A volta dos dragões
11 O Cavaleiro das Cebolas
Notas iniciais
Não importava quanto de couro e lã estivessem cobrindo seu corpo, Davos ainda sentia o frio do Norte lhe gelar os ossos sempre que uma brisa fria o atingia, fazendo um som entre as pedras, de arrepiar os pelos da nuca até do mais corajoso dos homens. O Cavaleiro das Cebolas ouvira muitas histórias sobre a ilha, antes de sair de Porto Branco, sobre unicórnios e criaturas lendárias que se acreditava estarem escondidas no isolamento de Skagos. Porém, tudo que o homem vira até o momento, fora rochas, e um ar tão frio que quase chegava a ser palpável.
–Mesmo que o garoto ainda esteja aqui, está provavelmente morto. Devíamos voltar e dizer a Lorde Manderly que não o encontramos. — Wex Pyke mal conseguia falar, o fôlego lhe faltava pela escalada naquelas pedras.
–Sabe o problema em se passar muito tempo em um dromone? — Davos perguntou enquanto continuava a avançar naquele monte de rochas, já visualizando um tipo de fenda, mais a frente. -Nos deixa um pouco preguiçosos… Não dá para cavalgar em um dromone, nem fazer caminhadas, caçar… Nada que mantenha seu corpo ativo…
–Do que está falando? — O rapaz enrugou a testa, parando um momento de segui-lo.
–Tanto tempo no mar deixou você lerdo, por isso está tão cansado. — Ele respondeu, segurando-se em uma das pedras com a mão esquerda, sentindo a ausência da ponta dos dedos, quando percebeu a dificuldade de fixar a mão sem eles. -Não vamos voltar. — Falou com a voz firme. -Disseram que uma besta negra tinha arrancado a cabeça de um homem por aqui. Deve ser o lobo gigante de Rickon Stark.
–E acha sábio irmos direto para onde a fera está? Por que não manda soldados armados procurarem?
Não que Davos tivesse qualquer sentimento negativo pelo bastardo, mas preferiria que Lorde Manderly não tivesse insistido que ele fosse levado na busca. Haviam chegado a ilha há dois dias, e todas as informações que tiveram os haviam levado até ali, uma floresta não muito longe da costa, cheia de pedras escorregadias e cavernas escondidas. Davos pensara em desistir da busca quando demoraram tanto sem nenhuma outra pista do garoto, a ilha era grande para poucos homens vasculhares, e perigosa também. Mas Stannis precisava do apoio do Norte, e o ex contrabandista se comprometera em conseguir aquele apoio.
–Porque qualquer soldado armado pode facilmente ter sido subornado por Lorde Bolton. Porque qualquer soldado armado pode acabar matando Rickon Stark, ou o assustar, fazendo-o fugir pra outro lugar, o levando para mais longe do nosso alcance. — Davos falava enquanto ia tentando se mover pelas pedras, pisando com cuidado e segurando-se com ambas as mãos, enquanto tentava se aproximar da fenda. -Nós vamos achar o garoto e eu só vou tirar o olho dele depois que o entregar a Lorde Manderly. Agora poupe o seu folego e…
Tudo aconteceu rápido, rápido demais para Davos entender bem o que via. Uma pedra de médio porte parecia ter escorregado e caído em sua mão direita, obrigando-o a segurar-se apenas com a esquerda. O susto lhe tirou o equilíbrio, e ele pendeu para o lado. O amontoado de pedras não era particularmente alto, mas o mal jeito na queda poderia custar a vida de um homem. Davos segurou-se como pode, mas então, outro susto… Wex Pyke começou a gritar, desesperadamente, e quando o cavaleiro das cebolas virou o rosto na direção dele para perguntar qual era o problema, pode ver uma fera negra como a noite, os olhos verdes brilhando no escuro. O lobo gigante tinha as garras presas na rocha, mantendo-o perfeitamente seguro em uma parte mais horizontal do pedregulho. Seus dentes estavam banhados em sangue, mastigando parte da barriga de Wex Pyke, mortalmente preso na boca do animal.
Davos se balançou, tentando conter o medo e o choque, sabendo que a mão sem a ponta dos dedos não conseguiria sustentá-lo por muito tempo, e então se soltou, caindo precisamente na fenda, soltando um gemido de dor quando bateu as costas na superfície irregular e rígida. Não ficou mais do que alguns segundos paralisado, tentando se recompor mesmo com as dores no corpo que agora se espalhavam, quando ouviu Wex parar de gritar. O homem olhou na direção do bastardo, apenas para confirmar que estava morto, o corpo meio mastigado, mas a fera responsável havia sumido. Davos olhou atordoado a procura do lobo, quando ouviu um rosnado não muito longe dele.
–Rickon! — Ele gritou, e o lobo pulou bem diante dele, os dentes ameaçadores e ainda repletos de sangue, exibidos enquanto os olhos verdes o encaravam como uma presa. -Rickon Stark! Eu estou aqui a mando de Lorde Manderly! — O lobo continuava a rosnar, dando passos lentos e sorrateiros na direção de Davos. O coração do homem batia tão forte que, além de cheirar o medo, teve a impressão de que a besta também podia ouvir sua adrenalina. Davos virou o rosto em todas as direções, procurando qualquer sinal do garoto Stark. -Eu vim buscá-lo e levá-lo de volta para casa! Os vassalos de seu pai… Os seus vassalos vão protegê-lo. Eles estão lutando contra os Bolton por você! — Ele gritou, apegando-se à esperança de que o garoto estivesse por perto. -O rei Stannis esteve com seu irmão, Jon, na muralha. Ele é Lorde Comandante da Patrulha da Noite agora… Ele também está preocupado com você…
–Você conheceu Jon? — Uma voz infantil ecoou na escuridão daquela caverna, e como em um passe de mágica, o lobo gigante parou de rosnar para Davos, lambendo o sangue em sua boca e se sentando tão comportado e dócil quanto um cachorro adestrado.
–Não… Mas meu rei o conheceu. E eu estou aqui a pedido de Lorde Manderly. Eles vão protegê-lo agora. — Davos ainda se mantinha cuidadoso, mas começou a se aproximar do garoto em passos curtos, e sem movimentos bruscos, os olhos se desviando vez ou outra na direção do lobo. -Você é Lorde de Winterfell agora, e do Norte. — Explicou. -Quando os Bolton forem presos, poderá rever sua irmã, Arya. Ela é… Prisioneira deles.
–Arya está viva?! — Ele falou com mais animação, a cabeça voltando-se para o lado, onde, com um susto, Davos percebeu a silhueta de outra pessoa se formando. -Ouviu isso, Osha? Arya esta viva!
–Como vamos saber se esta dizendo a verdade, m’lord? — A selvagem pousou as duas mãos nos ombros de Rickon, em um gesto protetor, e Davos respirou fundo, mantendo os olhos somente nela.
–Terá de confiar em mim, senhora. — Ele respondeu sustentando o olhar firme. -Além disso, acredito que se eu, ou qualquer um, tentar algo contra o garoto, seu amigo peludo logo irá fazer o mesmo que fez com ele… — E indicou o corpo de Wex, estraçalhado no meio das rochas. -Não estão seguros aqui. Consegui achá-los, outros também vão conseguir se ficarem aqui…
–É perigoso para ele sair por aí. Muita gente quer matá-lo, m’lord! — A mulher insistiu, e Davos achou que pode ver uma afeição genuína da mulher pelo menino, naquele olhar preocupado.
–Há muita gente lutando por ele, também. — Davos insistiu, e deu dois passos na direção deles, abaixando-se diante de Rickon, afim de olhar o menino nos olhos.
–Os Bolton estão dizendo que todos os Stark estão mortos. Eles tem sua irmã, Arya, e pretendem casá-la com Ramsay, o bastardo de Lorde Bolton, para fazer dele Lorde de Winterfell. — Ele contou, sentindo um aperto no peito por jogar aquele tipo de peso nas costas de um garoto que nem tinha idade para ser escudeiro. -Você é o verdadeiro senhor do Norte, meu senhor, agora que seus irmãos estão mortos. Precisa dizer aos seus vassalos que os Bolton estão mentindo. Precisa dizer a eles que os Stark ainda estão vivos e tomar de volta a herança que seu pai lhe deixou. — E pode ver os olhos do menino ganharem um brilho de medo, mas logo em seguida de algo como coragem, se é que isso existia para crianças.
–Temos que salvá-la, Osha. Temos que salvar Arya! — Ele falou erguendo os olhos para a selvagem. -Ela não deseja se casar, ela sempre disse! Eles vão obrigá-la, temos que salvá-la! — Ele insistiu, ao que a selvagem parecia indecisa.
–Senhora, se eu quisesse matá-lo, teria vindo com muitos homens a sua procura. A tripulação que me acompanha não sabe meu propósito, eu vim sozinho… Bom, quase sozinho, para não arriscar que alguém leal a Lorde Bolton soubesse sobre o garoto. — Davos colocou-se de pé, focando os olhos de Osha, apesar do escuro. -Eu prometo que vou protegê-lo, até que Lorde Stark esteja mais uma vez seguro em Winterfell. Em nome de Stannis, da casa Baratheon, primeiro de seu nome, eu juro que nenhum mal vai acontecer a Lorde Rickon.
Osha parecia confusa, dividida. As linhas de seu rosto, tão expressivo e visivelmente castigado pelos anos ao Norte da muralha, pareciam duelar, assim como seus pensamentos e dúvidas deviam estar fazendo. Ela olhou para Rickon com uma expressão preocupada, e Davos pode perceber quando as mãos da mulher apertaram levemente os ombros do jovem Stark.
–Está bem… Mas eu quero algumas de suas lâminas comigo, o tempo todo. E não vou sair do lado dele, nem Cão Felpudo. — Ela falou com firmeza, o queixo ligeiramente erguido, em uma pose tão orgulhosa, que Davos poderia remeter a alguma senhora de uma casa nobre.
–Como queira… — Ele respondeu, e pode sentir o lobo gigante aproximar-se dele, dessa vez lambendo sua mão esquerda, dócil como o ex contrabandista jamais pensou que veria uma fera como aquela.
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