A verdadeira alma gêmea
5 A Primeira Pista
No dia seguinte a loja não abria, então pretendia dormir até mais tarde. Quando acordei, era hora do almoço, minha mãe estava na cozinha, havia um monte de coisas na sua frente, lembrei que minha festa havia ficado para o fim de semana e me senti mal por ter acordado tão tarde, poderia ter ajudado. Imediatamente fui procurar algo para fazer. Pietro estava ocupado com a decoração, papai estava preparando copos e pratos, então comecei a arrumar os móveis e limpar as coisas, pedi para M.A.I.A. organizar as músicas e confirmar os convites, não iria ser uma festa muito grande, mas mesmo assim havia muito o que fazer, quando terminei fui me arrumar, acabei escolhendo uma calça justa preta, uma blusa vermelha de alcinhas em formato de coração que deixava minhas costas de fora, um colar que combinava com brincos de argola prateados, deixei o cabelo solto e fiz uma maquiagem com batom vermelho e sombra escura, pintei as unhas de vermelho e calcei botas de salto médio para completar, passei meu perfume favorito e fui esperar os convidados com os outros, Pietro também escolhera vermelho por acaso, estava de calças e jaqueta vermelhas com blusa branca e sapatos pretos para combinar, parecíamos mais gêmeos que nunca quando essas coincidências aconteciam, era quase como uma ligação mágica de irmãos.
Nossa família chegou por volta das seis, eram nossos avós maternos e paternos, pois ainda tínhamos os quatro, minha tia Roberta, irmã de meu pai, o marido dela, e minha prima Magnólia de onze anos, ela ficou impressionada com nossos curativos. Eu gostava de tia Roberta, ela tinha o mesmo tom pálido que meu pai e o mesmo tom nos olhos, só que os dela eram grandes e pareciam de um desenho animado, seus cabelos eram coloridos de muitas cores de uma vez, atualmente tinha branco, rosa, roxo, amarelo, verde e azul, eram tantas cores diferentes, mas que minha tia fazia combinar e ficar harmônico de um jeito que parecia que essas cores deveriam sempre serem usadas assim, isso até ela mudar e escolher novas cores e fazer outro cabelo colorido, acho que eu nunca vi a cor natural de seu cabelo, isso combinava muito com ela, sua personalidade era muito alegre e divertida, estava usando um macacão que de um lado era todo branco e do outro parecia uma pintura abstrata com inúmeras cores, em qualquer outra pessoa doeria meus olhos, mas em tia Roberta ficava perfeito, para completar ela usava tênis cor de rosa e brincos enormes de rodelas de laranja, eu não sei aonde ela arranjava esse tipo de coisa. Quando eu era criança fiz um desenho dela ao lado de um unicórnio de crina arco-íris, eu dizia que era sua alma, na nossa festa de quinze anos ela usou um vestido que tinha uma cauda de gato e orelhinhas e nem era uma festa a fantasia, ela simplesmente decidiu que queria usar um vestido de gatinho e foi muito maravilhoso. Seu marido, William, era alto e desengonçado, com um rosto jovem e sem barba, quase sempre exibe um sorriso enorme de dentes perfeitamente alinhados, os olhos castanhos arredondados, sua pele é marrom avermelhada e seu cabelo é preto bem comprido e suas mãos grandes faziam com que parecesse bruto, mas na verdade era um doce, não era tão colorido, preferindo roupas em tons mais sóbrios e de alguma forma isso o fazia um ótimo par para ela, usava uma calça preta e uma camisa branca, sapatos também brancos, não podia ser mais diferente da esposa. Já a filha deles, Magnólia era muito alta para a idade dela, poderia facilmente ser confundida com uma jovem de quatorze anos ao invés de onze, era uma combinação perfeita e harmônica dos pais, as vezes eu a achava idêntica a tia Roberta só que mais morena, as vezes ao pai dela só que mais branca e as vezes com nenhum dos dois, o formato dos olhos, o nariz, os lábios finos, eram características que pediam tanto para um lado quanto para o outro, estava linda com um vestido que parecia uma pequena galáxia estilo bailarina, usava um acessório na cabeça que parecia uma coroa de estrelas, estava claro quem ajudara a filha a escolher a roupa, até os sapatos de boneca eram meio transparentes e com brilho, ela era a estrela da festa e não nós, os aniversariantes, achei divertido demais.
Também convidamos alguns amigos que estudaram conosco, Igor o amigo de Pietro veio novamente, assim como alguns outros amigos dele. Também chamei algumas pessoas, alguns de meus colegas que foram da minha classe que eram mais meus amigos. O Gabriel também apareceu mais tarde, seus pais também foram e só, essa era a nossa lista.
Durante a festa minha tia perguntou para mim como estava a busca pela minha alma gêmea, eu ainda não havia começado, olhei pro meu braço, o curativo ainda estava lá. Ela ficou levemente desapontada, me puxou pela mão e saiu correndo comigo, pelo caminho foi convocando membros da família e os arrastando junto, em algum momento alcançamos Pietro, que confessou meio envergonhado que devido ao dia corrido também não havia ativado seu chip, ela também o agarrou pela mão e começou a correr conosco para fora da casa, passei por Biel que me olhou confuso, balancei a cabeça e dei de ombros tão confusa quanto ele, estava mais perdida que cego em tiroteio.
— Tia, a onde estamos indo? – perguntei aos tropeços.
— Tem um leitor bem no fim da rua, isso vai ser fantástico. Vocês têm que começar a procurar, vai ser incrível – ela respondeu animada.
Saímos pela rua e fomos correndo, quando minha tia botava uma ideia na cabeça não havia quem a tirava.
— Além disso, não podem ficar sem ativar o chip por muito tempo, melhor fazer isso agora.
Ela não soltou nossa mão até chegarmos ao leitor. O leitor nada mais era que uma caixinha retangular branca com uma tela, devia ter mais ou menos trinta centímetros de largura por quarenta de altura, na parte da tela especificamente, não era muito grande e a borda branca devia ter uns cinco centímetros de largura e profundidade, havia muitos deles espalhados pelas ruas, em postes próprios que tinham um metro como aquele na nossa frente, ou então pregados em semáforos, em paredes de lojas, muros, quando não estavam sendo usados ficavam mostrando propagandas o tempo todo. Era só tocar na tela para desativar a propaganda e entrar no sistema da A.V.A.G. para poder ativar o chip ou para conseguir informações sobre sua alma gêmea, eu já vira pessoas usando essa máquina, não era muito difícil, dava para fazer pagamentos por ela também, para comprar mais pistas, a máquina tinha acesso à internet e era só acessar o banco, o leitor limitava quantas pistas uma pessoa podia comprar por semana.
— Vamos, vamos, vamos. Lu, você primeiro. – Minha tia instruiu.
A família estava esperando, meu pai, minha mãe, a pequena Magnólia, meus avós, os que tinham conseguido nos alcançar, até um convidado ou dois.
— Eu? Eu primeiro? – perguntei sem jeito, odeio ser pressionada.
— Você é a mais velha, querida, vai lá. – Me incentivou ela.
Eu não era tão mais velha assim, nasci poucos minutos antes do meu irmão.
— Eu vou primeiro tia, Luazinha está com vergonha. – Pietro se ofereceu. – Além disso, eu esperei tanto por isso. – Ele continuou já tirando o curativo do braço, exibindo uma marca que logo desapareceria por completo.
Minha tia bateu palmas e se afastou para dar espaço pra ele. Pietro tocou na tela e esperou, logo apareceu uma mensagem na tela e uma voz leu:
Bem-vindo ao sistema de buscas da A Verdadeira Alma Gêmea, aproxime seu chip.
Ele aproximou o braço do leitor, um outro texto apareceu:
Indivíduo não reconhecido, é a sua primeira vez aqui?
Meu irmão clicou em sim.
Gostaria de ativar seu chip?
Mais uma vez um sim.
Aproxime seu chip
Meu irmão voltou a aproximar o chip.
Seja bem-vindo indivíduo 2808634098788432PIET02MR, seu chip não apresenta irregularidades e está em perfeita condição de uso, a partir de agora está ativado, você tem dois anos para encontrar sua alma gêmea, boa sorte. Para receber sua primeira pista aproxime seu chip e preste atenção na mensagem em seguida.
Novamente ele aproximou o chip, e continuou aparecendo mensagens.
Sua primeira missão para encontrar seu par perfeito é um desafio, decifre o código abaixo, quando terminar de decifrar, registre o seu resultado por foto ou vídeo e envie ao A.V.A.G. através da sua inscrição feita anteriormente, quando enviar o resultado volte ao leitor para validar o resultado e receber novas pistas.
O código era um monte de letras e números separados em conjuntos alguns estavam em vermelhos e outros estavam em preto e podia significar qualquer coisa, meu irmão tirou uma foto com o telefone para poder decifrar depois, depois de mais ou menos um minuto ele desapareceu.
A A.V.A.G. agradece o contato e deseja boa sorte em sua busca.
Então voltou para a tela de propaganda, era um anúncio do último filme que lançado pela maior rede de filmes atualmente o nome do filme era Antonella, era o primeiro filme de terror de Linda Halley e foi o último que gravara antes da pausa. Tirei meu curativo revelando minha própria marca cicatrizando, toquei o nariz de Linda na tela e comecei a ativação do meu chip, fiz exatamente como Pietro, seguindo todas as instruções até o fim e recebi meu primeiro desafio para a primeira pista, dessa vez não era um código como o de meu irmão, era uma imagem que eu devia desvendar o que estava oculto, também tirei uma foto para analisar depois, terminei e olhei para tia Roberta, ela estava tão feliz. Forcei um sorriso no meu rosto e levantei os braços como se comemorasse, mas no fundo eu nunca me senti menos animada.
— Muito bem meus amores, vamos voltar para a festa, os convidados estão esperando – comentou tia Roberta. Como se não tivesse sido ela que nos arrastara porta a fora.
Voltamos pra casa e continuamos nossa comemoração, Pietro estava eufórico comentando com as pessoas sobre seu código de letras e números, estava louco para que a festa acabasse e ele pudesse se enfiar em seu quarto para analisar melhor, eu tinha certeza que ele passaria o domingo inteiro procurando possíveis soluções e não descansaria até que conseguisse.
Assim que pisei de volta em casa, Gabriel veio correndo até mim para perguntar o que tia Roberta queria, levei ele para um canto e mostrei a foto que tirei, ele ficou olhando meu enigma por um tempinho antes de comentar:
— Então era isso. – Ele deu de ombros.
— É, era só isso. Instalaram um leitor no fim da rua, você viu? – perguntei.
— Que ótimo, vai ser mais fácil para nós agora conseguir pistas. Você quer ajuda com seu enigma?
— Por enquanto não, mas obrigada por se oferecer. Aliás como anda sua busca?
— Depois de descobrir a primeira pista, me deram a dica que ela mora na cidade, o que não ajuda muito a saber quem ela é.
— Uau, eles facilitam mesmo, não é? Agora sua busca é de apenas de uns dois milhões.
— Eu sei, não parece muita coisa, mas hoje de manhã eu já fui liberado para fazer compras e consegui comprar mais um desafio. Recebi uma pergunta, o que é bem mais fácil e descobri a primeira letra do nome dela e é um J.
— Júlia, Jordânia, Janaina, Jéssica, Joana, Jeniffer, quer que eu continue? Aliás, com que dinheiro você fez essa compra? Você não trabalha.
— Pare de ser tão pessimista. Só pra você saber, eu vou começar um trabalho em breve, eu te disse isso antes. Meu pai me deu dinheiro e eu venho juntando já faz algum tempo, como seu irmão, você deveria fazer o mesmo. Deveria estar mais empolgada.
— Não consigo, a ideia de me prender a alguém por obrigação, não é reconfortante.
— Pare de ser tão pessimista, já disse. Eu tive uma ideia, venha vamos dançar – ele disse me puxando pela mão.
— O quê? Não! – Tentei protestar sem muito sucesso, também sendo arrastada por ele.
Todo mundo estava me arrastando de um lado para o outro, na minha própria festa, estava me sentindo uma boneca de trapo, ninguém mais respeita a aniversariante do dia? Teoricamente ainda era minha festa de aniversário, mesmo que meu aniversário já tivesse passado. Biel me levou para o meio da festa e me fez girar, nós dançamos feito dois bobos e por um momento eu esqueci que havia mais gente ao nosso redor, erámos nós dois, grandes amigos se divertindo juntos, poucas coisas na vida me faziam esquecer o resto do mundo, o sorriso da minha mãe, as palavras de Pietro que sempre falava a coisa certa, sorvete de qualquer sabor, pois era extremamente raro para mim, o abraço do meu pai e o Gabriel, ele não precisava fazer muita coisa, ele só precisava existir. Era divertido dançar com ele, eu amava dançar, ele também não era bom dançarino e não conseguia me acompanhar direito, então eu tinha que dançar no ritmo dele, era legal, na nossa família só Pietro e eu que erámos os verdadeiros pés de valsa, acabou que eu dancei com ele dele, foi muito mais elegante, ritmado e quase poético.
A festa acabou um pouco mais tarde do que planejamos, foi bem divertida. Nós dançamos, comemos, tivemos jogos, minha prima derrubou um enfeite que se quebrou assustando meu pai, tia Roberta ficou bêbada e deu uma estrelinha no meio da sala e dançou no sofá, mamãe ficou irada, mas depois relaxou, em algum momento meu irmão desapareceu e descobrimos que ele se trancara no quarto tentando já descobrir seu enigma, descobrimos uma penetra na festa, mas deixamos ela ficar, em algum momento acabou a luz, a Magnólia tem medo do escuro, então fiquei abraçada com ela por vinte e cinco minutos e fiquei sussurrando palavras calmantes e frases aleatórias em seu ouvido até a luz voltar, o curto na luz fez a M.A.I.A. dar um pequeno bug e quando ela voltou a funcionar ligou o som mais alto que o normal e sua voz robótica fez uma piada que ninguém pediu, o que quase matou minha vó de susto, pois ela estava ao lado da caixa principal, rimos muito, eu apanhei porque estava mais perto dela, foi tudo que uma festa descente tem que ser.
Como esperado, Pietro acordou bem cedo no dia seguinte e não saiu do quarto, quando acordei e me juntei aos outros para tomar café, minha mãe já estava arrumada com seu cabelo preso, uma calça bege e uma camisa listradinha branca e azul, varrendo a casa e limpando o que restara da festa, dessa vez meu pai ficou responsável pela comida, ele não era tão bom de culinária quanto a minha mãe, mas até que ele se virava bem, ele fez mingau branco, uma salada de frutas e um suco de couve com limão.
— Chame seu irmão para o café da manhã, ele está acordado há mais de uma hora – minha mãe me pediu.
Bati na porta do quarto de Eto, ele não atendeu, bati de novo.
— Quê? – a voz dele respondeu atrás da porta.
Entrei e o encontrei sentado no computador ainda de pijama e cara mal-lavada, a imagem de seu código aberta de um lado e um arquivo novo onde ele havia copiado o código de um jeito que poderia editar e reescrever, estava muito concentrado na tarefa.
— Sabe, eu pensava que as tarefas fossem um pouco mais fáceis, mas até agora eu não tenho a mínima a ideia do que fazer com essas letras e números. Podem ser tantas coisas – comentou ele frustrado.
— Não deve ser muito fácil, porque senão todo mundo conseguiria, mas também não pode tão difícil, senão também ninguém conseguiria, você é inteligente, vai conseguir. Agora seria melhor você comer, recebeu seu desafio há menos de vinte e quatro horas, não se cobre demais.
— Como diria a tia Roberta, “um estômago cheio é o combustível para um cérebro pensante”.
— Ela dizia isso toda vez que tinha que cuidar da gente e um de nós se recusava a comer, ela também dizia que íamos virar burrinhos, se não conseguíssemos pensar para fazer nossa tarefa de casa.
— E uma vez você respondeu que gostaria de ter orelhinhas de burro como as dela, ela ficou bem ofendida. – Ele riu com a lembrança.
— Até eu explicar que estava falando das orelhas de burro do pijama dela e ela me deu um igual no natal.
— Ei, vocês dois vão ficar o dia todo no quarto? – minha mãe perguntou, como não ouvi sua aproximação dei um pulo de susto. – Pietro, sua empolgação com sua alma gêmea é linda e admirável, mas há muito o que arrumar depois da festa de ontem, então vão comer e ajudar, porque vocês ainda dormem sob meu teto, portanto ainda varrem meu chão e põem o lixo pra fora. – O pós-festa sempre deixava nossa mãe de mau humor.
Realmente havia muito o que fazer, mesmo com nossa casa não sendo tão grande, troquei de roupas, tirei o pijama e coloquei shorts e uma camiseta, dividimos as tarefas em quatro pessoas, levou poucas horas para faze-las. Quando terminamos, voltei para o quarto, era bom começar a analisar a minha imagem.
Fiz o mesmo esquema que Pietro, pois achei mais fácil, abri a imagem no computador, dividindo a tela ao meio, de um lado a imagem e do outro um arquivo para colocar meu raciocínio em ordem e começar a escrever as possíveis respostas.
Era uma paisagem, não tinha dado a ela a devida atenção, estava em preto e branco, muitas árvores, uma ponte, alguns pássaros, um rio, um casal apaixonado na ponte, estava dia, dava pra saber, poucas nuvens, era uma imagem antiga pela roupa da mulher, estava ventando pois ela perdera o chapéu e a fita do vestido estava levantada, ele lhe dava uma flor, não conseguia ver seus rostos, era apenas a silhueta deles e era tudo o que eu podia dizer sobre a imagem, não havia nada que me chamasse atenção. Ia ser uma tarefa chata.
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