Não sei o momento que minha vida começou a ficar tão complicada, duas pessoas famosas entrando na minha vida por causa de um sistema matemático, uma delas destinada a ser minha alma gêmea, minha tia me pediu segredo sobre a gravidez dela, pois não queria preocupar o papai, eu super faria isso pelo meu irmão, guardei dele minhas maiores preocupações sobre a alma gêmea até o momento final quando não estava aguentando mais. Agora fora tudo em vão, pelo menos esperava que tivesse valido a pena. Estava voltando para casa depois da visita na casa de tia Roberta quando meu telefone recebeu uma mensagem.

Gostaria muito de te conhecer, gostaria de sair comigo no fim de semana? Astro.

É claro que ele tinha meu número, a A.V.A.G. dera meus dados todos para ele. Me conhecer? Ele já não tinha lido todo meu dossiê? Eu queria muito responder que não, rejeitar minha alma gêmea, o programa dizia para encontrá-la, dizia também que podíamos decidir se queríamos dar continuidade a nossa espécie juntos. Não, muito obrigada. Meu irmão estava feliz com aquilo, eu nem tanto, a minha felicidade acabava no fato de não ter que me preocupar mais e só, meu irmão podia continuar pensando que não havia nada demais em Linda ter comprado seus dados, mas eu realmente me importava com a minha privacidade, eu queria mandar Astro pastar. Mas respondi que sim, só pra dar uma chance pra ele, pra ver o que seria dali por diante, se fosse necessário, eu poderia simplesmente me afastar e é isso, simples assim. Salvei o número dele para saber quem era na próxima vez que ele entrasse em contato comigo, depois mandei uma mensagem para o Gabriel.

Posso dormir na sua casa de novo? Tenho outra fofoca quente.

Me senti um pouco a Larissa falando assim, ela que usava a expressão “fofoca quente” quando queria contar alguma coisa para nós no trabalho, ele respondeu:

Adoro fofocas

Sorri comigo mesma, dessa vez eu ia lembrar de levar meu uniforme.

Cheguei na casa primeiro que ele, então fiquei no quarto esperando, os pais dele também não haviam chegado, sem nada pra fazer acabei ficando entediada, fiquei com muito sono e adormeci. Tive novamente o sonho com meus personagens inventados, Miguel e Helena, novamente como Gabriel e eu, só que desse vez havia mais uma pessoa, Astro, nós estávamos com as roupas antigas e mais uma vez Gabriel dizia que não podia me dar o que eu queria, Astro estendia a mão para mim e eu tentava alcança-lo. Depois nós estávamos dançando e ele me dizia que eu estava bonita, mas eu não estava confortável, Gabriel dançava com uma mulher desconhecida, ela estava o tempo todo de costas pra mim, mas eu sentia que a conhecia de algum jeito. Eles se beijaram e por um momento eu fiquei feliz, meu amigo estava feliz e apaixonado, mas meu peito começou a doer muito e fiquei sem ar. Acordei tentando respirar, levantei tão rápido que bati minha cabeça em alguma coisa, quando minha visão entrou em foco novamente percebi que a coisa era uma pessoa, bati minha cabeça na cabeça do Gabriel, ele levara a mão na testa e disse alto “ai”.

—O que aconteceu? _perguntei desorientada levando a mão à cabeça.

—Você estava tendo um pesadelo, não parava de murmurar “Não”, fui tentar te acordar e você levantou do nada, dá próxima vez deixo o monstro do pântano te pegar. _ respondeu ele com dor.

—Não era sobre isso o sonho, mas deixa pra lá.

—Era sobre o que?

—Deixa pra lá. Preciso de gelo.

—Não exagere.

—Então vou pegar gelo só pra mim.

—Não, minha cabeça dói.

—Não exagere. _repeti pra ele com deboche.

—Aposto que eu chego primeiro na cozinha. _ ele disse já começando a correr.

Meu lado competitivo aflorou, eu corro sempre que dá, sou ótima corredora, saí em disparada atrás dele, o alcancei e logo o passei, cheguei na geladeira e bati a mão na porta marcando minha vitória, tive direito a dancinha ridícula de comemoração e tudo mais, mas minha cabeça realmente estava doendo e parei de dançar, peguei gelo para nós e voltamos para o quarto.

—E então, sobre o que era o sonho? _ele voltou a perguntar.

—Nada de especial. Não era um monstro do pântano, era um serial killer. _menti.

—Imaginei. E qual é a fofoca quente? _ ele perguntou

Eu contava tudo para ele, mas não queria contar do sonho, não sabia dizer o motivo, queria entender o sonho ainda.

—Melhor se sentar, seu queixo vai cair hoje.

Ele não me interrompeu, me ouviu em silêncio, em algum momento a cara de surpresa dele congelou e ficou lá. Quando terminei a única coisa que ele conseguiu dizer foi “O que?”

—Pois é, Linda Halley. _concluí

—Vai ter sorte assim lá longe. _ ele respondeu com um assobio longo.

—Sorte?

—Sim, ela é gata pra caramba, gostosa, famosa, rica, talentosa e com muita vontade de encontrar a alma gêmea. O que mais ele poderia querer? Agora resta saber se ela tem uma personalidade boa. Queria ter essa sorte, ainda falta tanto para chegar a minha vez. Você e Pietro tiveram muita sorte. _ele comentou.

—Não acho que seja muita sorte, acho que a grana deles pode ter ajudado muito nisso. Aliás, se você quiser, posso te ajudar com suas pistas, eu não tenho que procurar mais ninguém mesmo.

A busca pela alma gêmea era obrigatória, mas não era justa com todos, era como se todos nós jogássemos em um cassino, cada um com suas apostas, jogando poker, mas alguns vinham com cartas marcadas, éramos jogadores de poker com cartas desiguais, teoricamente todos tinham a possibilidade de vencer, mas não da mesma forma.

—Você tem razão nessa parte, mas o sistema podia parear qualquer pessoa e foram vocês. Loucura. E eu aceito sua ajuda, se eu empacar em alguma, você é minha convidada especial para tentar resolver.

—Minha vida vai ser uma loucura tão grande agora.

—Ainda bem que eu não sou você. _ ele riu.

Bati nele com um travesseiro.

—Quer fazer alguma coisa antes de dormir?

—Na verdade eu estou com fome.

—Nem a pau que vou deixar você cozinhar. _ ele zombou.

Voltamos para a cozinha, como nós dois éramos uma negação com o fogão, decidimos fazer algo simples, cozinhar ovos, pegamos arroz que já estava pronto, que ele não me deixou esquentar, então eu fiz o suco para acompanhar, de laranja, pelo menos isso eu podia fazer sem errar, ou não, pois ficou muito doce e aguado, mais parecido com água com açúcar do que com suco.

—Você tem alguma noção de proporção? _ ele perguntou rindo_ Você tinha um trabalho, Luna, um trabalho. _ continuou fingindo decepção.

— A culpa foi completamente sua por me dar algo tão difícil.

—Então por conta da sua incompetência total em cortar as laranjas, espreme-las e misturar com água e açúcar, eu te castigo, será sua função essa noite, lavar a louça. _ ele disse de forma pomposa e caricata.

—É o rei Gabi? _ eu ri com a lembrança.

Quando erámos crianças, uma de nossas brincadeiras favoritas era criar personagens e interpreta-los em momentos aleatórios do dia e interagir com as pessoas como se fossemos eles. Gabriel criara sete personagens distintos, o rei Gabi era o meu preferido, ele era bobalhão e sempre dava ordens tolas para as pessoas, como por exemplo ‘coce a cabeça,’ ‘compre bolinhos’ ou nesse caso ‘lave a louça’, a lembrança veio muito forte na minha mente, já fazia muito tempo que não fazíamos isso, mas era como se a última vez tivesse sido à apenas um dia ou dois, por um momento eu era a Luna de oito anos de novo e ele era o Gabriel também de oito anos. Eu podia simplesmente lavar a louça, os pais dele detestavam que deixávamos a louça passar a noite na pia, mas ao invés de simplesmente obedecer lembrei de uma antiga personagem que eu encarnava as vezes, Lady Morgana, inimiga mortal do rei Gabi.

—Nos encontramos novamente, depois de todo esse tempo. Como ousa dar-me uma ordem, como ousa achar que é meu rei? _ respondi estufando o peito.

—Lady Morgana. _ respondeu ele com uma raiva fingida.

—A luta pela lava louças começa agora. _ puxei uma colher de pau

Gabriel pegou uma espátula e se preparou para a defesa, eu cresci com meninos, Pietro e Gabriel nunca me davam folga na infância, eu era boa de briga por causa deles, e como eles eram por um tempo maiores que eu, tive que aprender a ser mais rápida. Eu amava meus irmãos, o de sangue e o postiço, mas eu não ia jogar limpo. Lutamos por um tempo, batendo os utensílios domésticos um no outro, a cozinha não tinha muito espaço para que dois adultos brincassem de espadachim de colheres, mas conseguimos nos divertir bastante.

Eu não tenho ideia de como todo o caos que se seguiu começou, mas Gabriel e eu tropeçamos e de algum jeito batemos um no outro, um de nós bateu no pé de uma cadeira, acabamos derrubando a cafeteira e nós dois nos machucamos na queda, a cafeteria ainda estava cheia do café feito aquela manhã que ninguém havia bebido e há muito estava frio, meu cabelo ficou ensopado, assim como a roupa que estava usando, também derrubamos um açucareiro e voou açúcar pra todo lado sujando o chão. Rimos muito da situação, nem quando éramos menores tínhamos feito tanta bagunça em tão pouco tempo, ainda mais naquela hora da noite, os pais dele iam me expulsar com tanto barulho. Gabriel tentou se levantar antes de mim para buscar um pano para limpar tudo, mas acabou piorando a situação, ele acabou esbarrando na panela com a água que usamos para cozinhar os ovos, a panela bateu na minha cabeça e espalhou mais água no chão, era minha segunda batida na mesma noite, e a segunda vez que eu era encharcada. Com muito cuidado para não escorregar no chão molhado, nós nos levantamos, cada um pegou um pano e limpamos tudo, eu estava bem mais suja que ele, entramos no acordo de que eu devia tomar banho antes que ele e que seria melhor irmos dormir antes que causássemos mais acidentes, além disso estava ficando tarde e ambos tínhamos trabalho, fora bom o momento juntos, mas não podíamos continuar mais.

Algum tempo depois, estávamos os dois deitados na cama, limpos e prontos para dormir, estávamos deitados lado a lado de conchinha com ele atrás de mim, era bem confortável, meu cabelo ainda estava úmido por causa do banho, mas nenhum de nós se importou, estava muito silencio no escuro, mas o sono não vinha, fiquei em silêncio esperando o sono vir. Gabriel começou a rir no meu ouvido, eu não entendi o motivo.

—O que foi? _ sussurrei sem me virar pra ele.

—Me lembrei de você coberta de café. _ ele sussurrou de volta.

—Vá dormir Biel. _ continuei aos sussurros tentando conter o riso.

—Foi muito divertido, sinto falta disso, desses momentos da vida. _ ele comentou ainda rindo.

—Eu também. Que bom que eles ainda existem. _ respondi sorrindo.

—Lu? _ ele me chamou depois de algum tempo.

—Fala.

—Me promete que com Astro na sua vida agora, nós ainda seremos amigos. _ele me pediu.

Me virei de frente pra ele, nossos rostos estavam próximos e eu olhei em seus olhos antes de responder.

—Ninguém vai separar a gente Gabriel, nunca. _prometi a ele e não era uma promessa vazia. _ Quando você encontrar sua alma gêmea, promete que ela não vai separar a gente? _ perguntei.

—Mas é claro, não se abandona os amigos e você é a única que eu tenho. _ ele me respondeu com um sorriso.

Voltei a ficar de costas pra ele para ficarmos mais confortáveis e dormimos abraçados com a promessa de sempre sermos amigos não importa o que acontecesse nas nossas vidas.

Notas finais
Mais um Capítulo do livro, nem sei porque ainda estou aqui, ninguém comenta nada, como vou saber se tem alguém lendo?