Deixei minhas coisas no banco de trás do carro e me sentei no banco do carona. Ele dirigiu até o prédio da A.V.A.G., mas não era o mesmo prédio onde eu fiz o meu teste, esse era o prédio principal, era um dos arranha-céus mais antigos e mais bonitos que existiam na cidade, eu já vira o prédio várias vezes, mas eu nunca entrara nele, parecia uma antena, começava maior na base e ficava mais fino, era todo espelhando e se destacava no meio dos outros, as luzes estavam acesas azuladas o que deixava um ar de mistério no prédio e ficava ainda mais bonito.

— Bem-vinda ao centro da A.V.A.G., onde toda a magia da tecnologia acontece. – Astro me disse.

Nós entramos e um androide alto e musculoso, com cabelos loiros que desciam até os ombros, rosto marcado por uma mandíbula quadrada, olhos escuros e nariz arrebitado nos atendeu, ele usava um uniforme de segurança, e assim como os robô da casa dele a pele não era nada parecida com pele humana, lembrei que a mãe dele não gostava de androides muito parecidos com seres humanos, esse tinha a pele mais acinzentada que o normal o que dava a ele uma aparência meio doente.

— Boa noite, como posso ajudar. – Ele nos cumprimentou.

— Boa noite, Rodney, nós vamos para a festa.

— A festa é no 23º andar. Sigam pelo elevador.

— Obrigado Rodney. Vigésimo terceiro? O que houve com o quadragésimo quinto?

— Houve um problema na iluminação e aparentemente a M.A.I.A. não está funcionando desse andar para cima, alguns técnicos estão tentando descobrir o porquê.

— Quantos andares tem nesse prédio? – perguntei.

— Na minha opinião mais do que o necessário. Cento e dezoito.

— Nossa – respondi admirada.

Entramos no elevador e começamos a subir, o elevador tocava uma musiquinha lenta bem baixinho, o que me fez perguntar se dançaríamos juntos novamente, só de pensar nisso senti um frio na barriga, me lembrei da energia correndo pelo meu corpo naquela ocasião, dei um sorriso comigo mesma.

— O que foi? – Astro perguntou olhando para mim com curiosidade.

— A música, me lembra do nosso primeiro encontro, da dança.

— Podemos dançar de novo hoje. Você é uma parceira incrível – ele respondeu com um meio sorriso sugestivo.

— Aprendi a dançar com Pietro, ele aprendeu na escola em um projeto cultural que me arrependi não querer fazer, na época eu quis fazer outra coisa e acabou sendo uma chatice. Minha mãe é péssima dançarina, meu pai é razoável, não sei de onde veio esse talento, mas é um de meus hobbies preferidos.

— Ainda bem que trouxe você em uma festa, vai ser divertido.

— O que devo esperar?

— É uma festa para arrecadar fundos, então vai ter um monte de velhos pomposos e hipócritas, cada um deles tentando parecer mais importantes e mais generosos do que realmente são, mas a comida vai ser boa e a música também. E você poderá conhecer os figurões da A.V.A.G., vai ver como eles são super interessantes – ele respondeu com ironia no final.

— Então por que viemos? – respondi rindo.

— Porque eu fui obrigado, mas agradeço por aceitar vir comigo, seria um saco sem você.

— Disponha.

Chegamos ao vigésimo terceiro, saímos do elevador e nos dirigimos a sala onde estava ocorrendo a festa, Astro me ofereceu a mão para entrarmos juntos, a música realmente estava boa, era tocada por um DJ, não conhecia ele, mas era muito bom no que fazia. Havia uma bartender servindo bebidas de diversos tipos, eu a vi misturando ingredientes e preparando drinks de um jeito que era hipnotizante, as mãos dela era tão rápidas e que era quase uma dança, ela e o álcool. Os homens usavam ternos elegantes e pareciam todos muito iguais, com camisas sociais, gravatas, Astro não estava nada parecido com eles, ele estava bem mais jovial, as mulheres usavam todo tipo de vestido elegante de diversas cores e estilos, uma mais linda que a outra, a maioria escolhera algo longo, haviam poucos que eram até os joelhos, muitos deles eram de tons mais escuros, embora um ou outro era de tons neutros ou pasteis. O senhor Mayer passou cumprimentando as pessoas com aperto de mão e abraços, bem mais caloroso do que o dia que o conheci, mas Astro havia dito que ele era mesmo diferente em eventos sociais. Apesar de haver uma pessoa para servir os drinks havia uma torre de champagne em uma mesa, talvez fosse ter um brinde em algum momento, garçons vestidos de branco serviam a comida, uma variação de canapés, sanduiches, bolinhos, espetinhos, queijos, trufas e doces. A senhora Mayer conversava com algumas senhoras e ria, ela usava um vestido vermelho longo com um decote marcado por um colar de pedras muito lindo.

Astro caminhou comigo pela festa me apresentando as pessoas, a maioria delas eu esqueci o nome quase imediatamente, eles falavam um pouco sobre a empresa e Astro respondia com bastante educação, pelo o pouco que eu o conhecia dava para ver que ele não estava muito interessado nesse tipo de assunto, eu não prestava muita atenção, não entendia nada daquilo, decidi apenas sorrir e concordar, ninguém estava prestando muita atenção em mim, depois que eu era apresentada era como se eu nem estivesse mais ali, as vezes um ou outro me dava o mínimo de atenção ou tentava interagir comigo, então eu só dava uma resposta genérica da forma mais simpática que conseguia, estava bem deslocada, mas pelo menos a comida estava boa.

Em algum momento a senhora Mayer veio falar conosco, mas ela não estava sozinha, vinha com duas amigas, uma delas era alta, muito, até mais alta que eu, seus cabelos eram loiros tão claros que chagavam a ser quase prateados, seus olhos eram grandes e bem abertos pareciam um desenho animado, a pele era negra de um tom muito escuro, fazia um contraste muito bonito em relação ao seu cabelo, tudo isso se destacava ainda mais em seu vestido dourado incrivelmente brilhante, a outra tinha cabelos bem curtos e levemente bagunçados ruivos, não era tão alta, o rosto era cheio de sardas, seu vestido era uma mistura de rosa claro e azul bebê, ela também estava lindíssima, eu me sentia na presença de três grandes rainhas.

— Luna, que bom que você veio. Faz muito tempo que você não vai a nossa casa – disse como se chamasse a minha atenção. – Esse vestido ficou incrível em você, ficava lindo no manequim, mas ficou muito melhor no seu corpo. Eu não disse Ângela, que a nova namorada de Astro era uma graça?

Ângela era a mulher de cabelos brancos, ela sorriu pra mim e concordou com Sophia.

— Sim, ela é muito bonita mesmo.

— Eu não sou namorada dele. – corrigi ao mesmo tempo, olhando para Astro com cara de “me tira daqui por favor”.

— Nós ainda estamos nos conhecendo. – Astro também corrigiu a mãe. – Senhoras, com licença, prometi a Luna uma dança.

Nós continuamos pela festa, conheci mais algumas pessoas e comi mais algumas coisas.

— Está gostando? – ele me perguntou em algum momento.

— Estou sim, mas ainda estou esperando a minha dança – respondi.

— Então vamos dançar.

Antes que pudéssemos dar mais um passo a música parou e o senhor Mayer chamou a atenção de todos com uma taça de champagne numa mão e um microfone na outra.

— E lá vamos nós – Astro sussurrou para ninguém. – Vem comigo. – Ele me puxou pela mão e começou a me levar dali.

— Aonde vamos?

— Já ouvi milhares de discursos do meu pai, não preciso de mais um e eu lhe prometi uma dança.

Saímos da festa e pegamos o elevador de novo, mas ao invés de subir como eu imaginei, ele apertou o botão do último andar.

— Lá em cima tem uma vista incrível, você precisa conhecer.

Saímos no último andar, Astro me guiou até uma porta, subimos uma escada meio escondia e chegamos ao terraço, estava tão alto que ventava e fazia um pouco de frio, minha saia balançava um pouco e fiquei como medo dela levantar e acabar mostrando demais, não estava com muita vontade de mostrar a minha calcinha para Astro naquele momento, ainda mais em cima de um prédio no meio da cidade. Mas mesmo com essa preocupação rodando pela minha mente, eu não pude deixar de me distrair com a vista, era mesmo espetacular, minha boca se abriu levemente e devagar caminhei para mais perto da beirada e me apoiei na mureta que nos protegia de cair.

A vista olhando para o horizonte deixava um monte de casas que ainda estavam acesas como pequenos pontos de luz, olhando para baixo estávamos tão alto que tudo parecia de brinquedo, parecia que eu estava vendo uma maquete, algumas casas e prédios pareciam mais perto uns dos outros e eu sabia que não estavam, eu estava admirada, parecia um grande céu estrelado no meio do concreto, era tão inexplicavelmente lindo.

— Não sabia que a cidade podia ser tão linda – comentei sem fôlego.

— Se eu disser algo brega e altamente obvio vai me achar um bobo? – ele me perguntou ao meu lado, abraçando a minha cintura.

Me virei para ele, Astro estava me olhando e não para o horizonte.

— O que quer dizer?

— A vista não é tão linda quanto você.

Ele tinha razão, era tão brega, tão previsível, estava na maioria dos filmes de romance, principalmente os mais antigos, era uma narrativa tão clichê, mas havia um, porém, eu adorava clichês. Minha vida havia se tornado a trama de uma comédia romântica.

— Obrigada. Aliás, eu gosto de coisas bregas. – Eu sorri pra ele.

— Posso ser ainda mais brega? – ele perguntou num tom de voz mais baixo.

Astro se aproximou mais de mim, passou a mão no meu rosto com carinho, tocou minha boca com o polegar. Ele olhava pro meu rosto e eu sabia o que ele queria, o que ele ia fazer, cheguei meu rosto junto ao dele e ele me beijou. Apesar do vento frio que chegava ao prédio, eu não estava fria naquele momento, Astro me beijava e eu sentia calor, ele me puxou para junto de seu corpo e eu fechei os olhos, o envolvi em meus braços, não queria que acabasse, as mãos dele desceram pelas minhas costas enquanto ele me girava para me encostar no parapeito, sem muito esforço ele me puxou pra cima e me sentou na mureta, o envolvi com minhas pernas, os lábios dele passaram para o meu pescoço, ofeguei, passei minhas mãos por dentro de sua roupa, queria sentir a pele com meus dedos.

— Não se preocupe, não vou te deixar cair – ele sussurrou no meu ouvido.

Não tinha me lembrado da altura, ofeguei porque ele estava me enlouquecendo, quando ele mencionou, sem querer olhei para trás automaticamente e engoli em seco, me senti um pouco tonta, tive consciência de onde estava sentada, me agarrei a ele com um grito e praticamente me joguei pra frente em cima dele, por pouco não caímos no chão, por sorte nós estarmos quase na mesma altura, o salto ajudava um pouco, Astro é mais alto que eu, mesmo eu sendo alta, ele estava me segurando com firmeza, meu coração estava acelerado parte por medo, parte por conta do momento.

— Está tudo bem? Você está pálida, mais do que o normal – ele perguntou preocupado.

— A que altura estamos? – perguntei me tremendo inteira.

— Eu não sei quantos metros tem o prédio exatamente. Por quê?

— Nunca mais coloque a minha vida em perigo – respondi zangada saindo de perto dele em direção à saída.

— Você não estava em perigo, estava te segurando – ele começou a se justificar vindo atrás de mim.

— Ainda assim, era perigoso, você podia me soltar sem querer.

Eu estava mesmo com raiva, era alto demais, o que ele tinha na cabeça? Não era como se estivéssemos a dois metros do chão e no máximo o que podia acontecer era quebrar uma perna, eram metros e metros de altura, isso acabou com todo o clima. Ele pegou na minha mão, eu parei olhando para ele.

— Me desculpe, você está certa. Não quis te colocar em risco, foi totalmente irresponsável da minha parte. – Ele parecia bastante sincero, era um pedido de desculpa real, de fato ele se preocupou comigo.

— Melhor voltar pra festa.

— Por favor, não fique com raiva de mim. – Ele parecia sincero.

— Não estou com raiva. – Sorri com sinceridade, não estava mais com raiva, uma vez que estava segura de novo e não dava para ficar com raiva daqueles olhos azuis tão lindos.

Ele me beijou de novo e sorriu, aquele sorriso que sempre me fazia perder a cabeça, eu realmente estava começando a me apaixonar por aquele sorriso, quando Astro sorria o mundo se iluminava e tudo valia a pena, voltei ao meu questionamento de meses antes, é possível se apaixonar por duas pessoas? Eu estava apaixonada e eu soube, eu queria Astro Mayer tanto quanto eu queria Gabriel Chagas e não conseguia decidir qual dos dois queria mais, pior eu sabia que os dois me queriam, mas eu só podia ficar com um deles.

Voltamos para a festa precisei limpar meu rosto sujo de batom, consegui ficar mais apresentável bem a tempo. O Sr. Mayer nos viu entrando, ele não estava com a cara muito boa, ele fez sinal para nos aproximarmos dele, um homem falou algo em seu ouvido, ele deu um sorriso forçado enquanto nos aproximávamos, Astro segurou a minha mão e senti a tensão no aperto dele.

— Luna, que bom voltar a vê-la – ele me cumprimentou com um sorriso social. – Onde vocês estavam? – ele sussurrou irritado para o filho.

— Queria mostrar o prédio para Luna.

— Astro, podemos conversar um pouco, a sós? – Ferdinando continuou com um gesto para o filho.

— Com licença, Luna. Volto logo. – Ele me deu um beijo na bochecha e se afastou com o pai.

Eu achava tão estranho a animosidade com a qual Ferdinando tratava o filho, nas poucas ocasiões que o vi, ele sempre foi tão rude conosco, minha família nunca me tratara assim, em momento algum da minha vida, nem meu pai, nem minha mãe, nem tia Roberta, todos eram tão amáveis comigo e com Pietro, o tempo todo. Me senti desconfortável com aquela situação, será que eu havia colocado Astro em algum problema com o pai de alguma forma?

Eu fiquei sozinha por alguns minutos observando as pessoas, nunca tinha ido em uma festa como aquela, a empresa do meu pai tinha algumas festas, mas ele raramente ia e quando ia nunca podia levar ninguém, era só o pessoal da empresa mesmo. Astro voltou depois de algum tempo e não parecia muito feliz, pelo o contrário, ele parecia bastante nervoso.

— Podemos ir embora? – ele me perguntou ainda com raiva, mas tentando não descontar em mim. – Por favor? – completou, tentando disfarçar a raiva.

— Respire fundo, o que aconteceu? – perguntei preocupada

— Depois. Você quer ficar? Posso te buscar mais tarde, mas eu realmente gostaria de ir.

— Não, eu vou com você – concordei. – Mas você pode me explicar o que houve?

— Depois – ele repetiu.

Saímos sem nos despedir de ninguém, eu não sabia o que aconteceu, o pai dele fez ou falou alguma coisa que o deixou fora de si. Ele me segurava de forma gentil, mas estava quase correndo e sem dizer nada, ainda bem que correr não era um problema pra mim, mesmo de salto alto, só paramos quando chegamos ao carro, ele parou e respirou fundo antes de abrir as portas.

— Quer que eu dirija? – perguntei, ele não estava em condições de dirigir.

Eu quase nunca dirigia porque nós não tínhamos carro, mas meu pai havia feito a mim e meu irmão tirarmos a carteira mesmo assim, não sei como ele conseguiu que fizéssemos o curso pouco antes de atingir a maior idade, meu irmão passou no teste de primeira, eu precisei de três tentativas antes de conseguir, mesmo não sendo a melhor motorista do mundo, naquele momento era mais seguro para nós dois se fosse eu a pegar o volante. Astro não disse nada, apenas pegou as chaves e me entregou. O carro obvio, era o mais moderno que havia, nunca havia dirigido um, era uma baita responsabilidade, se eu batesse aquele carro ia ter que pagar com um rim e provavelmente com setenta e cinco por cento do meu fígado também, mas engoli meu nervosismo e entrei do lado do motorista.

— Posso ligar o rádio? – pedi.

— O motorista controla o carro – ele respondeu tentando parecer mais calmo.

Astro nunca colocava música enquanto dirigia, liguei o som baixinho e comecei a dirigir com calma.

— Pode passar dos 20 km/h, está dirigindo devagar para me irritar? – ele disse depois de uns cinco minutos.

— Desculpe, não dirijo desde o teste de direção e tenho medo de bater, vou aumentar a velocidade. Mas não precisa ser grosso comigo.

— Desculpe, não vai acontecer de novo.

Eu não disse nada, acelerei aos poucos até uma velocidade aceitável, não tinha gostado do tom dele, qualquer coisa que o pai dele havia dito, não era culpa minha e ele não podia descontar em mim, eu ia leva-lo pra casa e ia pegar um ônibus para a minha, ele precisava de tempo para se acalmar. Se ele pelo menos me contasse, eu poderia ajudar.

— Desculpe, de verdade. Não quis magoar você – ele disse depois de um tempo.

— Tudo bem – respondi seca.

— Luna? É sério, não vou fazer isso de novo. A culpa é do meu pai, não sua – continuou em tom mais calmo.

— Quer me contar?

— Melhor não, ele já estragou a minha noite, não quero que estrague a sua.

— Então tá, mas se mudar de ideia eu vou ouvir.

— Obrigado, vou me lembrar disso.

Dirigi até a casa dele e entramos na garagem, saímos do carro e fui me despedir dele com um abraço, mostrar mais uma vez que estava ali por ele.

— Fique, por favor – ele me pediu.

— Está tarde, eu preciso ir embora – respondi.

— Por favor. Você pode dormir em um dos quartos de hospedes, eu levo você ao trabalho amanhã.

— Tudo bem, mas eu acordo cedo – concordei, mesmo sabendo que não tinha me preparado para dormir fora.