condessa não a viu, acabando por tropeçar, desequilibrando-se e caindo no lago, um grito escapando por seus lábios.
O Duque arregalou os olhos, tentando a segurar e evitar tal desastre, falhando na tentativa. Crystal emerge na água o olhando, toda arrepiada pela água gelada.
— Pelos corvos! Está fria! — exclama olhando para o homem que a encarava de volta apreensivo.
— Milady está bem? — questionou se inclinando para lhe ajudar a sair do lago. A mulher, no entanto, alcançou a camisa de Sir Niklas antes que ele a pudesse erguer e o puxou para o lago também, um sorriso brincalhão no rosto. O homem arregalou os olhos e no instante seguinte se viu todo molhado — Lady Crystal! — exclamou incrédulo — por que a senhorita fez isso?
— Achei que fosse ser divertido tomarmos um banho no lago — a Condessa deu de ombros e se aproximou do Duque, o abraçando em seguida, sentindo seu corpo molhado contra o dela — Não concorda comigo, Duque? — questionou mordendo o lábio, numa tentativa de provoca-lo.
Niklas sentiu um arrepio correr por sua espinha e mordeu o lábio, dividido com a situação e sem conseguir responder a provocação da mulher. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a dama da rainha se aproximou ainda mais, beijando seus lábios. Com um suspiro, ela foi prontamente retribuída e envolvida com os braços fortes do Duque. O beijo começou calmo, tranquilo, cheio de saudades. Porém, num dado momento, Crystal começou a intensificar, segurando nos cabelos de Niklas e o puxando mais para si. O homem não resistiu e aprofundou o beijo com ela, se deixando levar por seus lábios e seu encanto. Era incrível o efeito que Crystal tinha sobre ele. E o quanto ele não queria resistir a tais encantos.
O beijo se seguiu intenso e com toques que não seriam considerados nada adequados para um casal se conhecendo. Como se os próprios Corvos estivesse lhes enviando um aviso, um barulho alto os tirou da distração do beijo, fazendo-os se separar extremamente ofegantes e desarrumados. Entretanto, nada mais era que um pássaro, caçando o seu lanche da tarde.
— Sir Niklas beija demasiadamente bem, se me permite dizer — Crystal sorriu com uma expressão marota no rosto.
— Pelos Corvos, Milady é muito atirada — riu o homem passando as mãos pelos cabelos tentando se controlar para não a agarrar novamente — Está se mostrando um verdadeiro perigo para a minha sanidade.
— Assim ficamos empatados, meu Duque, afinal minha sanidade já não é mais a mesma desde o dia em que eu o conheci — admitiu a mulher enquanto o rubor subia por suas bochechas.
Niklas não conseguiu conter o sorriso enorme e bobo que resultara as palavras da Condessa, segurando-a novamente pela cintura e iniciando outro beijo. E os dois passaram aquela tarde assim, sem se importar com mais nada que nada que não fosse aquele momento vivido com a sua alma gêmea, no mais sincero dos sentimentos.
———
Era final de tarde, o dia do casamento da Rainha Lestrange com o Guarda Fang se aproximava. Graças aos corvos, após o anúncio do vencedor do torneio e a perspectiva de haver um Rei, mesmo sendo Rei Consorte, os ânimos no reino e de toda a população acalmaram. Todos estavam ansiosos com o grande evento que aconteceria dali alguns dias. Ethan e Mikaela estavam se dedicando a organização de tudo, querendo poupar a prima dos maiores estresses.
— A lista de convidados já está pronta, amanhã logo ao amanhecer enviaremos os convites — Ethan comentou passando uns documentos para a chefe da guarda.
— Ótimo, eu já deixei toda a guarda a postos para que nada desse errado até lá. Ninguém vai bancar o engraçadinho — garantiu a mulher séria enquanto via os documentos que eram passados, com a lista de convidados – vou passar essa lista para John Dolohov, para garantir que ele verifique todos.
— Não vá assustar os convidados, Ella – ele deu uma risadinha divertida, pegando no pé da prima e namorada com seu jeito mandão e durão.
— Só vou garantir a segurança de todos que estarão presentes. A última coisa que precisamos é de um escândalo ou alguma espécie de ataque — rebateu Mikaela, estreitando os olhos na direção do outro — Além disso, toda essa organização está me deixando louca. Eu não sabia que era possível existirem tantos tons de cores para escolher... No nosso casamento pretendo ser bem objetiva nessas escolhas — completou o pensamento mais pra si do que pra Ethan de fato.
Entretanto o homem ergueu a cabeça, encarando a namorada estupefato e com um princípio de sorriso bobo nos lábios. Era aquilo mesmo que escutara? Casamento? Mikaela, sua Ella havia acabado de sugerir que se casaria com ele? Estava a dias planejando o momento em que pediria por sua mão, algo único, romântico e a altura da mulher que era o amor da sua vida. Não conseguia dormir direito, divagando sobre como dizer o que sentia e ela já estava ali, disposta a falar dos preparativos do casamento que ele nem a pedira? Será que estava sendo lerdo demais?
— Você está pensando em se casar comigo? — o sorriso na boca do Chefe do Conselho já estava de orelha a orelha àquela altura — Foi isso mesmo que eu escutei, Ella?
Mikaela desviou sua atenção do documento em suas mãos para o rosto do namorado, franzindo o cenho para em seguida arquear a sobrancelha. Seu olhar era determinado e cheio de certezas.
— Não estou pensando. Nós vamos nos casar — frisou bem a palavra “vamos” enquanto observava a expressão do homem, que ia de surpresa para incrédula. Sem nunca tirar o sorriso do rosto.
Com um pulo, Ethan saiu da cadeira, indo correndo para sua mesa, procurando, vasculhando por entre os vários documentos e pergaminhos. Murmurava coisas como “Vamos casar...” ou “Ela quer...” e ainda “Preciso encontrar...”. A mulher o olhava com as duas sobrancelhas erguidas naquele momento, querendo rir do seu surto e achando divertida sua reação àquilo. O Lestrange, ao contrário, parecia ficar cada vez mais desesperado ao não encontrar a maldita caixinha onde guardara... Pelos corvos! Será que era possível que ele havia as perdido? Não podia ser!
— Não, não, não, não... Estava aqui, eu juro que estava. Eu havia colocado nesta gaveta para quando fosse... Ah não, não, não... — ele continuava resmungando pra si, até que Mikaela não se conteve mais e deixou escapar uma risada pelo aposento. Ethan saiu de seu torpor ao ouvir o som — O que houve? O que é engraçado?
— Está procurando por isso aqui? — a mulher ergueu a mão direita, onde, no anelar, estava o anel de noivado, cravado com diamantes por toda sua circunferência, delicadamente espaçados para que não desse um ar exagerado. Ele sabia que a namorada odiava exageros.
Ao ver o anel que tanto havia procurado, o homem se permitiu dar um suspiro de alívio. Não fora desleixado com a joia afinal. Claro que não. Nunca faria aquilo com algo tão importante quanto o anel que daria a Mikaela ao pedi-la em casamento.
— Graças aos Corvos! — Ethan pôs fim a distância entre eles, pegando na mão da... poderia chama-la de noiva já? — Como você a achou? — perguntou então, deslumbrado, desacreditado. Sua expressão irradiava a felicidade de ver aquele anel na mão de sua amada.
— Achei há alguns dias atrás, vim te procurar aqui no escritório e vi o anel sobre a mesa. Eu peguei ao ver nosso nome nele. Fiquei curiosa para quando você perceberia que havia sumido. Obrigada aos Corvos, por me permitirem presenciar tal cena — a mulher riu abertamente sem se conter e foi acompanhada pelo homem.
— Então estamos noivos? — Ethan fez finalmente a pergunta que queria sair de sua boca, que ainda sustentava o sorriso mais bobo de todos.
Mikaela o olha de maneira apaixonada, levando uma mão até seu rosto e acariciando por sua barba, amorosa. A certeza era estampada em seus olhos, assim como o amor que sentia pelo por Ethan. Se dependesse dela, nada nem ninguém os separaria.
— Meu querido, não tem nada que eu queira mais nesse mundo do que ser sua esposa e formar uma família ainda maior com você. Quero te amar e ser amada todos os dias, cada dia mais. Com toda a certeza eu quero me casar com você, minha alma gêmea, confirmada pelos próprios Corvos.
O Chefe do Conselho abriu um sorriso maior ainda, se é que era possível, e puxou a mulher pela cintura, selando seus lábios em um beijo apaixonado, que mostrava todos os sentimentos que eles tentavam expressar em palavras mas que, às vezes, nem essas eram o suficiente. Os dois ficaram ali pelo resto da noite, aproveitando um ao outro e... bem, esquecendo de alguns afazeres.
———
Wu soltou uma exclamação de dor ao ser espetado pela agulha da costureira que ajeitava os últimos detalhes da sua roupa. A senhora havia ralhado com ele já que o guarda não parava de se mexer, inquieto.
Chegara o grande dia, depois de semanas de preparo iria acontecer, ele se casaria com a rainha de Ravengard, com a sua rainha.
— Wu, você tem que parar quieto ou vai chegar depois da noiva! — Mei, sua irmã, brigou, havia acabado de entrar no local, já arrumada para a cerimônia, sorrindo largo.
— Eu estou tentando, mas toda vez que eu penso no que vai acontecer... — o homem se mexeu novamente, fazendo a costureira resmungar.
— Então não pense! — Mei riu se aproximando dele — eu quero te contar uma coisa — sorria ansiosa.
— É sobre a rainha? Ela desistiu? — Wu arregalou seus olhos, nervoso.
— Não! Nada disso — a mulher negou rápido e riu — É sobre mim e o John — seu sorriso se abriu mais ao falar do noivo — Nós decidimos adiantar nosso casamento — riu boba.
— Mais?! — o guarda não conseguiu conter os ciúmes naquela exclamação — Por que tanta pressa? Não é como se você fosse fugir dele — bufou.
— Já estamos noivos faz tempo, Wu — ela riu com os ciúmes do irmão — e sabe... tivemos que adiantar antes que a barriga começasse a aparecer... — abriu um sorriso largo, feliz.
— Barriga? — Wu franziu o cenho, sem entender — Ele quer se casar antes de ficar gordo? — perguntou sem acreditar.
— O que? Não, seu bobo! — Mei riu mais — Antes que a minha barriga crescesse.
— Não acho que você vá engordar e se ele quer se casar com você antes por não achar que você vai continuar bonita ou algo do tipo eu tenho todo o direito de ir l...
— Wu! — a irmã interrompeu seu discurso, parando na frente dele — Eu estou grávida!
O guarda franziu o cenho, olhando para a irmã sem entender, com cara de bobo. Então desceu o olhar, lentamente, para a barriga dela, que Mei acariciava com carinho, sorrindo largo.
— G-grávida? — ele gaguejou a encarando confuso.
— Você vai ser titio! — Mei respondeu dando pulinhos de alegria.
— Eu... — o jovem estava totalmente atônito com a notícia — mas vocês nem se casaram ainda...
— É por isso que temos que adiantar o casamento — ela lhe explicou, rindo.
— Mas como...?
— Ah... — Mei corou levemente o olhando.
— Você... ele... vocês? — a expressão do guarda se fechava a cada palavra — Eu não acredito que ele fez isso com você! — exclamou sentindo um súbito de fúria, misturada com ciúmes — eu vou m...
— Wu! — a irmã o segurou pelo braço assim que ele ameaçou sair do cômodo, o puxando — Você não está feliz por mim? — lhe olhou com os olhos marejados, fazendo o irmão vacilar — Achei que você gostaria de saber... — ela abaixou o olhar, triste.
— Tampinha... não... — ele mudou de atitude assim que viu sua reação, não suportava ver a irmã triste, muito menos causar essa tristeza — Desculpa... — pediu a puxando para um abraço, a apertando.
A costureira fazia tempo já havia desistido do homem, se afastando. Mei soluçou baixinho no peito do irmão mais novo, encolhida.
— Mei, não chora... — ele lhe implorou se sentindo a pior pessoa do mundo.
— Então você quer? Ser tio? — ela lhe olhou com os olhos marejados e pidões, que Wu não conseguia negar nada desde pequeno.
— É claro, tampinha — ele falou por fim a abraçando forte — Eu fui um idiota...
A expressão da mulher mudou rapidamente com aquela expressão e ela abriu novamente o sorriso largo.
— Você é o melhor irmão do mundo! — exclamou lhe dando um beijo na bochecha, deixando Wu surpreso com a mudança tão rápida.
— Mas...
— Agora você tem que voltar a se arrumar enquanto eu vou ajudar a mamãe — Mei falou tendo voltado a seu estado normal, animada como sempre — Até mais tarde, irmãozinho! — exclamou o soltando e saindo do local, tão rápido quanto entrara.
— Sr. Fang? Eu posso? — a costureira lhe olhou impaciente.
— Ahn... claro — ele respondeu ainda atordoado com a visita da irmã, ao menos aquilo tendo feito ele ficar parado e a senhora ajeitar tudo, o deixando pronto.
O resto do dia passou como um borrão para o guarda, que pareceu acordar apenas ao ouvir anunciarem que a rainha estava chegando, já no local onde aconteceria a cerimônia, e receber uma leve cutucada da mãe.
Ele piscou surpreso, mas prontamente se ajeitou, o coração acelerando ao pensar que ela estava chegando.
Cherry entrou no salão acompanhada por Ethan, estava com um sorriso contido no rosto, disfarçando bem seu nervosismo. Mas, assim que seu olhar se encontrou com o do guarda, que abriu o maior sorriso que ela já havia visto no rosto dele, ela não conseguiu se controlar mais tão bem. Era impressionante o efeito que ele tinha sobre ela, fazendo seu coração acelerar e ela querer andar apressada até estar ao seu lado outra vez.
Wu sorria embasbacado com a beleza dela, nunca a vira tão deslumbrante daquela forma. Todo medo e insegurança que tinha pareceu sumir assim que seus olhos se encontraram e parecia que só haviam os dois no local, nada mais importando.
Ethan deu sua benção aos dois quando ele e Cherry chegaram, indo para seu lugar, junto com Mikaela, Crystal e também o Duque Niklas, que estava como convidado da dama. Então Wu, ainda com o sorriso bobo, beijou delicadamente sua mão, a olhando com amor.
— Você está deslumbrante, minha rainha — falou exatamente o que pensara, fazendo a ruiva corar graciosamente.
A cerimônia parece passar como um borrão para os dois, ambos assinaram o livro de registros, trocaram as alianças e quando o bispo disse que podia beijar a noiva, Wu se aproximou e lhe deu um beijo delicado e respeitoso.
Os dois seguiram para fora do salão, onde compareceram ao cortejo militar e, depois de cumprimentarem brevemente o povo, outra tradição, seguiram para a festa de casamento.
— Eu não fazia ideia de que haviam tantas tradições assim, minha rainha — Wu comentou quando finalmente ficaram um pouco sozinhos, fazendo a ruiva rir.
— Bem vindo a realeza — Cherry murmurou fazendo o guarda fazer uma leve careta.
— Isso é mesmo necessário? Eu ficaria feliz em continuar sendo apenas seu guarda — ele argumentou a olhando com um bico involuntário, fazendo a mulher sorrir, achando adorável.
— É sim, sua coroação será em breve, rei consorte — ela sorriu divertida e Wu acabara por sorrir também.
— A senhorita está muito linda, sabia? — se aproximou um pouco acariciando seu rosto com cuidado.
— O senhor também está particularmente encantador — Cherry o respondeu suspirando com o carinho — Obrigada.
— Pelo que? — Wu a perguntou sem entender, franzindo levemente o cenho.
— Por me fazer acreditar novamente — ela sorriu para ele — por não desistir de mim...
— Eu nunca desistiria — ele a garantiu, se aproximando um pouco mais — Eu prometo cuidar de você, te amar e estar ao seu lado, para sempre.
Cherry sorriu mais com aquela declaração e terminando o espaço que havia entre eles, selou seus lábios em um beijo carinhoso.
O restante da festa decorreu normalmente, o homem não saía do lado da esposa em momento algum, sempre lhe fazendo pequenos gestos carinhosos e lhe olhando como se ela fosse a mulher mais linda do planeta e para ele, a ruiva realmente era.
———
A Condessa Crystal havia sido convidada como madrinha da noiva, juntamente com o Duque Niklas. Os dois haviam ficado numa das laterais do altar enquanto era realizada a cerimônia de casamento. A mulher não conseguia tirar o sorriso do rosto em felicidade pela prima e amiga. Já Niklas pegou-se constantemente olhando para a sua acompanhante a fim de admirá-la.
— Milady está particularmente deslumbrante no dia de hoje — ele comentou baixo em um momento, enquanto os noivos faziam seus votos na cerimônia.
— Só hoje? — Crystal sentiu suas bochechas esquentarem e o rubor lhe tomar a face, o princípio de um sorriso bobo em seus lábios.
— A senhorita está sempre deslumbrante, mas hoje em especial, parece brilhar mais que o normal — o homem comentou, dirigindo-lhe um sorriso charmoso e fazendo o sorriso de sua acompanhante aumentar.
— Estou feliz por Cherry, ela merece muito — respondeu a Condessa sincera.
— Você também merece — ele devolveu, dirigindo-lhe um sorriso carinhoso.
Crystal sentiu seu coração acelerar ainda mais com a declaração, estava completamente apaixonada por aquele homem tão cavalheiro. Não conseguiu deixar de pensar em como valera a pena seu esforço em chamar a sua atenção e conquistá-lo. Niklas, por sua vez pensava em tudo que passara até chegar ali, naquele momento. Como o destino havia o levado para um torneio, disputar a mão de uma mulher, somente para fazê-lo se apaixonar por outra mulher. Sua alma gêmea.
O resto da cerimônia passou muito mais rápido do que muitos queriam. Cherry e Wu fizeram discursos, agradecendo a presença de todos e prometendo governarem de forma justa e bondosa, ao contrário do que fora o reinado dos pais da Rainha. Ethan e Mikaela sorriam orgulhosos e felizes pela prima que tanto cuidaram e zelaram naqueles anos que passaram. O momento era um recomeço de muita esperança para o reino de Ravengard.
Após o grande banquete que foi servido em comemoração à união da Rainha com o Guarda, uma grande pista de dança foi aberta para os noivos terem sua primeira dança como casados. Todos observavam a cena sorrindo e então, ao fim da primeira música, se juntaram aos dois.
— Sir Niklas me concede esta dança? — perguntou a Dama da Rainha com um sorriso de canto nos lábios, divertida.
— Se me permite dizer, deveria ser eu a fazer esse questionamento, Milady — riu o Duque que estendeu a mão em resposta a sua amada.
— O senhor já deveria saber que eu sou uma mulher que gosta de quebrar paradigmas e tradições — rebateu ela, sorrindo de lado, marota.
— Eu lhe garanto, Lady Crystal, que eu sei muito bem desse fato — ele sorriu charmoso, segurando em sua cintura e aproximando seus corpos — Afinal, foi tal rebeldia que que conquistou meu coração — completou galante, dançando no ritmo da música e a guiando.
— Então Sir Niklas gosta de donzelas rebeldes? — a mulher não conseguiu conter a provocação, embora seu coração se acelerasse mais com a declaração.
— Na verdade, somente uma donzela rebelde — o Duque respondeu a olhando com intensidade, apaixonado.
— Foi uma excelente resposta — ela disse então sorrindo ainda mais, fazendo-o rir divertido.
Os dois continuaram dançando, felizes e apaixonados, bem como o casal de noivos e não viram o tempo passar. Quando a festa já se encaminhava para o final, Mikaela chegou perto dos noivos, avisando a prima que estava na hora de jogar o buquê. Cherry sorriu de maneira cúmplice e se despediu do marido por alguns instantes, dando-lhe um beijo na bochecha e seguindo para o local onde jogaria. Todas as donzelas que estavam presentes na festa se reuniram atrás da noiva para tentar pegar o buquê, incluindo Crystal. A Rainha dirigiu um olhar a todas as mulheres ali reunidas e se demorou um pouco em sua dama e melhor amiga, piscando-lhe. Logo em seguida, virou-se e jogou o buquê que percorreu uma parábola perfeita até as mãos da Condessa Crystal.
— Pelos corvos! — exclamou a mulher assim que conseguiu equilibrar o buquê em suas mãos. A Rainha foi até ela lhe cumprimentar e abraçar.
— Espero que esse casamento não demore a acontecer, tendo em vista o seu forte candidato — disse a ruiva risonha para a prima que corou um pouco, preparando-se para falar, mas a rainha interrompeu — E eu acho que tem algo para você em uma das flores — confidenciou antes de se afastar para se juntar ao noivo.
Crystal olhou mais atentamente para o conjunto de flores e percebeu que, presa por uma corda delicada, havia uma caixinha. Franziu o cenho e se pôs a desamarrar com cuidado, sem perceber a aproximação de Sir Niklas e o silêncio que havia tomado conta de todo o salão, como em expectativa. Ao conseguir desatar a corda, a Condessa analisou a caixinha de veludo, curiosa e a abriu, soltando um ofego ao perceber o seu conteúdo. Um anel, ornado com uma única pedra, uma safira que combinava com o vestido azul que estava usando naquele momento. Um anel de noivado.
Finalmente, Crystal se deu conta da presença as suas costas e se virou, percebendo então que o Duque Gallagher estava ajoelhado em uma perna, dirigindo-lhe o olhar mais apaixonado e amoroso possível. Lágrimas se acumularam nos cantos dos olhos dela antes que o homem começasse a falar:
— Durante muito tempo, achei que meu destino era lutar pelo meu reino e fazer de tudo que pudesse para honrá-lo. Esse foi o principal motivo para entrar no torneio pela mão da rainha — Niklas a olhava sério, intenso — Talvez eu realmente tenha feito o certo, visto que desde meu primeiro momento, Milady tenha cativado minha atenção. Tentei, inutilmente, — deu uma risadinha marota com as tentativas da Condessa em lhe chamar a atenção — resistir a seus encantos achando que a senhorita era apenas uma tentação. Entretanto, graças aos corvos, descobri que em você eu tinha minha alma gêmea, trazendo a realidade a uma das lendas mais antigas do nosso reino. — Ele então sorriu afetuosamente — Embora mesmo que não tivéssemos recebido aquela pena, eu estaria aqui, dessa mesma forma, pois eu amo você, mais do que eu podia imaginar que amaria alguém mais do que meu reino. — Por fim, o Duque estendeu a mão para pegar na dela — Assim, eu lhe peço de coração aberto, Condessa Crystal Frey, a senhorita me daria a honra de ser minha esposa?
O mundo havia parado ali para a Dama da Rainha. As palavras de Sir Niklas ecoando em sua mente enquanto sentia seu coração palpitar e as borboletas em seu estômago voarem e se revirarem, por tanta felicidade que sentia com tamanha declaração do amor dele por ela. Era naquele momento que tudo valia a pena. Que toda coragem e determinação de lutar por aquilo que ela mesma queria, foi recompensada. Algumas lágrimas escapavam de seus olhos, escorrendo em sua face delicada. Lágrimas de felicidade. Pelos corvos, era claro que ela possuía resposta para tal pergunta!
— É claro que eu aceito, meu Duque! — ela disse risonha correndo para os seus braços, onde foi prontamente recebida e aconchegada — Desde que eu pus meus olhos no senhor, eu tive a certeza de que era alguém especial. A partir daquele momento eu não podia não fazer nada. Confesso que, em algumas vezes, cheguei a pensar em desistir. Porém, graças aos corvos, eu não o fiz e fui recompensada da melhor forma possível, sendo correspondida. Eu também o amo, Sir Niklas e não há nada que eu queira mais do que passar o resto da minha vida ao seu lado!
Sem ligar para mais nada, nem para ninguém que estivessem ao seu redor, – embora todos estivessem emocionados com a cena que haviam acabado de presenciar – o mais novo casal de noivos compartilhou um beijo apaixonado, para selar aquele amor profundo e verdadeiro que possuíam um pelo outro.
———
Alguns meses se passaram, Wu fora coroado e agora era chamado de Sua Alteza Real, para desgosto do próprio. Ele insistira para continuar seus serviços, mas não era mais um dos guardas pessoais de Cherry, não oficialmente, ao menos. Era agora o segundo no comando da guarda real, com enfoque na proteção da rainha, enquanto Mikaela se encarregava de todo o reino.
Ele estava acostumado a acordar sempre bem cedo e naquele dia em especial não fora diferente, o que o fez ir até a cozinha e pegar o café da esposa, levando-lhe na cama dos dois.
A acordou com beijos delicados, acariciando seu rosto. Cherry resmungou preguiçosa, não querendo abrir os olhos, fazendo o marido rir.
— Hora de levantar, minha rainha — falou suave, dando-lhe um selinho breve.
— Assim fica difícil acordar mal humorada — ela murmurou, a voz rouca pelo sono, abrindo os olhos devagar e o olhando.
— Essa é a ideia, majestade — Wu piscou divertido lhe dando outro selinho — Trouxe nosso café da manhã — contou pegando a bandeja com diversos alimentos — Eu mesmo fiz o chocolate quente, sugiro que experimente.
A ruiva se sentou, olhando para a bandeja, curiosa.
— Não sabia dos seus dotes culinários, meu cavaleiro — disse pegando a xícara e bebericando, ficando surpresa com o quão bom realmente era — De fato, está magnífico — concordou sorrindo e tomando mais, acabando por ficar com os lábios um pouco sujos.
— Na verdade essa é a minha especialidade — ele brincou divertido, se inclinando e limpando delicadamente sua boca com o polegar — Linda — sorriu largo.
— Eu acabei de acordar, Wu — Cherry riu divertida, balançando a cabeça.
— O que a deixa ainda mais encantadora — garantiu convicto, começando a comer com ela.
A rainha apenas riu mais, se aconchegando nele enquanto tomava o chocolate e comia um pouco.
Os dois passaram o resto do café da manhã em silêncio, apenas aproveitando a presença um do outro. Naqueles meses que estavam juntos haviam descoberto isso, que não precisavam de palavras para mostrar um ao outro o que sentiam.
— Sabe... — Cherry quebrou o silêncio depois de terminarem — Talvez a lenda não seja totalmente correta.
— Por que diz isso, minha rainha? — Wu perguntou, estava com os braços ao redor dela, acariciando levemente sua pele.
— Eu recebi uma pena — contou, fazendo o homem ficar surpreso.
— Com quem? — ele tentou conter os ciúmes com aquela revelação, imaginando se havia sido com um dos outros concorrentes do torneio.
— Com ninguém — a ruiva riu — Foi no dia em que eu decidi aceitar a ideia da competição, que eu pedi um tempo sozinha na Árvore dos Corvos, uma pena simplesmente caiu no meu colo.
— Ninguém? — Wu franziu o cenho e então se lembrou do dia — Eu estava lá! — exclamou alto, surpreso ao se dar conta do fato — eu estava patrulhando o local quando um corvo pousou no meu ombro, achei que ele estivesse machucado, estava tentando alcançar algo em seu corpo... — riu sem acreditar — e se foi a sua pena? — a olhou sorrindo largo — ele levantou voo tão rápido quanto apareceu... talvez para poder lhe entregar a pena.
Cherry arregalou os olhos com a história e logo abriu um sorriso bobo, largo.
— Pelos Corvos! Esse tempo todo eu já estava com a sua pena sem saber? — perguntou surpresa e Wu assentiu, rindo com ela.
— Nós já tínhamos nossa resposta o tempo todo... — ele comentou acariciando seu rosto — você é minha alma-gêmea, Cherry Lestrange — disse apaixonado.
— E você a minha, Wu Fang — a ruiva acariciou seu rosto também — eu te amo — falou, pela primeira vez, fazendo-o arregalar os olhos, surpreso e abobado.
— O-oi?
— Eu te amo, meu cavaleiro — ela repetiu rindo com sua reação, seu coração acelerado por finalmente declarar o que sentia — Eu amo você.
Wu riu bobo a puxando pra si e abraçando forte.
— Você me ama! — exclamou feliz segurando seu rosto e dando vários beijos, eufórico.
A rainha riu mais, assentindo e aproveitando os beijos do esposo, então segurando seu rosto também e o beijando para valer.
Naquela manhã, nenhum dos dois saiu do quarto, aproveitando um ao outro como um casal de namorados, como tinha que ser.
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