A vida vista de baixo
1 Capítulo 1
Pelas ruas frias
Eu não saia de perto de minha mãe, não fui como os outros da minha raça, que quando chegam a uma certa idade esquecem totalmente as suas origens e quem sofreu para colocá-los no mundo. Ela já estava velha, chegava aos 10 anos de idade, e não escutava quase nada e dificilmente falava. Fazia muito frio, olhei em um relógio de temperatura, que estava ao lado de uma arvore com galhos secos, e expressão morta – provavelmente não fora bem cuidada- o ponteiro chegava as 21 horas da noite e faziam oito graus, uma temperatura um tanto incomum para uma cidade como São Paulo, onde na maioria do tempo, faz-se um calor insuportável . Eu caminhava com minha mãe na esperança de encontrarmos algum tipo de comida, ou água – que não fosse aquelas paradas em meio a guias de construções inacabáveis – para que pudéssemos nos fortalecer, pois não poderíamos parar de caminhar até encontrar um local habitável para que minha mãe pudesse descansar tranquilamente, sem que nenhum humano à causasse algum mal. Não havia um comércio aberto. Apenas bares onde adolescentes consumiam e jogavam conversa fora, bebendo cerveja e fumando cigarros que posteriormente seriam atirados no chão ou em poças de água, para que os cachorros ou qualquer outro animal de rua com uma grande sequidão tomasse daquele liquido, más que com tanta sede, não sentiriam o gosto das cinzas e do tabaco descendo por suas gargantas. A nossa única esperança era encontrar um morador de rua, sim, um morador de rua que estivesse comendo algum resto de comida e tivesse o bom coração de nos deixar migalhas no chão. Más isso não acontecera, já se passava das 22 horas, e não tínhamos comido nada, nem se quer um pedaço de pão duro. Foi quando encontramos no horizonte, dois potes brancos, logo na minha cabeça veio a imagem de água e ração, não deu outra, ao me aproximar dos potes juntamente com minha mãe, enxerguei a comida e a água bem a minha frente. Olhei para o lado para ter certeza de que nenhum outro cachorro nos observava, e quando meu consciente deu o aval para comer, fui em direção a ração com a boca totalmente aberta. Nesse algo inesperado aconteceu, uma gata pulou em cima do pote, derrubando por completo – dentro de uma poça com água e umas bitucas de cigarro – a única comida que tínhamos aquela noite.
Eu olhei em direção a gata – ela tinha um aspecto calmo, uma cor cinza claro, provavelmente era branca, mas a poluição dos carros e indústrias a deixou daquela cor, e demonstrava total controle da situação — já eu, estava enfurecida, e a indaguei:
—Por que fez isso sua gata imunda? Era a nossa primeira refeição no dia todo – eu disse rangendo os dentes — A gata com toda calma lambendo sua pata direita respondeu.
—Se acalme, eu apenas salvei a vida de vocês duas, a ração que você estava prestes a comer, está envenenada. Disse a gata com olhar de orgulho. Eu sem acreditar tentei subir no ponto para atacá-la, mas ela se manteve calma durante meu momento de fervor.
—Olhe bem. Qual é seu nome mesmo? A gata perguntou
—Meu nome é Mel, más isso não importa, eu quero a comida de volta. — disse eu com um olhar matador.
A gata desceu do ponto calmamente e foi em direção a algumas migalhas de ração que ainda estavam no chão
—Bem Mel, meu nome é Luna – dissera andando em círculos – essas bolinhas junto a ração, são substâncias que matariam você e sua mãe em menos de 15 minutos – fiquei sentada fitando as bolinhas cinzas que ela dissera ser veneno – em seguida a questionei.
— E como você sabe disso Luna? Não comeu nenhuma para ter tanta certeza assim, não é? Se não estaria morta
— Não comi, mas um amigo meu sim – explicava ela olhando para o céu totalmente nublado – estávamos na mesma situação que vocês duas. Tínhamos muita fome e sede, não comíamos e nem tomávamos nada fazia exatamente um dia. Estávamos praticamente “mortos”, foi quando avistamos um pote preto perto de uma caixa de correios. Meu amigo logo saiu em disparada na frente, passando entre as pernas das pessoas que ali caminhavam. No momento que fui em disparada, em direção ao pote, fui pega por uma criança — maldita criança – ela passava aquela mão cheia de açúcar em minha cabeça e me segurava como se eu fosse uma boneca de pano. Foi assim até o próximo quarteirão, quando fui atirada ao chão sem que ela se importasse, voltei correndo até a caixa de correio para me alimentar. Porem ao chegar lá, vi meu amigo Felix caído em um beco, sem conseguir se mexer, foi quando me aproximei dele e coloquei minha orelha perto de sua boca, ele já não respirava, sua boca estava entre aberta e seus olhos, aqueles olhos verdes, já se encontravam esbugalhados. — Estava morto – tive a certeza que fora a comida, voltei até o pote preto e analisei ração por ração, até encontrar essas bolinhas.
Eu logo abaixei a minha orelha e me desculpei pelo caos que causei – ou tentei causar- perguntei a Luna:
—Más por que colocam veneno na comida? E quem faria isso com os animais de rua? — Luna começou a caminhar – eu e minha mãe a acompanhamos –
ela explicou que no nosso mundo há muitos animais com que devemos tomar cuidado. Más enfatizou um em especial. O HOMEM.
—Eles não prestam Mel. Simplesmente não prestam. — fora a primeira vez que vi Luna aumentar o tom de voz – eles até cuidam de nós, nos dão alimento cama fofinha e carinho, mas quando veem que não tem mais condições ou quando se mudam para um lugar onde não podemos ficar, eles nos largam, para que vivemos em meio a multidões sem saber o que esperar, sem saber o que fazer e para onde ir – aquelas palavras me fizeram crer que os humanos não prestavam, mas que a única saída seriam eles, pois a parte da comida, cama e carinho interessava a mim e minha mãe.
A despedida e os companheiros
Depois de um dia inteiro em busca de comida, e se alimentando apenas de algumas migalhas – por não confiar mais em potes com rações — encontramos um local com alguns trapos e papelões atirados ao chão, olhei mais uma vez em outro relógio de temperatura faziam 4 graus, e já passavam das 23:50 pensei que ali seria o melhor lugar para que passássemos a noite. Descontinuamos o caminhar ali mesmo. A gata Luna ficou conosco. Eu aprovei a ideia. pois ela tinha um grande conhecimento do “mundo “em que estávamos vivendo.
Enquanto estávamos deitados nos trapos, em meio ao raro silencio, perguntei a Luna.
— Como veio parar na rua? Você é tão inteligente, e parece ter sido bem cuidada
Ela se acomodou em meio aos panos velhos, e olhando em minha direção, começou.
— Bom Mel, quando eu tinha meus 7 meses eu era uma gata de família rica, morava em uma casa com 2 andares, um jardim digamos que gigante, com todos os tipos de flores. E eu tinha minha própria casinha, não tinha o que reclamar. Porem um dia minha família saiu e me deixou sozinha naquela casa, eu fiquei desesperada, não sabia o que fazer sem eles, achava que não teria comida, comecei a pensar que eles não voltariam mais, aquilo me deixou desesperada, foi quando consegui escapar por uma brecha na cerca que separava a minha casa da rua. E então. Comecei a andar pelas ruas do meu bairro, a procura de uma senhora com cabelos grisalhos, aspecto de pessoa vivida e feliz. Não encontrei por lugar algum, e dentro de 5 minutos já não sabia onde eu estava. Fiquei completamente perdida em meio as casas carros e construções. E cá estou eu; a 5 anos vivendo na rua, sem saber ao certo como sobrevivi. — Ela engoliu seco sua última saliva.
Eu fiquei sentida com a história pois a minha e da minha mãe era parecida.
— Más Luna, você ainda pensa em rever sua antiga dona? Creio eu que sente saudades dela. — perguntei já com os olhos entre abertos, o sono havia chegado —
— Sim ainda penso, um dia encontrá-la, más esta cidade é enorme e eu não me recordo bem, onde está localizada sua casa. É algo difícil de se pensar. -Quando ela terminara de falar, eu já havia caído no sono, minha mãe já dormia e só ficara Luna acordada. Logo ela adormeceu sob as poucas estrelas que lutavam para permanecer no céu nublado de São Paulo.
Ao amanhecer, olhei para os lados em busca de avistar minha mãe e Luna, eu as vi, porem Luna dirigia seu olhar a minha mãe com uma cara de espanto, eu limpei as remelas que estavam nos meus olhos e perguntei a gata
— O que houve Luna? Por que olha assim para minha mãe – ela não respondeu, simplesmente se virou –
Eu levantei me espreguicei e fui em direção a minha mãe, foi quando ao chegar em sua frente, percebi que algo não estava bem. Ela não se movia, seu estomago não puxava ar algum, sua respiração já não era possível de escutar. Foi quando comecei a cutuca-la dizendo para ela se acordar. Nenhuma resposta. Chamei Luna e disse – faça alguma coisa, você deve conhecer algum jeito de faze-la respirar – a gata balançou a cabeça negativamente com um olhar lastimável –
Comecei a latir escandalosamente, para todos os lados, algumas pessoas passavam ao nosso redor, más fingiam não entender a situação. Corri em meio aos carros buscando encontrar alguém que nos ajudasse. Más nada e nem ninguém poderiam nos ajudar. Minha mãe estava morta, não havia o que fazer, simplesmente aceitar.
Voltei até o local do ocorrido, Luna ainda estava lá, calma como sempre, más seu semblante ainda era de pura tristeza e angústia.
— Por que isso aconteceu Luna? Por que logo com a minha mãe – eu chorava feito um cachorrinho recém-nascido.
— Provavelmente foi o frio Mel, o frio, eu com todo esse pelo sofri na madrugada, imagina a coitada de sua mãe, com a pele fina e já de idade, foi muito forte para ela – falava enquanto me consolava.
Eu sabia que uma hora isso viria a ocorrer, más não que fosse nesta noite, desta maneira sem ao menos me despedir dela, más vendo por um outro lado, foi melhor assim, ela não sofrera, e faleceu dormindo, como ela desejava. Cavei com minhas unhas afiadas, um buraco ali mesmo, onde ela estava deitada, e com a ajuda de Luna, enterrei minha mãe, sim a pobre coitada já não estava mais entre nós.
Segundos depois dois cachorros — aparentemente um casal — se aproximaram de nós. Luna tomou a frente esperando eles chegarem mais perto.
— Olá, posso saber o que querem aqui? – perguntou ela na maior calma.
O casal parecia sentido com algo, os dois tinham uma boa aparência. Eram um casal de beagles
— Nós vimos o que aconteceu, meus pêsames – falara o macho com a orelha sempre caída e cabeça baixa-nos queremos apenas ajudar, parecem estar com muita fome – minha barriga rouçou no momento exato de sua fala
— Venham conosco, temos comida e água, estão a dois quarteirões daqui. – Eu fui logo me movendo para o lado deles, foi quando Luna, sempre mais inteligente que eu, indagou.
— O que vocês querem de nós? Nos oferecendo comida assim, de graça sem nada em troca, isso me parece estranho. – Ela enrolou o rabo e o colocou ao seu lado
— Só queremos ajudá-los. Já passamos por momentos horríveis na rua, sem ter o que comer ou beber, sabemos como é a situação, hoje eu e minha esposa temos uma vida melhor, conseguimos pegar toda manhã um pote de ração e água do comércio do seu Pedro.
Eu abri a boca e disse:
— Vocês roubam comida? – perguntei com um ar bem questionador
— Digamos que sim – respondeu a Fêmea- ele vende as rações ao ar livre, e há muito movimento em sua lojinha, fica fácil de pegar uma boa quantidade para nos satisfazer quando ele está atendendo seus clientes. A comida é nossa, não podemos comprar, não existe trabalho para cachorro que nos dê dinheiro, existe aqueles que trabalham como salva vidas, ou cães policiais que fazem varredura para encontrar drogas dinheiros armas ou qualquer outro tipo de objeto. Porém nós somos cães de experimento então temos que de alguma maneira, conseguir alimento, e se roubar for a única opção, teremos que fazer. Ela terminou de me explicar e se sentou como se esperasse mais alguma pergunta. Nada foi questionado. E seguimos o casal com esperança de termos nossa primeira refeição do dia...
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