A solidão encontra companhia
11 Capítulo XI
Um mês aproximadamente havia se passado e Lara conseguiu admitir para si mesma o que estava sentindo pela chef de cozinha. O convívio entre ambas nada mudara, era bastante profissional com uma irreverência que a própria rotina trazia. Rafaela não percebia os sentimentos da estagiária até porque estava encantada pela forma como Lara cozinhava e não pela pessoa em si, pelo menos pensava assim.
A brilhante chef percebera logo nas primeiras semanas que Lara estudava bastante, sempre trazendo ideias novas e novas técnicas que facilitaram o serviço de toda a equipe. Além disso, apesar de ser especialista em massas, ela era bastante adaptável a qualquer outra bancada que estivesse desfalcada em algum dia. A estagiária havia se mudado para mais próximo do restaurante e da universidade e estava quase adaptada a esconder seus sentimentos, exceto em situações que fugiam de seu controle.
Naquele dia, Rafaela havia chegado mais cedo e Lara já estava com seu uniforme de cozinha, cumprimentou Francisco e a estagiária.
— Rafinha, tivemos um reserva hoje importante. — Francisco disse entrando no escritório praticamente junto com a chef. — Devo informá-la que é alguém especial. — disse erguendo para chef a lista de reservas.
Rafaela pegou sem muito interesse, murmurou um agradecimento e jogou a ficha em sua mesa. Imaginava que fosse algum jornalista, que facilmente seria driblado pela chef que sempre mandava Juán recebê-los em seu lugar.
A jovem fez um café, guardou recibos da noite anterior, viu a lista de fornecedores que queriam fechar negócio para só então olhar para as reservas. Para sua surpresa, na mesma mesa que sempre gostara de comer o nome de sua ex namorada aparecia nítido para aquele dia. Imediatamente, Rafaela ficou tensa e saiu de sua sala, pois precisava se movimentar. Entregou a lista de volta para Francisco e foi até os fundos do restaurante, verificou seu celular para ver se havia alguma mensagem de Emma, mas não havia em nenhuma rede social. Ainda nervosa sentiu a presença de alguém consigo.
— Tá tudo bem? — Lara perguntou e Rafaela se virou para ela. — Você está nervosa.
— Tudo ótimo. Só contratempos normais. — Rafaela disse forçando um sorriso. — Juán já chegou?
— Já sim, está conversando com Bruno no salão. — Lara disse e Rafaela assentiu entrando novamente no restaurante.
— Seria meu sonho se ele tivesse faltado hoje. — Lara ouviu quando sua chefe resmungou passando por ela, mas não questionou.
O dia de trabalho começou normal, Rafaela, contudo, estava nervosa pela reserva feita para as 13h por sua ex namorada. Ela sempre saía do hospital tarde e por isso a reserva fora feita aquele horário. Emma nunca saíra de fato da vida de Rafaela, de vez em quando ainda a visitava, o que trazia sentimentos não muito bons para chef de cozinha, que ainda era afetada pela médica.
— Chef, a reserva chegou. — Francisco entrou na cozinha anunciando e Rafaela assentiu.
— A reserva tem nome e sobrenome, chef. — Emma surgiu com um imenso sorriso segundos após Francisco, quase atropelando o pobre senhor.
— Você não deveria estar aqui. É uma área reservada. — Francisco disse irritado indicando a porta para a bela morena de cabelos pretos como óleo que surgira na cozinha.
— Deixa. — Rafaela disse e Francisco saiu da cozinha.
Toda a equipe conhecia aquela mulher que surgira feito um ciclone na cozinha, exceto os dois novos estagiários, e todos gostavam muito dela. Juán sorriu largo e abraçou Emma como se há muito tempo não a visse, o que era uma realidade. Os outros funcionários cumprimentaram e trocaram algumas cordialidades com a médica, mas a única pessoa que realmente importava para a morena era a chef de olhos verdes que lhe fitava com seriedade.
Lara entendera das conversas trocadas que aquela estonteante que acabara de entrar na cozinha era a ex namorada de Rafaela. Sentiu o peso de todas suas inseguranças lhe consumindo. A estagiária se sentia o oposto de Emma, sem confiança nenhuma, apenas uma menina, que Rafaela jamais olharia com outras intenções se não profissionais.
— Oi. — Emma disse baixo, mas todos da pequena cozinha podiam ouvi-las. — Almoça comigo?
— Perdeu meu número? — Rafaela perguntou tentando ignorar seu nervosismo.
— Não, mas achei que fosse legal fazer uma surpresa. — a médica falou rindo. — Eu quero um steak tartare com trufas negras. — Rafaela olhou para Vanessa que assentiu rindo.
— Vamos ao salão. — Rafaela disse tirando sua touca.
— Prefiro no seu escritório. — Emma disse com um sorriso malicioso que fez Rafaela engolir em seco. Todos na cozinha estavam atentos e perceberam a malícia com que Emma tentava a chef.
Sem dizer nada, Rafaela foi até seu escritório e fechou a porta assim que sua ex namorada entrou. Na cozinha, Juán imediatamente foi ouvir atrás da porta enquanto toda a equipe ria, exceto Lara, que sentia uma dor no peito, sabendo que não se tratava de nada errado fisicamente.
— O que você quer? — Rafaela perguntou e Emma fitou a boca da mulher, deixando claro o que queria. — Emma, por favor, estou trabalhando.
— Não disse nada. Eu vim só te chamar para os 15 anos da Nina. — disse, por fim, se sentando na cadeira que geralmente era ocupada por Rafaela. — Ela tá muito ocupada ensaiando coreografias e me pediu pra te entregar.
Apesar do término do namoro, Rafaela jamais havia se distanciado da família de Emma, principalmente, porque eles a acolheram em Fortaleza, a tratando como se fosse da própria família e, por isso, conhecera Nina quando esta tinha 10 anos.
— Obrigada. — falou pegando o convite e guardando em sua bolsa, se sentando em seguida na cadeira ao lado oposto em que costumava sentar.
— Leva alguém, tem duas pulseiras, eu não sei se seria uma boa ideia ir sozinha. Minha família é louca pelo nosso casamento. — falou sorrindo e novamente olhando para a boca de Rafaela.
— Você não consegue se controlar? — Rafaela perguntou exasperada.
— Sinceramente? — Emma perguntou se levantando e seguindo lentamente até o colo de Rafaela. — Não. — respondeu afastando o cabelo da chef e beijando o cangote dela, sentindo seu familiar cheiro, que suspirou pegando na cintura de Emma. — Você não resiste a mim também. — Emma disse sorrindo contra a pele do pescoço da chef. Rafaela puxou a médica para um beijo que sempre se fazia necessário entre ambas. Elas continuaram se beijando até ouvirem uma batida na porta. Após a médica se alinhar e sentar novamente em sua cadeira, Rafaela autorizou a entrada dos pratos que haviam pedido.
Ambas se atualizaram sobre suas vidas, já que não se viam havia meses. Rafaela recebeu com felicidade a notícia de que Emma havia passado na residência para neurocirurgia e já havia iniciado o trabalho. Enquanto a médica ficara feliz em saber como Rafaela havia sido a mais jovem chef de cozinha a ter cinco cardápios assinados com seu nome.
Enquanto isso na cozinha, Juán não conseguia ouvir nada por detrás da porta, mas continuava plantado lá. Lara ainda estava abismada com a mulher maravilhosa que era a ex namorada de Rafaela e continuava com o aperto no peito que sentira antes delas entrarem no escritório, sentindo que não era nada comparada a ela.
[...]
— Eu adorei te ver. — Emma disse dentro do escritório. — Eu sempre fico mal depois que te vejo. Vem uma nostalgia, uma saudade. Eu te odeio por esse teu jeito. — disse, por fim, beirando as lágrimas nos olhos.
— Também fico. — Rafaela admitiu se levantando e indo dar um selinho em Emma. — Você é maravilhosa. — quando ia se afastar, Emma a puxou e deu um beijo lento e cheio de carinho na chef.
— Essa sensação é horrível. — Emma disse. — Parece que a gente tinha tudo pra dar certo e eu queria muito pagar pra ver. — suspirou e pegou sua bolsa e levantou indo até a porta.
No mesmo momento que ouviu a fechadura, Juán correu para sua bancada e ficou olhando para o que Lara estava fazendo, tentando disfarçar.
— Gente, eu já vou. — Emma anunciou e olhou com curiosidade para Lara. — Oi, você é nova. — falou indo até a estagiária.
— S-i-i-m. — Lara gaguejou nervosa, tentando dar um leve sorriso. — Sou Lara.
— É um prazer. Sou Emma, ex primeira-dama do restaurante. — Emma disse sorrindo, arrancando uma gargalhada de Rafaela e olhando em seguida para Bruno. — Muitos rostos novos, mas eu já tenho que ir.
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