Já passava da meia noite quando Ana chegou em casa. Apesar da hora, ela foi correndo ligar para Elice.

— Você esta bem? — Elice atendeu, preocupada.

— Agora estou — Ana respondeu enquanto procurava alguma coisa para comer. — E como está o Darel?

— Ele sempre fica bem — respondeu rindo. — Ele me disse que você foi embora com um homem e eu fiquei preocupada.

— Era o meu chefe. — Ana colocou o macarrão que tinha encontrado na água fervendo e sentou no sofá. — Quando eles me viram eu fiquei desesperada e saí correndo. Eu acabei esbarrando no meu chefe e ele me deu uma carona de volta.

— Seu chefe descobriu que você estava espiando? — perguntou Elice curiosa.

— Eu inventei que queria ir ao correio da cidade e me perdi. Só que tenho certeza que ele não acreditou.

— Bem... Essa não foi a melhor desculpa que eu já ouvi.

— No final eu me arrisquei por nada. — Ana levantou e foi fazer o molho para o macarrão. — É melhor eu esquecer essa história e focar no meu trabalho.

— Se quiser, podemos nos encontrar amanhã e conversamos melhor?

— Eu tenho que trabalhar, mas a minha próxima folga vai ser no domingo e... — Ana parou de misturar o macarrão e se lembrou que iria se encontrar com Paolo no domingo. — Me desculpa, já tenho um compromisso no domingo.

— Nossa! De repente você ficou muito ocupada — ironizou Elice.

— O que você quer dizer? — Ana ficou chateada com o comentário — Você sabe que eu estou aqui trabalhando.

— Me desculpa. Às vezes nem parece que você é funcionária desse lugar.

— É um trabalho flexível, porém continua sendo um trabalho sério. ­— Ela colocou o macarrão no prato. — Eu vou comer agora, te mando mensagem quando tiver um tempo livre.

— Tudo bem. Tchau.

— Tchau.

O resto da semana passou voando e quando Ana percebeu já era domingo.

Era quase meio dia quando Ana chegou à área da fazenda, onde Paolo já esperava por ela na entrada do restaurante.

— Você está bem? — perguntou Paolo quando viu Ana chegar correndo.

— Eu demorei a dormir ontem e acabei perdendo a hora — explicou ofegante, se apoiando na parede.

— Eu pensei que você estava sendo perseguida por alguém.

Ana olhou sem entender o comentário e Paolo explicou:

— Você estava correndo desesperada fazendo várias caretas e eu pensei que você estava fugindo com medo.

— Eu não estava fazendo caretas!

— Como você sabe se não se viu correndo?

— Eu sei lá! É melhor entramos logo no restaurante.

— Você quem sabe.

Eles escolheram um restaurante self-service de comidas típicas de Minas Gerais. As paredes eram de tijolo laranja e as mesas eram feitas de madeira escura. Eles entraram e começarão a se servir.

— Nossa! — Paolo olhou fixamente para o prato de Ana. — Como você consegue comer tudo isso?

— Eu não tomei café da manhã. — A garota olhou para o prato dele de volta e acrescentou: — Não sei do que você está falando já que o seu prato está igual ao meu.

— Eu estou em fase de crescimento, é diferente.

Os dois se sentaram próximos à janela com vista para os chalés. Ana ficou observando as pessoas entrando e saindo dos chalés. Um casal estava caminhado e quando o celular da moça caiu no chão, o homem que estava com ela rapidamente abaixou para pegar. Ana ficou observando a cena fofa que se desenrolava na sua frente. Ela aceitou sair com Paolo porque estava cansada e pensou que ela poderia viver um amor de verão, mas a verdade é que ela não estava se divertindo. Paolo percebe que Ana estava distraída e tentou puxar assunto enquanto comiam.

— Há quanto tempo você trabalha aqui?

— Esse é o meu primeiro mês — explicou Ana voltando à realidade, mas como ela não queria falar sobre trabalho, resolveu mudar de assunto. — E você? Sempre se hospeda aqui?

— Essa é a minha primeira vez nesse país.

Ana percebeu que o problema não era assunto, ela só queria ir embora logo.

— Toda vez que você sai com uma garota é sempre chato desse jeito? — Ana acabou deixando escapar seus pensamentos. — Me desculpa não quis...

— Eu nunca saí com uma garota — Paolo respondeu com a voz tão baixa que Ana quase não conseguiu escutar.

— Eu não entendi?

— Eu nunca fui a um encontro — falou, dessa vez um pouco mais alto.

— Por que não? — Ana deixou sua comida de lado e se concentrou na conversa.

— Vamos mudar de assunto? — pediu Paolo sem quere falar mais.

— Por favor, me conta. — Pela primeira vez Ana sentiu vontade de conversar com Paolo. — É importante eu saber já que sou a primeira garota com quem você está saindo.

Após respirar fundo o garoto soltou:

— Meu pai não deixa.

À medida que Paolo foi ficando vermelho de vergonha, Ana teve que ir se segurando para não rir. De repente, Ana ficou séria.

— Você mentiu para mim! — Ana bateu a mão na mesa brava. — Você deve ser bem mais novo do que eu para precisar da permissão do seu pai.

— Eu não menti! Eu tenho 17 anos. É só que... — Paolo coçou atrás da cabeça procurando as palavras certas. — O meu pai é um pouco exagerado.

Ana se acalmou e começou pensar em como poderia ser o pai de Paolo:

— Ele é daqueles que quer que você seja uma cópia fiel dele, no entanto não tem tempo para ficar em casa com você e te escutar. E eu não poderia esquecer o quanto ele te pressiona a fazer tudo perfeito?

— Como você adivinhou? — O garoto ficou impressionado com a descrição que Ana fez de seu pai.

— Eu sempre gostei de assistir novelas — Ana explicou orgulhosa. — Agora acho melhor terminarmos de comer antes que esfrie.

O resto do almoço foi tranquilo: eles conversaram um pouco e decidiram passear pela fazenda.

— Posso confessar uma coisa? — Paolo perguntou, enquanto observavam o pomar.

— Depende — Ana respondeu, com receio do que poderia ser.

— Eu não achei que você conseguiria comer tudo que estava no prato.

— Eu não sei nem o que responder. — Ana ficou bem magoada, pois quando ela era pequena seus colegas de sala faziam bullying com ela já que ela sempre comia muito.

— Olha! — Ele apontou para um cercado onde alguns hóspedes amamentavam filhotes de cabra. — Vamos dar uma olhada?

Ana foi arrastada por Paolo até o cercado. Eles se encostarem e as cabras se aproximaram.

— Você quer dar mamadeira para eles? — Paolo perguntou, tentando animá-las.

— É só que... Eu tenho um pouco de dó.

— Como assim? Elas não estão sendo maltratados.

— Cadê a mãe deles? E além do mais, eles estão sendo usados para ganhar dinheiro. Eles deveriam ser mais livres.

Antes que o Paolo falasse mais alguma coisa um segurança se aproximou.

— Com licença, eu vou ter que pedir para que vocês se retirem.

— Por que motivo? — Ana questionou.

— Atividade suspeita. Se insistirem mais terão que me acompanhar.

— Nós não estávamos fazendo nada suspeito.

Ana queria pedir mais explicações, porém Paolo segurou o ombro dela e falou:

— Não precisa, nós já vamos embora. Desculpa.

— Espera! Por quê? — Ana perguntou enquanto foi arrastada para longe.

— Eu não quero arrumar confusão — Paolo justificou.

— Mas nós não fizemos nada de mais! Você não precisava ter aceitado sem saber realmente qual foi o motivo. — Ana queria mostrar que não havia problema em se defender.

— Assim foi mais fácil.

— Nem sempre o mais fácil é o correto.

— Se você tivesse continuado só perderíamos o nosso tempo e teríamos estragado o nosso encontro. — Paolo respirou fundo e se aproximou de Ana. — Ao invés de continuarmos discutindo por que não vamos olhar o lago?

Ana se afastou de Paolo, estava decepcionada e só queria ir embora.

— Eu estou cansada, acho que é melhor eu ir embora. — Ana apertou sua bolsa com suas duas mãos, sem olhar nos olhos do Paolo — Depois te mando uma mensagem.

Ana correu em direção do ponto de ônibus. Por sorte, estava passando um naquele exato momento. Tudo o que ela queria era tomar um banho e entrar de baixo das cobertas com um pote de soverte de chocolate.

Quando Ana estava quase chegando em casa recebeu uma mensagem do seu chefe pedindo para que ela o encontrasse na lanchonete Coco Feliz. Ao chegar lá, ela o encontrou sentado em uma das mesas do fundo.

— Desculpa te chamar na sua folga. — O chefe dela pediu um suco para ele e outro para Ana.

— Tudo bem — Ana mentiu, pois tudo que ela menos queria fazer naquele dia era trabalhar. — Aconteceu alguma coisa?

— Eu estou um pouco preocupado com você. — Ana se surpreendeu com a preocupação do seu chefe. — Eu percebi que você tem tido algumas... — Seu chefe tomou um pouco do suco enquanto procurava as palavras certas. — dificuldades no trabalho e tem andado meio distraída. Por enquanto, eu fiz o que eu pude para te ajudar, porém nos próximos dias eu vou ter quer resolver alguns assuntos particulares e ficarei fora até o inicio do festival da comida.

— O quê?! — Ana estava ainda mais surpreendida em saber que seu chefe não estaria presente durante a organização do próximo grande evento.

— Não se preocupe — ele tranquilizou-a. — Está tudo encaminhado, e o primeiro olho cuidará de tudo.

— É só que... Eu ainda fico preocupada, agora vamos entrar na parte de montagem das estruturas das barracas de comida e se alguma barraca for montada no lugar errado não vamos ter tempo de arrumar... — Ana começou a falar sem para contando nos dedos todas as coisas e poderiam dar errado até que desabafou. — E se eu fizer alguma coisa errada?

— Por que você faria alguma coisa errada? — perguntou seu chefe, rindo.

— Eu não sei! — Ana estava admirada com a calma com que seu chefe falava. — Imprevistos acontecem.

— Exatamente, imprevistos e não erros. Se você prestar atenção e ficar focada mesmo que imprevistos ocorram tudo dará certo no final.

Apesar das palavras do seu chefe, Ana voltou para sua casa muito preocupada. Assim que Ana abriu a porta do se apartamento recebeu uma ligação de um numero não identificado:

— Eu sei o que você tem feito, sei onde você mora e sei o que você faz. Continue a se meter onde não foi chamada e não poderei garantir a sua vida. Já não sabe? — a voz perguntou. — Acidentes acontecem.