A solidão encontra companhia
13 Capítulo XIII
— Emma tá dando em cima de você. — Rafaela disse sem demonstrar nenhum sentimento em seu rosto, mas por dentro ela estava incomodada com a situação. Já vira Emma dando em cima de outras mulheres perto dela depois que se separaram, mas nunca sentira o incômodo que estava sentindo no momento. A médica havia acabado de trazer outra caipirinha para a estagiária e dado mais um sorriso que Rafaela conhecia bem, enquanto a chef tinha que se esforçar para um garçom encher novamente sua taça de vinho.
— Deve ser pra provocar você. — Lara disse dando de ombros, sentindo que estava ficando tonta com a terceira caipirinha, mesmo um pouco alta sabia que a possibilidade de uma mulher como Emma dar em cima dela era quase nula.
— Não, ela está dando em cima de você. Emma faz seu tipo? — Rafaela perguntou e Lara percebeu que ela também estava um pouco bêbada pela pergunta.
— Ela não faz o tipo de alguém? — Lara devolveu a pergunta rindo. — Igual você, eu não imagino ninguém te dizendo não. — falou e se arrependeu logo em seguida,
Rafaela olhou para Lara sorrindo, ela ainda estava encantada pela loira, suas curvas, o seu decote aparecendo. Ambas se encaravam e por um instante a chef pareceu notar um interesse da estagiária por ela também, mas logo desviou o olhar ao pensar no problema gigante que qualquer envolvimento com alguém tão próxima lhe traria.
— Então você ficaria com ela. — Rafaela falou rindo, ignorando o que Lara falou sobre si.
— Gente, eu tô cansada. — Emma apareceu do nada puxando uma cadeira da mesa ao lado e se juntando as duas. — Vamos dançar depois? — perguntou e Rafaela revirou os olhos pelo jeito espalhafatoso da ex namorada.
— Sim. — Lara respondeu e Emma pediu um brinde entre a caipirinha de ambas. Rafaela estava sentindo que sua presença estava atrapalhando o clima entre as duas e se mexia desconfortavelmente na cadeira. — Você gosta de dançar? — perguntou em direção a sua chefe.
— Sim, mas vão vocês duas, eu fico por aqui por enquanto. — disse e Emma riu imaginando que Rafaela queria que Lara ficasse sozinha com ela.
— Então vamos. — deu as mãos para Lara que olhou uma última vez para sua chefe e seguiu a médica.
Rafaela da mesa conseguia ver a pista de dança lotada por adolescentes, mas via também Emma dançando sensualmente enquanto Lara se encaixava em seu ritmo, Rafaela desviou o olhar irritada e ficou mexendo no celular até perceber a aproximação de Nina.
— Minha irmã roubou sua acompanhante? — perguntou sentando onde Emma havia sentado anteriormente. Rafaela olhou novamente para a direção das duas e viu que elas dançavam cada vez mais sensualmente.
— Parece que sim, né? — Rafaela forçou um sorriso.
— Saudade de você. — Nina disse de repente. — Emma tem saído com tantas mulheres, mas eu vejo que o que havia entre vocês era verdadeiro. — falou e Rafaela sabia como a família de Emma se sentia com relação a elas.
— Era sim, mas não era pra ser. — Rafaela disse como se lamentasse.
— Eu vou ajudar a entregar os brindes para as pessoas que já estão indo. — Nina disse e Rafaela assentiu procurando novamente pelas duas na pista e não as achando, imaginando que ambas tinham ido atrás de bebida, quando alguns minutos se passaram e Lara apareceu sozinha na mesa sem batom.
— Pensei que você dançaria conosco. — disse se sentando.
— Onde está Emma? — Rafaela perguntou e não deixou de notar a felicidade que Lara aparentava estar.
— Acho que foi comer, não sei. — Lara disse nervosa e Rafaela ficou desconfiada.
A chef estava certa em desconfiar, visto que enquanto conversava com Nina, Lara e Emma foram até o banheiro e se beijaram de forma calorosa, contudo, Lara interrompeu o beijo e inventou a desculpa de que seu celular havia ficado com Rafaela para voltar até a mesa. A estagiária não queria ter beijado Emma, não queria se envolver em uma confusão de sentimentos e era exatamente isso que pensava ter evitado ao sair do banheiro antes que acontecesse algo a mais ou alguma coisa fosse marcada.
— Você não acha que deveria parar de beber? — Rafaela perguntou vendo Lara pegar a sexta caipirinha.
— Não. — Lara disse e Rafaela revirou os olhos. — Eu acho que se você soubesse o quanto fica linda revirando os olhos não faria mais isso. — a loira falou para uma morena em choque. Rafaela não acreditava que a mais nova estava flertando com ela.
— A bebida tá batendo. — Rafaela disse rindo. — Se eu fosse você repensaria sobre continuar bebendo.
Lara concordou, mas continuou bebendo. Não queria revelar seus sentimentos por estar bêbada e conhecia seu próprio limite para não chegar ao ponto de fazer isso.
Rafaela percebeu que algo perturbava Lara e, por isso, a estagiária estava bebendo álcool como se fosse água. Quando Rafaela viu a estagiária terminar a décima caipirinha anunciou que já queria ir e Lara concordou. A loira estava cambaleante quando se levantou, Rafaela se despediu de todos e por último foi até Emma que conversava com alguma mulher desconhecida.
— Nós já vamos. — disse e Emma se levantou abraçando a ex namorada e agradecendo pela presença.
— Traz a loira mais vezes. — falou piscando e gargalhando, indo dar um beijo no rosto de Lara. — Foi uma delícia te conhecer, espero que um dia a gente termine o que começamos. — falou sussurrando no ouvido da mais nova sem esperar uma resposta. Lara soltou um inevitável sorriso malicioso assim que ouviu o que Emma disse, fato que não passou despercebido por Rafaela.
Lara estava cambaleante e quase tropeça diversas vezes no caminho até o carro, todas elas sendo amparada por Rafaela.
— Vamos para sua casa. — a chef disse e Lara assentiu.
Assim que chegaram a residência Rafaela ajudou Lara a sair do carro, percebendo que a loira não teria condições de subir a escada de poucos degraus da porta, trancando o carro e indo com ela até a escada. Assim que a estagiária abriu a porta, Rafaela percebeu que havia uma outra escada que levava aos cômodos de cima da casa.
— Não me diz que seu quarto fica no segundo andar? — Rafaela perguntou e Lara assentiu rindo desorientada. — Ai céus. Olha, eu vou te levar no quarto então. — falou já trancando a porta da sala da casa de Lara. — Depois eu volto, saio, tranco tudo e jogo a chave pela janela, tá? — perguntou, mas Lara não entendia nada.
Assim que as duas, depois de muito esforço, chegaram até o quarto de Lara, Rafaela separou, com a indicação da bêbada, coisas para que ela tomasse um banho. Enquanto a loira estava no banheiro, Rafaela analisou o quarto dela. Era relativamente simples, com uma cama de casal, uma mesa de estudos e vários nichos com muitos livros, a grande maioria eram de culinária. Rafaela percebeu o quão dedicada era sua estagiária. Além dos livros, havia um varal com fotos de pessoas importantes, Rafaela viu a família de Lara e amigos possivelmente.
— Eu odeio chuva, eu odeio trovão, eu odeio raios e relâmpagos. — Lara surgiu um pouco mais sóbria só de toalha toda molhada se tremendo e chorando. Rafaela estava tão absorta em pensamentos que nem percebera a tempestade que caía lá fora.
— Ei, calma, não vai acontecer nada. — Rafaela disse olhando para a perna de Lara, mas rapidamente se concentrando novamente em acalmá-la. — Por que não se veste e deita? — Rafaela disse estendendo a roupa que Lara havia separado para dormir minutos atrás. A loira retornou ao banheiro e voltou vestida com seu pijama, uma calça de moletom e uma regata preta que a deixava extremamente sexy na opinião da chef.
— AHHHHHH. — Lara gritou pulando na cama assim que um trovão violento soou. Rafaela estava achando a situação engraçada, mas conseguiu não rir e foi em direção a estagiária se sentando ao seu lado na cama.
— Calma, Lara, você está bem, está em casa, segura, nada vai acontecer, ok? — Rafaela perguntou e Lara assentiu tremendo.
— Tira essa roupa, você deve estar desconfortável. — a estagiária disse se referindo ao vestido da chef.
— Não precisa, eu só vou esperar passar um pouco e vou pra casa.
— Você não vai. Não vai me deixar sozinha e não vai dirigir nessa chuva. — falou se levantando e pegando uma toalha, uma camiseta larga e uma calça moletom que imaginava que daria na chef. — Vai tomar um banho.
— E se der outro raio? — Rafaela perguntou rindo e os olhos de Lara se encheram de lágrimas. — Que fofa, você. Não vai dar. Eu vou tentar ser o mais rápida que conseguir.
Assim que Rafaela terminou seu banho encontrou Lara toda coberta com medo e achou a cena uma das coisas mais fofas que já havia visto. Em contrapartida, Lara não sabia se ficava atenta a tempestade ou na mulher que surgira na sua frente e dormiria em sua cama.
— Deita aqui comigo. — falou chamando a chefe. Rafaela deitou ao lado de Lara e se cobriu com o lençol que a primeira havia separado para ela. — Qualquer coisa você pode... — Lara foi interrompida por um trovão extremamente violento que fez a loira agarrar o pescoço da morena forte.
A chef não estava preparada para aquela aproximação abrupta, mal notou suas mãos na cintura da estagiária, mas percebeu o calor que emanava do corpo dela. Para Lara, a mão em sua cintura não passara despercebida, a loira ainda sob efeito da bebida alcoólica fez com que o momento durasse mais que o necessário, acariciando o pescoço de Rafaela.
— Lara. — Rafaela chamou de olhos fechados. — Acho melhor você voltar pro seu lado da cama. — a chef falou em meio a um suspiro e um sorriso, achando extremamente agradável o corpo da loira praticamente em cima do seu.
Lara foi para o seu lado da cama, mas continuou fitando os olhos verdes, a estagiária sabia que ambas haviam sentido naqueles segundos o mesmo sentimento, queria ter tido coragem de continuar, mas tinha medo das consequências. Rafaela fitava os olhos castanhos da estagiária e depois olhou para sua boca. Lara acreditava que ela deveria ter beijado a chef nesse momento, mas logo Rafaela murmurou algo sobre a chuva ainda estar muito forte, quebrando qualquer clima.
Rafaela deitou reflexiva sobre o que tinha acabado de acontecer. Queria beijar sua estagiária e isso era inegável, mas havia algo mais acontecendo dentro dela. O fato de ter ficado incomodada quando viu Emma dando em cima de Lara, tinha muito mais a ver com a segunda do que com a primeira, era o que a chef começava a perceber e se esforçava ao máximo para afastar aquele sentimento de si.
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