Já se fazia algum tempo desde que Ravio começara a usar a entrada secreta do castelo para se encontrar com a sua amiga, a princesa. Para não serem pegos pelos guardas, os amigos geralmente ficavam em uma área secreta do castelo, o único lugar de toda a moradia da menina que não havia nenhum soldado ou guarda.

Com todos os seus esforços, a princesa tentava ao máximo impedir que o guarda de maior confiança de seu pai, e mais violento, descobrisse que o intruso havia se tornado o melhor amigo da menina. -E então?

–Terminei! -A princesa pós a agulha com linha no chão, segurando duas coroas feitas de flores e folhas mortas. -Bem, claramente elas possuem uma beleza interior. Uma beleza bem interior.

–Não é a sua culpa pela qual as folhas são murchas, Hilda. -Juntamente ao garoto, estava um pássaro pequeno com asas turquesa e penas do resto do corpo brancas. Assim como a menina, os olhos do pássaro eram vermelhos. -Sheerow também concorda comigo.

–É verdade.

–Essas coroas ficaram legais, você é boa nisso, princesa! –Hilda sorriu.

–Obrigada, Ravio. A propósito, você não comentou comigo onde arranjou esse animalzinho de estimação.

–Bem, eu estava caminhando pela floresta, sem nenhum rumo aparente. Durante a minha caminhada, eu vi alguns moblins maltratando uma criaturinha, daí em um ato de coragem eu corri até eles e disse “ei, batam em alguém do seu tamanho!”. Eu não tinha notado que eles eram do meu tamanho, e depois que terminamos a briga, eu resgatei esse passarinho. –Hilda sempre estranhou a maneira que ele contava suas histórias, já que as narrações do menino lhe tratavam como um cavalheiro corajoso. –Mas voltando ao assunto das coroas...

–Sim, claro. Pegue essa com mais folhas do que flores, eu a fiz para você. –Ravio colocou o acessório na cabeça. –Ficou bom, mas está faltando uma coisa...

–Mesmo? Não parece que isso é verdade.

A princesa pegou duas folhas maiores e colocou na parte frontal da coroa dele. –Agora sim, ficou perfeito. Você ficou parecido com um de verdade!

–“Um de verdade”... ?

–Um coelho! –Ravio arregalou os olhos e ficou com bochechas vermelhas. –Seus dentes me lembram os de um coelho. Bem, isso não é problema, se você não sabe, eu adoro coelhos. –O menino ficou mais envergonhado ainda.

–Obrigado, princesa...

–Gostou do seu novo apelido?

–Sim, princesa...

Um dos únicos momentos em que os guardas da parte interior do castelo não ficavam em suas devidas posições para cuidar do lado externo era no pôr-do-sol, com isso o menino sempre ia para o castelo nesse período. Uma das coisas que ele mais gostava de fazer, assim como a princesa, era de ver o céu estrelado todas as noites. No caso de Hilda, todas as noites ela fazia competições consigo mesma para achar alguma constelação no céu o mais rápido possível. –Olhe para o céu, Ravio.

–Já estou vendo faz tempo.

–Aquelas três estrelas mais brilhantes não se parecem com a nossa antiga relíquia sagrada? –Ele concordou com a cabeça.

–Você já teve vontade de saber como seria se a relíquia retornasse?

–Todos os dias, apesar de que não demonstro isso.

–Como é a sensação?

A princesa pensou um pouco na resposta. –Tudo seria melhor e diferente. A insatisfação do povo de coisas que aconteceram séculos atrás devido aos meus antepassados diminuiria. Nós teríamos um novo estilo de vida, um muito melhor. Como você pensa?

–Que não precisamos de uma relíquia.

–Ravio, a relíquia sagrada é tudo que precisamos.

–Mas pense bem nisso; você tem onze anos, e eu sou um pouco mais velho. Você já está acostumada a não ter esse bem sagrado, assim como todos os habitantes do reino. Todos nós nos desacostumaríamos se ela retornasse, assim como você disse, tendo um novo estilo de vida que alguns provavelmente não se adaptarão.

–Mas e se não tivermos uma relíquia, o que teremos?

–Uns aos outros! –Ele disse, em seguida. A princesa ficou envergonhada, assim como o seu amigo ficou um pouco antes.

–“Uns aos outros?”

–Quero dizer... Eu... Nós... Esquece o que eu disse, você provavelmente entendeu essa coisa que eu disse. –Sheerow piou, como se estivesse tentando falar alguma coisa. –Tipo, nós podemos continuar com o que já estamos acostumados. E eu não sei você, mas eu quero continuar assim.

Hilda não conseguia falar nenhuma palavra. As bochechas dela ficaram mais vermelhas do que antes. –Desculpe princesa, eu não sei por que eu disse isso.

–Não, não. –Ela encostou a cabeça no ombro do amigo. –Talvez você esteja certo. –Apesar de tudo, uma parte da opinião dela não seria rejeitada apenas com o comentário do amigo. Mesmo com ela sabendo que isso era algo impossível, sonhar não custa nada.

Os dois conversaram sobre mais algumas coisas depois do momento de constrangimento do menino. Vendo a lua cheia estampada no céu, sendo o astro principal da noite, Ravio pegou o pássaro nas mãos. –Acho que é melhor eu ir indo, princesa.

–Tudo bem, eu te acompanho até a entrada. –Os dois caminharam sorrateiramente até a entrada secreta, apenas para precaução. –Amanhã você voltará, não é?

–Sim, eu prometo princesa.

–Ravio, quantas vezes eu lhe pedi para me chamar apenas de Hilda?

–Tudo bem, tudo bem. Sim, eu prometo Hilda. –A princesa deu outro sorriso. Ela encobriu o amigo para não ser visto caso algum guarda passasse por lá, até que uma voz grossa gritou para o pequeno intruso e para a princesa.

Finalmente eu encontrei você, seu desgraçado! –A única pessoa que não seria bom se descobrisse o segredo da menina surpreendeu-a. Agarrando forte o menino pelo braço antes mesmo que ele escapasse, o guarda ruivo e de cicatriz no rosto fez uma cara feia para a menina.

–Dinis, por favor, largue-o!

–Sua Majestade sabia que ele vem vindo para o castelo escondido? Não sei há quanto tempo o rei me pediu para procurar essa peste, e agora eu finalmente eu cumpri a ordem de outra sua majestade.

–Ele é o meu amigo! Por favor! –Ravio reclamava para a menina de dor. –Deixe-o em paz!

–Seu pai já não lhe disse para não fazer amizade com meros plebeus?! Isso é inaceitável! Não podes ter amizade com essa peste, você é uma princesa.

–Eu não vou me separar da minha amiga só por que sua majestade acha que é o melhor para fazer! –O menino nunca pensava para falar algo. –Deve ter uma maneira de eu continuar sendo amigo dela, e eu vou segui-la!

–Ravio, se você é realmente meu amigo, você não pode seguir essa maneira! Você vai se arrepender, não faça isso! –Ele continuou determinado. O guarda soltou o braço dele, fazendo um sorriso amedrontador mostrando seus dentes tortos.

–É o seu dia de sorte então, peste. –O guarda pegou o cachecol azul que ele usava e começou o puxar para algum lugar do castelo. –A princesa está mesmo precisando de algum vassalo.