“— Por que tanto ouro, Tomaso? O que pretende fazer com tudo isso? – Clayton perguntou, atônito, diante da pilha de lingotes de ouro maciço dentro de uma grande caixa de madeira, no mesmo galpão, onde ele escondia as mercadorias de contrabando e resolvia suas desavenças. Já era de madrugada, na quase completa escuridão, os dois homens estavam sozinhos ali, iluminados apenas pela fraca luz de uma lanterna, enquanto os vigias aguardavam do lado de fora, atentos a qualquer movimento estranho.

— Acabei de receber esse carregamento – Tomaso revelou, com o seu jeito prepotente. — Você sabe, Clayton, que não confio em banco! O ouro é mais seguro, posso tocá-lo e guardar junto de mim.

— Mas, onde você pretende esconder tanto ouro, Tomaso?

— Na minha casa, na adega de vinho. Há uma parede de tijolos falsos, guardarei ele ali, junto com os livros da contabilidade dos meus negócios, onde estão os nomes de todos que recebem propina de mim. Eles são o meu seguro, minha garantia de liberdade. Por isso, eu preciso da sua ajuda, não posso carregar tudo isso sozinho.

— Mas não é arriscado, esconder tudo isso na sua casa?

— Não, porque só eu e você sabemos disso. Se alguma dessas barras sumir, eu saberei e matarei você, Clayton – Tomaso falou em um tom displicente, encarando o outro homem, que sabia que aquela ameaça era verdadeira.

— Então, por que está me contando, também, sobre os livros, Tomaso?

— Porque confio em você, é quase como um irmão para mim, Clayton – disse, colocando a mão sobre o ombro do outro homem. — Se algum dia, eu for preso, você vai usar isso com as pessoas certas para conseguir a minha liberdade – Era assim que Tomaso agia, demonstrando como a outra pessoa era importante para ele, assim ganhava sua confiança e lealdade.

— Tomaso, e Helena, sua mulher, sabe disso?

— Nem ela pode saber da existência desse ouro ou dos livros, nunca. Não confio em mulheres, principalmente, naquelas traídas. Além disso, tenho outros planos para Helena. – Tomaso declarou, com um sorriso sardônico. – Agora, traga o carro para dentro e ajude-me a carregar tudo isso”

Nunca pensei que minha avó tivesse toda aquela imaginação, apesar de ser uma leitora ávida, sempre me passou a imagem de uma mulher amorosa e religiosa, nunca uma escritora de uma história policial.

“— Como assim matar Helena? Ela é uma boa pessoa, uma esposa dedicada, Tomaso! Nunca lhe deu problemas! – Clayton argumentou, atônito, com a revelação do macabro plano de chefe.

— Anita está grávida, finalmente, vou ter o filho, que Helena nunca pode me dar. Um herdeiro para tudo que eu construir! – Tomaso explica, sem emoção.

— Mas, por que você, simplesmente, não a deixa e se separa dela?

— Porque ela sabe demais sobre todos os meus negócios, e você sabe que uma mulher desprezada é capaz de fazer. Não posso correr esse risco. Por isso, Helena tem que morrer.

— Como você pretende fazer isso? — Clayton indagou, apavorado, com a proposta de Tomaso.

— Tem que parecer um acidente. Meu nome não pode estar envolvido nessa história. Assim, serei apenas o viúvo inconsolável para toda a sociedade. ”

— Atenção! Agora, a história dá uma virada, Uriel – comentei com o gato, minha única companhia constante nesses últimos tempos, que passa boa parte do dia deitado em cima da mesa, ao meu lado. Por isso, havia criado o hábito de narrar trechos do livro para ele, que era um bom ouvinte e nunca me criticava.

“— Helena, você tem que fugir! – Clayton suplicou para esposa do seu chefe, quebrando sua promessa que fizera a ele.

— Por quê, Clayton? – Helena pergunta, sem entender aquela urgência.

— Porque Tomaso quer matá-la! – Clayton explica, aflito.

— Como me matar! Por quê? – Ela arregalou os olhos, assustada, pois sem compreender o motivo de seu marido tê-la condenado à morte.

— Porque Anita está grávida e você sabe demais sobre os negócios deles. Ele tem medo de você, de uma vingança sua, Helena – Clayton revelou o motivo.

— Clayton, se Anita está grávida, não pode ser de Tomaso – Helena replicou, perplexa.

— Como assim? – Clayton pergunta, confuso.

— Tomaso não pode ter filhos, eu sei disso há anos e ele também, por causa de uma doença de infância – Helena revela, tranquilamente, o segredo tão bem guardado. – De quem é esse bebê? Ele é seu, Clayton? –ela indagou e ele não respondeu, confirmando suas suspeitas. — Você e Anita tiveram um caso e ela o usou para ficar grávida. Por isso você está me avisando, porque se sente culpado? – ela o questiona desconfiada, o rosto de Clayton mostra que estava certa. Ele se sentia culpado, pois era o verdadeiro pai do bebê que era causa da sentença de morte de Helena, uma mulher quem sempre admirou.

— Sim, foi apenas uma noite, estamos um pouco bêbados e Anita estava aborrecida com Tomaso e eu me sentia sozinho. Aí, aconteceu – Clayton confessou, com pesar, a Helena — Achei que se Tomaso souber disso, nós estaríamos mortos. Nunca esperaria, que Anita engravidasse e usasse isso para ficar, definitivamente, com ele – Clayton refletiu, irritado.

— Sim, eu sei. Talvez, ela tenha feito de propósito, para enganar Tomaso. Ela achava que tendo um filho, tomaria o meu lugar, se tornando a esposa dele. Entretanto, o que ela não sabia que Tomaso é estéril.

— Então, estamos todos condenados à morte. Tomaso sabe que é mentira, que Anita o traiu, ele vai matá-la, também.

— Talvez, ele saiba que o pai do filho de Anita seja você. No final, Tomaso, acaba sabendo de tudo que acontece a sua volta. Mas, por que você está me contando isso, Clayton? – Helena perguntou, intrigada pela traição de Clayton, um cão fiel de Tomaso

— Porque sempre a amei, Helena, desde do primeiro minuto que a vi. Precisava me esforça muito para me conter, quando via como Tomaso a tratava. Nunca, entendi como uma mulher igual a você está fazendo com um homem como Tomaso.

— Quando eu o conheci, era uma adolescente imatura e tola, acreditava em contos de fada. Achei que Tomaso fosse um príncipe encantador, belo e charmoso, até descobrir que ele na verdade era um monstro, mas já era tarde demais. Eu sei que sou uma mera propriedade para ele, como os seus carros, casas e o relógio de ouro. Um objeto bonito para ser exibido para todos como demonstração do seu poder – Helena respondeu, com tristeza. – Agora, que não sirvo mais, ele quer me descartar.

— Por que, se ele sabe que Anita está mentindo e o filho não é dele? Por que você precisa morrer?

— Não sei ao certo, mas acho que ele quer se casar outra vez, para formar alianças mais fortes com seus colaboradores, por isso eu preciso desaparecer.

— Então, agora, o que faremos, Helena? Já que estamos todos sentenciados a morte – Clayton indagou aflito”

— E agora, o final feliz, Uriel – contava o desenrolar do meu livro para o gato, que me deu seu habitual olhar de superioridade e despeito.

“Naquela noite, Tomaso pressentiu que havia algo errado, já que Clayton havia desaparecido, sem dar nenhum sinal de vida, atrapalhando seu plano. Então, correu para a sua casa e a encontrou estranhamente silenciosa, por isso, foi direto para a adega, tirou uma a uma as garrafas que encobriam à frente da parede falsa, as jogando com força. Elas se espatifam em pequenos pedaços, deixando o chão tingido de vermelho pelo vinho. Em seguida, o mais rápido que conseguiu, ferindo os seus dedos e quebrando as unhas bem cuidadas, Tomaso retirou alguns dos tijolos, olhando aterrorizado para o interior do seu esconderijo secreto. Todo seu ouro e os seus livros de contabilidade haviam sumido. Desesperado, colocou as mãos na cabeça e gritou alto:

— Nãoooo! Eu vou matar todos eles!

Nesse momento, a empregada aparece, sem saber o que estava acontecendo, assustada com a visão do patrão enlouquecido de ódio, de pé, no meio da poça de vinho e garrafas quebradas, como em um mar de sangue.

— Senhor Tomaso, a polícia está aqui, para falar com o senhor – ela anunciou, em voz baixa, temerosa.

Contudo, os policiais não esperaram sua resposta, invadindo a adega bruscamente. O próprio chefe de polícia estava na frente deles, algemando Tomaso, declarou:

— Senhor Tomaso Ferrazzo, está preso pela morte de Helena Ferrazzo.

— Como? – ele pergunta, aturdido.

— As roupas dela foram encontradas sujas com o sangue no porta-malas do seu carro, assim como uma arma recentemente usada e cordas. Um corpo de mulher carbonizado, com a aliança de casamento de Helena Ferrazzo, foi encontrado em um matagal em um terreno de sua propriedade.

— Naquele tempo não havia teste de DNA, Uriel – expliquei para o gato, que não demonstrava nenhum interesse no meu fim empolgante.

— Mas, eu não a matei! — Tomaso olhou direto para o chefe da polícia, esperando que ele falasse algo.

— Senhor Ferrazzo permaneça calado, pois qualquer coisa que diga pode complicar sua situação – O chefe fez uma ameaça velada.

— Mande chamar Clayton e meu advogado – ele ordenou a empregada, boquiaberta, assustada com aquela cena.

— Clayton foi embora com dona Anita – ela informou, inocentemente.

— Vou matar todos eles! Não importa quando tempo eu vou levar, mas eu vou matá-los! Esmagarei a todos como insetos – Tomaso gritou, furioso.

Fim. ”

— E aí, Uriel, gostou? – O gato deu um pequeno miado agudo em resposta – Acho que gostou! – Eu sorri, satisfeita – Agora, vamos mandar para as editoras e ver o que acontece. Mas, antes, vamos comemorar!

Fui até a geladeira e a abri, havia uma garrafa d’agua quase vazia, uma maça murcha e um litro de leite vencido.

— Acho que preciso fazer compras – falei comigo mesma.

Então, fui as compras, mas nunca tinha sido muito boa nisso, e depois de um tempão no supermercado, voltei com ração para o gato, refrigerantes light e um monte de comida congelada.

Com as sacolas na mão, corri para entrar no elevador, cujas as portas se fechavam, e foram impedidas por um conhecido objeto, mais uma vez.

— Obrigada, James – agradeci, ofegante, com um sorriso.

— Não há de quê. Parece que você foi as compras, Julia – ele disse, dando uma espiada para as sacolas nas minhas mãos. – O que é isso?

— Comida congelada – respondi, um tantinho envergonhada, com a expressão de desaprovação dele.

— Acho que você precisa de uma boa refeição caseira. Permita-me convidá-la para jantar em meu apartamento hoje.

— Não, não quero incomodar – tentei recusar.

— Não será incomodo nenhum. Há muito tempo, não tenho ninguém para quem cozinhar. Será uma honra preparar uma refeição decente para você – ele reafirmou, olhando para as minhas sacolas, pensei na possibilidade de uma boa comida caseira e fresca.

— Ok! Aceito seu convite.

— Então, daqui a uma hora no meu apartamento, Julia. Estarei esperando por você.