A vida que a morte traz
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Tinha escrito uma carta, até mesmo colocado seu primeiro nome, na esperança de que isso deixasse T.L. um pouco mais confortável. Escolheu cada palavra para soar o menos invasivo possível e deixou a folha sufite que tinha preenchido com sua letra garranchada no mesmo lugar em que ele (ou ela) deixava as suas.
Um misto de nervosismo e animação o tomou ao longo dos dias que se seguiram, ansiedade, talvez. Corria da escola ao cemitério todos os dias, sempre com uma doce esperança de que uma resposta estivesse lá. Não estava. As semanas se passaram e nada além de folhas secas repousavam sobre o túmulo de Virgínia, deixando um gosto amargo de decepção na sua boca sempre que ia visitá-lo. Voltou a vê-lo apenas pelo que era: morto, tal como Mirela, Aninha e sua querida vó. Tal como T.L. poderia (e parecia) estar, em seu sumiço.
Decidiu continuar a escrever, no entanto. Talvez falar com ninguém fosse realmente bom, afinal se não fosse, aquela pessoa não o teria feito por tanto tempo.
“T.L.,
Realmente não sei se me apego à vida que perdi ou à que, por alguma razão, esperei encontrar em algum lugar. As duas pareciam ótimas na minha cabeça! Você falava com a minha avó, eu achava isso bem interessante, acho que ela gostaria disso, mas eu particularmente prefiro não fazê-lo. Ela com certeza não ia gostar de quem eu sou hoje, é melhor que não veja. No entanto você não pode (e não acho que iria) me julgar, parece tão desiludido (vou usar o pronome masculino, já que não faço ideia de quem você é) com tudo quanto eu. Não sei, não tenho muito o que escrever. Claro, tenho memórias, tenho dúvidas, mas já revivi a maioria delas na minha cabeça tantas vezes que não têm mais nada a oferecer.
Mas eu queria saber se você está bem (provavelmente não, mas enfim). É bem patético, na verdade, que alguém que mal sabia da minha existência tenha tomado um lugar tão grande no meu cotidiano a ponto de eu continuar me importando. Não tem muitas coisas pra suprirem esse lugar, acho, talvez seja isso.
Arthur”
As cartas eram deixadas lá, desapareciam e nunca recebiam uma resposta. Mesmo tentando evitar, mantinha alguma esperança de que mudasse um dia, pois toda vez que isso não acontecia, o já bem conhecido amargor ressurgia e ele se perguntava por que continuava se decepcionando, por que continuava se importando toda vez. Não sabia, mas também não buscava parar.
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