A trilha, o tesouro de Nicolau VII

18 Cap.18-Aliados incertos


Estava cada vez mais distante de seus amigos... outra vez, só que desta vez era ela a prisioneira e a que precisava de um resgate.

Ainda tinha o arco, as flechas e até mesmo a espada, porém não faziam diferença alguma, pois não conseguia usar nenhuma delas, em todas as suas tentativas o bárbaro conseguiu ser mais rápido e impedi-la a tempo, só lhe restava as próprias forças, mas de nada adiantava, pois o selvagem a segurava com firmeza, mas ainda persistia digladiando-se com todas as forças para finalmente conseguir se libertar.

"Tem de ter alguma forma de eu voltar, tem de ter pelo menos uma"; pensou Micaelle, escapara de uma série de dardos, do veneno de uma flecha e de ser morta por uma serpente, mesmo que ser orgulhosa não fosse de seu feitio, ter sido capturada de forma tão simples e não poder escapar para ela era uma ofensa.

De início pensou que o selvagem desejava a matar, no entanto em uma de suas tentativas, a mais próxima que chegou de empunhar sua espada, o selvagem machucou seu braço com sua espada, quando percebeu o que havia feito imediatamente empunhou a sua arma, o que para ela não fez sentido algum, pois se não desejava a matar, o que afinal iria querer com ela? Por alguns instantes pensou que o selvagem não lhe desejava mal, "não, não se pode confiar em nenhum desses bárbaros, é loucura pensar que eles possam ser amigáveis, nem que sejam pelo menos um deles".

Olhou em volta para ver se havia algo que poderia usar, um galho, pedra, pedaço de terra, qualquer coisa... talvez... talvez... as folhas daquele aventureiro, talvez estivesse alguma escondida... mas para onde quer que observasse, não avistava nada senão folhas de árvores.

"Tem de ter alguma coisa, eles precisam de mim... tem de ter algo que eu possa usar para me livrar desse bárbaro de uma vez..."

Seu desespero aumentou ainda mais quando percebeu que os passos do selvagem estavam diminuindo, curiosa olhou para a frente para ver finalmente para onde estava a levando.

Notou então que era uma clareira, bastante iluminada pelo sol, mas saber daquilo não diminuía seu receio, afinal de contas o local em que seus amigos quase foram devorados era nem de longe o mais escuro, não fazia ideia do que faria com ela naquela clareira, e não estava com nenhuma vontade de descobrir.

Estava ficando com cada vez menos opções... tinha de pensar mais depressa em uma solução.

Quando enfim a oportunidade apareceu, em forma de árvore, uma árvore havia salvo sua vida quando estava prestes a morrer, e novamente uma árvore surgiu para ajuda-la: "com certeza isso não é coincidência"

Estava próxima dela o suficiente para que a caçadora tomasse impulso com os pés e conseguir ir longe o suficiente para que o bárbaro não a alcançasse.

"1, 2... 3!", e assim fez, conseguindo com êxito escapar dos braços do selvagem e correr.

E Micaelle correu... correu com o semblante encoberto de esperança e determinação.

Mas foram curtos momentos de felicidade, pois o selvagem conseguiu a capturar novamente começando a carrega-la pela cintura, Micaelle digladiou-se novamente e gritou por socorro movida pelo desespero.

Quando enfim chegaram a lareira, o selvagem jogou a menina chão a frente.

Micaelle observou atentamente a lareira, aparentemente era um lugar agradável, e muito formoso, com belas árvores enfeitando ao seu redor, não havia caldeirões ou qualquer sinal de que iria se tornar alguma espécie de sacrifício, sentado a sua frente estava um velho homem, que apesar da idade avançada era robusto e forte, sua pele era clara, seus olhos escuros, cabelos e barba grisalhos, cabelos longos e barba curta, vestia uma capa cinzenta com capuz descoberto, colete de couro e camisa de pano branca, usava um cordão com uma pedra de ônix, na sua mão direita usava um cajado de madeira e outra um pedaço de galho ainda com folhas, Micaelle virou-se e ao seu lado viu Marcelo, deitado e de olhos fechados, partes de sua roupa estavam rasgadas e com folhas cobrindo certas partes do corpo.

—_ Tentei cicatrizar seus ferimentos, o garoto está bem, apenas inconsciente__ disse o misterioso velho

—_ Ele já estava inconsciente quando o encontrou?

—_ Não, aparentemente estava os procurando, conseguiu dar conta de si mesmo suficientemente bem, quando o encontrei eu disse que desejava ajuda-lo, mas ele não quis me ouvir dizendo que conseguia se virar muito bem sem a minha ajuda e que não precisava de mim, até que um daqueles a quem chama de bárbaro o fazer desmaiar com uma clava

"Típico do Marcelo recusar qualquer ajuda"; pensou Micaelle, mas sabia que não podia culpa-lo por isso, também não aceitaria facilmente a ajuda de qualquer um que lhe oferecesse a mão, ainda mais vinda de alguém que fazia parte de um povo que dizimou um país inteiro, havia raptado seus amigos e quase os devorado, tinha de tomar cautela com cada palavra, pois estava num verdadeiro campo minado

—_ E por que você estava nos procurando?__ perguntou Micaelle

—_ Uma pergunta em troca de outra, lembre-se que é tão estranha a mim quanto sou pra você, sou Krauser, filho de Gunter e o de meu amigo é Ragnar, filho de Humbert, peço perdão pelo que ele tenha feito a seu braço

—_ Sou Micaelle, filha de Gaspar e de meu amigo é Marcelo, e tudo bem, já levei uma flechada no ombro

Krauser deu pequeno sorriso e disse:

—_Vejo que são bastantes fortes, não é surpresa que estejam dando tanto trabalho ao meu povo, vieram a estas terras esquecidas em busca de aventura ou algo material?

Micaelle hesitou, bastante receosa, porém recordou das palavras vindas do misterioso selvagem: "Uma pergunta em troca de outra".

—_ Material, minha vez, por que estava nos procurando?

Krauser levantou um dedo e disse:

—_ Um momento por favor__ em seguida dirigiu-se a Ragnar na própria língua:__ procure saber como e onde estão as outras crianças e tragam-nas aqui, mas desta vez não lhes façam nenhum arranhão

—_ Não tenho certeza se gosto da forma que trata esses pequenos hereges__ respondeu Ragnar

—_ É tão herege quanto eles caso os outros descubram

—_ Sabe bem a razão de eu estar fazendo isso,__ retrucou Ragnar__ você ainda tem a sua magia para escapar, mas eu não tenho como escapar de uma horda de selvagens apenas com uma espada

—_ Não é a "minha magia", é o poder que o altíssimo Odin deu a mim, e é com este poder que será muito bem recompensado

—_ Espero que eles realmente valham todo esse valor__ e avançou floresta adentro

Krauser deu um suspiro, Micaelle indagou:

—_ O que disse a ele?

—_ Uma pergunta de cada vez, os procurava, porque sou um sacerdote, e um sacerdote tem o dever de servir e obedecer ao seu deus, e não é da vontade de meu deus Odin que sejam sacrificados

—_ Odin muda de decisão muito rápido

—_ Odin já não fala mais com aqueles a quem os capturou, meu povo tem olhos, mas não enxergam, estão tão cegos pela cobiça e sede de sangue que fazem as próprias leis, Odin já não fala mais com eles, eu e minha filha somos os últimos sacerdotes verdadeiros, e os únicos a quem Odin realmente se comunica, tentei várias vezes pregar a palavra de Odin a eles, mas estão tão surdos pelas próprias vontades que não nos escutam__ disse Krauser em um semblante triste e angustiado

"Ele parece falar a verdade, mas nem tudo é o que parece ser"; concluiu Micaelle e disse:

—_ Sinto muito pelo seu povo, mas onde que eu e meus amigos nos envolvemos nisso? Somos hereges pra eles, e sinceramente nenhum de nós acreditamos no seu deus, se quer mais mensageiros procurou as pessoas erradas

Krauser então levantou o cajado rapidamente para a direita, que brilhou na ponta, Micaelle afastou-se para trás amedrontada e pôs as mãos ao arco, "Qualquer sinal de que ele vá atacar..."; o vento soprou mais forte e por alguns instantes Micaelle pensou que nada aconteceria, quando avistou um papel voando suavemente em direção a Krauser, que o pegou de imediato quando chegou próximo o suficiente, "Um papel? Será que...?", indagou Micaelle.

O cajado então deixou de brilhar, e o vento cessou de ser soprado.

Krauser então levantou-se e foi até ela lhe estendendo o papel.

Micaelle o pegou e leu:

"Depois de conseguir chegar outra vez ao país de Nicolau, vi 8 homens encapuzados, construindo o que pareciam ser santuários, basicamente velas negras ao redor de um crânio, talvez fossem informantes, o que significava que talvez pudesse saber onde estava Maria, mas eu não podia tomar o risco de tentar descobrir, na distância em que estavam de mim tentar capturar um deles seria jogar fora tudo o que eu havia feito para tentar sobreviver.

Eu tinha de arrumar alguma forma de chegar ao castelo sem ser visto, logo eu peguei o mapa e o abri, meu objetivo era alcançar o centro do país, e eu estava na saída leste, caso não houvesse nenhum informante poderia tranquilamente ir direto, caso eu fosse pela esquerda, além deles serem mais numerosos por aquele lado, aquele era a rota mais lenta, mas se eu tentasse ir pela direita as chances de eu passar despercebido seriam maiores, além de ser a rota mais rápida, estava decidido, eu dei uma leve olhada para tentar me recordar da rota e o fechei.

E andei me curvando andando o suficiente pra não provocar quase nenhum ruído, o plano parecia estar funcionando, eles realmente não percebiam minha presença, foi quando vi corvos pousando pelas ruínas altas, algo normal ou parecia ser até muitos deles me seguirem com os olhares, um, dois, e depois cinco, oito... não podia permitir que eles denunciassem minha presença, mas como fazer isso sem denunciar minha presença? Caso eu tentasse avançar mais pela direita podia correr o risco de me perder da rota fácil, além de ganhar uma grande exposição, quisera eu ser invisível.

Eu tinha de pensar rápido, meu tempo estava cada vez mais escasso, foi quando ironicamente aqueles corvos me deram uma brilhante ideia, já que eles pousavam nas ruínas mais altas podia despistá-los entre eles, e já que eles me seguiam aquilo também podia me ajudar ainda mais!

E assim eu fiz, ziguezagueei por entre as ruínas e consegui despistá-los com sucesso, e de repente também estava longe do alcance deles, longe do suficiente pra poder correr e fazer o barulho que eu quisesse, então assim eu fiz com uma grande sensação de liberdade.

E logo já estava próximo do castelo, olhei pra trás para conferir se alguém estava me perseguindo, eu vi um pequeno ponto negro ao longe... eu pensei que havia despistado todos eles... mas ele já não era mais uma preocupação, a não ser que usassem aqueles corvos como pombos-correios, não havia como eles informarem minha localização aos outros selvagens, e novamente corri rumo ao castelo amarelo.

Parecia que estava tudo correndo bem, quando exatamente oito corvos começaram a sobrevoar minha cabeça e eles começaram a ficarem cada vez mais próximos de mim e me atacaram, minhas costas, cabeça, pernas, eu não conseguiria chegar ao castelo daquela forma, as bicadas ficavam cada vez mais violentas, eu tinha de espantar logo aqueles demônios negros, tentei espantá-los com os braços, mais aquilo só fez piorar o problema.

Logo eu usei minha jaqueta como proteção para minha cabeça, aquilo havia amenizado a dor, mas não o suficiente para que eu conseguisse alcançar o castelo, foi quando eu vi... uma peitoral e elmo de cavaleiro, alguns passos a minha frente, aquilo com certeza não estava ali por acaso, era um milagre! Se eu conseguisse correr mais um pouco... meus passos estavam diminuindo cada vez mais á medida que as bicadas ficavam cada vez mais fortes, logo eu não resisti e caí no chão... já não aguentava mais aquelas dores... e o cansaço apenas fazia piorar o meu estado... era assim que minha jornada terminaria? Era o que parecia...

Foi quando eu recordei de Maria, não, eu não podia morrer agora, eu tinha de sobreviver, sobreviver por ela... sobreviver para livrá-la daqueles canibais doentes e tê-la de novo nos meus braços, e uma força surgiu dentro de mim, uma força que eu mesmo não sabia ter, e corri até aquelas partes de armaduras como se aquelas bicadas não fizessem sequer cócegas e consegui vestir as armaduras, e corri, corri e aquelas bicadas já não doíam mais, ouvia, mas não sentia mais dor alguma e então... então... eu finalmente alcancei o castelo! Com certeza aqueles corvos não eram normais, por que logo em meio aquelas oito pessoas eu havia sido o único alvo, por que logo eu? Bem, aqui

"Aquele aventureiro... ele sabe"; pensou Micaelle que tirou o olhar do papel e fitou Krauser boquiaberta: "Como ele sabe?"

—_ Disse que o que procuravam era material__ disse-lhe Krauser e continuou:__ este aventureiro também, junto de sua amada, e não havia nada que valesse tanto a pena ao ponto de sair do conforto de seus lares arriscando a vida nestas terras esquecidas, senão um tesouro de um certo rei corrompido por sua ganância, é por isso que estava procurando vocês, porque quero ajuda-los a o encontrar

—_ Queremos as folhas

—_ Uma folha leva a uma trilha, e todas as folhas levam a um só lugar, boa tentativa

—_ Por que quer tanto assim nos ajudar?

—_ Uma pergunta em troca de outra

—_ Para quem quer ajudar, você quer saber coisas demais__ disse uma voz atrás deles

Micaelle virou-se para descobrir o dono daquela voz que parecia tão familiar, era Marcelo que tentava se levantar com muita dificuldade depositando a mão sobre uma das pernas, a caçadora então foi até ele o ajudando a se levantar

—_ Você está bem?__ indagou Micaelle

—_ Não é tão fácil assim derrubar um cavaleiro

—_ Você mal conseguiu se levantar sozinho

—_ Só estava economizando forças

Micaelle não pôde evitar de sorrir, e disse:

—_ Inacreditável, mesmo depois de quase ter morrido várias vezes não mudou nem um pouco

—_ Seu estado de espírito permanece o mesmo, então isso não é de todo ruim__ disse Krauser

—_ Do que você se lembra?__ indagou Micaelle

—_ Deste tal de Krauser, filho de não sei quem, me oferecendo ajuda, lógico que não aceitei, mas ele insistiu ainda mais dizendo que sabia de coisas que eram cruciais para nós conseguirmos sair, que eu deveria dar uma chance pra demonstrar que eu podia confiar nele... e depois de ter levado uma pancada por trás da perna, de ter caído e levado ainda mais surras de algo duro que nem madeira e de ter desmaiado, e acho que ele cuidou de mim, pelo menos é a única forma de explicar essas folhas grudadas em mim

—_ E segundo ele, salvou sua vida naquela aldeia

—_ Eu acho que deve ter sido verdade, minha cabeça ainda dói, mas não tanto quanto antes__ e em seguida dirigiu-se a Krauser estirando as folhas de seu corpo:__ grato por sua ajuda, mas isso não vai mudar o fato de que não aceitaremos a sua ajuda

—_ Entendo perfeitamente__ respondeu Krauser:__ vocês tem toda a liberdade de a qualquer momento voltarem para aquela aldeia junto de seus amigos e enfrentarem mais uma vez uma horda de selvagens até não sentirem mais os braços e terem mais dores de cabeça

—_ Claro, por que se atirar para a morte e aceitar a ajuda de um estranho são coisas completamente diferentes, não é?

—_ Pensei que fosse dotado de sabedoria, pensei, até perceber que mal consegue interpretar uma frase, antes de me interromper, eu tinha dito que vocês tinham a qualquer momento a liberdade de voltarem para aquela aldeia junto de seus amigos e enfrentarem mais uma vez uma horda de selvagens até não sentirem mais os braços e terem mais dores de cabeça, ou escutarem o que posso oferecer, escutar é o mínimo que você pode fazer a pessoa que salvou sua vida

—_ Por que você quer nos ajudar?__ disse Micaelle__ você falou tanto sobre a fé de seu povo, mostrou um relato dos últimos aventureiros, mas ainda não deixou claro o motivo de querer tanto nos ajudar

—_ Uma pergunta em troca de outra

—_ Então é assim que quer conquistar nossa confiança? Não sei como sua cultura age em relação a confiar, mas na nossa com certeza não se conquista desconfiando ainda mais da pessoa que você quer que confie

—_ Preciso que me respondam a uma última pergunta, depois responderei quantas perguntas quiserem fazer a mim

—_ E qual é?

—_ O que procuram?

—_ Como assim? Você já sabe!

—_ Mas quero que digam, pois não posso provar que podem confiar a mim, caso não me deem algo importante para guardar, mas falem baixo, segredos ditos em voz alta é tão perigoso quanto estar à beira de um penhasco

Marcelo e Micaelle entreolharam-se.

"Que Odin esteja com você"; pensou Marcelo sombriamente, e disse:

—_ Quem nos garante que não vai nos matar?

—_ Caso eu quisesse os matar, já o teria feito, você esteve vulnerável enquanto esteve inconsciente, e sua amiga Micaelle foi arrastada até aqui, quando poderia muito bem ter sido morta ou por Ragnar ou por mim, o que impediria? Éramos dois e ela um, mesmo que conseguisse matar um com seu arco-e-flecha ainda teria de lidar com outro em seu encalço

—_ Talvez estivesse esperando que disséssemos isso para ter certeza que podia nos matar pra pegar o mapa e caçar o tesouro junto de seu ajudante

—_ Ragnar se foi, você tem uma espada, e Micaelle um arco-e-flecha e uma espada, enquanto tenho... um cajado de madeira, se sou um assassino, decerto que não sou o mais estratégico__ e sorriu

Um longo silêncio se fez, até enfim Marcelo e Micaelle dizerem junto alto o suficiente para apenas Krauser escutar:

—_ O tesouro de Nicolau VII

Krauser os estudou por um longo instante, e disse:

—_ Aqueles que matarão o escorpião estão porvir, um samurai com o fogo sob a cabeça empunhando a lâmina pálida dos mortos, um paladino vermelho com a espada ágil feito uma formiga e tão rápido quanto as próprias sombras dos homens, um cavaleiro com a mente tão afiada quanto sua espada enfeitiçada, e uma caçadora de bronze com um arco e flecha é tão aterrorizante quanto uma valquíria, acredito que sejam os guerreiros desta profecia, e se realmente o são, caso encontrem o tesouro de Nicolau VII poderão libertar o meu povo da ganância e fazê-los voltar a acreditar em Odin

"Com certeza esse tesouro não é apenas feito de gostosuras ou travessuras"; pensou Micaelle intrigada.

"É tão louco quanto Alexis, como eu pensei"; pensou Marcelo com um sorriso zombeteiro.

Quando surgiu um alguém por entre as folhagens, era... Alexis

"E por falar no diabo..."; pensou Marcelo.

Micaelle ficou surpresa e bastante feliz, ele havia conseguido, "Ele conseguiu cumprir a promessa".

Alexis estava em um misto de confusão, aflição, alívio e dúvida, mas a única coisa que desejava era abraçar Micaelle, e foi o que fez.

Abraçaram-se fortemente, um abraço apertado e carinhoso, que mesmo que fosse um ato silencioso, valia mais do que mil palavras.

—_ Que bom que você tá viva__ disse Alexis sentindo o aroma dos belos cachos castanhos dela

—_ Que bom que cumpriu o que prometeu__ disse Micaelle sentindo-se cada vez mais confortável nos braços dele

Micaelle e Alexis terminaram de se abraçar, Micaelle disse:

—_ Aposto que deve ter muitas perguntas, Alexis, esse é Krauser, filho de Gunter e sacerdote de Odin

—_ Sacerdote de Odin?!__ pensou Alexis com estranheza

—_ Ele... quer ser o nosso novo aliado __ disse Marcelo não omitindo a insatisfação na voz

—_ Espera, um sacerdote do deus que queria nos ver mortos quer nos ajudar a sair daquele lugar?

—_Ele também quer nos ajudar a encontrar o tesouro de Nicolau VII__ disse Marcelo

—_Odin já não fala com aqueles que queriam os matar__ respondeu Krauser__ meu povo está cego pela cobiça e sede de sangue, e eu e minha filha somos os únicos a quem Odin realmente se comunica

—_ E por que Odin está tão interessado em nós? Se Odin fala por você, então me diga por que ele está tão interessado em "hereges" como nós?

—_ Odin os escolheu não pelo que acreditam, mas pelo que são capazes, apenas vocês 4 foram capazes de causar um enorme alvoroço com meu povo, e assim como são capazes de trazer caos, também são capazes de trazer paz, paz ao meu povo caso consigam encontrar o tesouro de Nicolau VII

—_ O quê? E... como sabe que não queremos outra coisa?

—_ Talvez isso te ajude a entender melhor__ disse Micaelle e entregou-lhe o papel

Alexis leu-o atentamente, "Mais uma folha"; pensou ele com um certo ar de felicidade, não pôde evitar de abrir um pequeno sorriso, cada palavra, cada frase... sentia que estava cada vez mais próximo do seu pai, "meu pai com certeza é duro de matar"; concluiu ao terminar e também achou que aqueles corvos não eram normais assim como... os daquele que havia visto na aldeia, todos eles atacando os arqueiros violentamente e praticamente vindo de lugar nenhum, não havia conseguido perguntar se aquela misteriosa sacerdotisa havia sido responsável por aquilo, não enquanto a vida de Tony estava em jogo... "Vá em busca dos seus outros amigos, eu cuido dele"; será que seria sensato ou loucura confiar neste homem também?

—_ Os últimos aventureiros correram em busca do tesouro por uma causa nobre, acredito que a intenção de vocês também seja boa

—_ Você tem mais desses papeis?

—_ Não, mas posso saber aonde muitos deles podem estar

Marcelo havia notado o sorriso de Alexis ao olhar o papel, "Nunca vi ninguém tão feliz ao ver uma carta histórica, parecia até que eram próximos"; mas preferiu ignorar, disse:

—_ Disse que tinha algo a nos oferecer, o que é?

—_Conheço cada palmo desta aldeia, e maior parte desses bárbaros, posso ajuda-los a sair daqui feito sombras

Os olhos dos 3 entreolharam-se esperançosos, mas ao mesmo tempo em dúvida: foram capturados por bárbaros, será que seria sensato confiar a vida também em um bárbaro?

—_ O que você quer em troca?__ disse Micaelle

—_ Já disse qual o meu preço, caso encontrem o tesouro sairei ganhando tanto com vocês

—_ Dividir doces meio a meio pra você e seu povo?

—_ Doces? Não arriscaria minha própria pele por doces, é algo maior... como uma faca pode ser usado para o bem ou para o mal dependendo de seu usuário

—_ Bem que avisei que o tesouro não era doces__ disse Marcelo á Alexis

—_ Mas é bem maior do que isso, e com certeza não é algo normal__ retrucou Alexis

—_ Sim, é algo que não se troca por qualquer quantia de ouro ou pedra preciosa, é maior... __ disse Krauser

—_ O que pode ser maior do que riquezas?__ disse Marcelo

—_ O que não pode ser maior do que riquezas, riquezas não compram amor verdadeiro ou solidariedade

Marcelo não respondeu, com um certo pesar em seus olhos.

—_ A questão não é o tamanho, mas o poder...__ disse Krauser

"Mais poderoso.. o que... como que...?"; pensou Alexis intrigado tentando imaginar o que poderia ser, havia ido aquela viagem em busca de respostas, mas agora havia conseguido ainda mais perguntas: O quanto aquele homem sabia? O quanto omitia? O quanto mentia? O quanto suas palavras eram verdadeiras? E começou a se perguntar: Será que seus pais haviam se encontrado com ele para conhecer até mesmo localização das outras páginas? E se estivessem, o quanto teriam descoberto? Tinha muitas perguntas a fazer a aquele homem, e se ele sabia demais, com certeza era tão perigoso quanto, tinha de prestar muita atenção naquele homem, "E por falar em atenção... Tony", quase que havia se esquecido dele, tinha de saber aonde estava:

—_ Está bem, aceitamos sua ajuda, mas primeiro temos de ir até Tony

—_ Você sabe onde ele está?__ indagou Micaelle

Alexis assentiu positivamente e disse:

—_ Nos encontramos e fomos tentar encontrar você, batalhamos muito e vencemos trabalhando em equipe e até conseguimos um cavalo, parecia tudo ótimo, até sermos derrubados dele por um bárbaro, depois de muito esforço recuperamos o cavalo e cercamos o selvagem, até que... até que... Tony acabou levando uma flechada e quando eu vi tinha uma horda de arqueiros na nossa frente...

—_ O quê? Tony morreu?__ disse Micaelle

—_ Como você conseguiu escapar de um monte de flechas?__ disse Marcelo

—_ Esperem, ainda não acabei, eu estava também em risco de vida de morrer, até que uma mulher salvou nossa vida, me achariam louco se eu dissesse como__ disse Alexis

—_ Não custa tentar, somos uma equipe agora, não podemos guardar segredos uns do outros__ disse Micaelle

"E no entanto eu tenho um monte de coisas que não contei pra vocês"; pensou Alexis, mas disse:

—_ Eu fechei os olhos pensando que ia morrer, até que quando abri tinha um monte de corvos bicando os arqueiros e eles fugindo de um lado para o outro aterrorizados, eu... eu não sei como surgiram aqueles corvos, só sei que de alguma maneira aquela mulher tinha algo a ver com aquilo, e depois ela disse o seu nome, mas eu não me lembro, a não ser que era uma sacerdotisa de Odin, e levei Tony até a barraca dela e ela disse que cuidaria dele enquanto eu fosse procurar vocês...

—_ Claro, um monte de corvos... presumo que a pomba branca da paz também tenha aparecido para mim quando eu estava enfrentando um bárbaro, ou seria um tucano? Não me lembro__ disse Marcelo

—_ Talvez tenha sido seu cérebro__ retrucou Alexis

—_ Ou sua sanidade

Micaelle disse:

—_ Será que podem parar de brigar pelo menos agora? A vida do nosso amigo está em jogo, não sei se esses corvos que surgiram são reais, mas se ela realmente salvou sua vida, eu acho que merece um voto de confiança pra salvar nosso amigo

—_ Como era essa tal sacerdotisa? Poderia descrever?__ disse Krauser

—_ Usava capuz, cabelos pretos e usava um tipo de colar cheio de ossos, eu acho__ respondeu Alexis

Krauser ficou em silêncio refletindo nas palavras dele por instantes, até que disse:

—_ É Gwenda, a minha filha, o garoto está em boas mãos, sabe mais ou menos descrever ao certo onde estão?

—_ Não prestei muita atenção nesse detalhe

Quando Ragnar apareceu.

Alexis empunhou sua espada, mesmo tendo lutado com muitos bárbaros jamais se esqueceria daquele rosto, fora ele... ele que havia raptado Micaelle, não permitiria que acontecesse aquilo outra vez, não enquanto podia fazer algo para impedir.

Ragnar apenas olhou Krauser, que disse:

—_ Abaixe sua arma, não há o que temer, ele está do nosso lado, eu que o mandei raptar Micaelle, mas por uma boa causa, e eu também o mandei procurar vocês para saber como estavam, ele pode saber aonde seu amigo Tony possa estar

Alexis embainhou sua espada, e Krauser disse estendendo o braço:

—_ Deixe que eu cuido a partir daqui__ e aproximou-se de Ragnar disse em seu próprio idioma:__ então? Alguma informação do último aventureiro?

—_ Sim, levou uma flechada direto no coração, Gwenda disse que o estado do garoto é crítico, mas está fazendo o possível pra mudar isso, mas as chances são quase impossíveis

—_ O que ele disse?__ indagou Alexis

—_ Que o estado dele é crítico, quase impossível de se fazer algo

"Não, ele não vai morrer, ele é um samurai de fogo, e um samurai de fogo nunca morre, apenas descansa para ficar mais forte"; pensou Alexis recordando das últimas palavras do amigo antes de... descansar.

Krauser voltou a falar com o homem:

—_ E onde eles estão?

—_ Na Cabana dos Enfermiços, consorte hoje não há tantos doentes assim, o que é raro

Krauser voltou a falar com os aventureiros:

—_ Está na Cabana dos Enfermiços, temos de nos apressar, venham__ e ficou no centro da clareira

—_ Nós... não vamos?__ disse Marcelo

—_ Não precisamos sair daqui para ir até lá

—_ O quê?!__ disseram os três

Ragnar riu.

Os três ficaram ainda mais confusos

Krauser então disse:

—_ Venham, juntem-se a mim

E aproximaram-se um pouco:

—_ Mais perto. Não tenham medo

E assim eles fizeram, junto a Ragnar.

Krauser pôs o cajado no chão a sua frente e segurou com dois braços próximos a ponta e Ragnar segurou com um braço logo abaixo dele

—_Segurem em uma parte do cajado como Ragnar está fazendo

E eles fizeram cada vez mais intrigados:

—_ Agora... apenas aguardem__ deu uma leve pausa e continuou a falar, sussurrando:__ Ex uno loco in allium, minus habet in ictu__ enquanto Krauser proferia aquelas palavras, a ponta do cajado brilhava feito a luz de um vaga-lume, até em questão de segundos... aumentar feito uma estrela englobando todos os 5, e diminuiu com nenhum deles sendo vistos em meio aquela luz, e continuou a diminuir ao ponto da luz desaparecer também, como se a luz estivesse crescido, os devorado e diminuído até se apagar, e aquele espetáculo havia ocorrido de forma muito rápida.

Logo já não existia mais ninguém por aquelas folhagens, nem um som senão o vento sussurrando pelas folhagens, com exceção de... um alguém que havia conseguido engenhosamente infiltrar-se no vazio e no silêncio, um cabeça de cabeleira ruiva saiu por detrás de uma árvore, uma cabeça familiar mesmo estando... diferente, seus olhos eram inconfundíveis, os olhos de um caçador, verdes como as folhagens e vorazes feito corvos famintos, depois da última experiência que teve, Cupido já não era mais o mesmo... sua testa estava demarcada de cicatrizes de garras e bicadas, suas bochechas com profundas e longas marcas de garra, uma pequena parte de sua orelha lhe havia sido arrancada, sua lista de hereges havia aumentado e estava ávido por esvaziá-la e havia escutado o suficiente para fazer isso.

Pegou um objeto negro de sua aljava, uma... cabeça de corvo, fitou-a profundamente e disse:

—_ Seus amigos vão ganhar um belo banquete hoje e Odin nunca se sentirá tão honrado