A verdadeira alma gêmea
10 Minha Vida Virou Uma Novela
— Muito bem, muito bem. Agora eu preciso mesmo que vocês vão, não quero assustar o pobrezinho. – Ela ria tentando dispersar a multidão.
— Com licença, Linda? – chamei conseguindo finalmente me aproximar.
— Sim? Você quer um autógrafo? – ela respondeu com um sorriso enorme.
Linda Halley estava falando comigo e eu não queria surtar como uma fã enlouquecida. Uma fã enlouquecida que precisava do uniforme do trabalho, que estava dentro da casa que ela ainda estava bloqueando.
— Não obrigada, quer dizer, sim eu adoraria, eu sou muito sua fã e aquele dia no teste talvez você nem se lembre de mim, mas eu nem tive tempo e não havia papel e nem um telefone para tirarmos uma foto. – Okay, eu estava perdendo o foco, obriguei meu cérebro a voltar para a terra. – Mas na verdade, eu gostaria de passar, essa é a minha casa e você está impedindo a minha entrada – continuei, quase pedindo desculpas por querer entrar na minha própria casa.
— Ah, você mora aqui? Perdão pela bagunça, é que eu sou tão popular. Quando eu disse a todos quando acordei que encontraria minha alma gêmea, sabe como é a confusão se formou, já pedi eles para irem, mas eles não me deixam – continuou ela, sorrindo.
Isso estava fora de controle, as pessoas não podiam ficar na porta da minha casa assim, eu nem sabia se meus pais e Pietro haviam conseguido sair para trabalhar. Um vem muito tarde a outra muito cedo, pessoas famosas não tem relógio? M.A.I.A. não conseguia me ouvir com tanta gente falando e não conseguia abrir o portão, tive que abrir a mão, meu pai insistia em manter a fechadura com cartão e digital, ele sempre dizia que a M.A.I.A. podia não funcionar direito, ele estava certo. Abri e saí puxando Linda comigo, ela reclamou um pouco e só depois que estávamos dentro que pensei na minha atitude, eu acabara de ser completamente grossa com a Linda. Dentro de casa embora não houvesse nenhum tipo de isolamento que bloqueasse o som lá de fora, por hora vai ter que servir.
Encontrei minha família na sala, exceto Magnólia que ainda dormia. Todos estavam confusos e assustados, pelo menos já estavam arrumados, eles levantaram sabe-se lá a que horas para se arrumarem e não atrasarem, mas pelo visto não ia adiantar nada, todo mundo ia se atrasar do mesmo jeito.
— O que está acontecendo aí fora? – meu pai perguntou correndo para a janela mais próxima e olhando pelas cortinas antes de fechá-las novamente.
— Por que tem um monte de gente na nossa porta? Querida, isso tem algo a ver com você? – minha mãe perguntou preocupada. – Afinal Astro é famoso e rico, as notícias voam.
— Mãe, não acho que seja a Luazinha, acho que tem mais a ver com ela – comentou Pietro casualmente, sendo o primeiro a notar a presença de Linda na nossa casa.
— Seja como for, estamos atrasados e ...ai meu Deus, é Linda Halley? – meu pai comentou perdendo o raciocínio.
Linda Halley se aproximou e cumprimentou meu pai com um aperto de mão firme, abraçou minha mãe e Pietro.
— Eu sinto muito pela bagunça lá fora, eu não pude evitar. Será que podemos sentar? Precisamos conversar – ela disse de forma comedida, bem diferente de quando estávamos em público.
A situação era muito surreal, nós todos precisávamos sair para o trabalho, mas as pessoas lá fora ainda esperavam por Linda, meu pai decidiu sair mesmo assim, mas minha mãe avisou no trabalho que não poderia ir, ela inventou que estava doente e eu fiz o mesmo com a loja, Pietro não precisava se justificar, papai daria a desculpa por ele, mas se os dois faltassem seria muito suspeito, mas garantimos contar tudo para ele depois
— Então, senhora? – começou Linda, olhando para a minha mãe.
— Reis, Márcia Reis. O que podemos fazer pela senhorita? – minha mãe perguntou a ela ainda tonta pela situação.
— Bom, não sei se vocês sabem, mas eu dei uma pausa na minha carreira para procurar a minha alma gêmea. Mas minha agência não quer que eu fique parada muito tempo, não é bom. E para falar a verdade eu amo o que eu faço, então assim que pude, gastei um pouco de dinheiro e comprei algumas pistas a mais, consegui o nome e o endereço do seu filho e então... – começou Linda a se explicar mexendo as mãos, eu realmente estava vendo Linda Halley ficando nervosa?
— Então a senhorita quer dizer que a alma gêmea do meu filho, do meu Pietro, é uma celebridade superfamosa? – ela perguntou incrédula.
Eu entendo a surpresa da minha mãe, o sistema não costumava combinar pessoas tão diferentes assim, acontecer uma vez é difícil de acreditar, agora duas vezes? Era impossível, seus dois filhos foram pareados com duas celebridades distintas e celebridades essas que já namoraram, quais as chances de isso acontecer? Mas o sistema não errava e o que estava nele era para ser, inalterável e mesmo que fosse inexplicável e impossível, lá estava ela e, portanto, a nossa única saída era aceitar.
— O nome da minha alma gêmea começa com M. Isso só pode ser um engano – meu irmão comentou ainda em choque.
— Não, não é. Linda, mostre suas costas pra ele – respondi, entendi mais rápido que os outros.
— Como é? – Ela não entendeu.
— A primeira pista do meu irmão foi que a alma gêmea tinha uma tatuagem de fênix, sua blusa é transparente, reconheci sua tatuagem assim que a vi, é um desenho único.
Ela fez como eu disse mostrando sua omoplata. Ela tatuara a fênix como um símbolo de sobrevivência para lembrar do acidente e como sobrevivera. Enquanto Pietro observava, continuei meu raciocínio:
— Eto, você se lembra do dia do teste? Linda chegou quase junto conosco, lembra que ela teve que usar o nome oficialmente registrado? Linda Halley é seu nome artístico.
— Meu nome registrado é Mariana, eu não o uso, pois me causa dor. Mas me chamo Mariana. – Linda completou o que eu estava querendo dizer.
A multidão finalmente se cansou de esperar e se dispersou, nesse meio tempo Magnólia acordou para ir para a escola, normalmente a gente ia deixar algo para ela comer e uma lancheira preparados, mas com toda a confusão, não tivemos tempo, ela nos deu bom dia, ainda estava usando seu pijama de bichinhos, achei estranho, Ma costumava ser uma criança anormalmente responsável, já deveria ter escovado os dentes e botado o uniforme.
— Eu ainda estou dormindo? – ela perguntou com os olhos arregalados olhando para Linda na nossa sala.
— Oi – Linda respondeu com um sorriso.
Magnólia teve a reação mais genuína e estranha que eu já havia visto, Linda não era muito popular entre as crianças, ela não fazia muito conteúdo infantil, mas obviamente minha prima a conhecia e parecia gostar dele, pelo visto eu não era a única fã por ali. Ela deu um grito e saiu correndo em direção a Linda, a abraçou, depois ficou tocando em seu rosto para se certificar que ela realmente estava lá, depois deu um enorme beliscão em si mesma enquanto resmungava “Acorda”, deve ter chegado à conclusão que estava acordada, então deu um grito e voltou a correr, mas para o quarto, voltou algum tempo depois de cara lavada e de uniforme com um comportamento bem diferente, bem mais “adulto”, como se Linda visitasse a casa dia sim, dia não.
Como eu havia feito na noite anterior, Pietro e Linda foram até o leitor para conferir e confirmar o que já sabíamos, que eles eram um par ligados pelo resto de suas vidas, diferente de mim, Pietro estava muito mais animado, embora ainda surpreso com tudo. Eles comemoraram muito felizes e nos dirigimos de volta para a casa.
— Você prefere Linda ou Mariana? – meu irmão perguntou animado enquanto voltávamos.
— Linda ou Halley, principalmente na rua, mas pode falar Mari quando estivermos sozinhos. Como eu disse, Mariana me traz lembranças ruins.
— O acidente, você se lembra? – perguntei em voz baixa.
— As pessoas dizem que eu era pequena demais para me lembrar e não acreditam, mas eu lembro de uns pedaços, um pouco confusa, mas lembro e as partes que eu lembro são bem nítidas – ela respondeu com dor no olhar.
Não falamos mais até voltarmos a casa. Decidi deixá-los sozinhos para conversar e voltar a casa do Gabriel, mas lembrei que ele havia me dito que ia começar a trabalhar, então talvez ele não estivesse mais em casa, então decidi pensar no caminho aonde ir, antes de sair decidi ser franca com Linda, antes que ela soubesse de outro jeito.
— Linda? Eu preciso te contar uma coisa, antes que fique mais esquisito ainda ou que você descubra de um jeito muito torto. – Comecei sem jeito
— Pode falar.
— Meu irmão não foi o único dessa família cuja a alma gêmea comprou mais pistas. A minha alma gêmea também.
— Isso é ótimo, você já sabe quem ele é então?
— Sim. E ele é o Astro, seu ex-namorado.
O choque passou pelo seu rosto por um breve momento, depois ela sorriu e disse:
— Bom, eu estava enganada mesmo – respondeu dando de ombros, como se não significasse nada.
Pelo visto Linda era bem mais legal do que deixava transparecer em público.
Decidi visitar tia Roberta e ver como estava a reforma, eu não tinha nada para fazer sem a loja e tia Roberta trabalhava em casa já fazia dois anos, ela finalmente conseguira tempo e dinheiro para viver do que gostava, arte e música, com o marido trabalhando fora e Magnólia com a gente, ela devia estar se sentindo sozinha. Ela não demorou a atender, ela vinha devagar, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, usava chinelos e um macacão branco sujo de tinta em vários lugares, por baixo usava também uma camisa branca que também estava suja, tinha um pincel preso no cabelo atrás da orelha, as mãos também tinham tinta nas pontas dos dedos.
— Luna? Que surpresa feliz. Não devia estar na loja? Aconteceu algo? – ela disse quando me viu.
A barriga dela já estava num tamanho considerável, era muito estranho saber que havia um ser vivo inteiro ali dentro. Por conta da gravidez ela não estava pintando o cabelo, então todo aquele colorido estava indo embora, estava desbotado e a raiz estava aparecendo, o que era estranho demais pra mim, mas finalmente matei a curiosidade, ela tinha o cabelo castanho, mas um pouco mais escuro que meu pai.
— Está tudo ótimo, só tirei o dia de folga, vai entender logo o porquê, mas e a senhora? E o bebê? Magnólia está com saudades e louca para conhecer o irmãozinho ou irmãzinha dela.
— Eu sei, ligo pra ela todos os dias, devia mandar mais mensagens para vocês. Mas parece que tem novidades. Me conte – continuou ela empolgada como sempre enquanto íamos andando pela casa.
— Então... por onde começar....
Tia Roberta tentava ser uma boa ouvinte, mas me interrompia o tempo todo com perguntas, mas contei tudo a ela. Ela também achou bem improvável isso ter acontecido por acaso, mas a vida pregava peças na gente e com certeza tanto Astro quanto Linda tinham muito dinheiro, o suficiente para comprar as pistas mais caras, o que na opinião de tia Roberta, era uma sorte para nós. Depois ela me mostrou a casa, estava ficando muito linda, eles mudaram um quarto e abriram espaço para outro cômodo, não sei quem era o responsável, mas estava fazendo um milagre com tão pouco espaço, a casa parecia maior dentro do que realmente era do lado de fora, reparei no novo quarto onde o bebê ficaria, ainda estava meio bagunçado com tecidos e tinta aqui e ali.
— Dois berços? – indaguei.
— Eu ainda não contei pra ninguém, se puder guardar esse segredo por enquanto. Mas, são dois bebês. Você sabe, a regra permite mais filhos se a segunda gravidez forem gêmeos.
— O controle populacional. Mas por que não contou ainda?
— O médico disse que é uma gravidez que devo tomar muito cuidado, por conta da minha idade e por serem dois bebês, ele disse que podem haver complicações, mas não quero deixar seu pai preocupado. Ele e eu temos uma ligação muito forte, você sabe como é, tenho certeza que você também protege Pietro dos seus problemas, se eu conto pro Ricardo, ele vai ficar preocupado e vai querer cuidar de mim e vai acabar me estressando. Não me leve a mal, amo meu irmão, mas as vezes, ele é intenso demais e já ando a ponto de explodir – ela me confessou.
Entendo perfeitamente o que tia Roberta queria dizer, papai quando fica preocupado não consegue pensar em outra coisa, ele ia ficar ligando pra ela o tempo todo, ia querer visitar na hora do almoço, ia ser bom no início, ele se preocupa, cuida, se dedica, compra sopa, faz carinho, meu pai é o homem mais carinhoso desse mundo, mas quando alguém está com problemas chega a ser sufocante. Ela tinha razão, não podíamos preocupar o meu pai, ela e o marido teriam que dar conta.
— Tudo bem, mas me prometa uma coisa tia, se precisar de algo mande mensagem ou ligue.
— É claro, meu anjo. – Ela se despediu e pelo tom eu sabia que ela não ia ligar.
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