A seleção

11 Revelação


Antes mesmo de abrir os olhos, ele sabia que havia algo de errado. Algo faltando. Sentiu um vazio, um medo do que encontraria — aliás, do que não veria em seus braços.

Dela, só havia ficado o cheiro em seu travesseiro, e agradecia por isso, caso contrário poderia pensar que sua sanidade se fora.

Se vestiu rapidamente e foi bater na porta da ruiva, sem sequer se preocupar em ser discreto.

— Mas o que está acontecendo, a casa está caindo?

Caio abrira a porta ao lado. Aparentemente, não tinha ninguém no quarto das moças.

Desceu as escadas sem responder, procurando alguém que pudesse indagar. Encontrou dona Marisa.

— A Gina, onde ela está?

— O fio... Ela saiu faz nem 10 minutos com o meu marido, a Juliana e o Marcos pra pegar o avião...

Ferdinando não podia acreditar. Ele achava que a noite anterior tinha sido uma reconciliação, mas tinha sido apenas uma despedida.

Não entendia porque ela tinha feito isso. Parecia até pior agora. Era simplesmente uma atração que a moça sentia? Tinha dito que o amava. Era apenas mais um jogo perverso?

Resolveu subir para o seu quarto. Ontem já tinha feito uma grande concessão ao seu orgulho, não faria outra.
Não a procuraria, principalmente depois dela ter saído sem sequer falar com ele.

Estava tudo acabado, o que quer tivessem começado naquele quarto.

—--

Gina se despediu dos amigos e garantiu manter contato.

Não contou a ninguém, sequer a Juliana, o que se passara na noite anterior.

Seu jeito naturalmente rude ajudava a esconder o quanto seu coração estava quebrado.

Mas ele fora claro, não a queria por perto.

A noite anterior tinha sido uma exceção, e o dia seguinte traria junto com sua luz a percepção de que fora um erro, e não aguentaria brigar novamente.

Encostou a cabeça na janela, fitando a paisagem diminuir. Quanto mais o avião se afastava da fazenda, mais duvidava de que tinha feito a coisa certa.

—--

Era noite já quanto Ferdinando acordou. Estava exausto, emocionalmente esgotado.

Mas tinha um compromisso com o capataz e não podia deixá-lo na mão. Não depois daquela uma ter feito isso sem cerimônias.

Zelão não estranhou ao ver o abatimento do amigo. Era nítido o motivo.

— Se ocê quisé a gente pode deixa pra otra hora essa aula Nando.

— Nada disso, não precisa se preocupar. É até bom que eu ocupo minha cabeça. E agora que você só vai ter aula dia sim, dia não, é melhor não desperdiçar.

— Não doutô, a professora Juliana vai vir substituir a Gina.

— Como é? Ferdinando ficou surpreso com a afirmação. O grande motivo das aulas escondidas era a vergonha que o capataz sentia da professora.

— Isso mermo dotô. A professora Juliana tinha se oferecido pra me dá aula, e eu não tinha aceitado por vergonha. Mas aí a Gina falou que ia simbora, e me convenceu a fala com a professora.

— Ora essa, não sabia que ela tinha falado com você antes de ir.

— Falo sim, a gente é muito amigo sabe. Mas só isso, só amigo. Zelão corrigiu a frase temendo ser mal interpretado.

— Isso não me importa Zelão. E acho melhor a gente continuar a aula.

Zelão olhou o amigo a sua frente. Os olhos avermelhados, o aspecto taciturno. Não importava?

— Olha, se quiser falar comigo pode falar. Minha boca é um túmulo. Você guardou meu segredo e eu guardo o seu também.

— Não precisa Zelão. Isso é bobagem.

— Bobagem? Tô vendo o dotô ai todo abatido, como é bobagem? Ocês dois se gostavam, né mermo?

— Eu achei que sim Zelão.

— Como assim achou? Você não gosta dela não? E essa cara amuada?

— Eu? Ah Zelão, eu amo ela. Ou melhor, amo uma imagem dela que eu tinha, mas que não existe.

— Não tô lhe entendendo. Ela é como é, sem frescura. Ou gosta, ou não gosta.

— Achava que era assim também meu amigo. Mas descobri que ela finge muito bem as coisas.

— Finge? Acho que o dotô tá falando bestagem.

— Ela fingia vir te dar aula pra poder ter acesso a fazenda toda, por exemplo! Ferdinando explodiu. Estava nervoso, ferido.

Não queria ter que dizer isso, nem provas tinha, mas a insistência do capataz e a própria tristeza terminaram de quebrar a frágil armadura que tentava manter.

— Acesso a fazenda? Ué mas ela tinha mesmo, não tinha nada a ver com isso aqui. Apontou os cadernos.

— Como é? Ferdinando não entendeu a tranquilidade do capataz. Ela o tinha usado, ele devia ter ficado bravo!

— Bem dotô, não sei se posso te falá disso não.

— Como não? Se ela era estagiária que nem todo mundo, e os outros não tem acesso a todos os lugares como eu sei que ela tinha! Ou não era?

— Dotô, disso não posso te falá não.

— Zelão, eu prometo que ninguém fora daqui vai saber do que falamos. Você já teve prova de que sou confiável omi!

— Bem... Zelão procurava as palavras. Era um assunto difícil. — Sendo assim, conto.

— Por favor.

— É que assim... A Gina também ajuda minha mãe... Em troca eu deixava ela andar por aí tudo. Aí nisso que ela descobriu que eu não sabia ler e se ofereceu pra ensinar.

— Ajuda sua mãe? Como assim Zelão?

—Minha mãe, e um monte de gente aqui, é doente, sabe? Ela estranhou isso. A gente é tão acostumado que achava normal, mas ela disse que não era não.

— Doentes Zelão? Doentes do que?

— Ah... Pulmão fraco, um monte de problema no rim, essas coisas. Ela disse que podia ajudar minha mãe, que isso não era normal e começou a perguntar um monte de coisa aqui da fazenda, e eu ia respondendo. Aí ela disse que além de ajudar minha mãe, podia também fazer isso por um monte de gente doente aqui nas redondezas, e ainda evitar que mais gente ficasse doente.

A ficha ia caindo em Ferdinando. A história era clara, lógica. Como tinha sido, novamente, um cretino! Zelão continuou.

— Aí claro que eu ajudei né? Ela pegou umas terra aí, mandou pra cidade, de água também. E o resultado mostrou contaminação.

— Contaminação? Mas a gente come o que se planta aqui...

Zelão pegou um papel e fez um mapa rústico, que mostrava a propriedade, os laboratórios e campos cultiváveis de teste, e os reservatórios de água.

Fez um traço que dividia o local em que eles ficavam, na parte superior do mapa, e as colônias, na parte inferior.

— Dessa linha pra baixo, a água que corre está podre. A terra também. Hoje, o que a gente come vem daqui, e daqui. Apontou os campos usados pelos estagiários e algumas outras culturas.

— Não estou entendendo Zelão. Se a gente come o que eles comem, os resultados deviam ser os mesmos!

— Comer, todo mundo come mesmo dotô. Mas trabalhar nas lavouras mesmo, só eles trabalham.

Ferdinando começou a entender onde o capataz queria chegar. Fez sinal para que prosseguisse.

— Então Nando, a Gina acha que eles usam um produto aí que envenena. Um tal de gli... Gli...

— Glifosato? Mas ele passou por testes rigorosos, se fizesse mal não seria vendido!

Zelão olhou com dó para o rapaz. Que confiança era essa que ele tinha em quem queria ganhar dinheiro?

— Teste? Dotô, me diz ocê, que sabe mais que eu: uma geração de lavoura basta pra saber se faz mal?

— Não Zelão, não basta. Mas dá pra fazer simulações em laboratório, tem outras formas.

— No bar lá quando a gente assiste jogo dotô, a gente sempre diz que treino é treino, jogo é jogo. Na hora que vai pro campo que a gente vê. A diferença é que aqui, quando deu errado, jogaram uma pedra em cima do assunto.

— Mas alguém notificou a empresa? Porque é necessário recolher o produto, indenizar essas pessoas!

— E o dotô acha que isso é usado só aqui? Se eles indenizarem essa gente, vão ter que indenizar todo mundo que já foi prejudicado. É muita gente, amigo.

— Aí você já está supondo Zelão. Se ninguém notificou a empresa, não tem como eles saberem.

O capataz não entendia a insistência do amigo. Também não sabia que o sobrenome era o mesmo gravado no frasco do produto: Napoleão. Não entendia o desespero do amigo em constatar a vileza que ocorria na empresa que um dia herdaria.

— Espera aqui um minuto.

Quando o capataz voltou, entregou uma carta na mão do rapaz. Tinha o timbre da empresa. Era uma resposta à reclamação dos trabalhadores da fazenda, assegurando que o produto era seguro, que testes haviam sido feitos e recusando ajuda aos trabalhadores doentes.

Ferdinando ficou boquiaberto. Fazia sentido. Tinha sido um burro, um cretino. Não sabia o que fazer.

Achara que tudo era paranóia da moça, que ela o havia traído. Agora entendia a necessidade da atitude dela.

Mesmo seu pai pedindo para que tirasse dela as provas, minimizou a situação. Achou que era algo menor. Não podia acreditar.

Como poderia se redimir? Como pedir perdão pela conduta, pela desconfiança? Como reparar o erro do seu pai? Sabia um jeito.