— Aline, eu não posso fazer isso! Seria um roubo! – exclamei, chocada.

— O que é isso, Julia. Vovó está morta, nunca publicou nada. Podemos chamar isso de parte da sua herança – ela explicou com uma retorcida forma racional.

— Não sei, não, Aline. Acho isso é muito errado, a história não é minha – falei, tentando me convencer, balançando a cabeça em negativa, mas, no fundo, pensando nessa possibilidade. Aquela história era tão boa, que seria uma pena deixá-la esquecida.

— Olha, Julia! Você mesmo disse que teria que mexer um pouco na história, sendo assim, considere-se como uma coautora. E para aliviar sua culpa, faça uma bela dedicatória a nossa avó no seu livro.

— Você acha que pode dar certo, Aline? – Já comecei a considerar a possibilidade.

— Você vai ter que tentar. Primeiro, digitar todo o material, escolher os nomes dos personagens e, quando tudo estiver pronto, mandar para as editoras para ver se alguém publicará. Nada está certo ainda, mas, pelo menos, já é um começo.

Sorri, cheia de esperança, era meu sonho me tornar uma escritora, aquela história poderia abrir as portas para isso acontecer.

— Mas, Aline, ninguém pode saber sobre esse manuscrito. Será um segredo só nosso. Você não pode contar nem mesmo para a nossa mãe, promete? – pedi de maneira muito séria.

— Eu prometo! — Ela fez o sinal da cruz, apesar de saber que ela não era nada religiosa, mas teria que acreditar nela.

— Por falar na nossa mãe. Ela não veio com você?

— Não, ela ainda está aborrecida com aquela história de eu trabalhar, em Nova York, por um ano.

— Ela só está preocupada com você, Aline. Com medo de você ir morar sozinha, em outro país, por tanto tempo. Sabe como ela é controladora.

— Eu sei, por isso morro de pena do papai. E, ainda, tem aquela história dela não perdoar a vovó por morrer, antes de contar quem era o pai dela.

Para uma psicóloga que tinha um programa de rádio, relativamente famoso, que ajudava aos ouvintes a resolverem seus problemas familiares e amorosos, minha mãe era uma pessoa bastante problemática. Tinha um gênio forte, cheia de opinião, meu pai queria paz, por isso sempre concordava com ela, em quase tudo.

Aline me devolveu o caderno, colocou a mão na cintura, e olhou em volta para analisar o tamanho da bagunça, seus olhos pararam na grande estátua do anjo na entrada.

— Você deveria se livrar disso! – disse, apontando para ela. – Ficaria muito melhor em uma igreja ou em um cemitério.

— Não, posso fazer isso! – afirmei, categórica. – Vovó adorava essa estátua. Ela fica!

— Você é quem sabe. – Ela deu de ombros. — Por onde começamos?

— Pelo quarto. Vamos guardar minhas roupas nos armários – Apontei para algumas malas e caixas no canto da sala. Aline se preparou segurar uma delas, quando a campainha tocou, nós nos entreolhamos.

— Você está esperando por alguém? – Aline me perguntou.

— Não. Será que nossa mãe mudou de ideia e veio ajudar? – questionei, indo até a porta e olhando pelo visor.

— Ah! É o meu vizinho, amigo da vovó, que eu conheci hoje, no elevador. Mora aqui em cima.

— Vovó tinha amigos? – Aline não acreditou naquela informação, pois sabia que não era da natureza da avó ser sociável, mas eu dei de ombros e abria a porta.

— Olá, James. Algum problema?

— Boa tarde, Julia. Não, está tudo bem – Ele parecia meio sem jeito. — Desculpe-me o incomodo. Mas, eu sei como é uma mudança, como ficamos carentes de tudo. Então, eu trouxe um bolo de frutas para o lanche da tarde, se perdoar a minha intromissão.

Fiquei um segundo sem palavras, surpresa pela gentileza.

— Não, claro! Foi muita gentileza sua! Por favor, entre e não repare a bagunça. A gente está começando a arrumar!

— Obrigado. Eu comprei hoje. Era o favorito da sua avó – ele falou, entregando-me o bolo e entrando na sala, olhando discretamente ao redor, até sua visão parar em Aline. Eu já estava acostumada com isso, aquele efeito que minha irmã causava nas pessoas, principalmente, nos homens.

— Ah! Essa é minha irmã Aline. Esse é James, o vizinho daqui de cima.

— Oi! – Aline disse, displicente.

— Muito prazer em conhecê-la, Aline. Você...

— Sim, sou eu mesmo a modelo do outdoor do anúncio de jeans – Aline se apressou a responder, entediada, já acostumada com esse tipo de pergunta.

— Não era isso que eu ia perguntar. Eu queria dizer que você é muito parecida com sua avó, quando ela era jovem. – Ele a corrigiu, Aline o olhou, perplexa.

— O senhor conheceu minha avó quando era jovem? – quis saber, curiosa, pois nunca vimos nenhuma foto da minha avó desta época, ela quase não tinha nenhuma, nem gostava de ser fotografada.

— Sim – ele respondeu, sem dar detalhes, aguçado ainda mais minha curiosidade, pois minha avó nunca falava do seu passado.

— Então, pode ter conhecido nosso avô, o pai de nossa mãe? — interroguei, ansiosa, com a expectativa da resposta da pergunta que pairava, há muito tempo sobre a nossa família.

— Não, infelizmente, eu não o conheci. – Essa resposta me desanimou.

Nesse momento, Uriel, o gato arisco da minha avó, apareceu se esfregando nas pernas de James, que o segurou no colo e o afagou, algo que ele nunca me deixou fazer tão docilmente.

— Olá, como vai, Uriel, seu danadinho? – James falou para o gato, que ronronava, enquanto era acariciado. Aline e eu olhávamos aquela cena com os queixos caídos, até ele colocar Uriel, de novo, no chão.

— Aceita um pedaço de bolo? – perguntei, educadamente, ainda abismada.

— Não, obrigado. Vocês duas têm muito trabalho pela frente. Preciso ir agora – disse, virando-se para a porta, deparou com a estátua do anjo e parou na frente dela. – Vocês vão ficar com ele?

— Sim, pelo menos, por enquanto – afirmei.

— Julia, se por acaso, você quiser vendê-lo, terei o prazer de comprá-lo.

— Claro, se eu quiser vendê-lo, o senhor será o primeiro a saber.

— Por favor, chame-me de James, nada de senhor.

— Claro, James. Boa tarde – despedi-me, abrindo a porta para ele sair, mas antes se virou para Aline e acenou com a cabeça.

— Foi prazer em conhecê-la, Aline. Boa noite – Aline se limitou a dar um adeusinho com a mão.

— Você viu aquilo? – ela falou, rindo, enquanto eu fechava a porta. — Você acha que vovó tinha um namorado?

— Vovó namorando? Imagine só, ela e James, na cama, fazendo sexo selvagem? Dizendo: “Venha, James, possua-me! ” – Brinquei, rindo, com a voz rouca.

— Ai! Que nojo, Julia! Mas, você viu aquele gato, ninguém bota a mão nele e ele ficou todo oferecido para esse tal de James – Aline falava, enquanto tirava o pacote de bolo da minha mão, abria e comia um minúsculo pedaço – Isso é muito bom mesmo! Vovó tinha bom gosto!

— Acabou a hora do recreio, vamos trabalhar, magrela!