A sereia de Cerulean
4 Amor
Três dias haviam se passado desde que eles chegaram a Cerulean. Ash e Misty estavam cada vez mais próximos e passavam horas juntos. O garoto ajudava a ruiva nos ensaios e com a parte técnica. Às vezes assistia a algumas cenas e tinha de suportar as demonstrações de afeto entre Victória e Victor. Era constrangedor ver os dois se beijando ao lado de Misty.
– Que coisa, né? – ela dissera uma vez.
– Podíamos fazer o mesmo. – ele sugeriu sem pensar.
– O quê? – ela ficou surpresa.
– Hahahaha! Até parece! – ele respondeu, nervoso.
Estava tudo indo muito bem, apesar de tudo. Por isso, Brock estranhou imensamente quando viu Dawn chorando sozinha na sala do chá naquela terceira noite. Ele tinha acabado de alimentar os pokémons do ginásio. O jantar também já estava pronto. Enquanto Victor e Victória jantavam juntos de frente para a televisão da sala de cinema, e Ash e Misty jantavam na cozinha mesmo enquanto ensaiavam algumas falas, Brock foi atrás de Dawn. Encontrou-a aos prantos, Piplup a seu lado.
– Dawn, querida, o que foi? – ele tocou de leve o seu ombro.
– Ah, Brock... – ela se sentou no mesmo instante e tentou limpar as lágrimas dos olhos – É que dói tanto.
– O quê?
– Ver os dois juntos...
– Victor e Victória?
– Não... – ela suspirou – Ash e Misty.
– Ah... – ele murmurou.
– Eu gosto tanto do Ash, tanto. Queria ele só para mim. Queria sua atenção todinha para mim. E agora... – ela fitou o amigo – Parece até que ele me esqueceu.
– Ah, Dawn... – Brock a abraçou e deixou que ela encostasse a cabeça em seu ombro enquanto as lágrimas escorriam – O amor é assim mesmo.
– Você sabe, não é? – ela fungou, mas não estava mais preocupada com a aparência, pois sentia que Brock era a chave para entender seus sentimentos.
– Sei o quê?
Ela inspirou fundo antes de continuar. Sabia que o que estava para dizer desarmaria seu amigo.
– Você a ama.
A reação foi exatamente a que ela esperava.
– O quê? Que história é essa, Dawn? – ele tentou sorrir.
– Ela não é a enfermeira Joy... – ela conseguiu dar um pequeno sorriso – Mas você quer uma “chansey”.
A expressão alegre do garoto se desmanchou aos poucos. Foi a vez dele de suspirar.
– O amor é assim mesmo, Dawn. Você se apaixona, quebra a cara, mas supera.
– Como superou o lance com a Misty? Aliás, com aconteceu?
– Sabe, depois que você para de se importar de ter uma garota puxando sua orelha, ela até que se torna atraente.
– Brock! – ela riu.
– É sério. Eu nunca prestei muita atenção nela. Até que um dia ela resolveu brincar comigo e beliscou minha bochecha. E eu me apaixonei. Simples assim.
– Hum... No meu caso, foi em um dia, na floresta. Era hora do café. Você preparou uma sopa e serviu. O Ash pegou o prato dele e sorriu para mim. E aí...
– Piplup!
– E aí, amor. – filosofou Brock.
– E aí, amor. – ela concordou.
– O engraçado é que, quando eu percebi que ela ama o Ash, não fiquei bravo. Ok, fiquei um pouco. Afinal, ele é imaturo demais, não é? Mas ele é sincero. E é uma boa pessoa. Quando amadurecer, será o homem perfeito. – Brock suspirou – E eu acredito que a Misty seja capaz de fazê-lo amadurecer.
Dawn ficou parada por alguns instantes. As últimas lágrimas deslizaram suavemente por seu rosto.
– Que lindo, Brock.
Ele deu de ombros.
– Obrigado.
O garoto ficou de pé e ajeitou o jeans. Virou-se para Dawn.
– Sabe, acho que você devia ficar feliz. Não está perdendo um amigo, mas sim ganhando uma amiga maravilhosa.
– A Misty, não é?
– A Misty.
– Mas dói? – ela perguntou.
– Um pouco. Mas o Ash faz a Misty feliz. E é isso que importa.
Ele abriu um sorriso e saiu da sala, tão silenciosamente quanto entrara. Dawn abaixou a cabeça e olhou Piplup.
– Preciso ver uma pessoa. – disse por fim.
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