A verdadeira alma gêmea
17 Dúvidas sobre o amor
Fomos para dentro e ele me mostrou um quarto onde eu podia dormir, ficava ao lado do dele. Devolvi as joias caras da mãe dele e fui lavar o rosto para tirar toda a maquiagem, lavei a boca mais ou menos já que não tinha escova de dentes, penteei o cabelo com os dedos novamente e fiz uma trança para ajudar não embaraçar muito até a manhã seguinte, já que não tinha pente, depois fiquei sem saber o que fazer, não tinha roupa, só o meu uniforme que havia ficado dentro do carro, tirei os sapatos e fiquei cogitando se valia pena dormir com aquele vestido, Astro bateu na porta.
— Entre.
— Acho que você vai precisar de uma roupa para dormir, dei uma olhada no guarda-roupas da minha mãe, e trouxe isso, talvez vá servir. Sei que você tem que levantar cedo para trabalhar, mas será que pode me encontrar no meu quarto quando terminar? – ele me entregou duas peças um pouco emboladas.
— Você conhece bem o guarda-roupa da sua mãe – observei, não era uma crítica, só achei interessante.
— Já ajudei-a a arrumar muitas vezes, sei onde fica tudo dela.
— Obrigada pela roupa.
— Vou esperar por você.
Ele saiu e me deixou sozinha para trocar de roupa, era uma camisola de cetim bem delicada e um robe combinando, não era o que eu normalmente usava, meus pijamas eram conjuntinhos combinando, mas era melhor do que dormir de vestido, a mãe dele e eu não tínhamos corpos parecidos, mas consegui dar um jeito de caber em mim, ficou esquisito em alguns pontos, mas pelo menos não estava caindo. Fechei bem o robe e me certifiquei que estava tudo certinho antes de encontrar Astro no quarto dele. Bati na porta e esperei um pouco antes de entrar, ele não estava no quarto, mas ouvi o som do chuveiro dele, voltei para o corredor e esperei um pouco, Astro saiu alguns minutos depois já de pijama e com o cabelo molhado.
— Desculpe a demora. Eu queria passar mais um tempo com você, a festa foi muito rápida. Podemos sentar e conversar um pouco? Além disso, pelo que me lembro eu te devo uma dança – ele disse, fechando a porta e me indicando o corredor.
Astro estava com um humor bem melhor, nada melhor que um banho quente e alguns minutos para pensar para acalmar os ânimos. Os pais dele ainda estavam na festa, S.A.U.L.O. e M.I.A. não estavam à vista. Caminhamos pela casa até a sala onde estavam os instrumentos que vimos na minha outra vez ali. A casa dele à noite era um pouco assustadora, um silêncio muito grande e um eco enorme, essa era uma desvantagem de ter uma casa tão grande e tão poucos moradores. Eu achei que ia ficar desconfortável de andar de pijama ao lado de Astro, não tínhamos tanta intimidade assim, mas talvez por ele também estar de pijama e estarmos só nos dois eu não me sentia nada mal com isso.
— Você toca? – perguntei a ele apontando para o piano, não tinha perguntado da outra vez que estive lá. Ele tinha um violão e uma guitarra no quarto, mas isso não queria dizer que ele sabia tocar os outros instrumentos.
— A maioria desses instrumentos são do meu pai, ele não toca nada, só gosta de colecionar para impressionar as pessoas. Um grande desperdício, eu sei, é como ter uma biblioteca com os livros mais incríveis e usa-los de enfeite só para fingir que é intelectual.
— Então você não toca nenhum desses? – concluí tristemente.
— Eu não disse isso. Eu sei tocar um pouco, violão e guitarra principalmente, mas também sei handpan, asalato e piano.
— Eu sempre quis aprender piano, só sei tocar violão.
— Eu posso te ensinar se quiser – ele me convidou a sentar.
— Não está meio tarde para tocar?
— Os robôs não vão se importar.
— Mas e os vizinhos?
— Quer que eu toque ou não?
— Eu adoraria – concordei, queria mesmo ouvir, adorava piano, mesmo não sabendo tocar, as vezes eu gostava de ouvir as minhas músicas preferidas em cover de piano, nessas ocasiões me sentia num filme de princesa.
Sentei no chão mesmo, ignorando completamento o sofá e observei enquanto ele ia até o piano, Astro pensou por um momento e começou a tocar, a melodia começou lenta e quase melancólica o que me levava a um estado de relaxamento, não podia deixar de apreciar o quanto era bonito, ele tocava muito bem, isso porque ele dissera que sabia um pouco, ele tocava de um jeito que parecia até fácil, mesmo eu sabendo que não devia ser tão fácil, a melodia mudando no momento certo, percebi que conhecia a música, era antiga, calma e uma das minhas preferidas, com certeza estava no meu top dez, cantarolei baixinho acompanhando até chegar ao final.
— Isso foi tão bonito – elogiei levemente hipnotizada.
Ele sorriu com meu comentário e começou outra música, essa eu não reconheci, mas gostei muito, era leve, mas um pouco mais dramática e profunda que a anterior, me dava uma sensação muito diferente que a primeira, ainda sim eu gostava e eu com certeza ia querer saber o artista para ouvir novamente em outros momentos, quando terminou eu estava muito emocionada com os olhos marejados, tive até que suspirar pra poder colocar as emoções de volta no lugar, talvez fosse meio bobo, mas aplaudi empolgada, me deu vontade de depois o assistir tocando os outros instrumentos que ele citara.
— Obrigado – ele agradeceu as palmas. – Agora é a sua vez – ele me chamou para o lado dele.
— Eu não sei tocar – respondi sem me mexer.
— Pode vir, vai ser fácil. – Ele estendeu a mão pra mim.
Segurei a mão dele e fui me sentar ao seu lado.
— Repita o que eu fizer.
Ele apertou algumas teclas bem devagar e depois me pediu para fazer, tentei, mas não consegui repetir, errei quase tudo, Astro repetiu a melodia, tentei de novo, ficamos nisso por algum tempo, ele era extremamente paciente e me encorajava, toda a vez que eu errava ele sorria pra mim “está tudo bem, vamos outra vez”, depois de algum tempo eu consegui tocar a melodia toda, ele até comemorou comigo, Astro então tocou mais duas músicas, estávamos tão entretidos um com outro que não percebi que estava ficando tarde, meus olhos começaram a arder e eu bocejei, estava adorando o momento musical, mas meu corpo estava ficando cansado.
— Melhor irmos dormir, você está com sono e tem que trabalhar.
Voltamos para o segundo andar, ele me deu boa noite e eu entrei no quarto indo direto para a cama. Dormi muito tranquilamente, acabei dormindo demais e quando acordei estava quase atrasada, levantei correndo desesperada e fui me arrumar. Lembrei que meu uniforme estava no carro junto com o restante das minhas coisas, fui até o quarto de Astro e comecei a bater na porta, ele me atendeu só de toalha, ele também estava se preparando pra sair pro trabalho dele, nunca o tinha visto sem camisa, não estava preparada para aquilo, o corpo dele era bem definido, os músculos eram marcados e me perdi nele completamente, ele me olhava com a cara de espanto por eu estar espancando a porta tão cedo.
— Eu preciso das minhas coisas, estão no seu carro. – Pisquei “pelo amor de deus Luna, são só músculos” me reprendi mentalmente.
— Vou só vestir uma calça, me dá meio segundo.
Eu estava detestando a ideia de ir ao trabalho sem banho, já não tomara na noite anterior depois da festa. Quando finalmente conseguimos sair, pedi a Astro para me levar em casa antes, já estava atrasada mesmo, que diferença iria fazer?
— Obrigada por passar a noite comigo, foi bom – ele disse com sinceridade.
— Quando quiser – respondi. “Espera aí, o quê? Eu acabei de conhecê-lo e já quero voltar?” pensei.
— É verdade, eu precisava daquilo. Não estou acostumado a cuidarem de mim, então ter você lá, embora diferente, foi muito atencioso. A maior parte do tempo eu nem sei aonde meus pais estão – continuou ele agradecido.
— Eu só dirigi até a sua casa e dormi no quarto ao lado, não foi nada demais.
— Pode parecer pouco pra você, mas é muito pra mim – ele continuou com um pouco de emoção na voz.
Olhei seu rosto par tentar entender um pouco mais, Astro não costumava ser emocional em nossas conversas, ele era endurecido por alguma coisa e eu não sabia o que era, mas nesse momento ele parecia prestes a se abrir comigo.
— Se você diz, então fico feliz por ter ajudado, você estava bem abalado ontem – comentei para incentivá-lo a falar, mas não queria ser invasiva.
— Meu pai me tira do sério às vezes – respondeu ele encerrando o assunto.
Não comentei nada, seguimos em silêncio.
— Você se lembra que eu disse no nosso primeiro encontro que acredito no amor? – voltou ele a falar casualmente.
— Você disse que estava disposto a me fazer mudar de ideia – lembrei a ele.
— Em parte é por causa dos meus pais. Eu disse que acreditava no sistema, porque eu quero, ou melhor eu espero, que meu pai esteja errado – continuou.
— Como assim? – perguntei sem entender aonde ele queria chegar.
— Meus pais não se amam, Luna, não como os seus pais. Na minha primeira visita à sua casa, em cinco minutos sozinho com sua família, vi seu pai olhar para a sua mãe de um jeito tão carinhoso, ele quase a idolatrava. Nunca esquecerei esse olhar, foi quase chocante. Você uma vez disse que somos diferentes, mas não é pelo dinheiro.
— O que você quer dizer? Você não é feliz com a sua vida? – Como Astro podia ser infeliz, ele era filho do dono da A.V.A.G., tinha uma casa linda e enorme, o carro do ano, dinheiro para comer nos lugares mais caros. Parece que isso não era o suficiente.
— Eu não disse isso, hoje em dia eu posso dizer que sou um pouco feliz sim, sou muito próximo da minha mãe e ela é o meu mundo inteiro, mas eu não diria o mesmo do meu pai. Você se lembra da sua visita? Como ele mal olhou para nós? Meu pai só costuma lembrar da minha existência quando quer me exibir para a imprensa ou para algum investidor ou sócio.
Eu me lembrava, o Sr. Mayer foi tão frio e distante, deixou a todos nós desconfortáveis. Agora eu entendia, Astro podia ter todo o dinheiro e todas as posses do mundo, mas lhe faltara o essencial: o amor.
— Existe uma razão para eu conhecer bastante o guarda-roupa da minha mãe, Luna. Quando eu era mais novo, encontrei minha mãe chorando, quando eu perguntei o porquê, ela me disse que meu pai havia feito algo muito feio, anos depois descobri que ele a traía. Foi muito chocante descobrir que almas gêmeas podiam ser infiéis, ainda assim eles continuam juntos, porque eles são os donos da A.V.A.G. e os maiores exemplos de almas gêmeas. Isso pode parecer pra você uma razão para não acreditar no sistema, mas é exatamente o oposto pra mim, porque meu pai me fez pensar que o sistema é falho, meu ponto é provar que não é, as chances de erro são mínimas e eu não quero ser o cara que faz uma pessoa amada chorar.
Não queria dizer a ele que eu já sabia que o sistema era falho porque os pais do meu melhor amigo iam se divorciar, só porque haviam exceções à regra, não quer dizer que as vezes ele não podia acertar, meus pais, Linda e Eto, tia Roberta e Will, todos eram prova viva que as vezes dava certo, ao invés de dizer isso eu perguntei.
— O que tudo isso tem a ver com o guarda-roupa.
— Minha mãe é louca por organização, meu pai a traiu muitas vezes, quando ele chegava bêbado ou com marcas de batom, nós limpávamos e arrumávamos o guarda-roupa dela, enquanto conversávamos sobre a vida, nos aproximou bastante e ajudava ela a esquecer. Conheço aquele guarda-roupas mais do que pensa. Nós tivemos muitos momentos felizes por causa dele.
— Seu pai traiu a sua mãe ontem? É por isso que você ficou nervoso? – perguntei hesitante, ele estava apertando muito o volante.
— Se fosse só isso, seria o de menos, seria ruim, mas já estou acostumado – ele respondeu com um riso nervoso e sarcástico. – Não, ele faria isso onde a imprensa pudesse ver e quebrar seu disfarce, na verdade ele ficou bravo porque saímos no meio do discurso dele. Ele queria fazer mais um de seus discursos sobre a perfeição de nossos sistemas, de quantas almas gêmeas se formaram e como o número de pessoas sem par diminuíram esse ano e ficou bravo porque ele não pode nos incluir nisso. Foi então que discutimos, ele até tentou não chamar atenção, mas aposto que os paparazzi me viram sair com você. – Ele riu como se isso o divertisse.
— Você não queria que seu pai o usasse de novo? – perguntei.
— O quê? Não, Luna. Não seja absurda, como eu disse, estou acostumado a ser o bonequinho do meu pai, eu me enfureci por ele querer usar você. Ele não vai transformar a gente em uma jogada de marketing. Ele queria a gente para o discurso para poder insinuar que ele fora o salvador da sua vida, ele nem queria que eu entrasse para o teste, disse que eu poderia escolher ficar com Linda se eu quisesse, porque ela é a garota propaganda perfeita. Por isso terminei com ela, eu sabia que ela não era minha alma gêmea, sabia que ela ia fazer o teste e não deixei meu pai tirar isso de mim. Ele não pode ter Linda, ela é minha amiga e não pode ter você. Ele não pode ter tudo o que quer só porque acha que pode. Eu me enfureci, porque ele queria te manipular pra entrar no teatrinho pessoal dele – ele continuou quase irritado demais.
— Então é isso o que eu sou? Um jeito de enfurecer seu pai? – respondi com tristeza olhando para fora. Se não estivesse tão atrasada teria pedido para ele parar o carro imediatamente.
Astro deu uma freada tão brusca que meu corpo foi jogado para frente e bateu de volta no banco, e quase causou um acidente de trânsito, as buzinas começaram a nossa imediatamente.
— Nunca mais repita isso – ele respondeu com tristeza. – Não diga uma coisa dessas, como se eu estivesse te manipulando para meu bem pessoal, se você pensa em mim dessa forma, é melhor só pararmos por aqui, eu te deixo em casa e nós nunca mais nos falamos.
— E o que eu deveria pensar? O teste é obrigatório, mas seu pai ia mudar as regras só para você, ainda assim você fez o teste e ele caiu em mim por acaso. Poderia ser qualquer outra – continuei com amargor. – Me diga, Astro, você pelo menos gosta minimamente de mim? Ou é só porque o teste disse para gostar? – perguntei me lembrando dos momentos felizes de ontem à noite.
— Acha que abriria meu coração pra você se fosse só pelo teste? – Ele tirou os olhos do painel e virou para mim, havia algo em seus olhos que parecia que ele estava sendo sincero.
As buzinas ficaram mais fortes e insistentes e nos demos conta de que ele havia parado o trânsito por minha causa, para que eu o levasse a sério, talvez ele achasse mesmo absurdo o que eu disse e se não ligasse o motor iria causar mais confusão e provavelmente ia levar umas vinte multas. Ele voltou a dirigir e ao chegarmos em casa Astro estacionou, e enquanto eu descia do carro para entrar em casa para me arrumar, ele também desceu e me chamou, ele abriu a porta de trás, pegou alguma coisa no banco e me entregou, eram as caixas do vestido e a dos sapatos que usei na festa, olhei pra ele sem acreditar, ele estava dando aquele vestido lindo pra mim?
— Astro? – olhei para ele sem entender.
— Você está atrasada para o trabalho, apenas aceite de presente por favor – ele me respondeu com um meio sorriso fofo.
— Tem certeza? – perguntei sorrindo também, eu amara mesmo o vestido.
— Não vai ficar bom em mim – ele continuou com uma piscadela. Aparentemente a briga estava resolvida e ele ainda queria ser legal comigo.
— Uma pena, azul combina com seus olhos. Obrigada, eu amei. Volto logo. – Fiquei agradecida de verdade, eram muito lindos.
Eu devia ir me arrumar, mas ao invés de fazer isso, dei um abraço nele para agradecer pelo vestido, ele era um pouco mais alto, e as caixas atrapalhavam o caminho, mas o alcancei direitinho. Me afastei para sair correndo, Astro me puxou de volta e me deu um beijo, eu não sabia de onde vinha aquela vontade súbita de me beijar, mas correspondi ao beijo, esquecendo por um momento o relógio. Soltei as coisas em cima do carro e entrelacei meus dedos em seu cabelo, bagunçando o que provavelmente levara muito tempo para arrumar, ele me puxou para mais perto e uma mão subindo pelas minas costas, depois desceu pela minha perna, ele estava encostado no carro e me apertava com vigor. Ele era intenso e eu estava gostando disso. Meu telefone tocou e no meu bolso e me acordou, olhei a tela, mensagem da Larissa perguntando onde eu estava.
— Você me pergunta se eu gosto de você e me beija desse jeito? – ele riu.
Não respondi, Dona Ester ia arrancar a minha cabeça, peguei minhas coisas, corri para dentro e tomei o banho mais rápido da minha vida, prendi meu cabelo de qualquer jeito e calcei os sapatos depressa, voltei correndo para o carro, Astro já estava ao volante, eu estrava atrasando a nós dois e não estava gostando disso. Ele estava lindo e todo arrumado, sem barba, perfumado, com o cabelo não tão alinhado quanto antes, mas ainda combinava com o estilo dele, e eu estava parecendo o patinho feio, não era o meu melhor dia, agradeci mentalmente por esse não ser nosso primeiro encontro, isso pode parecer superficial, mas se eu me visse pela primeira vez e estivesse do jeito que estava naquela manhã, nunca mais olharia na minha cara de novo, pelo menos agora estava limpinha. O uniforme amarrotado, a cara sem maquiagem e com olheiras de quem ficara mais tempo do que devia acordada? Sim, mas limpinha.
Cheguei na loja bem atrasada, Leo me cumprimentou com um beijo no rosto muito rápido, mal deu tempo de me cumprimentar direito, Lari mal me deu um oi discreto, de fato Dona Ester, não ficou muito contente, a parte boa é que como era meu dia de arrumar as encomendas para entrega e arrumar o estoque, ela não ficou muito tempo chamando a minha atenção. Eu tinha que embalar duzentas lembrancinhas para uma festa infantil, eram kits de plantio, uma das muitas lembrancinhas que a loja fornecia, e cada uma delas tinha que ter um vasinho de barro, terra adubada, sementes de flores, uma pá em miniatura, um brinquedinho reciclado para as crianças e pedrinhas coloridas, todas elas iam em uma caixinha, eu tinha que embalar uma a uma e colocar em uma caixa maior, essa caixa maior devia retornar para a loja, era somente para o transporte, era uma tarefa bem entediante. O que dava muito espaço para a minha mente ficar mais dispersa. Eu não devia ter beijado Astro, primeiro porque eu gostava muito de Gabriel e isso não era muito justo com nenhum deles, além disso o fato de Astro ter basicamente comprado a minha privacidade ainda me incomodava bastante, porém eu ainda tentava entender ele, Astro era como meu irmão, vivia com uma ideologia, crescer em um mundo onde a única forma de encontrar alguém em um sistema que basicamente encontra alguém por você, e isso é tudo o que você conhece, pode fazer alguém tomar muitas atitudes estranhas. Eu não gosto disso, mas não é culpa dele, eu tentei muito não gostar dele, eu queria odiá-lo, ele representa muitas das coisas que eu sou contra, mas a verdade era toda vez que ele me mandava uma mensagem ou passávamos horas conversando meu coração perdia um compasso. E mais uma vez um me sentia culpada, porque eu também não devia ter beijado o Gabriel, ele não era destinado a mim, havia um rosto desconhecido esperando por ele e eu só estava adiando o inevitável, embora quando ele me ligava meu coração ficava tão alegre que tudo parecesse valer a pena.
Uma vez quando eu era mais nova, me lembro de sentar na sala com a minha família para assistir filmes na TV, nós fazemos isso com muita frequência, meus pais não gostavam de filmes antigos de romance, não como eu, eles achavam uma grande bobagem e uma grande má influência, “as pessoas não conseguem achar o amor por si mesmas”, eu cresci cercada por esse tipo de pensamento, sempre achei muito assustador isso, nunca entendi muito porque as pessoas ficavam tão animadas com isso, ainda não entendo, ainda acho muito assustador tudo isso, porém consigo ter um pouco mais de empatia.
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