A vida de uma stripper londrina
1 Capítulo 1 (Martha)
Notas iniciais
Era outono na última vez que a vi. Minha mãe, usando uma camiseta preta brilhosa tão apertada quanto a saia cinza um pouco acima do joelho. Estava sentada em uma das poltronas velhas da sala fumando um maço enquanto observava distraidamente a chuva fina que manchava o vidro da janela. Quando percebeu que eu havia chegado, descruzou as pernas e ajeitou os sapatos pretos pontudos nos pés. Estava elegante. Se eu não conhecesse aquela mulher a minha vida inteira, diria que era uma prostituta de luxo esperando por algum cliente. Não era tão longe disso. Eu não estava surpresa de ver minha mãe vestida daquele jeito vulgar, era o habitual. Eu estava surpresa por ela estar ali, aguardando minha chegada, como nunca havia feito antes.
Martha, como eu a chamava, se levantou do sofá sem nenhum esforço e, ao passo que segurava o cigarro com uma das mãos e tragava, estendeu a outra em minha direção. Ela me dava algo, era um chaveiro. Hesitei por um momento e peguei o chaveiro prateado que prendia uma única chave, a chave do apartamento. Não precisei que me dissesse algo para entender que ela estava indo embora, apenas abaixei a cabeça, o que não me impediu de ver uma lágrima que brotou no canto de seu olho e caiu sobre o tapete vermelho. Ela andou em minha direção,beijou o alto da minha cabeça com frieza e, então, partiu. Partiu sem nem se importar com o abismo que causaria na vida de uma mulher que saiu de seu ventre. Partiu sem hesitação, sem fica ou vai, partiu.
Dois anos já haviam se passado, dois anos sem sinal dela. Nos primeiros meses cheguei a tal ponto em que já não lamentava por sua ida, mas enraivava. Toda a angústia se transformou numa espécie de ódio. Queria sua presença apenas para insulta-la, lembra-la de cada descuido e erro que cometeu. Minha irmã mais velha, Maya, fez pouco caso. Continuou sua vida como se nada tivesse mudado e, quatro meses depois, se casou e foi morar com o marido. De fato, nada havia mudado, a não ser a presença física de Martha.
Crescemos dentre garrafas de bebida e maços de cigarro espalhados por todo o apartamento. Meu pai nos abandonou quando eu completei dois anos e, desde então, minha mãe aparecia com um homem diferente pelo menos a cada dois meses. Martha sempre foi uma mulher irresponsável e aproveitadora. Ela era dançarina. Participou de algumas competições quando jovem, mas acabou em casas noturnas, assim como eu. Fez nada mais do que sua obrigação de nos manter vivas e, quando atingimos certa idade em que podíamos cuidar de nós mesmas, nos largou, de todas as maneiras possíveis.
Agora, dois anos sem minha mãe, eu estava em posição quase neutra em relação ao abandono, a ser trocada por um homem esnobe pela minha própria figura materna . Não podia culpa-la muito menos apontar seus erros, se eu mesma estava seguindo pelo mesmo caminho.
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