A verdade sobre uma pequena mentira
20 Um dos personagens daquela história do passado?
No local onde ocorria o velório, havia muitas coroas de flores de todos os tamanhos e tipos, com dizeres de pesares expostos nelas, ladeando a porta de entrada. Lá, também, havia muitas pessoas reunidas em pequenos grupos, que a maioria conversava respeitosamente em voz baixa, algumas até enxugavam lágrimas furtivas nos cantos dos olhos. A maioria dos presentes era mais idosa, algumas das pessoas pareciam autoridades ou ligadas ao poder, reconheci alguns políticos importantes e outros nem tanto, cercados por seus pequenos séquitos.
Eu e Dario achamos que seria melhor entrarmos separadamente, para evitar algum tipo de comentário, e nos encontraríamos lá dentro, como por mero acaso. Ele foi primeiro, eu o observei receber os pêsames dos presentes, que ele agradecia, com um aperto de mãos, às vezes, recebia um abraço solidário, enquanto caminhava por entre as pessoas, para o interior do local.
Depois de algum tempo, eu o segui, desviando dos desconhecidos que conversavam, sem prestar atenção em mim. Observava os rostos, principalmente, dos mais velhos, ao mesmo tempo que tentava me lembrar das pessoas daquelas fotos antigas, que havia achado na casa da minha avó, imaginando se algumas delas estariam ali agora.
Até que minha atenção foi capturada por um homem idoso, com o rosto bastante desgastado pela vida, os cabelos brancos um tanto desleixados e um bigode amarelado pelo fumo, o corpo curvado e frágil, suas roupas eram muito castigadas e grandes demais para ele. Eu tinha certeza que já o vira antes em algum lugar, que não me recordava naquele momento. O homem, que estava a vários passos à minha frente, parou e olhou para os lados, como se procurasse por alguém, como eu fiz antes e, pelo seu jeito, não me pareceu que encontrou ninguém conhecido. Então, o homem foi até o caixão, onde o morto jazia vestindo com seu solene e antigo uniforme de gala e, quando achou que não era observado, inclinou-se, ficando bem perto o rosto do defunto e fez um discreto movimento da boca, como se cochichasse rápidas palavras, mas eu percebi algo diferente. Então, esperei ele se afastar um pouco e me aproximei do caixão e, sobre o rosto do falecido, vi uma pequena quantidade de líquido claro e espesso, aquilo era saliva, o desconhecido havia cuspido na cara dele, em um claro sinal de ódio e rancor. Seria esse homem um dos personagens daquela história do passado? Por isso, precisa falar com ele, imediatamente.
Virei-me, rapidamente, tentando ver para onde o velho homem tinha ido. Eu o achei já perto da saída, então, querendo alcançá-lo, andei, apressadamente, por entre os grupos, tentando me desviar e dando esbarrões nas pessoas, que me fitavam com cara feia. Finalmente, consegui chegar perto da porta para ver o homem bem longe na rua, pois, apesar de velho e parecer muito debilitado, ele caminhava bastante rápido, inclinando-se para frente, protegendo-se contra os fortes ventos, que anunciavam a tempestade iminente. Ensaiei uma corridinha para tentar me aproximar, mas parei em um encontrão com um homem grande, que me segurou pelos braços, me impedindo de seguir adiante.
— Para onde você vai com tanta pressa, Júlia? – Ouvi e olhei para cima, surpresa. — Não se lembra de mim? Sou Claudio, irmão de Dario.
— Claro! – falei, sem jeito, ainda tentando olhar a rua para encontrar o velho homem. Contudo, ele já havia desaparecido, virando em alguma esquina – Achei que tinha visto um conhecido, mas era um engano – desculpei-me, mentindo.
— Vou levá-la onde está a minha família – Claudio me conduziu até um grupo de pessoas que eu já conhecia, as famílias Ferrer e Hierro estavam juntas conversando.
— Olhem, quem eu achei perdida lá na porta! – Claudio me introduziu, seguindo educadas trocas de cumprimentos e pêsames.
— Onde você estava? – Dario perguntou, em voz baixa, entredentes, assim que conseguiu se aproximar de mim.
— Achei que vi um conhecido, mas foi engano – mantive a mentira.
— Vamos tomar um café – ele falou, em voz baixa, aborrecido.
— Não, quero tomar café com você – sussurrei para ele.
— Então, uma água – Dario me segurou pelo braço e anunciou em voz alta, já me levando dali – Eu e Júlia vamos tomar uma água – e Alex, que conversava com Claudio, me olhou, sem entender, me senti mal por isso, dei um sorrisinho sem graça para ele, enquanto Dario me arrastava para dali.
Quando estávamos longe do grupo, em um pequeno jardim mais afastado, Dario se voltou para mim, encarando-me, aquilo me causou um certo desconforto, senti um arrepio percorreu o meu corpo, eu queria sair daquele lugar e afastar-me dele. O vento ficou mais forte ainda, o ar se tornou mais frio e pesado, a tempestade se anunciava mais próxima.
— Onde você se meteu, Júlia?
— Eu já disse, achei que havia visto um conhecido – insisti, o vento jogava o meu cabelo contra o meu rosto, e eu tentava desvencilhar, inutilmente
— Você está mentindo! – Os olhos deles estavam em fogo.
— Não estou! – Não conseguíamos desviar os olhos um do outro, havia uma energia bem estranha ali entre nós.
— Dario! – Ouvimos alguém chamar seu nome, era o pai dele, Rodrigo – Dario! — Ele se aproximou de nós, com passos largos. – Vão fechar o caixão, o padre fará uma pequena cerimônia. Adiantaremos o sepultamento, por causa da tempestade que se aproxima – ele comunicou e Dario me deu um último olhar, como se aquela conversa ainda não estivesse terminada, e acompanhamos Rodrigo para dentro da capela.
Durante a cerimônia que precedeu o sepultamento, ouvimos vários pequenos discursos sobre o bom pai e marido, competente policial e chefe, que serviu bravamente o interesse dos cidadãos. Todo aquele falatório me corroía por dentro, pois eu sabia a verdade sobre o falecido, um policial corrupto, que havia entregue o verdadeiro pai dos seus filhos para a morte. Já caiam os primeiros grossos pingos de chuva, quando o enterro terminou, aproveitando-me da distração de Dario com as despedidas, afastei-me, sorrateiramente, com a intenção de pegar um táxi e sair dali sozinha. Mas, por causa da chuva forte que caia, os raros táxis que passavam, já estavam ocupados, e eu fiquei, completamente, encharcada, parada e desamparada, na beira da calçada, sem saber o que fazer até que um carro conhecido, parou na minha frente.
— Entre, Júlia! Eu levo você para casa! – Alex falou através da janela aberta.
— Não se preocupe! Eu pego um táxi!
— Aqui e com essa chuva, vai ser impossível. Você está toda molhada, entra logo!
Sem escolha, eu aceitei a carona.
— Vou molhar todo seu carro – desculpei-me ao entrar no carro.
— Não se preocupe com isso. Você não pode ficar parada aqui, no meio do temporal. Por que não esperou por uma carona?
— Não queria incomodar – respondi, sem falar a verdade, Alex sorriu para mim e nós nos calamos.
Ele ligou o aquecedor do carro para me esquentar, pois estava gelada com aquela roupa toda molhada, comecei a me sentir mais confortável. O silêncio só era quebrado pelo som ritmado dos limpadores de para-brisa. Até Alex ligar o som, uma música romântica começou a tocar.
— Está rolando algo entre você e Dario? – ele indagou, em tom sombrio, sem tirar os olhos da rua.
— Não! Claro, que não! O que fez você pensar nisso? – Estava atônita com aquela pergunta, mas, não sei porque, eu tinha um certo sentimento de culpa.
— Pelo jeito que vocês se olham.
— Como assim? Eu nem gosto dele!
— Não? – Sua voz tinha uma certa ironia.
— Eu já disse que não gosto dele – repeti, querendo parecer convincente. — Acho Dario convencido e metido, cheio de si – percebi a o sorriso sarcástico de Alex, tentei mudar de assunto falando da música, que tocava naquele momento, e elogiando a cerimônia do enterro.
Quando paramos na frente do meu prédio e estávamos nos despedindo, levei um susto com batidinhas no vidro ao meu lado. Reconheci através da janela embaçada, a silhueta de James segurando um guarda-chuva.
— O que você está fazendo aqui fora com essa chuva, James? – quis saber, surpresa, depois que abri a janela.
— Fui comprar leite, então eu vi você. Quer uma carona no meu guarda-chuva até o prédio, Júlia?
— Muito obrigada, mas já estou toda molhada mesmo. Ah! Me desculpe! James, este é Alex. Alex, esse é James.
— Alex Hierro?
— Ah! Sim – Alex estava surpreso, pois poucos o conheciam pelo seu sobrenome paterno — Muito prazer! – Alex foi simpático, porém James fechou a cara.
— Venha, Júlia! Eu te dou uma carona no meu guarda-chuva – Foi quase uma ordem, assim só pude me despedi, rapidamente, de Alex.
— Adeus, meu rapaz – James se despediu, seco, enquanto eu saia do carro.
— Você está andando com os descendentes do Velho Hierro e Harom Ferrer, Júlia. Isso não é nada bom para você, garota. Afaste-se deles, o mais rápido possível – James falou, parecendo meio preocupado, segurando o meu braço e protegendo-me com o seu guarda-chuva, enquanto andávamos para a portaria do nosso prédio.
— Mas por que?
— Os avôs deles estavam na folha de pagamento de Tony e prosperaram muito depois que ele foi preso. Então, essa resposta não está no seu livro. Mas eu ando desconfiado de algumas coisas que aconteceram depois que.... – Ele parou hesitante, mas prosseguiu — Por isso que eu estou pesquisando.
— Então, são essas as razões das viagens? Uma pesquisa?
— Sim, mas enquanto não soubermos de nada, tome cuidado com os membros dessas famílias, Júlia.
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