A verdadeira magia
19 O impedir
Acordei novamente suando frio. Estava ofegando muito e senti minha boca seca. Este havia sido o sonho mais vívido que já tinha sonhado antes. O que era isso? Podia mesmo ser visões do futuro? Ou minha mente havia juntado tudo o que tenho vivido e causado essa confusão toda dentro dela?
Eram cinco e meia da manhã, de acordo com meu relógio. Ainda bem, porque eu podia mesmo usar um tempo pra me recuperar. Recuperar e pensar nesse sonho. A cada dia que passa eu tenho mais desses sonhos estranhos com pessoas que conheço, com situações que vivo.
A minha mente começou a viajar pensando em hipóteses pra isso ocorrer, e esse tempo passou voando. Meu celular fez o bip de seis horas, me fazendo cair na real de novo. Me levantei e peguei minha toalha e tomei um banho rápido. Quando estava voltando para o quarto, minha mãe saiu do quarto dela.
– Já acordado, filho? – Ela perguntou sonolenta.
– Sim, mãe, hoje vou sair bem beeeeeem mais cedo. – Respondi. – Tenho que falar com lugares, visitar pessoas, esse tipo de coisa.
– Tá, vai lá. – E voltou para dentro do quarto. Isso era sono alcoólico.
Me vesti e comi algo leve e já parti de casa as seis. Meu pai me viu na cozinha quando comia, mas pareceu nem me notar. O sol já havia aparecido, iluminando a rua com uma luz morna e agradável. O caminho para a escola foi suave, e passeei por entre as sombras e as luzes no caminho.
Cheguei na escola e vi alguns poucos alunos para o lado de fora do portão. Geralmente perto essa hora já é possível entrar, porque os portões ficam abertos desde as seis da manhã. Notei Amanda esperando ao lado de um carro preto, e segui diretamente para lá.
– Amanda, o que tá acontecendo hoje? – Já cheguei perguntando.
– Oi, bom dia, está um dia lindo hoje, não? – Ela falou sarcasticamente.
– Eu estou bem, obrigado por perguntar, mas e a escola? – Revidei.
– Vai ficar fechada por tempo indeterminado. – Ué, por quê? – Parece que houve um acidente lá dentro, com um estudante que ficou a noite lá.
– E eles não falaram quem foi... – Completei. – Você viu alguém chegar e entrar?
– Cheguei só há alguns minutos, isso já estava assim antes.
– Certo, certo... – Falei, e não sei por que, mas estava muito a fim de fazer o que eu sugeri pra Amanda. – Vamos invadir a escola?
– Invadir, Filipe, tá maluco? – Ela perguntou cética. – Isso é muito errado.
– Amanda, um aluno ficou a noite, nunca sairá o que aconteceu de verdade. – Expliquei. – A ideia é genial. Vai entrar comigo? – Ela hesitou pra responder.
– Se a gente for pego eu não pago sua fiança. – Ela falou.
– Não serei pego. – Falei convencido.
Me dirigi ao lado da escola que ficava mais oculto da multidão e por lá planejei entrar.
– Amanda, se transforme em alguém que tem uma corda. – Falei, e ela não entendeu. – Se você puder fazer isso, a gente pode entrar e também descobrimos esse poder da sua carta.
– Vou tentar. – Ela disse, e logo apareceram as rachaduras que conhecia. Quando aconteceu a quebra, eu vi Amanda usando uma roupa de escaladora, ou aventureira, algo parecido com isso.
– Muito bom, sua carta pode criar objetos. – Falei, adorando saber isso.
– E por que eu fiquei parecendo que vou escalar uma montanha? – Ela falou, olhando para a roupa que vestia.
– Eu sei lá, você que se transformou. Agora vamos. – Peguei a corda de suas mãos e arremessei com a parte do gancho para pegar na parede. Puxei um pouco e logo senti ele prender em algo. – E entramos.
– Você vai subir primeiro? – Ela perguntou.
– Consegue se puxar do chão sem minha ajuda? – Eu perguntei em resposta.
– Sim.
– Então sim. – Falei e comecei a escalar até pular o muro. – Te vejo do outro lado. – E pulei para o chão do lado de dentro da escola.
Amanda apareceu um tempo depois, certamente mais tempo do que eu levei. Assim que ela chegou eu puxei a corda, enrolei rapidamente e mandei pra minha dimensão.
– Mais um teste. Espera ai. – E foquei para olhar dentro da dimensão. Sim, a corda estava lá.
– Deu certo? – Ela me perguntou.
– Sim, ela está lá dentro. Vamos indo. – Falei e comecei a andar.
Eu seguia as paredes da escola, com Amanda ao meu encalço. Eu conhecia basicamente tudo daquela escola, inclusive as entradas pouco usadas. Ela era bem fechada, com quase tudo interno, exceto a quadra de esportes. Havia três portas de entrada, a principal, uma para lixo e uma do estacionamento. Indo primeiro para a do estacionamento, vi que três carros estavam estacionados.
Bom, um da diretora, outro da vice-diretora, provavelmente estão aqui devido a essa crise, mas de quem seria o terceiro carro? Continuei pra ver se a porta estava aberta. Me aproximei da porta dupla de vidro e apliquei pressão nela. Nada. A porta estava trancada.
– Trancada? – Amanda perguntou.
– Não, é um holograma mesmo. – Falei cínico, e ela respondeu me dando um tapa no ombro. – Vamos ver a porta de saída de lixo.
– Porque essa? – Ela falou, fazendo cara de nojo. – Não tem outra?
– Bom, podemos ir pela entrada da frente, que tal? – Respondi olhando pra ela. – Seria até melhor invadir assim, pela porta da frente. – Ela me deu outro tapa. – Não tem outra entrada, só essas três. – Falei. – A menos que queira entrar pelas janelas ou pelo telhado.
– Tem mais um lugar que pode estar aberto. – Ela falou.
Agora ela que andava pela parede do edifício e eu a seguia. Andamos passando por várias janelas, mas nenhuma porta. Paramos ao lado de uma janela com trava no meio, e quatro partes de vidro a formando. Era escura, o vidro parecia até ser um tanto pesado e tinha a proteção contra o sol bem forte, como se não fosse insulfilme, mas algo mais grosso pra bloquear a luz do sol. Foi vendo isso que finalmente entendi onde estávamos.
– Amanda, a janela está fechada, você não acha? – Falei.
– Na verdade não. – Ela respondeu. – Um dia que estava aqui eu notei que nessa janela a tranca foi tirada sem parecer. – O que? – Alguém tirou a parte que travava ela, então ela sempre fica aberta. – Ahhh...
– E ninguém nunca notou? – Respondi. Tem que ter manutenção de vez em quando, não é verdade?
– Não. E eu notei isso no começo do ano, imagina quanto tempo isso tá assim.
– Então vamos tentar. – Ainda não vi como isso pode nos ajudar, porque certamente a biblioteca estaria fechada.
Amanda pressionou as mãos contra a janela e as arrastou para lados opostos, abrindo o pesado vidro devagar. A janela, mesmo não sendo relevante, não fez barulho. Quando se tinha espaço para passarmos por ela nós entramos.
A biblioteca estava com as luzes desligadas, e a iluminação de fora não tinha efeito nenhum no lugar, deixando um toque sombrio nos livros. Entramos pela parte mais longe das portas, no fundo das estantes de livros. O espaço entre uma prateleira e outra era grande o suficiente para se olhar através, e isso nos foi muito útil. Perto do balcão da recepção a diretora estava olhando ao redor da sala. Nos aproximamos perto o suficiente pra ouvir sua voz falando com uma pessoa do lado de fora.
– Me disseram que tinha acontecido algo importante na biblioteca. – Ela começou. – O que poderia ter sido pra eu ter que vir aqui e impedir o acesso dos alunos?
– Havia poder aqui... – Uma voz soou no interior da biblioteca, nas estantes que ficavam do lado oposto de onde entramos. – Delas... — O rosto da diretora mudou de cor.
– Das cartas? – Ela falou rapidamente perdendo a compostura. – E qual era a carta? – Ela olhava mais pra cima agora.
– Era um poder desprezível... – A voz falava como se fosse um grande coro, soando como se tivesse ecoando no local. Parecia um silvo contínuo de um tom grave, mas era estridente mesmo assim. – Umas dos papiros eternos... – Sua voz se estendeu irritantemente no final.
– Era tão poderosa assim? – A diretora continuou. – Quantas vieram? Meus informantes disseram que apenas oito delas vieram para esse plano. – Ela falou isso pra ela mesma agora.
– Tola... Não pergunte, apenas continue... – A voz continuou. Pareceu transmitir mais raiva agora. – Eu preciso dela em meu poder... Vá e ache-a... – E a voz parou. Imediatamente senti meu corpo ficar mais leve, como se tivesse sentindo uma enorme pressão de fora.
– Josias! Precisamos reu... – E ela saía do alcance de nossa audição. Sua correria foi desesperada, correndo atrás de alguém que provavelmente estava ali na escola. A porta da biblioteca estava escancarada, nos dando a chance que queríamos para andar pela escola.
– Agora nós temos problemas. – Foi o que falei para Amanda.
– O que era aquilo, Filipe? – Ai meu céu...
– Amanda, parece que achamos quem é nosso inimigo. – Eu falei, apontando o óbvio.
– Isso eu sei, garoto. – Ela completou, rapidamente lançando um dos livros da estante nas minhas costas desprotegidas. Golpe baixo, mas mereci. – Você sentiu isso também?
– Senti. Acho que senti. – Completei. – Sei que senti um grande alívio quando aquela voz parou de falar e sumiu.
– Você acha que pode mesmo ter alguém aqui? – Ela perguntou. – Um estudante mesmo, como falaram lá fora?
– Acho que não. – Eu completei. – Eu jamais vou vê-la de outro jeito. – Falei, dando um pequeno sorriso. – Nossa diretora... De qualquer jeito nós já invadimos, então vamos andar por aí. Ver se aparece mais alguma coisa. – Falei.
– Filipe, se a gente se der mal com isso... – Ela começou, mas eu interrompi.
– Alguma hora vamos ter que enfrentar a diretora, pelo que parece. Não tem problema. – Dizendo isso eu me virei e comecei a andar pra saída. Amanda deu uns passos mais rápidos e ficou do meu lado. Chegamos na porta e olhamos para o corredor, não havia ninguém. Antes de sair, Amanda havia se transformado de novo. Acho que só aguardava o tempo limite mínimo chegar ao fim para voltar ao estado de antes.
Caminhamos com muita cautela pelos corredores vazios, mas não vimos ninguém. Tinha que ter ao menos três pessoas aqui, não é? Ouvimos um leve bip, que tinha vindo do meu relógio pra avisar que eram sete em ponto. Passávamos pelo corredor do segundo andar e ouvimos uma movimentação em baixo. O corredor era aberto a parte esquerda da parede, e sabíamos disso, então logo nos abaixamos e fomos correndo para nossa sala. Chegamos e vimos logo como uma sala vazia era assustadora e perturbadora. Acho que nunca chego tão cedo num lugar de novo.
Lentamente a sala enchia com os alunos, e ninguém desconfiou de estarmos ali na sala sem ter passado pelo portão. Will chegou e sentou-se atrás de mim, logo puxando papo.
– Como chegaram aqui? – E foi logo a primeira pergunta que ele fez.
– Não importa. – Falei. – Meio que invadimos. – E a boca dele havia caído. – O que importa é que... – E a porta abriu com grande força, revelando o professor de História, completamente de mal humor. Ele entrou e fechou a porta atrás dele, não se importando com os alunos que o seguiam.
– Prova surpresa. – Ele falou enquanto jogava sua pasta sobre a mesa. A sala explodiu em leves gritos de susto, e logo um grande burburinho de alunos reclamava com o professor. – Aqueles que não gostarem podem sair pra suspensão de três dias. – E a sala ficou quieta. História era chata, mas o assunto era sobre gregos, que tiveram uma cultura muito boa, então ia ser legal. – Não façam barulho e peguem suas provas. Vocês têm uma aula pra terminar. – Falando isso, ele colocou em cima de sua mesa uma grande pilha de papel.
Em silêncio e desorganizadamente, todos pegamos a tal prova. Mas ia ser mais difícil do que esperava. Vinte questões, todas sobre assuntos que estudamos durante a nossa vida inteira, não só desse ano. História do Mundo por completo, sobre qualquer evento que foi mundial. O professor baixou a cabeça e ficou parado, como se tivesse dormindo. Isso só foi interrompido pela diretora entrando na sala pra conversar com ele. Eu não tirava meus olhos dela, e Amanda também não.
Pelo que ela fez em seguida, ela tinha dito ao professor que iria passar nas mesas dos alunos. Ela caminhava observando os alunos, que ficavam muito inquietos com isso. Alguns batiam o pé no chão, outros mordiam a caneta, outros olhavam de canto de olho e voltavam pra prova rapidinho. Will estava atrás de mim, e pelo que consegui sentir, usava a carta dele. Tentei então chamar a atenção dele por debaixo da mesa enquanto ela não olhava, mas não consegui. Joguei então minha caneta no chão, me dando uma desculpa então para sair da cadeira. Mas era tarde demais.
A diretora já estava ao meu lado. Ela se abaixou devagar para pegar minha caneta, e eu congelei no meu lugar. Quando eu olhei em seus olhos para agradecer silenciosamente, vi que ela desviava o olho para Will várias vezes. Eu entendi então o que ela queria fazer aqui. Ela se abaixou na mesa de Will e sussurrou algo que se não tivesse prestando muita atenção não teria ouvido.
– Eu preciso que você venha comigo. – E se levantou novamente.
Will desviou sua atenção da prova e se levantou sem ter escolha. Quando ela saiu da sala eu me levantei rapidamente e entreguei minha prova, saindo logo em seguida. Tinha respondido sete questões, mas não era importante. O importante era que ela havia sentido a presença da carta também. Segui o caminho que pensei que eles teriam pegado, e no segundo corredor para a sala da diretora eu a vi fazer uma curva diferente. Ela pegou o caminho para um outro lugar da escola, a saída de lixo. Quando chegaram na porta, a diretora agarrou o braço de Will e o puxou até saírem do prédio. Eu agora corri para sair também, e vi do lado de fora uma grande sombra no chão, balançando freneticamente.
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