A verdadeira magia
1 O despertar
Notas iniciais
Acordei e me preparei para a escola. Terça feira hoje, dia difícil. Ah, sim, meu nome é Filipe. Tenho 16 anos, cabelos curtos e castanhos, sou bem alto pra minha idade, quase 1,80 já. Meus olhos são a melhor parte, dizem os outros. Aparentemente eles mudam de cor. Vai saber. Eu sempre vi que eles eram negros, como pedras ônix. Mas já ouvi castanho claro, verde, azul celeste, e até roxo! Imagina só, roxo. Cheguei a me acostumar com isso, e assim levo minha vida.
As manhãs, tediosas como sempre são, nunca trouxeram nada de inovador na minha vida. Exceto hoje. Indo pelo meu caminho tradicional, sempre passo perto de uma loja de colecionador. Do que, você deve se perguntar. Bom, de tudo. Realmente tudo. Só levar algo lá que o dono acha, sem contar o que ele encontra por vontade própria. Simplesmente incrível. Todo dia, antes da aula, eu dou uma passada lá para ver as novas peças que chegam, independentes do que são. Até já criei amizade com o dono, e sempre é legal quando eu o visito.
Chegando hoje na loja, notei as peças novas. Alguns pratos com artes, que parecem ser gregas, novos decks de cartas do Yu-gi-oh, do clássico, que eu adorei, claro. Achei também algumas pedras novas, lindas para anéis. Seguindo para outras bancadas da loja, vi bonecos antigos, jogos de video games clássicos, peças de roupa diferenciadas, e muitas outras coisas. Mesmo sendo pequena, tinha muitos itens que se pode ver. E mesmo sendo grande a quantidade de itens, nada me apaixonava mais do que as cartas.
Qualquer tipo de cartas era fascinante. Além dos decks de Yu-gi-oh, também tem decks de Pokemón, alguns de Digimon, que eu nem sabia que existia, decks de baralho, cada um com artes diferentes. Um baralho que parecia bastante velho, e no verso era desenhado um grande castelo, parecia chinês, ou algo assim. Baralhos espanhóis e outros sempre me chamavam a atenção.
Nesse dia em especial, eu encontrei um que nunca tinha visto antes. Parecia com Pokemón, mas não era de monstros. Parecia um baralho normal, só que tinha status, descrições de habilidades, e nomes bem diferentes. Mas tinha somente duas cartas. Uma se chamava Velocidade. Seu símbolo era como uma flor de oito pontas roxa, com as folhas se sobrepondo as outras, dando um efeito bem legal. A descrição dizia "O usuário tem suas habilidades melhoradas, em relação de velocidade, em 50%." e após isso descrevia condições especiais. A outra era chamada Dimensão alternativa. De acordo com a sua descrição, "O usuário terá acesso a uma dimensão alternativa, onde poderá transpor objetos de acordo com sua vontade, do modo que preferir, contanto que tenha em sua mente o objeto e a dimensão.", e seguia dizendo outras condições.
Essas duas, mesmo não sabendo de qual coleção essas cartas podiam ser, eu as quis. Seriam especiais pra mim, e eu procuraria outras logo assim que eu chegasse em casa. Depois de comprar, cheguei correndo na escola para o primeiro tempo. Nada me chamava a atenção além das cartas que comprei. Não tinha as visto com cuidado ainda, e seria logo a primeira coisa que faria em casa. A aula, surpreendentemente, passou rápido. Saí, falei com amigos, e fui embora quase que correndo. A casa ficava poucos blocos de distância da escola, então ir correndo não foi difícil. Cheguei, falei com minha mãe, e subi pro meu quarto como um foguete. Colocando a bolsa na cadeira, tirei as duas cartas.
Amareladas, não do sentido de antigas, mas como cor base um amarelo fraco. Elas não tinham imagens em excesso, nem como descrição. Basicamente só tinha o símbolo de desenho. Velocidade tinha um desenho no verso da carta, que parecia uma pessoa com um punho levantado, mas só o contorno, algo bem simples. Dimensão alternativa tinha o que parecia um olho, e na sua pupila estava uma imagem de um campo. Acho que eram descrições do tipo, e Velocidade era físico e Dimensão alternativa era visual, ou algo assim.
Peguei somente a Velocidade, e comecei a ler a descrição de novo. Quando aproximei ela do meu rosto, ela brilhou e sumiu. Fiquei perplexo. Demorei pra entender o que tinha ocorrido. A carta tinha sumido da minha mão. Da minha mão! Onde ela foi parar? Com raiva, resolvi sair rapidamente da cama, onde tinha me deitado. Pondo o pé no chão, dei um mini pulo pra porta, como gosto de fazer. De repente, senti dor. Aquela dor quando a gente bate uma caneta no dente e ela dói mais do que o esperado, só que bem mais forte do que isso. Quando comecei a prestar atenção onde estava foi quando eu percebi o que aconteceu. Eu estava de frente pra porta. Entendi o que tinha acontecido. Eu bati na porta. Sem dúvida foi isso, porque minha mãe também deu um grito perguntando o que eu tinha batido. Eu tinha dado um pulo da minha cama pra minha porta em uma fração de segundo. Era como eu estivesse mais veloz... A carta. Ela dizia que aumentava em 50% a velocidade das coisas. Será que ela... Não, não pode ser, não é possível. Cartas não fazem isso. Mas então onde ela foi parar?
Mesmo perplexo por ter perdido a carta do nada, e mais ainda por ter batido na porta que fica a três metros de distância da cama, comecei a procurar a carta como um louco. Tirei lençol, colchão, armário, mesa, qualquer coisa no caminho, e virei o quarto de cabeça pra baixo, mas não achei nada. Dimensão alternativa ainda estava lá. E Velocidade tinha sumido. Relembrei o momento que ela sumiu. Eu estava segurando, virei, aproximei ela do meu rosto, e ela sumiu. Não tinha mais nada lá. Era só isso que tinha acontecido. Me imaginei com a carta na minha mão, tentando relembrar sua forma do melhor jeito possível. Depois de alguns segundos lamentando o fato dela ter sumido, abri os olhos e decidi rearrumar o quarto antes que minha mãe me matasse.
Olhando a bagunça do quarto, pela passagem do furacão Filipe, me dirigi ao colchão para pô-lo no lugar. No segundo que pus a mão no colchão, senti a textura diferente na minha mão direita. Prestando mais atenção nela, eu vi a carta. Dei um grito de raiva e felicidade, como se tivesse gritado "Carta maldita, por que sumistes" e "Graças aos céus que você retornou" ao mesmo tempo. Agora o que aconteceu, isso não sabia ainda.
Minha mãe entrando no quarto me trouxe de volta ao mundo. Eu não sei o que mais a surpreendeu, meu grito, a batida que tinha dado na porta, o quarto no estado que estava, ou eu no meio dele. Eu sei que ela ficou maluca, porque desceu sem fazer perguntas e sem falar nada. Ela pifou. Desligou o Mãenômetro dela. Desci correndo pra falar com ela. Ela estava sentada na sala, olhando pro vazio.
– Mãe. Mãe, você tá bem? — Falei, tentando me aproximar.
– Filho, explique. — Ela disse, simplesmente assim. Um frio correu minha espinha. Eu odiei o tom de voz dela.
– Mãe, calma, não estava possuído por causa das cartas de Yu-gi-oh ou nada do tipo. — Falei, tentando fazer ela rir. Ela sempre me encheu por gostar do que ela chama de "Baralho do demônio".
– O que houve lá? Porque o quarto estava daquele modo? Porque você estava naquela pose? O que era aquela carta na sua mão? O que... — Ela disparou de uma vez, até que tive que interromper.
– Calma mãe. Perguntas demais. Começa com menos. — Falei.
– Filipe. — Ih, ferrou. — Ok, vou tentar. — Oi, como?
– Oi, como? Você... Vai tentar... Algo que eu... Disse? — Perguntei surpreso.
– Quieto.
– Certo, mãe.
– Primeira pergunta: O que aconteceu lá? — Ela perguntou, visivelmente mais no mundo real, porque estava começando a pulsar uma veia na sua cabeça.
– Eu aconteci. — Respondi brincando.
– Filipe! — Ok, mãe, parei.
– Foi mal. — Nota mental, não tentar brincar agora. — Eu estava procurando algo.
– E precisou ativar o modo "Destruição de quartos" no momento? — Ela falou. Foi uma piada, sim, mas foi com tanta raiva que eu fiquei quieto.
– Sim, eu não tinha achado ainda. Então, quando eu eliminei os locais que ela poderia estar, o que sobrou, mesmo sendo difícil, era onde ela poderia estar. — Falei em reposta, citando o seu personagem favorito.
– Tentar se explicar como o Sherlock não vai te aliviar. Você vai arrumar tudo lá antes de qualquer outra coisa. — Ela falou repleta de autoridade.
– Certo, mãe. — Falei, e comecei a andar em direção ao quarto.
– Espera, ainda não terminamos.
– Ok. — Eu até iria dizer que ela mandou fazer isso antes de qualquer coisa, mas queria muito minha vida intacta.
– E o sangue?
– Que sangue? — Foi aí que eu senti gosto de ferro.
– O sangue na sua boca, de onde ele surgiu?
– Da minha boca, pra começar. — Ela olhou pra mim quase me petrificando. — Eu acho... Não, certeza, que foi quando eu bati na porta.
– Esse foi o barulho de antes?
– Isso.
– Porque você bateu?
– Parece que errei o pulo dessa vez. — Eu sabia que não foi isso, mas não queria piorar a situação.
– Próxima pergunta: Porque a pose? — Ela falou.
– Que pose? — Perguntei, sem saber do que ela falava.
– Que pose? — Agora ferrou. — Que pose? Aquela pose ridícula de guerreiro com arma levantada que você sempre adora. Porque você fez aquela pose? — Ela completou.
– Eu realmente não sei de que pose você está falando. Sem brincadeira. — Respondi. Agora também estava curioso, nunca fiz essas poses doidas, nem com meus amigos, nem sozinho. — Sem querer te irritar, e pra me ajudar, você pode — Limpei a garganta. — fazer — De novo. Tô com um medo de falar isso. — a pose que eu fiz?
– O que? Porque eu faria? — Ok, isso é um não.
– Pra eu saber que pode é essa que eu fiz e não sei. — Tentei apelar.
– Bom, ok. -... Deu certo... — Foi assim.
Ela fez uma pose igual a que ela tinha falado antes. Mas as pernas eram mais abertas um pouco, então não era certinho de um guerreiro de luta. Na minha opinião, era algo como um feitiço, isso sim. Alguém lançando algo de ajuda, tipo um efeito.
Ela parou de fazer a pose e começou a me olhar, como se esperando uma resposta.
– Então. — Ela falou, como pra me forçar a continuar. — O que era aquilo?
– Calma, tô pensando.
– Filipe, não tente me irritar mais...
– Pera, eu acho que já vi isso antes.
– Você acha que viu? Você fez agora há pouco! No meio do seu quarto! — Ela gritou.
– Sim, sim, mas... Pera ai. — Falei. — Acho que eu sei de onde é. Eu já volto.
– Filipe, nem se atreva.
– Calma, mãe, é sério, eu já volto.
Subi correndo as escadas. Achei a carta Velocidade posta sobre a mesa. Peguei e corri de volta.
– Olha aqui, parecia com isso?
Ela pegou a carta, olhou o verso com cuidado.
– Sim, era isso. Que jogo do demônio você achou agora? — Ela falou.
– Não é do demônio, mãe. — Falei rindo um pouco agora. O clima certamente tinha se aliviado. — Eu achei essa carta lá na loja que eu te falei antes. Sabe aquela com os itens de colecionador, que a gente foi comprar uns pratos chineses? Foi lá que eu achei.
– Mas é sobre o que isso? Não é igual a Yu-ji-ó, é? — Ela falou com o rosto contorcido em desaprovação.
– Yu-gi-oh, mãe, com o "gui" e "ou". — A veia, que tinha parado de pulsar, deu um sinal de vida. — E não sei. Eu só achei duas cartas.
– Certo, certo, próxima pergunta.
– Tem mais?
– Certamente tem. Quando você foi lá?
– Hoje de manhã. Eu sempre passo lá antes da aula. — Ela olhou pra mim como se estivesse irada. — Não me atrapalha nos estudos, se você acha isso, porque eu saio mais cedo de casa pra ir lá. — Ela já me olhou mais aliviada.
– Vou te deixar ir agora, senhor Filipe. — Vixi, nunca é bom quando eu sou senhor. — Mas tá de condicional. Quero saber todos os seus movimentos fora daqui quando você sair, me ouviu bem?
– Certo, mãe. Posso ir arrumar meu quarto? — Não era algo que eu realmente queria fazer, mas eu tentei ganhar alguns pontos de bom filho.
– Vá, e deixe melhor do que estava antes.
Comecei a subir as escadas, revendo a conversa, principalmente nos pontos que não me lembro. Segurava Velocidade na minha mão ainda. Ela tinha desaparecido sem deixar rastros nenhum, e apareceu logo depois, quando fiz uma pose? Igual a que estava no seu verso... Isso foi coincidência? Já sei, logo após terminar de arrumar o quarto tentarei recriar a situação.
Passado meia hora de arrumação, mover coisas pro lugar certo, terminei tudo. Impecável, quase brilhando, tudo parecia que não tinha presenciado o furacão Filipe. Agora, já deitado de novo na cama, peguei Velocidade de novo. Fiz exatamente igual a antes. Olhei a frente, li a descrição, olhei o verso, vi a pose de novo, virei, olhei o símbolo, aproximei a carta de novo. Aconteceu. A carta sumiu de novo. O desespero bateu de novo, e a ideia de jogar tudo pra cima quase entrou em prática, até que me lembrei de como tinha corrido da outra vez.
Mudei a estratégia. Primeiro, quando ela tinha sumido, na hora de levantar, eu bati na porta. Vamos tentar alguma coisa pra ver o que acontece. Um salto pro lado, bem simples. Me preparei, ficando calmamente em pé no quarto, e dessa vez iria em direção à parede, pra não fazer barulho. Dei um leve e rápido salto pra direita. Diferente dos outros pulos, que me deixavam bem perto da parede, esse me fez bater de ombro nela. E forte. Doeu, não muito, mas doeu. Ok, eu mudei.
– A carta. Só pode ser. Ela ativou o efeito em mim...
– Filipe, falou alguma coisa? — Minha mãe falou. Parece que ela tinha passado perto da porta do meu quarto.
– Não, nada não, mãe. — Menti.
Deu certo, porque houve silêncio em resposta. O que eu faço agora pra ela voltar pra mim? Na hora que percebi que ela tinha voltado eu estava arrumando o colchão. Pense, pense, o que aconteceu... Eu tinha me lembrado dela mentalmente, e lembrei de quando sumiu, depois pensei em tê-la de volta. Deve ser isso. Bem, não custa tentar.
Fechei os olhos e imaginei. Ela estava na minha mão, completa, como se nunca tivesse saído. Olhei pra minha mão, e ela não estava lá. Vamos, mais forte, concentração. Ela. Eu quero ela. Venha na minha mão. Olhei de novo.
Ela estava na minha mão. Esse era o truque. Ela funciona de verdade. Velocidade estava comigo de novo. Assim que eu ativo. E ela funciona. Eu tenho Velocidade. Espera, eu tenho Dimensão alternativa também. Corri pra pegar Dimensão alternativa. Observei atentamente a tudo. Sua descrição, no mesmo estilo da Velocidade, dizia sobre uma dimensão aonde as coisas iriam. Isso eu tinha que testar. Seu símbolo era o mais legal. Mostrava um olho branco, que foi criado por sobreposição de duas elipses negras, num fundo branco.
Atrás, como eu já tinha visto, tinha um olho com um plano dentro. Me faz pensar que é uma ilusão que só é vista por quem a chamou ou algo assim. Acho que ela só funciona comigo. Aproximei a carta de meu rosto, esperando ela sumir também. Mas não deu certo. Tentei de muitos modos, mas ela não ativou. Colei ela na testa, nada. Cobri o olho com a carta, virei, chamei seu nome baixo, mas nada deu certo. Coloquei ela em cima do coração. Isso sim funcionou, pois ela sumiu da minha mão. Agora, como faço pra chamar? Vai funcionar do mesmo jeito? Vamos tentar.
Concentre-se. Dimensão alternativa está na minha mão. Ela está. Ela está. Olhei pra minha mão. Olha ela aí, funcionou do mesmo jeito pra chamar de volta. Agora vamos começar os testes. Pus a carta perto do meu coração de novo, e ela sumiu. Até aí tudo bem. Ela diz que eu posso fazer do modo que eu quiser, então vou fazer igual ao Obito. Fã de Naruto dá nisso. Ok, o que eu mando? Procurei, até ver uma caneta em cima da minha mesa. É ela. Me concentrei em mandá-la pra lá. Abri um olho e foquei. Ela sumiu. Deu certo. Agora vou trazê-la. Pensa nela e volte agora. Como esperado, ela voltou. Quase dei um grito de alegria. Tirei a carta e saí correndo pra tomar um banho. Banho mais rápido da minha vida. Voei pra trocar de roupa e desci a escada correndo.
– Indo onde voando baixo desse jeito? — Minha mãe gritou da cozinha.
– Vou à loja rapidinho, já volto.
– Volta logo.
– Vou tentar.
Dizendo isso comecei a caminhada pra loja do senhor Burlin.
Notas finais
~Momento "Putz, que coisa sem graça, cara."~
Até o próximo.
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