A verdadeira magia
7 O proteger
Notas iniciais
No dia seguinte eu procurei minha mãe primeiro, pra ver se ela já estava melhor. Seu visual era bem melhor do que quando ela estava na ambulância.
– Mãe? Mãe, você tá melhor? — Perguntei com cuidado.
– Oi, filho, vem cá. — Ela falou em resposta.
Me aproximei, e no instante que ela podia me tocar eu fui puxado pra um abraço apertadíssimo.
– Mãe, deixa seu filho vivo, por favor.
– Ah, meu filho, ontem foi muito assustador, ainda bem que você está bem. — Ela disse. Parece que ela não se lembra do que ela falou na ambulância, ainda bem.
– Ok, mãe, eu estou bem, me deixa falar com o pai.
– Seu pai? Aconteceu alguma coisa com seu pai?
– Não, não, ele tá bem. Ele não estava na hora, então... — Eu expliquei, e isso deixou ela mais calma e o abraço mais fraco. — Mas ele desmaiou de cara na mesa ontem. — O abraço de repente aumentou, me pegando de surpresa. — Mãe... Ar…
– Oh, sim, vamos, preciso falar com seu pai agora. – A reação dela é no mínimo estranha. Pensei que o assalto fosse deixá-la meio paranoica, mas não parece ter afetado seu comportamento em nada.
Seguimos para a sala, onde ele deveria estar. E estava, ainda na mesma posição.
– Thiago! Levanta agora! — Ela gritou em comando. Meu pai levantou de susto, pulando, levando mesa e tudo pra cima. A cena, embora hilária, não me fez rir. Tinha medo do que ele se lembrava de ontem também.
– Oi, hm, acordei, acordei... — Ele falou, ficando em posição de defesa. — Eu já acordei…
– Thiago! Olha onde você dormiu, Thiago! — Minha mãe falou em tom bem humorado. Parece ter se esquecido do assalto, ou nem sabe mais que aconteceu, e eu não iria de jeito nenhum lembrá-la.
– Hm, é, oi, é, o que? Eu não estava na cama? Eu tive um sonho doido. — Oh, droga. — Era algo com magia. — Vixi, ferrou. — E com unicórnios? — O que? Unicórnios? Tô salvo. — E um deles tinha um gigantesco…
– Pode parar ai, Thiago! — Ela gritava toda vez. — Veja se volta pra realidade!
Falando isso, ou melhor, gritando isso, meu pai começou a reagir de novo. Minha mãe foi pra cozinha preparar algo, enquanto meu pai estava arrumando a bagunça da sala. Eu estava ali olhando sem reação, até que me toquei e comecei a fazer um café da manhã pra mim. Era muita coisa pra uma única manhã.
Deixando a parte de baixo com meus pais, fui tomar banho e me vestir para a escola. Guardei Dimensão alternativa na mochila, e equipei Velocidade. O uso dela era melhor e mais agradável toda vez que a usava. Tinha até conseguido correr mais tempo com ela. Ficando direto com ela eu estava treinando, então ia usá-la sempre.
Dei tchau para meu pai e minha mãe na saída. Eles estavam comendo na cozinha, alheios ainda sobre o que tinha acontecido. Ou lembravam, mas não se preocupavam muito, tentando parecer que superaram o ocorrido. Fechei a porta e me dirigi até a loja de senhor Burlin, como de costume. Cheguei mais rápido do que o comum, mas sem chamar atenção nenhuma. Entrei, rodei pelos vários setores, vendo todos os itens dessa vez, e comprei algumas cartas de Yu-gi-oh novas que tinham chegado. Parte do deck original, então era importante pra mim. Mas não achei nenhuma carta parecida com as duas.
Saí rapidamente para a escola, chegando bem cedo. Velocidade realmente era útil. Cheguei e me dirigi até minha sala. Quatro ou cinco pessoas que não conhecia direito estavam lá. Sentei-me no meu lugar definido e olhei involuntariamente pro lado. Sem Amanda do meu lado não havia modo de ver sua carta, então resolvi dar uma volta na escola. Desci e me dirigi até o pátio.
Chegando lá, entrei em um dos corredores que geralmente são vazios para correr usando Velocidade, só pela diversão. Não era algo que eu faria normalmente, mas era o que eu queria fazer agora. Corri o mais rápido que pude, e alcancei o outro lado rapidamente, sem muito cansaço. Olhando para direita, no caminho que esse corredor levava eu vi uma cena que me perturbou muito. Um garoto apanhando de um garoto ainda maior, maior no sentido de mais gordo, sendo que ele estava preso, sendo segurado por dois outros. Um grande ato de covardia. Normalmente eu iria embora, mas eu não estou num momento muito normal. Sem pensar em mais nada, corri para tentar defendê-lo.
Pensando em dar o primeiro golpe, e tendo o elemento de surpresa, corri e passei no meio deles, dando um tapa em cada um. Parei um pouco mais a frente, com as pernas levemente dobradas, na posição final do golpe dado. Eu me virei e olhei pra eles, que pareciam aterrorizados.
– Você... Como você... — O maior começou.
– Como eu fiz isso? É algo que você não estará vivo para descobrir. — Falei, tentando ser o mais ameaçador possível. — Saia daqui antes que eu faça estragos em vocês.
– Você que vai sofrer. Somos três e você um. — Ele falou confiante.
– Tem certeza? Olhe de novo.
Os "amigos" dele já tinham corrido antes de começar a falar. Ele, após ver a desvantagem, começou a correr também, desesperado.
O garoto, que estava no chão sentindo a dor dos socos, mas que observava tudo com temor, tentou se levantar para fugir, mas começou a cair também.
– Acalme-se. — Falei, indo rapidamente para frente dele e o segurando, impedindo a queda. — Considere isso uma ajuda.
– Você... Você... Você... — Ele começou a balbuciar. — Você... Você…
– Sim, eu vim te ajudar. — Cortei.
– Você tem uma carta! — Ele concluiu, e eu congelei.
– Como assim uma carta? Que carta você quer dizer? — Tentei falar, mas o nervosismo estava aparente na minha voz.
– Eu posso falar sobre elas, então você deve ter uma! Qual você tem? — Ele continuou, agora parecia ter se esquecido da dor dos socos.
– Cartas? — Tentei desconversar. — Que cartas?
Nisso ele me mostrou a dele. Agora eu entendi, ele também tem uma.
– Qual o seu nome? Qual carta?- Ele perguntou.
– Eh…
– Qual carta! — Ele já estava desesperado.
– Não aqui. Veja se é possível de me encontrar depois da escola, na saída. Iremos para um local mais seguro do que aqui. — Falei precavido.
– Pelo menos me diga qual é... — Ele resmungou.
– Velocidade. Meu nome é Filipe, por falar nisso.
– Meu nome é... — Ele hesitou um pouco. — Meu nome…
– Apanhou tanto que esqueceu seu próprio nome? — Perguntei, rindo por dentro.
– Não é isso. Will. Isso, esse é meu nome. — Ele falou depois de um tempo.
– Sério, você não parece ter certeza. — Falei, rindo de leve.
– Mas é Will mesmo. Não fuja, te encontro na saída. — Ele falou, juntando seu material do chão e cambaleou na direção do pátio. — Boa sorte.
– Igualmente. — Boa sorte meio estranho que ele falou, mas respondi por cortesia. O encontro com ele foi inusitado, e saber que ele tem uma carta também foi estranho. Após toda essa confusão, comecei o meu caminho pra sala, pois logo logo o sinal iria tocar. Pondo o pé no pátio, já havia grande movimentação de estudantes, muitos esperando o início das aulas fora da sala. Quando estava chegando na sala o sino tocou. Dei graças a Deus por não ter que passar por aquele amontoado de gente tentando chegar na sala.
Indo para meu lugar, vi Amanda já sentada, lendo e anotando coisas em seu caderno. Diego, do outro lado da sala, olhava pra mim com um misto muito maluco de ódio e orgulho. Juro que se prestasse atenção nele você veria ódio por um segundo, depois orgulho, depois ódio, e ficava nessa troca. Devidamente sentado, esperando o professor de Português chegar, vi alguns alunos entrarem. Surpresa de novo, Will entrava na sala. Me senti igual a Amanda ontem quando ela me viu, pois ele tropeçou e caiu de cara no chão. Amanda, que estava concentrada nas suas anotações, me cutucou nesse momento, me tirando das gargalhadas internas.
– O que aconteceu com ele?
– O mesmo que aconteceu comigo ontem.
Amanda riu de leve, e eu comecei a rir de verdade, enquanto Will caminhava até seu lugar. Ele passou por mim no caminho, momento que eu já tinha parado de rir, e se sentou na cadeira exatamente atrás de mim. Agora eu estaria perdido mesmo. Peguei a folha de ontem, anotei a nova data, e comecei a falar com Amanda novamente.
Filipe diz:
Amanda, olha esse garoto atrás de mim.
Ele tem uma também.
Passei a folha pra Amanda. Ela leu, arregalou os olhos, depois escreveu freneticamente na folha de papel.
Amanda diz:
Qual?
Lendo isso eu vi que havia contado a minha, mas não tinha nem ouvido a dele.
Filipe diz:
Vou ver isso agora
Passei pra Amanda e puxei outra folha, pra começar uma com Will. Escrevendo tudo como o chat, mandei para ele uma folha.
Filipe diz:
Will, qual a sua carta?
Passei pra Will e aguardei. Mesmo não prestando muita atenção na aula eu não podia simplesmente virar e ficar olhando ele responder. Depois de um tempo senti um cutucar de folha no meu braço esquerdo. Peguei pra ler, acreditando ser uma mensagem de Will, quando na verdade era uma de Diego.
E ai? E ai? O que aconteceu com ela?
Olhei pra ele, vendo a curiosidade brilhar em seus olhos. Escrevi minha resposta e enviei via Emílio, que passou o papel sem interesse.
Eu conto depois.
Não, melhor ainda, não conto.
Diego leu, releu e fez a expressão de bobo que ele sempre faz. Olhei pra ele confirmando, nisso ele sorriu muito pervertidamente. Acho que piorei as coisas.
No meio de toda essa conversa visual com ele, senti um papel no meu braço direito. Peguei e li, vendo a mensagem de Will.
Sem isso, Filipe, nos falamos na saída mesmo.
Eu realmente não entendi. Ele ficou feliz e eufórico ao saber que tinha uma carta, e agora ele estava sem interesse nenhum sobre elas. Não sei o que pode ter acontecido. Desistindo de saber o motivo, resolvi pelo menos uma vez no dia prestar atenção na aula.
Após uma hora de explicação sobre muitas coisas que nem lembro, tocou o sinal de intervalo. Diferente dos dias normais, eu não desci hoje. Fiquei na sala, fazendo companhia a Amanda. A sala, entretanto, não estava vazia, então fiquei rabiscando a folha de trás do meu caderno, sem desenhar nada ao certo.
Quando levantei os olhos para a porta, por ter ouvido ela abrir, vi Will saindo apressado, sem fechar a porta atrás dele. Curioso, fui segui-lo. Usando Velocidade muito levemente, encontrei-o fazendo uma curva no corredor. Desviando dos vários alunos indo de lá pra cá, alcancei o ponto que ele fez a curva. Ela levava pra perto do local onde tínhamos nos encontrado antes. Seguindo rapidamente pelo corredor vazio, ouvi um som vindo de uma porta. Parecia alguém vomitando, ou algo assim. Sem nem lembrar dos milhares de filmes e histórias que mostravam o que acontecia com quem seguia um som estranho, tentei ouvir através da porta que parecia ser a origem do som. Vômito, certamente, então resolvi olhar por debaixo da porta, pra ver se via algo. Não consegui, então abri a porta sem medo, ou melhor, sem lembrar dos filmes. Abrindo rapidamente a porta, vi Will se apoiando no espelho, olhando a pia. Sentindo o cheiro tive certeza que ele havia vomitado.
– Will? Você está bem? — Falei me aproximando, preocupado com ele.
– Isso não é nada. — Ele falou, limpando a boca e ficando de pé.
– Não parece com nada... — Comecei. — Efeito dos socos de antes?
– Não, eu já me acostumei aos socos. -Ele falou, sem nenhuma reação negativa quanto o que tinha dito. — Não, não é por isso.
– É pelo que então? — Perguntei.
– A minha carta. — Ele concluiu de uma vez. Falando isso ele se desequilibrou pra frente, onde prontamente me adiantei em ajudá-lo.
– Tire. — Falei secamente.
– O que?
– Tire a carta. — Continuei, sem alteração na voz.
– Por quê? Pra você roubá-la de mim? — Ele falou, e parecia ter saído mais assustado do que ele planejou.
– Porque eu faria isso? — Respondi. — A carta é sua. Agora tire e descanse.
Ainda desequilibrado, Will estendeu o braço e retirou sua carta. Percebi instantaneamente que o equilíbrio dele voltou, e deixei que ele se recompusesse. A carta, levemente azulada, parecia ser mesmo a fonte da fraqueza dele.
– Por quanto tempo você estava usando ela? — Falei, com curiosidade.
– Muito tempo... — Ele falou com certa dificuldade. — Uma semana.
– Você estava usando essa carta direto por uma semana? — Falei espantado.
– Sim.
– Usando com toda força? — Isso não seria possível.
– Sim.
– Por quê? -Will não respondeu rapidamente.
– Por causa das provas. — Ele respondeu.
– Qual a sua carta? — Ele não respondeu. — Will, qual a sua carta.
– Eu achei que íamos falar disso depois da saída. — Ele falou convincente.
– Eu tenho duas. — Falei. Nisso Will ficou tão surpreso que o seu queixo caiu.
– Você... Tem du-duas? — Will balbuciou.
– Sim. — Nesse momento o sinal tocou. — Vou indo, a aula já vai começar.
– Espera! — Will gritou, ecoando pelas paredes do banheiro, deixando o grito ainda mais alto. — Qual a outra?
– Desculpe, mas a aula vai começar. — Disse isso e saí correndo, usando Velocidade, deixando Will sozinho no banheiro. Sair assim foi algo muito mal. Ele agora estava curioso de novo, então iria falar comigo durante as aulas restantes de hoje, e eu precisava saber sobre a carta dele.
Cheguei rapidamente na sala. Rapidamente mesmo. Sentei e esperei. Amanda chegou logo depois de eu me sentar. Veio andando e se sentou em sua cadeira, olhou pra mim e sorriu. Iria até conversar com ela, mas duas coisas me impediram. Um, eu estava no meio da sala, com muita gente olhando e ouvindo. E dois, Diego estava entrando, e não queria dar mais nenhum motivo pra ele se assanhar, ou contar meio mundo coisas erradas. Chegando desesperadamente atrás dele, atropelando Diego e passando barulhosamente por entre as carteiras, Will veio direto na minha mesa.
– Qual... A outra... Carta... — Ele alternava entre falar e respirar.
– Willian, sente-se, por favor, e sem barulho dessa vez! — Gritou a professora de Biologia. Will, muito contra sua vontade, se sentou. Mas isso não o impediu de me perturbar, passando várias vezes papéis perguntando da carta, ao qual eu simplesmente respondia depois. Quando a professora começou de fato a aula, Will parou. Parou mesmo, tipo, ficou só escrevendo e olhando a professora, como se eu ter duas cartas fosse um assunto não interessante pra ele. Mesmo curioso, resolvi não falar nada dessa vez.
Biologia, assunto chato nos dias comuns, ficou ainda mais chato com Will ignorando e muito o fato de eu ter outra carta. Sem contar as bolas de papel que ocasionalmente acertavam minha cabeça quando a professora não via, vindas obviamente de Diego. Treze bolinhas depois, as aulas de hoje acabaram. Saindo do portão, Amanda se juntou ao meu braço. Atitude fofa, por assim dizer, se não fosse o fato de eu ficar levemente vermelho com tal atitude, e também por logo após isso, ouvimos um "Meu garoto!" vindo de dentro da escola. Que surpresa, Diego...
Will tinha saído antes, e então estava esperando a gente. Nos aproximamos dele.
– Qual carta? — Ele prontamente falou.
– Não aqui, vamos para minha casa. Mais perto daqui e mais seguro.
– Certo. Mas rápido, por favor. — Ele falou impacientemente.
– Primeiro iremos passar numa loja conhecida, preciso ver algumas coisas. — Falei.
– Não pode pular hoje? — Will disse quase implorando.
– No way. Eu passo lá todo dia pra ver os novos itens. Vamos indo.
Comecei a caminhar em direção à loja do senhor Burlin, com Amanda ainda segurando meu braço, e Will, com aspecto de derrotado, nos seguindo à distância.
– Acha certo confiar nele, Filipe? — Amanda me cochichou no ouvido.
– Ele estava tão desesperado quanto eu no dia que vi seu post. Ele não parece que vai me atacar ou algo assim. E mesmo que fosse não ia ser problema, a carta dele não é boa pra batalhas. — Respondi, sussurrando.
– E qual a carta dele? — Amanda continuou.
– Inteligência. Lembra quando ele saiu da sala correndo? — Perguntei. Amanda acenou positivamente. — Ele estava indo pro banheiro perto dos laboratórios de ciências, o que fica num dos corredores desertos. Ele estava vomitando por usar a carta demais.
– Nossa... — Amanda começou. — Filipe, não use demais também.
– Não se preocupe. O jeito que ele usava estava errado mesmo. Ele usou por uma semana direto, sem dar tempo pra cabeça descansar.
– Porque ele faria isso?
– De acordo com ele era pra estudar. — Tentei responder. Dei uma olhada pra trás e olhei rapidamente pra Will. — Mas mesmo que por uma causa boa, abusos têm consequências. — Me virei pra Will. — Chegamos.
A loja, como sempre, estava amontoada de itens. Usando Velocidade, rapidamente passei pelos itens que acompanho. Achei um dragão raríssimo nas cartas de Yu-gi-oh, então a peguei para comprar. Me dirigi ao caixa para pagar a carta, e aproveitei logo pra saber do senhor Burlin sobre novidades das cartas.
– Oi, vou levar essa carta.
– Claro, mais alguma coisa? — Disse o caixa, logo processando a compra.
– Sim, eu queria falar com o senhor Burlin. Ele está?
– Infelizmente ele saiu de viagem. Foi para o norte da Austrália dessa vez. Só retorna amanhã.
– Oh, obrigado.
– Obrigado a você, volte sempre.
Voltei minha atenção à Amanda, observando a categoria de bonecas de novo, enquanto Will ficava ansiosamente à entrada.
– Amanda, tá bom pro seu pai pra você ir até minha casa de novo?
– Tá sim, aquele bendito trabalho me salvou.
– Que trabalho? — Falei, sem saber ao certo o que ela falava.
– Lembra aquele que eu inventei? Esse daí.
– Ah, sim, mentiu pra ele de novo. — Amanda concordou sorrindo. — E quanto ao assalto, ele soube?
– Não perguntei. Ele provavelmente estaria bem mais superprotetor se soubesse.
– Verdade. Vamos indo? Will está desesperadamente acenando pra gente.
– Ah, certo. — Amanda falou soltando um risinho fraco. — Vamos logo.
– Amanda, só mais uma coisa. Não diga a ele que você tem uma carta ainda.
– Por quê?
– Só pra garantir.
Partimos em direção a Will e seguimos rapidamente para minha casa. Chegando lá, chamei minha mãe imediatamente, que dessa vez respondeu aparecendo na porta.
– Oi, Filipe, vejo que trouxe alguns amigos hoje. — Ela começou.
– Sim, isso e fazer um trabalho da escola. — Respondi. — Tudo bem por você?
– Claro, não tem problema nenhum. — Ela falou. — Olá, sou Esther, mãe do Filipe.
– Eu sou Amanda. Muito prazer.
– E eu sou Will.
– Sejam bem vindos.
– Vamos lá fazer o trabalho? — Falei, olhando Amanda e Will. Will prontamente afirmou com a cabeça.
– Se acalmem, vocês tem a tarde toda. Entrem, sintam-se à vontade. — Minha mãe falou, abrindo caminho.
Mesmo com o convite, entramos e fomos para meu quarto, logo para falar com Will.
– Bom, esse é meu quarto. — Falei, mostrando com meu braço todo o cômodo. Com a porta devidamente fechada começamos a conversar.
– Qual a sua carta? A outra, além de Velocidade? E a sua, Amanda? — Will começou a disparar.
– Espera, como assim qual carta da Amanda? Ela não tem uma carta. — Tentei disfarçar.
– Eu pude falar alto sobre elas, então ela também sabe. — Ele afirmou. Esse menino é mais esperto do que parece. — Qual carta?
– Transformação. — Amanda respondeu.
– Posso ver? — Will logo continuou.
– Não. Ela está guardada. — Amanda disse. Não sei ao certo se foi mentira ou não. Pensando bem, nem eu tinha visto a carta de Amanda, devido ao assalto e tudo mais.
– Não está com você? E se alguém roubá-la? — O tom de Will foi se elevando. — E se usarem contra você, ou alguém que você se importa?
– Não tem jeito de roubarem ela. Eu escondi onde ninguém nem pensaria que fosse possível esconder. — Amanda continuou.
– Mas vão achar, eu sei que…
– Will, espera. — Falei. — Vamos com calma. Primeiro, onde você conseguiu Inteligência? — Will parou de olhar pra Amanda e olhou pra mim.
– Qual a outra?
– Vamos com calma. — Respondi. — Todo mundo aqui vai saber de tudo.
– Mas qual a sua? — Will insistiu.
– Vamos fazer o seguinte, eu falo a minha e você fala a sua depois, que tal? — Propus para ele.
– Certo. Mas…
– Calma. — Interrompi Will novamente. — Respire. — Will forçadamente respirou. — Todo mundo vai falar. Agora deixa contar como eu as achei. — Descrevi exatamente como tinha achado minhas cartas. Amanda continuou, descrevendo sua parte da história, e esperamos Will nos contar a sua.
– Bom... — Will começou. — Eu precisava de notas para esse semestre, senão reprovaria. Eu nunca prestei muita atenção nos professores, e nas vezes que prestei, nada do conteúdo ficou na minha cabeça. — Concordei mentalmente, também me acontecia isso. — Resolvi então estudar sozinho, por livros e outros, e isso até que foi melhor. Alguns tinham na biblioteca da escola, outros na da cidade. Eu cheguei a comprar livros online para estudar. Encomendava alguns novos, outros usados, e estudava por eles. — Will parou. — Um dos livros era velho, bem velho, de uma editora falida há anos, mas seu conteúdo era muito bom. Eu comprei esse livro pelo Mercado Livre, e esperei chegar. Semana passada ele chegou. Ao abrir na primeira página, uma dedicatória me chamou a atenção. Tinha uma escrita boa, mas parecia ser tão velha quanto o livro, e logo abaixo dela, parecendo muito nova, estava escrito "Aproveite". Achei ser uma mensagem do comprador, e fiquei feliz por ele fazer isso. Comecei a folhear o livro, e entre uma das páginas estava ela. — Nisso ele estendeu a mão mostrando Inteligência. — Não soube o que era na hora, claro, mas ao segurá-la me fez perceber que eu precisava dela. Soube como usá-la logo após ler sua descrição. Aproximei ela da minha cabeça e pronto, o conhecimento estava fluindo. Até o conteúdo dos professores ficou na minha cabeça melhor depois de usar a carta. Desde então estou usando ela dia e noite, estudando e anotando, tentando aprender mais e mais. — Will finalizou sua história ai.
O quarto ficou silencioso por um momento, sendo quebrado somente quando minha mãe apareceu na porta, nos chamando para almoçar. Descemos e almoçamos rapidamente, e logo subimos de novo, e minha mãe nos avisou que levaria algo para comermos depois. O quarto, como antes, ficou silencioso. Will falou novamente.
– E vocês sabem de onde elas vieram? — Amanda e eu nos entreolhamos.
– Não sabemos. Nem se existem outras. — Comecei. — Aqui estão as minhas. — Falei, oferecendo as minhas para Will ver.
– Velocidade... — Will começou. — Dimensão alternativa... — Estava lendo rapidamente as descrições. — São cartas aparentemente boas.
– Mas elas têm um preço, você mesmo sabe. — Falei, pegando elas de novo. — Velocidade eu estou usando direto, mas sem ativar seus efeitos o tempo todo. Dimensão alternativa fica guardada.
– E Transformação? — Will perguntou a Amanda.
– Nunca soube que dava para usar. Só descobri isso quando visitei Filipe ontem.
– Filipe, o que você vai fazer sobre elas? — Will perguntou uma pergunta que eu não tinha respostas ainda.
– Não sei. Mas sei que tenho que protegê-las. De qualquer um.
– Vai procurar por outras? — Ele questionou.
– Não. — Menti. Eu realmente queria ter todas, mas não queria que ele soubesse.
– Acho que então nós podemos ser aliados? Na proteção dessas cartas? — Will perguntou. Eu hesitei por um instante.
– Claro. E por enquanto, ninguém sabe que essas cartas existem, além de nós. Nem que são mágicas. Caso perguntem sobre elas, não diga sobre os outros, fechado? — Falei.
– Eu concordo. — Disse Amanda.
– Eu também. Vocês não tem carta nenhuma. — Completou Will.
Fiquei satisfeito com isso. Criei ao menos uma proteção para todos. Boa, Filipe.
– Agora antes que minha mãe chegue, e o trabalho?
Amanda riu levemente, enquanto Will ainda estava sério.
– Filipe, você sabe que não se deve brincar com essas cartas. Você deve ficar sempre atento, e…
– Will, se acalma. — Interrompi de novo. — Você está preocupado demais sobre elas. Ignora um pouco esse sentimento de proteção seu, e se divirta um pouco. — Falei.
– Não posso, se eu parar de me preocupar, problemas vão acontecer. — Will continuou.
– E quando eles acontecerem você vai resolvê-los, simples assim. Pare de se preocupar em quando eles vão ocorrer, pois eles vão ocorrer, e se preocupe em resolvê-los somente quando eles chegarem.
Amanda ouvia tudo, e ficava em silêncio em cima da cama.
– Bom, seu discurso é lindo, inspirador. — Amanda usou um tom muito forte de gozação nessa frase. — Mas eu tenho que ir. Falei pro meu pai vir aqui umas duas horas, e veja só, duas horas. Ele já deve ter chegado. Vou descendo.
– Espera, eu vou com você.
– Eu também. Vou começar o caminho pra casa. — Disse Will, se levantando.
Indo os três para baixo, chegamos até a sala e vimos Fred sentado no sofá, com seu terno preto bem arrumado, bebericando uma xícara de café. Vendo nós três descendo juntos, sua expressão ficou mais preocupada.
– Amanda, quem é esse garoto novo?
– Pai, esse é Will, ele está no nosso grupo do trabalho.
– Porque ele não estava aqui ontem?
– Ele não pode vir aqui ontem. Ele estava... — Amanda hesitou.
– Eu tinha compromisso médico. Dentista. — Will, e devo dizer que estou impressionado, respondeu para o pai de Amanda. Eu percebi dessa vez, ele estava mentindo.
– Oh, certo. Bem, Filipe, um prazer te ver de novo.
– Meu prazer, Fred. Vi que adorou o café de minha mãe.
– Bom, é bem melhor do que o do seu pai. — Ele falou disfarçadamente pra mim, mas falou alto o suficiente pra todos ouvirem. — Não diga pra ele. — Fred foi se dirigindo até a porta
– Pode deixar, não falo nada.
– Amanda, vamos.
– Claro, pai, só um momento. Vou dizer tchau pra todos. — Amanda se direcionou para nós. — Tchau, Will, foi bom te conhecer.
– Foi bom te conhecer também, Amanda.
– Filipe. — Amanda se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha. — Até amanhã. — Ela se aproximou de meu ouvido e cochichou. — Eu vou te mostrar minha carta amanhã.
Eu arregalei os olhos por uns segundos, e então me controlei e respondi.
– Tchau…
Vi Amanda se afastar, dar um grande aceno, e entrar no carro, que logo seguiu a rua até sumir de vista. Will, aproveitando a deixa, se despediu também e começou a andar na direção oposta, fazendo uma curva e sumindo também. Voltei para meu quarto, onde fiquei no computador pesquisando sobre as cartas até chegar às cinco. Como hoje era quinta, eu tinha aula de inglês pra ir. Me preparei como de rotina, peguei meu material e preparei para ir para o curso.
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