Dentro da caixa estava uma carta amarelada, certamente era antiga, mas sem dúvida não fazia parte da coleção. Era algo muito parecido, mas não, sem dúvida não era. Não tinha o verso parecido com as outras, nem tinha a descrição, nem nada. Recuperado do choque, comecei a pensar no que iria dizer.

– Então, garoto, é uma das que você queria? — Ele me perguntou.

– É… quase… — Eu comecei.

– Responda garoto, é ou não? — Ele falou.

– Bem… Não é não, senhor Burlin. — Falei.

– Oh, certo, uma pena então. — Ele respondeu. — Melhor sorte na próxima.

– Desculpa, senhor Burlin. Sinto muito não ser. — Eu falei.

– Não é algo pra se desculpar, pequeno homem, tampouco para sentir pena. Você que queria a carta. — Esqueci das leves alfinetadas dele. — Bom, eu terei que sair agora, mas sinta-se à vontade na loja. Vamos indo. — Ele falou logo se levantando e me guiando ao elevador.

Entrei no elevador em silêncio, acompanhando senhor Burlin até a entrada da loja, onde ele entrou em um luxuoso carro e partiu, saindo de minha visão. Sendo ainda tecnicamente horário letivo, resolvi voltar para a escola. Cheguei a tempo do intervalo, então nem parecia que havia saído. Entrando na escola, me dirigi ao refeitório para beber água, porque vir caminhando foi mais cansativo do que correr a toda. Bebi umas boas goladas e segui meu caminho para a sala.

Entrando lá, vi Amanda sentada em sua mesa, lendo um livro. Cheguei e me sentei na minha cadeira, como se nunca tivesse saído. Eu achei a minha nota no mesmo lugar que havia deixado, em cima da minha mesa debaixo da bolsa. Achei que não tinha nem sido vista, mas minha opinião mudou quando meu braço recebeu um bom e mirado golpe do livro de História de Amanda.

– Ei, bate não, ai. — Eu meio que respondi. Foi o máximo que consegui sem mudar muito a voz. — Pra que fez isso?

– Como você sai sem avisar ninguém? — Ela começou. — Saiu no primeiro tempo e voltou só agora?

– Eu deixei um bilhete aqui, vocês não viram? — Eu falei, parando de massagear o braço e apontando pra ela, depois voltando a massagear.

– Nós vimos, mas porque você saiu? Você não explicou. — Ela continuava, segurando o livro com toda força na mão.

– Eu tive que sair, uma mensagem importante, e solta esse livro, por favor. — Eu falei rapidamente.

– Não enquanto eu não ter minhas respostas. — Ela ameaçou, e fiquei como medo. — Primeiro, porque não falou pessoalmente com a gente? — Ela começou, apontando o livro na minha direção.

– Estávamos no meio da aula, lembra? — Falei, e recebi um livro no outro braço. — Ai.

– Sem gracinhas. Onde você foi? — Ela já tinha preparado o livro pra bater de novo.

– Ok, ok, eu fui na loja do senhor Burlin. A mensagem era dele. — Eu falei, e ela abaixou o livro.

– O que ele queria logo de manhã? — Ela falou, aparentemente mais calma.

– Era sobre uma carta que… — Não deu pra concluir, porque o livro agora invadia minha barriga. — Uau, essa doeu. — Tentei falar, me curvando no chão.

– Apareceu uma carta e você não contou pra gente? — O sinal tocou, me salvando de um livro triturando minhas costas. Ela se distraiu e logo rolei pra longe, ficando três cadeiras de distância. Ela ameaçava jogar o livro na minha cabeça, mas foi impedida por outro barulho alto. Era Will caindo de novo por me ver, dessa vez ele caiu pra trás. Se não fosse o professor chegar logo após Will eu teria visto muitas estrelas. Ele simplesmente desviou de Will estirado no chão e prosseguiu para sua mesa. Amanda sentou-se de novo em seu lugar, Will se recompôs, e se sentou na sua cadeira. Eu, ainda tenso e com medo de Amanda, me sentei na minha cadeira, sem tirar o olho dela.

– Onde você foi? — Will se inclinava para me perguntar.

– Na loja do senhor Burlin. — Respondi baixinho, me virando. — Ele pensou que tinha outra carta, mas não tinha. — Falei rápido pra reação dele ser eufórica e logo acabar. — Te conto mais depois.

Cometi o erro de me virar pro lado esquerdo, logo, perdi contato visual de Amanda. Foi um erro porque no segundo que terminei de falar ela bateu o maldito livro de História na minha cabeça. Esfreguei minha cabeça gemendo baixo, quando o professor interveio, mas não do jeito legal.

– Amanda, por favor, deixe o livro de lado. Terminem a briga do casal na saída. — Ele falou em tom desinteressado.

Eu fiquei levemente vermelho de vergonha, mas Amanda estava vermelha de raiva mesmo. Me aquietei, sem tirar o olho dela de novo. Ela agora parecia mais focada na aula, mas de vez em quando dava uma olhada torta na minha direção. A aula passou muito devagar. O conteúdo foi legal, sobre os gregos. Sempre é fascinante, mas quando se tem uma ameaça do seu lado fica difícil de prestar atenção na aula. Depois de finalizada as atividades da aula, o professor nos passou um simples trabalho sobre as contribuições dos gregos para a sociedade e nos liberou para ir pra casa.

Tentei sair rapidamente da sala, mas Will rapidamente me seguiu, logo perguntando.

– Onde você foi hoje?

– Saí pra loja do senhor Burlin. — Respondi. — Tinha te falado isso antes.

– Sim, também falou sobre uma possível carta. — Ele continuou. — Me explica isso.

– Sim, foi um trato que fiz com o senhor Burlin. Pedi pra ele me avisar se por acaso visse uma carta parecida. Ele me mandou uma mensagem avisando que talvez tivesse achado uma, então eu saí… — E o ar acabou. E a dor começou, porque mais uma vez descuidei e levei outro livro na barriga.

– E deixou todos preocupados. — Amanda respondeu forçando os dentes. — Você não irá mais fazer isso. — Ela ordenou.

– Ok, não faço mais isso. -Resmunguei. — Se soubesse que ia levar tantos livros no corpo nem teria ido. — Me ergui de novo. — Enfim, eu fui ver sobre essa carta, mas ela não parecia ser. Não tinha nada igual às outras e nem parecia ter poder nela.

– Entendo. — Disse Will. — Uma pena isso, sobre a carta não ser uma delas. — Ele falou sem ânimo.

– Que cartas? — Disse Diego, se aproximando de mim.

– Ah, nada não. — Menti. — Estava falando sobre umas cartas que iria comprar. Nada de mais.

– Mentira, mas eu deixo passar por causa de você. — Ele responder, se dirigindo a Amanda.

– Diego, não tente. — Falei. — Ela já está irri… — Nem deu tempo de terminar o que dizia, porque Diego já estava de cara no chão. A História hoje estava acertando todos, pelo menos os que cruzarem Amanda.

– Não perdoei você ainda, Filipe. — Ela falou, ainda com a boca serrilhada. — Agora vamos, sua mãe está nos esperando.

– Vamos, porque eu… Pera ai, que história é essa? — E minha cabeça de novo doía. Entendi a história que era. — Ok, mas ponha seu livro na bolsa.

Falando isso, ela guardou, muito contrariada, o livro na sua bolsa. Seguimos para minha casa, deixando Diego inconsciente para trás. Deixamos a escola e seguimos para minha casa. Caminhamos num silêncio desconfortante até chegarmos ao local onde ficava a loja do senhor Burlin. Amanda não havia percebido até que Will notou a loja.

– Filipe, não é essa a loja do senhor… Merlin? — Ele perguntou para mim.

– Senhor Burlin, e sim, era aqui. — Respondi.

– Como assim era aqui? Você não veio aqui hoje de manhã? — Ele continuou. Amanda agora tinha se aproximado e prestado mais atenção.

– Na verdade… essa loja aqui fechou… — Respondi.

– E onde você foi? — Amanda agora me perguntava.

– Na loja nova, lá no centro. — Respondia tudo com muito cuidado, mais por medo do que de costume.

– E onde fica essa loja? — Amanda perguntou usando toda a entonação possível em cada palavra.

– Muito muito longe. Perto da praça… — Falei, esperando uma resposta negativa de Amanda. Mas quem me acertou mesmo foi Will.

– Porque você usou Velocidade assim, abertamente? — Ele falou. — Alguém poderia ter te visto.

– Não entendo, como você sabe que ele usou Velocidade? — Amanda perguntou.

– Daqui até o parque do centro é no mínimo meia hora, isso correndo desesperado e de carro. Ele ficou quarenta minutos fora, então é óbvio que tinha que ter usado Velocidade.

– É, tá certo, mas ninguém me viu. — Respondi sem graça. — Esqueçam isso, não importa mais.

Eles resolveram parar e continuaram andando, ficando um clima ainda mais estranho. Chegamos em casa e fomos diretamente pra cozinha. Minha mãe ficou feliz de ter eles ali novamente, e fez um simples banquete de mãe. Comemos rapidamente e subimos para meu quarto.

– Então, porque estamos aqui de novo? — Eu perguntei logo.

– Além do trabalho? — Amanda começou. Dessa vez eu pude desviar, pois ela arremessou o livro na minha direção. — Porque saiu sem nos avisar?

– Mas de novo isso? — Eu falei. — Tive que ir na loja do senhor Burlin. O que foi errado nisso?

– Da próxima você tem que levar a gente. — Will disse. Ele não hesitava nisso.

– Ok, mas não nas aulas de História. — Falei, entregando o livro de volta pra ela. — Amanda fica com uma arma poderosa demais pra mim. — Conclui sorrindo.

Amanda riu levemente de escárnio, enquanto Will deitou no chão pra rir.

– Falando sério agora, quais os planos para o trabalho? O professor deixou fazer no máximo uma dupla. — Amanda falou.

– Bom, Will tem a carta dele. — Falei, tentando fazê-lo entender. — Por falar nisso você não está exagerando no uso dela, não é?

– Estou usando direto, sim. — Ele falou, e Amanda logo deu uma olhada pra ele. — Mas não como antes. Estou segurando um pouco. — Ele olhou pra mim e semicerrou os olhos. — O que está insinuando, Filipe?

– Isso mesmo que sua carta pensou, cabeção. — Falei. — Você não terá problemas com o conteúdo, não é?

– Não. Não terei. Mas e você fará dupla com…

– Sim, farei. — Respondi, o cortando rapidamente.

– Ahhhhhhhhhhhh, entendi. — Ele falou, puxando bastante o Ahh. Puxando até demais.

– Não é por isso. É só a melhor solução. — Falei, corando de leve.

– Acabou a conversa entre vocês dois? — Amanda falou. — Podem agora contar pra mim o que significa isso?

– É só que o Filipe disse que faria dupla com você porque eu tenho minha carta. — Will explicou.

– Desculpa Filipe, mas eu meio que já fiz dupla com a Rita. — Amanda falou, virando o rosto de leve.

– Quando? — Falei, demostrando o fato de estar impressionado.

– Hoje, depois que você tinha ido na frente e Will te seguiu, Rita veio e pediu pra ser minha parceira.

– Mas e quanto a nós? — Eu reclamei.

– Nós? — Will respondeu. — Desculpa, Filipe, mas eu tenho minha carta. — Ele falou usando um tom de gozação.

– Certo… — Concluí.

Depois dessa conversa o clima ficou mais calmo, e nós já ríamos de alguma coisa que alguém falava de vez em quando. Will saiu mais cedo, perto das quatro. Ele disse que tinha que chegar em casa pra se preparar para o final de semana. Quando ficamos eu e Amanda sozinhos de novo, decidi falar com ela sobre Transformação.

– Amanda. Eu quero ver a sua carta.

Amanda hesitou.

– Eu não te mostrei ainda? — Ela falou, como se quisesse mudar o assunto. — Acho que já mostrei.

– Não, não mostrou ainda. — Falei firmemente. — Ela está com você?

– Ehh… — Ela esticou. — Não, ela está em casa.

– Não minta.

– Não estou mentindo. — A voz dela ficou mais aguda. Peguei.

– Amanda, me diga sobre a carta. — Falei.

– Não posso. — Ela disse. — Se eu te mostrar provavelmente você jamais vai querer me ver. — A voz dela ficou levemente embargada.

– Qual o problema de me mostrar a carta? — Continuei.

– Eu… — Ela começou. — Eu estou usando ela agora.

Não entendi muito, mas pode ser como Dimensão alternativa. Uma carta que pode ficar ativada e não usada. Mas porque ela não poderia tirar para eu ver?

– Espera aí, você tá usando ela agora? – Concluí.

– Sim, estou. – Amanda falou depois de alguns segundos.

– Ativa? – Continuei.

– ... Sim. – Ela falou, abaixando a cabeça.

– Por quê? – Perguntei.

– Por que... Por que... – Ela falou, se sentando na cama ainda com a cabeça abaixada. – Porque eu preciso.

Depois de pensar um pouco eu finalmente entendi o que ela quis dizer. Ela não podia me mostrar Transformação porque ela estava usando o efeito agora mesmo.

Notas finais
E chega por enquanto. Uau, tudo isso em um dia foi muito.