A verdade sobre uma pequena mentira
17 Farsas e Segredos
A casa da família Ferrer era só um pouco menor do que a dos Hierro, com um estilo menos pretensioso, mas, igualmente, bela e imponente. Lá, também, haviam vários carros estacionados na sua frente, mas a sensação que emanava do lugar era bem diferente, a atmosfera estava pesada e lúgubre.
Uma mulher de meia idade, com uma expressão abatida e infeliz, abriu a porta para nós entrarmos, Alex a cumprimentou com certa formalidade e a apresentou como esposa do falecido, a achei um pouco jovem demais para ele, mas isso não era da minha conta, então, não dei muita atenção. Na sala, olhei em volta, reparando nos rostos das pessoas ali presentes, que falavam em voz baixa em tom soturno, percebi que ninguém ali, teria idade suficiente para ter participado da história de Tony Felix. Tentei encontrar Dario, mas Alex foi mais rápido e o localizou, junto a outros homens que formavam um pequeno grupo que conversava, assim, nós nos dirigimos até eles.
A conversa parou, imediatamente, quando nos aproximamos, percebi que antes mesmo de falar algo, o olhar de surpresa de Dario que dançou, rapidamente, entre mim e Alex, nos analisando. Com certeza, ele notou que Alex vestia a mesma roupa do dia anterior, apesar de estar sem o paletó e a gravata.
— Meus pêsames – Alex se dirigiu ao homem mais velho, depois, me deu um leve empurrão para frente, a fim de me apresentar – Rodrigo, essa é Júlia — depois se dirigiu ao outro homem mais jovem – esse Claudio. E Dario, você já conhece – voltando-se para mim, explicou: – O senhor Rodrigo é o pai e Claudio, irmão de Dario.
— Meus pêsames – repeti, educadamente.
— Obrigado por ter vindo, Júlia. Foi uma perda lastimável para todos nós – Rodrigo respondeu.
— Júlia é a autora do livro sobre a história de Tony Ferrer – Dario me atirou no fogo, tinha um olhar sombrio, devolvi para ele um olhar irado.
— Você é essa Júlia! – Claudio parecia surpreso.
— A senhorita escreveu sobre um momento muito sombrio da minha vida – Rodrigo falou, com uma ponta de magoa.
— Desculpe, mas eu não sabia disso quando escrevi – respondi, timidamente.
— Com certeza, como a senhorita não poderia saber – nossa conversa foi interrompida pela a aparição de uma mulher mais velha com um ar sério, vestida elegantemente com um conjunto preto e com os cabelos grisalhos presos em coque firme, que me salvou daquela situação constrangedora. Reconheci a como a mulher que me foi apresentada na noite anterior.
— Desculpe-me a intromissão. Rodrigo, é sobre a liberação do corpo?
— Já estão providenciando isso, Thereza. Esta é uma das vantagens de ter tanta gente da família trabalhando na polícia.
— Como vai, Alex? – A mulher se dirigiu ao meu acompanhante. – Você? Eu a conheço? – Ela se voltou para mim, erguendo as sobrancelhas com o olhar de interrogação. – É a namorada de Alex?
— Acho que você não a conhece! – Alex correu para esclarecer. – É só uma grande amiga minha, Júlia. Essa é Thereza, irmã de Rodrigo.
Ainda bem, que ninguém mais se referiu ao meu livro naquele momento.
— Fomos apresentadas na festa de ontem – acrescentei.
— Ah! Claro, mas você está diferente hoje, acho que é o cabelo. – Ela me deu um sorriso simpático.
— Desculpe-nos, se não se importam, temos que resolver alguns preparativos para o enterro. Foi um prazer revê-la, Júlia — Rodrigo se despediu, Claudio só deu um leve aceno de cabeça e, juntos com Thereza, se afastaram.
Alex se voltou para o outro homem, que havia ficado calado, quase todo o tempo.
— O que aconteceu, Dario? Ele parecia bem de saúde na festa.
Dario deu um suspiro.
— Depois da festa, eu o trouxe para casa. Ele estava muito agitado, começou a falar sobre fatos antigos, citar nomes e acontecimentos do passado, confundido o tempo. Falou a respeito de Heloisa, Arlete e Tony Felix. Minha tia Thereza tentou acalmá-lo, deu-lhe os medicamentos para dormir, que o médico havia receitado, ficou no quarto até que ele adormeceu. Na manhã seguinte, ela o encontrou morto, o vidro de remédios aberto e caído no chão. Achamos que ele acordou de madrugada, como não conseguia dormir, tomou mais comprimidos e o coração não aguentou – Dario falou com pesar, parecia que ele gostava bastante do avô.
— Lamento muito, Dario! – Lutei para não estender minha mão e tocá-lo, para confortá-lo.
— Minha tia Thereza é quem está pior. Ela se sente culpada, por deixar os remédios ao alcance dele, mas ninguém podia prever que ele fizesse algo parecido. Ela o amava muito, era muito grata por meu avô ter a adotado e ao irmão, depois que o pai deles desapareceu e a mãe morreu. Na época, ela era mais velha, por isso tem mais lembranças do que o meu pai.
Fiquei pensando na ironia daquela situação, os irmãos tinham muita gratidão por terem sido resgatados e adotados pelo mesmo homem, que entregou o pai biológico deles à morte, mas eles desconheciam essa parte da história.
— Vou falar com algumas pessoas. Você vem, Júlia? – Alex perguntou.
— Não prefiro ficar aqui – disse, sem refleti, Alex assentiu com a cabeça e saiu. Ficamos eu e Dario, por algum tempo, sem nos falarmos.
— Vamos nos sentar, Júlia! — falou, subitamente, segurando meu braço se guiando para outra sala, que era menor e estava mais vazia.
Senti um formigamento no lugar em que me tocava, uma sensação estranha, percorreu meu corpo, tive que disfarçar. Sentamos em um sofá, bem próximos quase podíamos nos tocar, até que, finalmente, ele me perguntou, me encarando:
— Você e Alex estão juntos?
— Você já me perguntou isso antes e eu falei que não. Mas, por que todo esse interesse? – respondi com firmeza e sustentei o olhar.
— Por nada, só curiosidade. Você sabe como nós, escritores, podemos ser curiosos. Como gostamos de observando o mundo à nossa volta. Sendo assim, ontem, notei que vocês sumiram da festa e, hoje, aparecem juntos, com ele vestindo as mesmas roupas. Então, supus que vocês dormiram juntos — disse, com cinismo.
— Na verdade, dormimos no mesmo lugar – provoquei, percebi uma sombra nos olhos de Dario – ,ele na sala e eu no quarto do meu apartamento – completei, não entendi porque estava dando toda aquelas explicações para ele, que não tinha nada a ver com a minha vida nem com a minha cama.
— Por quê?
— Porque o quê?
— Por que não transou com Alex, já que o cara é bem bonito e você parece caidinha por ele?
— Espera aí! – retruquei, revoltada com aquela invasão na minha vida íntima. – Eu não tenho que dar satisfação sobre a minha vida sexual para você! Com quem eu transo ou não! – Acho que o meu tom de voz saiu um pouco alto, pois o casal que conversava em voz baixa, um pouco mais distante, olhou para nós, espantado, tentamos disfarçar, quando Alex nos encontrou, enquanto guardava o telefone no bolso da calça.
— Por que vocês dois estão escondidos aqui?
— Eu queria sentar um pouco. Aqui está mais calmo – Alex pareceu satisfeito com a minha resposta.
— Vamos, Júlia! Eu levo você para casa. Dario, precisando de qualquer coisa é só falar – apertaram as mãos, enquanto eu me levantava.
— Até a próxima, Dario.
— Até, Júlia.
Nós nos despedimos, secamente.
Assim, que entramos no carro e Alex deu a partida, não consegui mais resistir.
— A pessoa por quem você está apaixonado é o Dario, não é, Alex?
Ele não me respondeu, continuou olhando para frente, direto para a rua, mas eu vi a resposta no rosto dele.
— Alex, Isso não é vergonha nenhuma!
— Não para minha família, Júlia. Eles nunca admitiriam um filho gay, apaixonado por um amigo da família.
— Você já contou para ele?
— Não! Não poderia. Ele é um hetero convicto. Pelo menos, tenho a amizade dele.
— Já pensou em partir para outra? Conhecer outro cara legal?
— Não haverá outra, ou melhor, outro. Não para um Hierro.
— Então, você se esconde atrás desse amor platônico por Dario, sabendo que nunca será mais do que isso, só para se proteger – Estava morrendo de pena dele.
— Talvez isso seja verdade, Júlia – Alex deu de ombros, com uma expressão triste. – Mas, eu tenho medo de me expor e o nome da minha família. Sou muito cobrado, sabe como é? Não bastava gostar de nadar, tem que ser um campeão. Querem que eu entre na vida política, querem que eu tenha uma esposa e filhos, uma família perfeita, como a dos meus pais, apesar de todas as amantes, que ele já teve e de minha mãe aguentar tudo, calada.
— Isso deve ser dureza!
— Pois é. Por isso ficaram tão animados, quando apareci com você, lá em casa. Acham que estamos namorando.
— Então, deixe eles acharem. Assim, não vão pegar tanto no seu pé.
— Talvez, possa ser uma boa ideia. Obrigado, Júlia. Você é uma boa amiga.
No momento que paramos em frente do meu prédio, Alex estava bastante grato, deu-me um beijo no meu rosto, antes de eu sair do carro.
— Ligue-me quando quiser conversar – disse ao me despedir dele.
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