A viagem do tigre - Pov dos tigres
24 É difícil fazer as pazes - Ren
Kelsey olhou para mim. Eu a olhava nos olhos e pude ver seus sentimentos confusos: dúvida, surpresa, medo... Kishan se colocou à sua frente, de forma protetora.
—Fique aqui—disse ele a mim.—Nós só vamos ao andar de baixo chamar Kadam e já voltamos. Está me escutando, Ren?
—Estou. Vou esperar aqui.
Kishan resmungou:
—Ótimo. Venha, Kells.
Ele agarrou a mão de Kelsey e a puxou. Ela o seguiu sem olhar para trás. Eu a vi indo embora com outro e senti a dor de não tê-la. Então clamei baixinho:
—Não vá, iadala. Fique comigo.
Fiquei sozinho no deque, pensando em tudo o que aconteceu. Me lembrei de tudo o que eu tinha feito desde que fora resgatado do cativeiro de Lokesh e em como eu parecia diferente desde então. Aquele Ren não era eu. Sem a memória de Kelsey eu me tornará alguém diferente. Eu a fiz sofrer, mas estava pronto para recomeçar e recompensá-la, dedicando-me a ela de forma incansável.
Kishan voltou com Kadam, mas Kelsey não estava com eles. Kadam me disse que queria conversar comigo antes de me deixar falar com ela.
Eu contei a ele sobre o acordo que fiz com a Deusa para proteger Kelsey e que eu precisava de um ativador que me garantisse lembrar apenas quando ela estivesse completamente segura. Depois, pedi a ele que me deixasse falar com Kelsey e explicá-la eu mesmo.
— Eu entendo o porquê de você ter feito o que fez Ren, mas todo ato, por melhor intencionado que seja, gera consequências. A senhorita Kelsey está assustada e confusa, talvez seja melhor dar a ela um tempo.
— Kadam, eu não vou conseguir esperar mais. Eu preciso esclarecer tudo o quanto antes. Eu preciso que ela me perdoe. Por favor, me deixe falar com ela.
Kishan, que até aquele momento tinha me observado em silêncio, deu sua opinião. Ele estava estranhamente calmo:
— Ren está certo Kadam. É melhor que os dois conversem e resolvam esta situação. —Ele olhou para mim—Vamos falar com Kelsey e, se ela quiser, ela vira falar com você Ren.
Kishan se virou e saiu imediatamente. Kadam o seguiu. Depois de muito tempo, Kelsey veio. Eu a ouvi chegando e me levantei. Kishan a acompanhava. Ele a abraçou e sussurrou:
—Vai ficar tudo bem. Vá em frente e me chame se precisar.
—Mas...
—Vá em frente.
Kelsey havia trocado de roupa e agora vestia calça jeans e camiseta, como quando eu a conheci. Aquele seria um reencontro.
Eu estava emocionado, sentindo meu coração bater em sintonia com o dela. Minha pele sentia o calor da pele dela, mesmo estando há metros de distância. Eu a queria. Queria tocá-la, abraçá-la. Mas ela não parecia estar sentindo o mesmo que eu.
Kelsey vinha caminhando lentamente em minha direção. Parecia assustada. Parecia não ter certeza sobre se aproximar de mim. Quando ela chegou onde eu estava, ela não me olhava nos olhos, então eu desviei o olhar e a pedi para se sentar. Ela sentou-se à minha frente e cruzou as mãos sobre o colo, pouco à vontade. Eu a observava em silêncio. Ela estava nervosa. Estava com medo.
—Você... queria falar comigo? Disse ela.—O que você queria dizer?— Me perguntou gaguejando.
Eu coloquei a cabeça de lado para olhar em seus olhos.
—Você está com medo. Não precisa ficar— Eu falei suavemente.
Ela passou a olhar para as próprias mãos.
—Está agindo da mesma maneira que agiu quando eu me revelei pela primeira vez a você na casa de Phet.
—Parece que não consigo evitar.
—Não quero que você tenha medo de mim, priya. Nunca.
Ela levantou a cabeça e olhou nos meus olhos, respirou fundo e perguntou:
—Você disse que tinha se lembrado. É verdade?
—É. Eu... achei o ativador.
Chocada, perguntou:
—Qual foi o ativador? O que trouxe de volta suas lembranças em relação a mim depois de todo esse tempo?
Eu desviei o olhar, tentando fugir daquele assunto.
—Não é importante. O que importa é que acabou. Eu me lembro de você. De nós. De Kishkindha. Do Oregon. Eu me lembro de ter sido capturado, de entregar você a Kishan, da dança do Dia dos Namorados, da luta contra Li, do nosso primeiro beijo... de tudo.
Kelsey levantou-se e foi até a janela, ficando de costas para mim e colocou as mãos contra o vidro.
—Phet tinha razão. Eu fiz isso a mim mesmo.
Ela cerrou os punhos e encostou a testa no vidro.
—Por quê?—Sua voz falhou.—Por que você fez isso?
Eu me levantei e fui até ela. Toquei em uma mecha de cabelo e meus dedos encostaram em sua nuca. Senti fagulhas elétricas passarem levemente pelos meus dedos e sua pele se arrepiar. Senti a respiração dela falhando, por um único segundo. Mas ela não se virou.
—Durga se ofereceu para me ajudar a bloqueá-la, e até implementou uma aversão subliminar para que eu não conseguisse ficar perto de você. A ideia era que, se eu de algum modo fosse resgatado, mesmo assim deveria ficar o mais longe possível de você.
—Isso incluía você não conseguir me tocar? A queimação que você sentia?
—Incluía. Assim, eu iria evitá-la e Lokesh não ia poder me usar para encontrá-la. Aquele homem estava me obrigando a dizer coisas que eu não queria que ele soubesse. Ele me fez ter alucinações com algum tipo de poder. Estava obcecado em encontrá-la. Esquecer você era a única maneira de realmente protegê-la. A única maneira de salvá-la.
Kelsey fungou baixinho. Eu dei um passo para ficar mais próximo dela e coloquei a mão no vidro, perto da dela. Então eu me inclinei e sussurrei:
—Sinto muito, iadala. Sinto muito por não ter estado ao seu lado quando você precisou. Sinto muito pelas coisas que eu disse. Sinto muito pelo seu aniversário e, acima de tudo, sinto muito por fazer você pensar que eu não a queria. Isso nunca foi verdade. Jamais. Nem quando eu não conseguia me lembrar de você.
Ela deu uma risada amarga:
—Nem quando Randi estava aqui?
—Eu detestava Randi.
—Você com certeza me enganou.
—Eu quis afastá-la de propósito. Quando Kishan lhe prestou primeiros socorros e eu não fui capaz de ajudar, percebi que precisava de alguém que pudesse cuidar de você e ficar ao seu lado. Eu não podia ser o que você precisava. Kelsey, eu me lembro de cada momento que passei a seu lado. Eu me lembro da primeira vez que você tocou em mim na forma de tigre. Eu me lembro de discutir com você em Kishkindha. Eu me lembro do medo que senti depois que o kappa a mordeu. Eu me lembro da luz das velas brilhando nos seus olhos no nosso jantar de Dia dos Namorados. Eu me lembro da primeira vez que você me disse que me amava, logo antes de partir da Índia, e eu me lembro de entregar você a Kishan no Oregon e de deixá-la ir. Achei que essa tinha sido a coisa mais difícil que eu jamais iria experimentar, mas então Durga me ofereceu a chance de salvá-la.
Eu parei para retomar o fôlego, depois continuei:
—Eu quase não aceitei. Ficou um vazio no meu coração depois que ela levou embora as minhas lembranças. Senti quando elas se esvaíram de mim, e não havia nada que eu pudesse fazer para segurá-las. Desesperado, eu me agarrei a cada uma delas à medida que iam desaparecendo, apagando-se da minha memória. A última coisa de que eu me esqueci foi o seu rosto. Aquela última imagem sua era tão real que eu tentei segurá-la entre as mãos. Eu me recusei a deixá-la, mas sua imagem foi sumindo até eu não estar segurando mais nada. Meu coração estava partido, e eu não conseguia me lembrar por quê. Viver daquele jeito era horrível. Eu queria que Lokesh me matasse. Comecei, de fato, a ficar ansioso pela tortura. Era uma distração para a minha mente.
Eu me virei de lado, apoiando a cabeça e o ombro no vidro para olhar para ela. Seu rosto estava molhado de lágrimas.
—Então, um dia, vocês três chegaram e me salvaram. Eu não sabia quem você era. Eu sentia que devia saber, mas não conseguia ficar perto de você como homem sem sentir muita dor. De algum modo, porém, estar perto de você preenchia o vazio. Valia a pena sentir a dor física. Não acho que Durga estivesse esperando por isso, que a atração emocional que você exercia iria se sobrepor aos desconfortos físicos da proximidade. Então, nós voltamos a ficar juntos. Mas desta vez eu fiquei limitado, bloqueado. Como tigre eu podia ficar por perto, ser o seu companheiro, senti-la, e voltei a me apaixonar por você. Como uma parte de mim sentia que nós tínhamos que ficar juntos, eu me tranquilizei. Eu me contentaria em ser seu gatinho de estimação pelo resto da vida. Você me perguntou no Festival das Estrelas se eu iria querer mais do que isso. A resposta foi não. Não havia nenhum outro lugar onde eu quisesse estar que não ao seu lado, ninguém que me fizesse sentir tão bem como você fazia. Então, quando terminei nosso relacionamento, tentei provar para você e para mim mesmo que eu não precisava de você. Eu a evitei. Eu a magoei. Desfilei com outras mulheres para que você acreditasse que eu não a desejava. Mas era mentira. Eu me cercava de 10 mulheres e só conseguia pensar naquele caubói pondo as mãos em você. Só o que eu via era a mágoa que tinha lhe causado. Eu me convenci de que estava fazendo isso pelo seu próprio bem. Que você seria mais feliz assim e que teria uma vida normal sem mim. Por egoísmo, eu a empurrei para cima de Kishan sabendo que, se ficasse com ele, pelo menos eu ia poder estar perto de você de vez em quando.
—E você sabia que ele era capaz de me proteger.
—Exatamente.
Ela se virou de lado, e nós ficamos frente a frente.
—E agora?
—E agora?—Eu dei uma risada irônica e passei a mão pelo cabelo.—Agora estou numa situação ainda pior. Pelo menos antes eu não tinha a lembrança de beijar você na cozinha entre fornadas de biscoitos de chocolate e manteiga de amendoim. Eu não me lembrava de como tinha sido dançar com você no Oregon. Eu não me lembrava de como ficava com o seu vestido sharara azul. Eu não tinha a lembrança de lutar por você nem de lutar com você. De namorar você ou de vê-la no Natal depois de meses e de como eu finalmente me senti... inteiro mais uma vez.
Eu suspirei. Kelsey me olhava em silêncio. Parecia confusa.
—Sei que magoei você. Sei que lhe causei dor. Sei que rompi sua confiança, sua fé em mim. Apenas... me diga o que fazer. Diga como consertar isso. Como acertar tudo. Como conquistá-la de volta. Se eu pudesse tomar toda a dor que causei a você para mim, eu tomaria. Você é mais importante para mim do que qualquer outra coisa, e eu sacrificaria tudo para fazê-la feliz, para mantê-la em segurança. Por favor, acredite nas minhas palavras.
Eu esperava que ela gritasse comigo, que me acusasse e até que me batesse. Mas ela não fez nada disso. Ela se aproximou e me abraçou pela cintura, segurando-me com força, e disse que acreditava em mim. Eu a abracei e fechei meus olhos, aliviado.
Ficamos assim abraçados por algum tempo, eu acariciava seus cabelos, sem sentir dor ou desconforto. Era maravilhoso e eu poderia ficar assim por toda a noite. Mas Kelsey afastou-se de mim e deu tapinhas amistosos em meu braço. Então me disse:
—Podemos conversar mais sobre isso amanhã, Ren. Já passou muito da meia-noite e eu estou exausta. Boa noite.
—Boa noite?—perguntei, confuso.
—É. Boa noite.
Ela se virou e começou a se afastar. Eu segurei seu braço.
—Espere. Eu vou com você.
Kelsey desviou o olhar e falou, hesitante:
—Hã... é melhor não. Kishan está... me esperando.
Se eu antes estava confuso, agora estava desapontado. Kelsey estava me dispensando.
—Você... ainda vai ficar com ele?
Ela suspirou, depois respondeu com firmeza:
—Vou.
—Mas as coisas que eu disse não fizeram diferença para você? Kelsey...—Eu segurei a mão dela e a coloquei entre as minhas, desesperado, suplicante.—Agora eu posso ficar com você de novo. Posso tocá-la. Posso abraçá-la. Posso estar perto de você.
Levei a mão dela até a minha boca e beijei-lhe a palma, fechando os olhos, sentindo o calor e a maciez da sua pele, sentindo seu cheiro de pêssego. Então ela falou, tirando-me do meu devaneio:
—Eu sei, Ren, mas... não importa. Eu... eu estou com Kishan agora.
Eu larguei a mão dela de repente, subitamente irritado, sem querer compreender o que ela me dizia.
—Como assim, está com Kishan agora?
—Kishan e eu agora estamos namorando. Você se lembra disso, não lembra? Olhe, vamos conversar mais sobre esse assunto amanhã, está bem?
Ela se virou para sair, mas eu a cerquei, parando de frente para ela.
—Não quero conversar sobre isso amanhã, Kells. Quero conversar agora.
—Ren, não tenho energia para brigar por causa disso agora. Preciso de um pouco de tempo para processar tudo. Vou dormir. A gente se vê de manhã.
Eu agarrei sua mão e a puxei para perto de mim. Nossos rostos estavam muito próximos e ela curvou as costas para trás. Seu olhar era de pânico. Eu me inclinei sobre ela e seus olhos desceram para a minha boca. Então eu beijei sua bochecha e disse:
—Tudo bem. Vá dormir agora. Mas quero que entenda uma coisa: eu não vou perder você outra vez, meri aadoo.
—O que isso quer dizer?
Eu sorri e sussurrei:
—Significa... meu pêssego.
Eu a soltei. Ela apressou-se e saiu rapidamente. Caminhei até a porta e a vi indo embora de mãos dadas com Kishan. Eles entraram no elevador, enquanto eu os observava.
Kelsey ainda era minha. Mesmo que ela dissesse que estava com Kishan, eu sabia que ela ainda me amava e que ela ainda me queria, tanto quanto eu a queria. Eu não queria magoar Kishan, mas ele teve sua chance. Agora, eu a teria de volta.
Demorei a dormir, pensando em Kelsey. Levantei-me cedo e fui ao seu quarto. Kishan não estava lá. Kelsey estava com os pés na cabeceira da cama e com o braço caído pela beirada. Procurei o lenço divino e pedi a ele uma rosa. Ele fez uma rosa azul. Peguei um par de brincos de pérola que estavam no cofre do navio e pertenciam à minha família e o enrolei a um bilhete que prendi à rosa. Nele eu havia escrito um poema:
Por acaso você sabe como aquela pobre desgraça sem forma...
A Ostra... cria seu cálice raso de luar?
Onde a concha a incomoda, ou a areia do mar irrita,
Ela solta o brilho adorável de seu pesar.
— Edwin Arnold
Permita que eu guarde minha pérola.
— Ren
Voltei ao quarto de Kelsey e deixei a rosa e o bilhete perto da porta de vidro. Vi que sua jaqueta estava sobre a cadeira. Então procurei papel e caneta e escrevi um outro bilhete, colocando dentro do bolso.
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Na volta, encontrei Kadam indo para o escritório. Ele me disse que ficou com Kishan a noite toda decifrando os códigos do disco e que Kishan tinha uma teoria de que as marcas no disco celeste eram obstáculos que se encontram entre nós e os outros pagodes. E que o caminho mostrado é uma maneira de nos desviar deles com segurança. Kishan estava descansando, porque, segundo esta hipótese, nós nos aproximaríamos da primeira marca dali a mais ou menos uma hora.
Fui para o meu quarto e tomei um banho. Estava vestindo a camisa quando Kelsey entrou de repente no quarto, berrando:
—O que você acha que está fazendo?
Eu sabia sobre o que ela estava falando, mas me fiz de desentendido. Sorri para ela e então lhe respondi:
—Estou me vestindo. E bom dia para você também. Mas qual a razão dessa gritaria toda?
—Não sei como você deixou isto na minha jaqueta, mas precisa parar.
—O que exatamente eu deixei na sua jaqueta?
Ela jogou um papel amassado na minha mão.
—Isto!
Eu me sentei na cama e abri o papel, reconhecendo a minha letra, imediatamente. Alisei-o sobre a minha perna, lendo-o novamente, com convicção de que aquelas palavras eram reais.
—Parece que é um poema de Shakespeare, Kells. Você gosta de Shakespeare. Então, qual é o problema?
—O problema é que eu não quero mais saber de poemas da sua parte.
Eu olhei para ela e sorri.
— “Será que uma mulher com este humor já foi desejada? Será que uma mulher com este humor já foi conquistada?”
—Dê um tempo, Shakespeare. Eu não sou uma megera a ser domada. Como eu disse a você ontem à noite, agora estou namorando Kishan.
—É mesmo?
Eu me levantei e caminhei até ela. Ela começou a andar para trás até bater na parede, segurando a respiração. Coloquei as mão na parede, ao lado de sua cabeça e me inclinei para perto dela. Ela soltou a respiração de repente, seu peito subindo e descendo rapidamente. Sua temperatura se elevou e seus batimentos cardíacos ficaram mais rápidos. Kelsey levantou o queixo para me encarar com firmeza e falou, com falsa convicção:
—Sim. Estou. Foi bom mesmo eu ter vindo aqui falar com você sobre isso. Eu não quero que... fique me perseguindo e faça com que as coisas sejam — engoliu em seco — difíceis.
Eu dei uma risada e me inclinei para encostar o nariz eu sua orelha, sussurrando:
—Você gosta que eu seja... difícil.
—Não— Ela falou, quase com um gemido, quando eu mordi o lóbulo da sua orelha.—Quero que minha vida seja simples e cômoda. E, com Kishan, vai ser.
—Na verdade, você não quer uma coisa simples, quer, Kelsey?
Eu beijei seu pescoço e ela estremeceu.
—Complicação...—eu segui depositando leves beijos pelo seu pescoço, enquanto ela prendia a respiração—é o que faz a vida...—eu coloquei a mão em sua nuca e prendi meus dedos em seus cabelos, puxando-os de leve.— ser emocionante.
Kelsey virou o rosto e eu aproveitei para beijar-lhe do outro lado do pescoço.
— O amor é complicado mesmo, iadala. Hummm, você é deliciosa. Sabe como é gostoso poder tocar em você sem sentir dor? Beijar você?
Eu continuei beijando a pele quente e macia dela, aproveitando a sensação deliciosa de não sentir dor, só prazer e sussurrei:
—Eu quero me afogar no prazer de estar perto de você.
Kelsey gemeu e segurou meus braços, irritada e me empurrou para trás. Eu me afastei alguns centímetros e ela me encarou firme.
—Chega, Ren. Estou falando sério. Leia meus lábios! Eu quero ficar com Kishan. Não com você.
Eu olhei para seus lábios e lambi os meus com malícia. Eu estava cheio de desejo, louco para sentir o gosto delicioso de Kelsey em minha boca. Havia tanto tempo desde que a beijara pela última vez, que não conseguia pensar em outra coisa. Eu sorri e falei:
—Achei que você nunca fosse pedir.
Eu a agarrei e a beijei. Coloquei a mão sobre suas costas firmando-a em meus braços e a outra em seus cabelos. Meus lábios procuraram os dela, afoitos, loucos de desejo. A boca dela se abriu para me receber. E eu fui até ela. Nossos corpos se grudaram com violência. Eu sentia o calor do corpo dela se irradiando no meu. Sentia nossos corações baterem acelerados, unidos como um só.
Kelsey jogou os braços ao redor do meu pescoço e eu agarrei sua cintura com força. Eu a queria, queria ser dela e que ela fosse minha. Meu desejo é que fôssemos um só, e durante aquele beijo nós éramos mesmo.
Kelsey se entregou ao beijo, como se sua vida dependesse disso. Meu corpo todo respondia a ela. Tudo fazia sentido com ela. Nós dois éramos como náufragos que estavam perdidos, com fome e com sede, e que acabaram de encontrar um rio de água fresca. Kelsey era meu rio e eu me joguei em seu beijo violentamente, até matar a minha sede.
Então, o beijo se acalmou. Aquela sede tinha se aplacado. E o beijo ficou mais suave. Eu pedia a ela, com meus lábios, que não me deixasse morrer de sede. Ela era a minha água, e eu precisava dela. Kelsey tremia em meus braços. Sua pele quente estava arrepiada. Eu sentia as faíscas percorrerem meu corpo, que formigava.
Nós nos entreolhamos e eu toquei seu rosto ternamente. Senti seus olhos se entristecerem. Ela os baixou e voltou a me olhar com firmeza, como se estivesse negando a experiência que tínhamos acabado de viver naquele beijo.
—Hum— eu desci o dedo pelo seu rosto, até tocar em seus lábios —Muito interessante.
—O que é interessante?—Perguntou com um suspiro.
—Apesar dos seus protestos, eu diria que os seus lábios com toda a certeza me... desejam.
Ela gritou de frustração e limpou a boca com as costas da mão depois de me empurrar e se afastar.
—Kelsey.
—Não— Protestou erguendo a mão.—Não dá, Ren. Eu não posso fazer isso. Não sou esse tipo de pessoa. Eu não posso mais ficar com você assim.
—Kelsey, por favor...
—Não!
Ela saiu do quarto correndo e eu fui atrás dela.
Naquele momento, algo sacudiu o iate. Eu segurei a mão de Kelsey e a guiei até à casa do leme. Nós entramos ao mesmo tempo e ficamos presos na porta. Eu coloquei minhas mãos ao redor da cintura dela, que berrou comigo, irritada. Ela entrou e correu para Kishan, que me olhava com a testa franzida, enquanto eu sorria satisfeito.
O barco sacudiu novamente, derrubando Kelsey sobre a estante, onde ela bateu a cabeça. Olhei irritado para o meu irmão:
—Será que você não consegue nem garantir que ela não se machuque?—gritei.
—Ele me protege muito bem!— esbravejou Kelsey.
Kishan a puxou em um abraço e esfregou o galo cabeça dela.
—Não deixe que ele a provoque, Kells. Só está tentando irritá-la.
—Acho melhor vocês três continuarem a conversa quando o navio não estiver sendo atacado!—interveio Kadam.—Nilima! Pegue o leme!
Eu peguei o tridente e corri para a escada que levava ao alto da casa do leme. Vi Kishan pegar o chakram e correr para a parte da frente do iate. Kelsey foi para a parte de trás.
—Estou vendo! É algum tipo de peixe muito grande.— Gritei para que os outros me ouvissem.
Kelsey olhou para a água por alguns instantes antes de vê-lo. Então avisou:
—Está indo na sua direção, Kishan!
O corpo gigantesco sacudiu o navio até ele se inclinar perigosamente para um lado. Quando voltamos a nos endireitar e o iate caiu na água, Kelsey correu para o lado de Kishan e acertou a criatura com seus raios. O monstro deu algumas voltas e mergulhou. Tudo ficou em silêncio durante alguns instantes. Então, Kishan e Kelsey olharam assustados em minha direção. Kelsey gritou:
—Ren! Atrás de você!
Era um peixe-monstro gigante. A mandíbula inferior se projetava vários metros além da superior. Sua boca estava escancarada. Enormes dentes saíam dos lábios cinzentos grossos e um olho amarelo gigante estava fixo em mim. Duas nadadeiras enormes batiam no ar e listras pretas compridas iam da cabeça ao rabo.
Eu enfiei o tridente na barriga do peixe várias vezes. O sangue negro saía dos buracos formando poças. O peixe inclinou o corpo e parte dele tombou sobre a torre. Eu caí do iate, deslizando pelo corpo do peixe até a água.
—Ren! Kishan, ajude-o!
Na mesma hora Kishan mergulhou na água.
—Como é que isso vai ajudar?—Gritou Kelsey.
Não vi Kelsey enquanto o peixe tentava morder a mim e a Kishan. Eu o acertava com o tridente, mas ele não deixava de tentar nos atacar, embora não conseguisse chegar perto o suficiente para nos morder, já que sua mandíbula inferior era muito grande.
O peixe começou a ser atingido por raios em vários lugares e eu sabia que Kelsey tinha voltado. Ele se contorceu irritado na água, tentado sair de seu alcance.
Vi uma escada de tecido surgir na lateral do barco. Kelsey gritou para que subíssemos enquanto ela mantinha o monstro afastado.
Depois que subimos, Kelsey gritou para Nilima nos tirar dali, mantendo o peixe longe até que nos afastássemos.
Quando estávamos fora de perigo, Kelsey olhou para nós dois com raiva e entrou batendo pé, na casa do leme. Kishan e eu nos olhamos sem entender e a ouvimos dizer:
—Bom, a teoria da barreira é bem sólida. Sugiro que tracemos uma rota entre todos esses pontos. Quando os irmãos aparecerem, diga a eles que são dois idiotas, que não há de quê e que me deixem em paz por um tempo.
Resolvi que era melhor atender a seu desejo.
Nos dias que se seguiram, Kelsey passou a evitar a mim e estava sempre escrevendo em seu diário. Eu a via de longe, quando ela estava com Kishan. Ela passava muito tempo com ele.
Os dois se beijavam com intensidade e eu tinha que me controlar para não me intrometer. Mas eu estava morrendo de ciúmes. Uma noite, Kishan e Kelsey estavam passeando pelo deque do navio. Eu os estava observando da parte de cima, sem que eles me vissem. Kelsey se virou para Kishan.
—Kishan? Quero experimentar uma coisa. Será que pode me ajudar?
—Claro. O que é?
—Fique bem aqui. Não, atrás de mim. Está bom. Agora, fique parado um segundo.
Kishan ficou atrás de Kelsey, que esticou os braços e emitiu seu poder de raio, liberando uma luz branca na água. Então ela pediu para que ele chegasse mais perto. Ele a abraçou, apertando-a contra o seu peito.
—Assim?
—Isso. Está bom. Agora, apoie a cabeça no meu ombro e toque nos meus braços. Coloque os seus por cima dos meus.
Eu saí da sombra para olhar melhor. Lembrei-me do dia em que Kelsey e eu consertamos a estrela do dragão vermelho. Entendi o que ela estava tentando fazer. Ela queria repetir o evento da luz dourada, mas com Kishan. Eu me aproximei para acompanhar seu “experimento”.
Kelsey lançou seu raio, mas não houve nada de especial nele. Era apenas a luz clara que ela sempre emitia.
—O que foi?—perguntou Kishan.—Algo errado?
Ela olhava fixamente para a água, decepcionada. Eu sorri satisfeito. Ela se virou para Kishan sorrindo e encostou seus lábios nos dele. Depois falou:
—Não. Não tem nada errado. Foi só uma ideia boba que eu tive. Nada de mais.
Eu mudei de posição e Kelsey olhou para cima. Eu a encarei sorrindo e ela me olhou com raiva. Depois se virou e beijou Kishan apaixonadamente. Eu franzi a testa com raiva e ela ficou satisfeita com a minha reação.
Eu saí dali e fui para a academia, me exercitar. Depois de algum tempo Kishan chegou e começou a treinar também. Eu o deixei sozinho e sai para procurar por Kelsey. Ela estava no deque, deitada em uma espreguiçadeira, olhando as estrelas. Eu me aproximei em silêncio, então perguntei:
—Posso me sentar?
—Não.
—Eu queria falar com você.
—Pode falar quanto quiser, porque eu estou de saída. Acho que tomei sol demais.
—Não tem sol nenhum. Sente-se e fique quietinha.
Arrastei uma espreguiçadeira para perto de Kelsey e me deitei com as mãos atrás da cabeça.
—Por quanto tempo você vai prolongar isso, Kelsey?
—Não sei do que você está falando.
—Não sabe? Eu vi o teste que fez com Kishan hoje. Você não sente por ele o que sente por mim. Não se sente com ele do jeito que se sente comigo.
—Você está errado. Estar com Kishan é... o céu.
—“O amor ao céu faz com que se fique celestial.”
—Exatamente. Nosso amor é celestial.
—Não foi isso que eu quis dizer.
—Para mim significa o que eu quero que signifique.
—Tudo bem. Então, interprete isto aqui: “A dama reclama demais, eu acho”, ou que tal: “Ó, como esta primavera de amor se parece com a glória incerta de um dia de abril; que agora mostra toda a beleza do sol, e pouco a pouco uma nuvem leva tudo embora.”
—Não foi uma nuvem que levou nosso amor embora: foi você. Eu avisei quais seriam as consequências, e você disse o seguinte: “Eu não vou precisar de outra chance. Não vou mais procurar você.” Por acaso essas não foram as suas palavras exatas, Ren?
Eu me encolhi.
—Foram sim. Mas...
—Não. Não tem “mas”. Dessa vez não tem como voltar atrás, Ren.
—Mas, Kelsey, eu fiz isso por você. Não porque fosse minha vontade, mas porque eu queria salvá-la.
—Eu entendo. Mas o que está feito, está feito. Não vou magoar Kishan porque você mudou de ideia. Vai ter que viver com as consequências das suas escolhas, do mesmo jeito que eu.
Eu me ajoelhei ao lado de sua cadeira e segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos.
—Você está se esquecendo de uma coisa, iadala. O amor não é uma consequência. O amor não é uma escolha. O amor é uma sede... uma necessidade tão vital à alma quanto a água é para o corpo. O amor é um líquido precioso que não só alivia uma garganta seca como também revigora o homem. Dá forças suficientes para que ele se disponha a matar dragões pela mulher que lhe oferece esse sentimento. Se você tirar este líquido do amor de mim, vou ressecar e virar pó. Tirar isso de um homem que está morrendo de sede e dar a outro sob seu olhar é uma crueldade que eu nunca achei que você pudesse cometer.
Ela deu uma risada. Eu suspirei.
— “Você é para mim um tormento delicioso”, Kelsey.
—Quem disse isso?
—A primeira parte? Eu. O último verso, Emerson.
—Entendi. Prossiga. Você estava falando da parte de ser revigorado?
Eu apertei os olhos.
—Você está fazendo pouco caso de mim.
—Bom, não acha que está fazendo drama demais?
—Talvez. Vai ver é porque eu sou covarde. Shakespeare escreveu: “Os covardes morrem muitas vezes antes da morte, os valentes só experimentam a morte uma vez.”
—Como é que isso faz de você um covarde?
—Porque já morri muitas mortes, quase todas por você, e ainda estou vivo. Tentar ter um relacionamento com você é a mesma coisa que tentar resgatar alguém do Hades. Apenas um tolo iria voltar repetidas vezes para uma mulher que briga com ele a cada passo do caminho.
—Ah, mas isso faz de você um tolo, não um covarde.
Eu franzi a testa, decepcionado com a forma com que Kelsey estava me tratando. Por um momento achei que talvez ela tivesse mesmo me esquecido.
—Talvez eu seja os dois.
Eu olhei firme em seu rosto, me lembrando de quando eu a vi na minha cela, instantes antes de Durga levar minhas memórias. Aquilo teria sido apenas uma visão? Eu perguntei baixinho:
—Foi demais pedir que você esperasse por mim? Que acreditasse em mim? Não sabe quanto eu amo você?
Ela ficou desconfortável com o meu escrutínio e mudou de posição. Eu continuei:
—Eu morro um pouquinho toda vez que nos separamos, Kelsey.
Ela abaixou a cabeça e engoliu seco. Mas levantou a cabeça e manteve-se firme.
—Sorte a sua que os gatos têm várias vidas. Eu só tenho uma vida e um coração, e ele já foi tão jogado de um lado para outro que fico surpresa por ainda bater.
—Iria ajudar se você parasse de oferecer seu coração a todo homem que conhecesse—Falei seco, com ciúme.
—Eu não me apaixono por todo homem que conheço, apesar do que você pensa, seu exagerado. Pelo menos eu não desfilo pretendentes seminuas com peito artificial por aí. Além do mais, foi você que me afastou, não o contrário. A culpa é toda sua.
—Bom, eu não achava que você fosse se arranjar com outra pessoa tão depressa. O iate é pequeno, pensei. Mas não: é só deixar Kelsey sozinha cinco minutos e ela de repente já tem uma fila de pretendentes. Todos os homens a bordo imediatamente se candidatam!
Ela me olhou com raiva.
—Você disse que Kishan e eu deveríamos...
Corri a mão pelo cabelo e a interrompi, irritado:
—Eu sei o que eu disse. Na hora, fez sentido. Mas, mesmo assim, parte de mim acreditava que você nunca fosse fazer isso. Não achei que realmente pudesse convencê-la de que não a amava mais. Foi uma decisão ruim com ramificações obviamente negativas. Eu cometi um erro. Um erro enorme. Mas agora estamos quites. Você me abandonou, e eu abandonei você. Agora acabou. Podemos deixar de lado e esquecer.
—Não, não podemos. Dessa vez nós dois não somos os únicos envolvidos.
—Sempre tem mais alguém envolvido. Vira e mexe eu tenho que recuperar nossa relação e, sinceramente, estou ficando especialista em impedir que você siga em frente com outros homens. Quantos já foram até agora? Dez? Vinte?
—Está exagerando de novo.
—Talvez esteja. Mas quer saber de uma coisa? Tudo bem. Vá em frente e continue aumentando seu fã-clube, porque sempre vou estar aqui para derrotar todos os pretendentes.
Eu virei o rosto para o outro lado, irritado. Kelsey ficou em silêncio por alguns instantes. Quando eu voltei a olhar para ela, uma lágrima desceu pelo seu rosto. Eu me arrependi por ter sido um imbecil.
—Ren, você me dispensou. Você me jogou nos braços de outro homem. Achou mesmo que bastaria estalar os dedos para que eu voltasse correndo? Que eu poderia simplesmente partir o coração dele e não me magoar nesse processo?
—Eu sei que o que eu fiz a magoou, magoou nós dois, e também sei que magoou Kishan. Se eu fosse um homem mais corajoso, deixaria as coisas como estão, mas não consigo. Você perguntou por que sou covarde. Sou covarde porque me nego a ficar sem você. Não sou capaz de imaginar uma existência feliz se você não fizer parte dela. Não consigo sequer considerar essa possibilidade. Então, é melhor se acostumar, porque não vou parar de tentar conquistar você. Se essa for uma batalha pelo seu coração, iadala, então, estou pronto. Mesmo que no fim eu descubra que estou lutando contra você.
—Sério, Ren, você não pode simplesmente acatar minha decisão?
—Não! Você está tão apaixonada por mim quanto eu estou por você e se eu precisar enfiar isto nesta sua cabeça teimosa à força, que seja.
—Acabou a poesia, foi?
Eu suspirei, cansado daquela discussão. Segurei seu queixo e virei seu rosto para mim.
—Eu não preciso de poesia, prema. Só preciso estar perto o bastante para tocar em você.
Deslizei o meu dedo delicadamente pelo pescoço dela, descendo até os ombros, enquanto olhava em seus olhos. Sentindo seu coração acelerar e enxergando o que ela vinha tentando negar. Seu coração ainda era meu.
—Seu coração sabe. Sua alma lembra.—Eu me inclinei para perto dela e rocei meus lábios pelo seu pescoço, mal tocando a pele sensível com os lábios.—Isto é algo que você não pode negar. Você tem que ficar comigo. Você é minha.— Eu sussurrei baixinho ainda com os lábios em seu pescoço:— “Eu sou aquele que nasceu para domar você, Kate, e transformá-la da Kate selvagem na Kate tão à vontade quanto qualquer outra Kate comum...”
Kelsey me empurrou, interrompendo-me.
—Não faça isso, Ren. Pare! Não ouse terminar estes versos!
—Kelsey.
—Não.
Ela se levantou e fugiu de mim.
—As linhas da batalha foram traçadas, priyatama. Quanto mais poderoso o inimigo, mais doce a vitória.
—Tome sua vitória e enfie-a no focinho, tigre!
Eu fiquei sorrindo, convencido de que havia vencido mais uma batalha.
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