A verdadeira história de Lorule
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Um quarto minúsculo, escuro e sujo. Mal se parecia com um cômodo, e sim com uma jaula. Teias de aranha nos cantos da parede, poeira acumulada no chão, e uma única colcha velha e remendada ao chão.
Todas as madrugadas, antes do sol aparecer, o pássaro do vassalo o acordava para começar o seu longo dia de trabalho. A princesa nunca precisou ter alguém de seu lado para protegê-la, e sempre pensava na possibilidade de arrependimento de seu amigo pela terrível escolha. –Vai, seu imprestável. A princesa está te esperando. –A mesma rotina, todos os dias, há alguns anos.
–Já vou, já vou. –Apesar de tudo, o trabalho não era algo de se reclamar muito. A única função de Ravio era de acompanhar a princesa em alguns lugares, ou dar-lhe chá quando fosse requisitado. –Tenha um pouco de calma, Dinis. Deixe de ser nervoso.
–Você está me desafiando, sua peste? Não me chame de Dinis, seu rato. –Geralmente o guarda levava consigo uma maça, que era uma arma na qual ele utilizava para ferir o vassalo quando ele o desafiava ou algo de diferente acontecia. –Não quer ficar com o outro lado de sua boca estourada por causa dessa arma, não é?
O vassalo colocou seu cachecol em uma altura a ponto de cobrir o lábio cheio de sangue. Ravio pegou o pássaro nas mãos e o colocou no ombro. As roupas antigas do vassalo eram algo deplorável, não era sem motivo que a princesa geralmente costurava roupas para ele utilizar. O único acessório que ele nunca abriu mão foi o cachecol azul, que segundo ele, tinha desde que era pequeno, mesmo sem lembrar-se de quem o ganhou.
Todas as vezes que o vassalo andava pelo castelo até o terceiro andar, onde se localizava o quarto de Hilda, ele notava que o castelo era um lugar solitário. As cortinas das janelas sempre estavam fechadas, ficando sem muita claridade no vasto corredor com um único tapete longo negro, sem contar que nenhuma pessoa andava pelo castelo além dos guardas. O tamanho e todas as características da moradia da família real eram totalmente opostos às da casa pequena e simples que morava antigamente.
–Princesa? –Ravio bateu na porta do cômodo com uma mão, enquanto na outra segurava uma pequena bandeja com uma xícara de chá.
–Ah, bom dia Ravio. –Hilda abriu a porta com um sorriso forçado no rosto. –Por favor, entre. –O quarto da princesa permaneceu praticamente intacto desde a infância, sem muitas mudanças. O mais intrigante para o vassalo era a segunda cama que existia no quarto, cuja princesa arrumava todos os dias. –Por favor, deixe essa xícara naquela mesa.
De todos os quadros que tinham nas paredes do quarto, desde pinturas feitas pela princesa até retratos feitos por renomados artistas do reino, uma pequena tela com a pintura de um menino parecido com a princesa. –Princesa, seria de muita ignorância se lhe perguntasse quem é esse menino? –Com o passar dos anos e o convívio com a princesa fez o vocabulário do vassalo melhorar profundamente.
–Bem, nunca contei isso para ninguém antes. Esse é Quírio, alguém que era e continua sendo de muita importância para mim. –Hilda iria falando enquanto tomava o chá. –Mesmo que eu não o vejo há anos...
–Mesmo?
–Sim. Você não deve ter ideia de como é difícil continuar sua vida sem a companhia do irmão. –Ravio arregalou os olhos.
–Sinto muito, princesa. Não sabia dessa história...
–Não há do que sentir muito, ele está bem. Eu tenho certeza que nada de ruim aconteceu com ele. –O vassalo fez um olhar duvidoso, mas não disse nada para não tirar as esperanças da amiga. –Por que você está com o cachecol até os lábios?
–Por... Por nada, princesa! –Ele tentou impedi-la de tirar. A princesa encarou o lábio cheio de sangue do amigo por alguns segundos. De todos os hematomas que ele recebeu, por exemplo, olhos roxos, ela achava que aquela ferida era a gota d’água.
–Foi o Dinis que fez isso com você, não foi? –O vassalo concordou timidamente com a cabeça. –Por que ele faz isso com você? Eu não consigo entender o sentido disso, já se faz tantos anos que você vem ficar ao meu lado com algum hematoma. Isso não é necessário...
–Não se preocupe com isso, princesa. –Hilda pegou um tecido branco e limpou o sangue da boca dele. –Não é necessário fazer isso.
–Por favor, eu ínsito. –Aquele silêncio constrangedor. –Ravio... Do que você sente falta? Quero dizer, antes de você virar o meu... Você sabe.
–Eu não sei... Talvez da simplicidade da minha casa... De quando eu construía itens com o meu pai... Eu era jovem quando vim para o castelo, não me lembro de muitas coisas que fazia.
–E você acha que tudo isso foi uma péssima escolha? –Aquela pergunta era complicada. Ela não tinha uma resposta fixa na cabeça do vassalo.
–Bem... Eu não sei... Desculpe-me, princesa.
–Tudo bem. Apenas me deixe continuar a limpar esse lábio. –Todas as vezes que a princesa aproximava seu rosto no do vassalo o deixava com bochechas vermelhas. –Às vezes, Dinis é um pouco violento...
–“Às vezes?!” –Ravio era a única pessoa que conseguia fazer a princesa rir quando ela estava aflita ou nervosa.
–Tudo bem, tudo bem, coelho. –Ela riu. –Sempre.
Enquanto os dois conversavam, a porta do quarto da princesa foi aberta pelo próprio guarda ruivo, que com raiva do vassalo de ao invés de estar fazendo o trabalho dele estar conversando com a princesa, segurava a maça fortemente. –O que você está fazendo conversando, seu imprestável?! –Dinis pegou o vassalo pelo pescoço. –Você tem que fazer seu trabalho, não ficar conversando como se tivesse todo o tempo do mundo!
–Dinis, solta ele!
–Majestade, desculpe-me pela má educação, mas não se intrometa nisso! –Com apenas um golpe, ele bateu com a arma no nariz cheio de sardas do vassalo, fazendo a princesa ser obrigada a ver o sangue do amigo saindo pelas narinas.
–Dinis, isso é uma ordem! Eu sou a princesa e você é um guarda, nada mais do que isso! Eu não me importo se é de maior confiança de meu pai, ou se ele lhe obriga fazer tudo isso com o Ravio, mas eu ainda tenho um grande poder político! –Ela acudiu o amigo, limpando novamente o sangue no rosto dele. –Ravio, eu não agüento mais te ver sofrer por tantos anos. A partir de hoje, você não é mais meu vassalo. Digamos que é mais um convidado de honra da família real, e você pode voltar quando quiser para me ver em uma visita.
–... Mesmo... ?! –Ele disse atordoado, e com um sorriso no rosto.
–Sim. –O guarda ficou indignado ao ver a princesa abraçando o amigo que estava feliz em finalmente voltar para casa e ser tratado como alguém de verdade não apenas por uma pessoa. –Você pode voltar quando quiser, não serás preso ou impedido. Isso é uma ordem para todos os guardas.
–Obrigada, princesa. Obrigada...! –Ele fez um sorriso que ia de uma orelha à outra.
–Não há de que, coelho.
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