A traição de Alana

11 A Traição de Alana - 11


Quatro cascudos depois, os meninos estavam no chão. Suas mãos se mexiam freneticamente sobre suas cabeças, enquanto as expressões de seus rostos variavam entre dor e ódio.

— Eu te disse que era uma má ideia. – Clóvis falou para Alec.

O garoto de cabelos loiros nada respondeu. Seus olhos me fitavam com imenso rancor, e isso me fez sorrir maliciosamente para ele.

– O que foi Alec? – Perguntei. – Está com raiva de mim?

— Você me bateu. – Ele disse entredentes. – Como ousa bater em mim?

— Bato em quem mexe nas minhas coisas, e quando quero ver a expressão de ódio na cara de crianças idiotas. – Respondi tentando deixa-lo mais irritado. Para minha felicidade, eu consegui.

Alec praguejou em inglês e grego antigo. Se eu fosse descrever todos seus xingamentos, certamente dariam mais de duas páginas de palavras nada carinhosas contra a minha pessoa. Enquanto Alec xingava, a porta do Chalé se abriu, e Lohane entrou acompanhada de um garoto de cabelos loiros e sorriso fácil: Will Solace. Lohane fitou Alec com uma expressão confusa no rosto.

— Por que tanto palavreado feio, Alec? O que aconteceu? – Ela perguntou para o garoto.

— Essa idiota me bateu. – Alec disse apontando para mim.

— A idiota em questão quase foi roubada por esses dois garotos imbecis – Declarei. Eu olhei nos olhos de Lohane e acrescentei: — Eles estavam mexendo nas minhas coisas.

— É uma tradição do chalé 11. – Disse Alec. – Todo mundo que chega para morar aqui, tem um objeto valioso roubado.

— Isso é mesmo sério? – Perguntei para Lohane. – Que tradição mais ridícula.

— Não chega a ser mesmo uma tradição. – Lohane disse em meio a um suspiro. – É só uma idiotice criada pelos irmãos Stolls há um tempo.

— De qualquer forma, eu não quero ver ninguém mexendo nas minhas coisas. – Disse enquanto examinava meu baú. Até onde eu me lembrava tudo que eu tinha de valor era apenas minhas duas adagas, meu colar de esmeralda e meu outro par de botas em tom marrom novíssimo em folha. Fora isso o baú estava preenchido com roupas que não eram as melhores que eu já tive, mas que davam para se usar no dia a dia. Para a sorte daqueles garotos, tudo estava no lugar, embora os dois idiotas tivessem bagunçado parte de minhas pilhas de roupas.

Fechei o baú, e voltei a fitar os garotos.

— Se ousarem tentar me roubar de novo, eu não terei clemência e ao invés de cascudos, vocês sofreram algo pior. – Eu disse fitando Alec e Clóvis.

— Pode deixar. – Clóvis respondeu assustado. – Se depender de mim, eu fico longe de você.

— É muito sábio da sua parte, meu jovem.

O garoto sorriu timidamente, e saiu do chalé. Alec permaneceu alguns segundos me encarando e por fim se levantou do chão. Ele caminhou até a saída e desapareceu. Suas últimas palavras antes de ir embora foram:

— Eu odeio você, e irei me vingar.

Sorri ao ouvir aquele comentário. Minha vontade era de lhe dar mais um cascudo, sendo que dessa vez eu iria afundar sua cabeça. Prometi que faria isso outra hora.

— Sinto muito por Alec. – Disse Lohane. – Ele é um garoto bastante complicado.

— Na verdade ele é um típico filho de Hermes. – Will disse. O garoto estava tão calado antes, que quase esqueci de sua presença. – Todo filho de Hermes não obedece às regras, e são bem selvagens.

— Isso é mentira. – Lohane protestou – Eu sou filha de Hermes e não desobedeço a nenhuma regra; e tampouco sou uma selvagem.

— Verdade, você é uma exceção. – Will concordou. – E é justamentepor ser uma exceção que você não consegue se divertir. Já tentou ser mais adolescente e menos madura?

— Eu me divirto sim – Lohane disse um pouco irritada. –, E não sou madura. Apenas não vejo graça em roubar coisas dos outros, e muito menos em pregar peças nas pessoas toda hora como meus irmãos semideuses fazem.

– Ou seja... Você é chata. – Will disparou. – Nunca vai conseguir aproveitar as brincadeiras do acampamento assim. Sempre será a ‘’ Mãe do chalé 11’’

Lohane chutou Will na canela, e o garoto praguejou.

— Isso foi desnecessário.

— Me chame de ‘’Mãe do chalé 11’’ de novo, e eu o chutarei em uma parte mais sensível.

— Você não ousaria...

Enquanto os dois ficavam se irritando na minha frente, meu estomago foi invadido por um desconforto que me fez perceber que eu não sabia quando havia feito minha última refeição. Olhei para os dois que ainda se xingavam, e declarei:

— Gente! Sério, eu adoro briga de casais, mas eu estou mais a fim de comer alguma coisa. Já está na hora do jantar não?

Lohane e Will se entreolharam e começaram a rir feito loucos, o que me deixou sem entender nada.

— Qual o problema de vocês? – Questionei.

— Nenhum. – Disse Lohane. – O problema é você achar que eu e Will somos um casal.

— Pois é. – Will confirmou. – Lohane só é minha amiga. Eu já tenho outra pessoa em vista.

— Hum... então você é igual seu pai Apolo, um galanteador de mulheres?

— Talvez. – Disse Will. – Embora a pessoa em questão ainda não me disse se aceita ser somente minha.

— Mas vai dizer. – Disse Lohane. – Tenho certeza que dirá.

— Assim espero.

— Ok, gente. É muito lindo isso. Mas estou com fome. – Eu disse. – Está ou não na hora de comer?

— Sim, está. – Disse Will enquanto olhava para a janela. – Foi exatamente por isso que eu vim. Queria te levar até o refeitório.

— Pois então vamos. – Disse saindo do chalé. – Estou morrendo de fome, e quero e muito conhecer os outros semideuses.

Principalmente uma certa filha de Hécate, disse para mim mesmo.