A vida não é uma novela
3 Capítulo 3
Dois dias se passaram desde o show de Milena, e parecia que ninguém mais se lembrava do que tinha acontecido. Já passava do meio-dia e Ana estava correndo de um lado para o outro procurando um vazo com penas de pavão, pois sua mais nova missão era conferir se todas as exigências feitas pela banda de rock KAK tinham sido cumpridas. Finalmente, ela encontrou o vaso de baixo da mesa de café, e pediu para que o levassem para o camarim. A seguir, antes de continuar as suas tarefas, ela achou melhor almoçar.
Assim que o hambúrguer que Ana pediu na lanchonete Coco Feliz ficou pronto, ela dirigiu-se para as mesas, onde encontrou Elice e perguntou:
— Oi, eu posso sentar com você?
— Pode sim, mas eu pensei que você não queria ter nenhum tipo de relacionamento com os hóspedes fora do campo profissional — Elice respondeu enquanto girava o canudo do seu suco.
— Tem razão, eu sei que isso não é uma boa ideia. — Ana apoiou a mão na cabeça quando entendeu o que a garota queria dizer. — Me desculpe, eu falei que não queria falar com você e agora estou aqui, cansada, tentando puxar conversa.
— O que aconteceu para você mudar de opinião? — A garota perguntou, já mais calma e interessada na história.
— Descobri que trabalhar dá muito trabalho. — As duas se olharam e riram baixinho. — Estamos organizando o show de hoje à noite e ainda tem muita coisa para fazer — contou, finalmente começando a comer seu hambúrguer.
— Posso te contar um segredo? — Elice perguntou se aproximando de Ana que logo confirmou com a cabeça. — Eu nunca tinha ouvido falar nessa banda.
— Sério? De que país você é? — perguntou Ana surpresa, se afastando.
— De um lugar bem longe, perto da Austrália — respondeu Elice meio sem jeito. — Bem, veremos do que eles são capazes hoje à noite.
— Talvez você goste. — As duas riram e Ana se levantou, tendo acabado a sua comida. — Já está ficando tarde, é melhor voltar a trabalhar.
— Eu também tenho que ir, nos vemos mais tarde no show?
— Se eu conseguir terminar de checar tudo, acho que consigo ir. Me passa o seu número que eu te ligo?
— Agora você quer o meu número — respondeu irônica, porém já pegando o celular.
As duas garotas trocaram os números e se despediram.
No caminho para os camarins, Ana observou o palco que foi construído em cima das piscinas, de modo a que os hóspedes pudessem ficar na areia da praia artificial assistindo ao show. Os funcionários teriam livre acesso aos bastidores pelas pontes que ligavam as piscinas e a ilha dos toboáguas. Era difícil acreditar que tudo tinha sido montado em uma semana.
Ao chegar aos bastidores Ana conferiu se todas as bebidas estavam no frigobar, se os sofás estavam cobertos com uma malha de seda lilás, se as 100 toalhas brancas estavam dobradas ao lado de vinte toalhas roxas com pétalas de rosa em cima, como os membros da banda tinham exigido. Só faltava ver se tinham trazido o vazo com penas de pavão para o camarim e, ao constatar que não, ela foi correndo até à mesa de café ver se ele ainda estava lá.
Na pressa esbarrou com Dimitri, chefe da segurança local:
— Cuidado! O que aconteceu?
— Você viu um vazo com penas de pavão? — perguntou Ana, sem esperança de uma resposta positiva.
— Eu vi, levaram junto com o material que sobrou para ser descartado na área da fazenda. — Ana não teve reação, ficou apenas encarando o chefe da segurança. — Se ele era importante é melhor você correr, pois o lixo é descartado às 16:30.
— Já são quase quatro horas. — Ana pegou seu celular enquanto limpava sua mão na calça pensando o que ela poderia fazer. — A banda deve chegar ao camarim as 17:00 então o vaso tem que estar lá antes.
Vendo o desespero da garota Dimitri ofereceu ajuda:
— Se você quiser, minha esposa está indo para a fazenda agora e eu posso pedir para ela te dar uma carona até lá.
— Muito obrigada! — Ana aceitou, sem ter muitas opções.
Enquanto o Dimitri falava com a esposa, Ana ligou para o seu chefe e como ele não estava atendendo, ela deixou uma mensagem explicando tudo o que estava acontecendo. Depois de alguns minutos que pareceram horas para Ana, ela finalmente estava a caminho da área da fazenda.
A esposa do chefe de segurança foi bem gentil com Ana durante o caminho, tentando distraí-la, mas a garota não conseguia parar de pensar se daria tempo dela voltar com o vaso antes da hora da banda chegar.
O relógio do carro já marcava 16:25 quando o carro passou pela placa da entrada da fazenda. Ana desceu do carro e foi correndo para os fundos, onde fica área de descarte do lixo, torcendo para não ser tarde demais. Chegando lá, ela falou com os funcionários e, para sua sorte, o vaso ainda não tinha sido destruído, deixando a garota mais calma.
Com ajuda de um funcionário, ela carregou o vaso até o ponto onde passava os ônibus que faziam os transportes dos funcionários entre as áreas do resort. Ana sentou no banco e observou toda a área verde que estava ao seu redor: era um lugar muito bonito e, ao fundo, ela conseguia ver os vários chalés e os restaurantes da região.
Quando o ônibus chegou, Ana pediu ajuda ao motorista para subir o vaso. A seguir, a garota respirou fundo, conferiu novamente se daria tempo de chegar antes da banda, e percebendo que ainda chegaria 10 minutos antes deles, resolveu mandar uma nova mensagem para o seu chefe avisando que já estava chegando.
De repente, o ônibus parou e começou a sair fumaça. O motorista desceu para dar uma olhada, enquanto Ana apertava sua bolsa na mão e rezava baixinho para que toda aquela fumaça não fosse nada. O motorista logo entrou no ônibus e disse:
— Sinto muito, o ônibus quebrou.
— E agora? Como eu vou chegar na praia? — Ana se levantou aflita pensando no que ela poderia fazer.
— Nós não estamos longe, uns 10 minutos no máximo. — Falou o motorista tentando acalmá-la enquanto estava chamado o reboque.
— Você pode-me ajudar a descer o vaso? — Perguntou Ana que logo justificou. — Acho que eu vou andando.
O motorista arregalou o olho e riu baixinho:
— Eu posso até te ajudar, mas você não vai conseguir levar esse vaso sozinha. Não tem ninguém que possa vir te ajudar?
Ana pensou por um tempo, o vaso era realmente pesado, porém ela queria tentar levar sozinha.
— Não tem ninguém. Não se preocupe, eu consigo levar sozinha.
O motorista a ajudou e mostrou a direção correta. Os primeiros passos foram fáceis, porém quanto mais Ana andava mais ela sentia o vaso ficando pesado. Ao chegar perto da entrada da praia Ana não aguentou e sentou no chão ao lado do vaso. Ela estava muito perto, e ao mesmo tempo muito longe, e para piorar faltava apenas cinco minutos para a banda chegar.
— Você está bem? — perguntou um garoto que estava parado perto dela.
— Eu estou bem, obrigada. — Ana respondeu educada.
— Você é a garota que caiu! — afirmou o garoto. — Tem certeza que está tudo bem?
— Como assim? — perguntou Ana sem entender, se levantando do chão.
— Você caiu quando tropeçou, e nós pegamos o elevador juntos.
— Agora eu lembrei! — Finalmente Ana reconheceu o garoto. Como ele era um hóspede, ela perguntou: — Posso te ajudar em alguma coisa?
— No momento não, mas acho que você precisa de ajuda com esse vaso, não? — respondeu garoto sorrindo, tentando medir quanto o vaso pesava com uma mão.
— Não toque nele por favor! Está tudo bem, eu vou levá-lo para o show e ficará tudo bem.
— Você vai levar sozinha? — O garoto arregalou os olhos. — Não tem ninguém que possa vir ajudar você?
— Não precisa.
Ana pegou o vaso e continuou o caminho, e o garoto começou a caminha ao seu lado, até que Ana parou e perguntou:
— Por que você está me seguindo?
— Eu estou indo para a praia. — respondeu ironicamente, apontando para o enorme edifício — Sabe, eu estou hospedado lá.
— Então tudo bem.
Percebendo o erro, Ana continuou a andar.
— Então, — continuou o garoto — eu acho melhor você pedir ajuda, pois o Sol já está se pondo e vai ficar escuro.
A garota colocou o vaso no chão e desabafou:
— Eu não quero! A culpa é minha! — Ela percebeu a confusão no rosto dele. — Eu deveria ter garantido que iriam colocar o vaso no lugar. Da última vez, quase não teve show, e mesmo assim, todo mundo se esforçou tanto. Agora, por minha causa eles vão ter problemas!
Ana começou a chorar e pegou no vaso:
— Se o camarim não estiver como foi exigido pelos artistas, eles podem não querer se apresentar, pois o erro foi nosso, e a culpa é minha! Eu não vou ligar pedindo para resolverem tudo para mim. — Ela respirou fundo, parou do chorar e gritou: — Eu vou levar o vaso!
Nesse momento o garoto pegou o lado do vaso e falou:
— Eu vou te ajudar. Mesmo que você não queira ajuda, você tem que admitir que é impossível fazer tudo sozinha.
Sem falar mais nada, eles começaram a andar e continuaram assim o caminho todo.
Ao chegar na porta dos bastidores, eles avistaram alguma confusão e correram até o local. O chefe de Ana estava tentando acalmar o baterista da banda:
— Eu preciso das penas de pavão para poder me acalmar e me concentrar.
— Elas chegaram! — gritou Ana. — Desculpa a demora.
Ana deixou o vaso e foi para fora junto com o garoto, deixando seu chefe resolver tudo.
— Nossa você tinha razão! — Como Ana não o entendeu, ele explicou sorrindo: — Sem o vaso não teria show.
— Não, eu errei. — Ele parou de sorrir, e ela explicou, sorrindo: — Sem as penas não teria show.
Os dois começaram a rir, enquanto estavam em uma das pontes, vendo o Sol se pondo e a multidão de fãs ao fundo gritando o nome da banda.
— Meu nome é Paolo.
— Meu nome é Ana, e caso não tenha percebido eu sou uma funcionária.
— Isso eu percebi, acho que um hóspede não levaria um vaso de penas de pavão para os bastidores de um show.
— Sou uma funcionária e você é um hóspede.
— Quer sair no domingo?
Ana começou a rir, enquanto Paolo continuou sério.
— É brincadeira, né?
— Na verdade, não — respondeu ainda mais sério. — Eu vou entender se você não quiser.
— Tudo bem — respondeu Ana, ainda sem acreditar no que ela estava fazendo.
Eles ficaram na ponte
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