A seleção
15 Proposta
Notas iniciais
— Hei menininha?
Ouvia uma voz terna e não tinha certeza se era sonho ainda ou não. Se aninhou mais no calor que envolvia seu corpo e relaxou sob os carinhos que recebia na face.
— Gina? Precisamos ir embora.
O sussurro em seu ouvido não era sonho, tampouco o cheiro amadeirado que a envolvia. Abriu os olhos, ainda confusa, e se viu nos braços de Ferdinando. Saiu imediatamente, passando a mão nos cabelos e tentando alinhar um pouco que fosse da bagunça que deveria estar.
— Bom dia... A voz dele era nada menos do que feliz.
— Bom dia... A dela, terrivelmente envergonhada. Virou-se e chamou. — Vamos?
Nando não fez nenhum comentário. Tinha um plano, e se desse certo contaria com a tarde inteira para convence-la com mais tempo.
—--
Eu sinceramente não sei como te agradecer. Você foi muito legal mesmo Nando.
Já havia pegado o carro reserva e o seu já havia sido guinchado. O olhar incomodo que sempre trocavam, como se alguma força não os deixassem ir embora. Nando arriscou.
— Eu sei um jeito. Almoça comigo.
Era apenas retórico, não tinha necessidade alguma de responder, diacho. E agora? Se sentia cansada, e pior, novamente envolvida por ele. E ainda pesava a vergonha de, ao término da sessão, ter acordado nos braços dele. Agradecia em especial por ele não usar o fato para constrangê-la.
— Até almoçava, mas estou com tanto sono...
Pra falar a verdade, ele também estava, e até mais, já que ao contrário dela, pouco ou nada dormiu a noite, enquanto velava o sono da moça.
— Café da tarde, lanche, qualquer coisa. Só me dizer.
Ficou surpresa com a insistência dele. Seu coração queria ceder. E porque não? Gostara muito do desfecho do último dia. E nem tinha sentido ser grosseira depois de tudo o que ele tinha feito.
— A gente pode fazer um lanche, tudo bem? Depois você me manda uma mensagem dizendo onde. Agora preciso mesmo ir dormir Nando. E mais uma vez, obrigada!
Nenhum abraço de agradecimento, nenhuma palavra mais promissora. Era a incrivelmente difícil, e também doce, Gina Falcão. Mas finalmente, a viagem do engenheiro parecia dar resultado.
—--
Se encontraram num parque no fim da tarde. O local era tranquilo, gostoso.
Conversaram um bom tempo sobre amenidades. Se davam bem – ambos se surpreendiam com isso. Ferdinando não queria forçar nada, e qualquer palavra fora de lugar com ela colocava tudo a perder.
O rapaz deitou na grama de costas, e se pôs a mastigar um matinho. Era tão característico dele isso. Ela também deitou, fitando o céu colorido pelo ocaso.
Estavam tão em paz, que temia quebrar a harmonia insistindo. Mas no dia seguinte iria embora, e talvez não tivesse outra oportunidade se não resolvesse tudo. Virou-se em direção a ela.
— Gina?
— Uhm.
— Eu gosto de você.
A moça ficou atônita. Fechou os olhos, em silêncio, na esperança de que ele não prosseguisse.
— Me diz alguma coisa.
Porque a voz dele tinha que ser tão suave? Se virou e ficou de frente para ele. Foi impossível não corresponder.
— Eu também gosto de você.
O engenheiro deu um sorriso lindo, espontâneo. Feliz. Ela retribuiu. Pronto, tinha caído na sua estratégia pra voltar a falar daquela noite.
— Você disse mais que isso aquele dia, menininha.
Seu coração apertou. Agora ouviria a resposta que tanto temia e também desejava.
— Você também.
A ruiva detestava o quão frágil ficava quando era tratada por esse apelido carinhoso e só deles. Devolveu a questão.
— Eu não menti. Tudo aquilo que eu lhe disse, era verdade. Eu lhe tenho amor.
A moça virou-se e ficou novamente a fitar o céu, processando o que acabava de ouvir. Era novo para ela aquilo, esse sentimento desmedido, essa intensidade.
O rapaz se aproximou um pouco e passou os dedos por sua face, pelo braço que estava sobre os olhos. Pegou sua mão e a beijou.
— Me diz o que tem de errado. Entrelaçou seus dedos aos dela e isso pareceu tão certo. Ela rapidamente tirou a mão, incomodada com a intimidade que o gesto tinha.
Como era difícil. Como conseguia complicar tudo, impressionante.
— Eu já disse que não quero falar disso. A voz tornava-se agressiva de novo.
— Então acho que não tenho muito mais a fazer aqui. Eu vou embora, e não te incomodo mais.
Começava a pensar se não estava bancando o palhaço. Se levantou de um pulo. Ela se levantou também e o encarou.
— Se você prefere assim.
Ela deixaria mesmo ele ir embora? Se sentia um idiota de ter ido atrás dela. Ou não? Era impressão sua ou a agressividade da ruiva era apenas defesa? Talvez estivesse mesmo sendo um idiota, mas ao não saber interpretar os muitos sinais da jovem.
Se lembrou das vezes que se beijaram e da fraca resistência dela antes de se entregar. Podia tentar uma última vez? Devia.
Puxou seu braço. A ruiva mal teve tempo de se surpreender, e ele colou seus lábios aos dela. Segurou sua nuca e passou o braço por sua cintura, mantendo-a bem perto de si, apesar da força com a qual ela lhe empurrava.
Terminaram ofegantes, abraçados. Um leve sorriso brincava em seus lábios. Poucas coisas são tão doces quanto uma reconciliação.
— Podemos conversar agora? O engenheiro arrumou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e encostou em uma árvore, puxando-a para dentro de seus braços.
A moça assentiu com a cabeça e encostou a rosto em seu peito. Seria mais fácil se não precisasse vê-lo.
— Primeiro me diz, o que aconteceu aquela noite. Eu não entendi até agora porque você foi embora sem falar comigo.
— Eu queria me despedir.
Sentia vontade de dizer que mais do que isso, o que ela tinha feito era lhe dar uma prova de amor. Esperou que ele entendesse, que ele entrasse em contato – nem podia colocar em palavras o quanto o silencio dele depois lhe doera.
— E eu adorei sua despedida. Deu um beijo em pescoço. — Mas por que você foi embora daquele jeito?
— Porque eu não queria brigar, e você tinha dito que nunca mais queria me ver.
— Eu falei aquilo da boca pra fora, estava pensando tudo errado. Ele a abraçou mais forte, como que para atenuar a fragilidade na voz dela. — Quando você ficou, eu achei que a gente tinha se acertado.
— Eu achei que aquilo não significou nada pra você.
— Como assim Gina? Você acha que eu ia passar a noite com você do nada?
— Você passaria com a Juliana se ela tivesse te dado bola, com a moça do balcão se tivesse dado tempo... Por que eu ia achar que comigo ia ser diferente?
— Ara Gina! É totalmente diferente. Que tipo de homem você acha que sou?
Tentava racionalizar, sabia que a desconfiança da ruiva não era toda infundada. Mas mesmo assim, a falta de percepção dela do que realmente representava, o chateava.
— Ué, o que dá em cima de uma balconista em horário de expediente!
Fez a fama não fez? Deite-se na cama. Queria ter prestado atenção nesse conselho.
— Gina, eu nunca iludi, prometi ou sequer me declarei pra nenhuma delas. Chamei a moça do balcão para sair apenas, e a Juliana nem isso, foi um encanto tonto, platônico. Qualquer coisa que tivesse acontecido, teria sido bem diverso do que aconteceu entre eu e você. Eu jamais diria o que te disse se não fosse verdade menininha.
Ela gostou do que ouviu, momentaneamente. Por que que baixar ainda mais a guarda agora, se ele iria para tão longe no dia seguinte?
— Isso também não importa.
— Como não importa?
Se relacionar com ela era uma montanha-russa de emoções e se perguntava se valeria a pena. A maciez que seus dedos sentiram ao se aprofundar nos cabelos rubros e o cheiro inconfundível sanaram qualquer dúvida.
— O que adianta a gente ficar falando disso se você vai embora amanhã?
— E quem disse que acaba hoje? Menininha, só mais alguns meses de estágio, a gente vai namorando, se conhecendo... E depois vê o que faz.
— Mas como namorar, eu aqui e você lá? E depois sabe lá pra onde você vai.
— E depois eu que estava com má intenção? Deu uma mordidinha na orelha dela. — Quem disse que só dá pra namorar de perto?
— Para de falar besteira! Deu um tapa na perna dele. — Quem disse que eu estava falando disso? Mas também não acho que é legal ficar de longe assim não. Que graça tem? A moça tentava não aceitar, arranjar empecilhos.
— Oras, a graça de saber que você está me esperando e quer falar comigo no fim do dia. Que você está fazendo planos pra quando a gente se ver. E poder fazer planos com você também.
— Parece tudo muito simples na sua cabeça. Fora dela é que eu quero ver dar certo.
— Claro que dá! É só querer fazer dar certo. E eu quero. Quero muito.
Encostou a cabeça em seu ombro e suspirou. Queria bastante acreditar que fosse tão simples. Entre eles, principalmente, nunca seria, apesar da convicção na voz dele.
— Gina?
— Uhm?
— Me diz do que você tem medo.
— Medo? Até parece que eu tô com medo. Só acho que não vai dar certo.
O engenheiro não pôde deixar de rir dela. Tão geniosa. O vento ficava cava vez mais frio conforme escurecia, e não seria uma má ideia irem pra um outro lugar.
— Está ficando frio não acha?
— Mas você já quer ir embora? A ponta de tristeza na voz dela o deixou feliz.
— Quero sim. Mas quero te levar comigo, ora essa.
— Pra onde?
A desconfiança da ruiva não era totalmente infundada, pois foi mesmo a primeira ideia que passou pela cabeça do engenheiro.
— Eu acho melhor você escolher... Porque se eu disser, você vai brigar comigo. A ponta de seus lábios se ergueram em um sorriso maldoso.
— Para de bobagem!
O rapaz pegou seu rosto entre as mãos e a fitou com uma vontade latente, seu olhar explorando cada fraqueza dela, o medo, o desejo.
— O que foi Gina? Prefere que eu finja que não estou morrendo de vontade de... Bem... "me despedir" de você de novo?
— Ferdinando! Deu um tapa no peito dele. Parecia encabulada. Mais do que isso, nitidamente desconfortável. Abaixou os olhos, antes que respondessem o que ela escondia.
Algo em sua cabeça gritava que o que ele queria era um caso, nada mais — e seu coração gritava o oposto, mas insistia em ignorar.
O rapaz assumiu uma postura séria.
— Gina... Sinceramente, não sei porquê. Só acho que podíamos ficar mais a vontade.
Ela estava em dúvida. Aquele dia o contexto era outro, e apesar de confessar para si mesma a vontade de repetir, não queria se machucar, e quanto mais se envolvesse, pior seria quando ele fosse embora.
Estava arriscando demais aceitando a proposta dele, e vários "se" passavam por sua cabeça. E se voltando à fazenda, ele visse que tudo não passou de precipitação? E se a convivência com as outras meninas da casa — uma delas bem interessada — o fizesse esquecê-la?
Não sabia como recusar, sem explicar seus receios, e isso não faria, nunca. Mas também não queria aceitar e correr o risco de se envolver ainda mais.
O rapaz a fitava com atenção. A hesitação, a dúvida. Como uma pessoa tão imprevisível podia ser ao mesmo tempo, tão fácil de ler?
— Menininha?
— Uhm.
— Eu não vou fazer nada que você não queira. A gente pode só namorar, assistir tv, se curtir. E só. Confia em mim.
Ela hesitava em dar um passo à frente. Ele, já tinha pulado.
A ruiva se questionou se nunca aprenderia que ele sempre tinha a resposta certa. Era impossível resistir a seus argumentos, sua lógica — a ele inteiro, na verdade. Ou quase impossível. Porque ela era Gina Falcão, e sua determinação era férrea. Eles nem moravam no mesmo estado, como manter um namoro assim?
— Acho melhor a gente conversar depois que o estágio acabar.
Parecia lógico. Depois que acabasse e voltasse pra casa, perceberia o erro do que propunha agora e era impossível de manter.
O rapaz ficou estático. Não estavam se entendendo? Era impossível que ela mudasse bruscamente em questão de segundos. Estava realmente cansado desse jogo, dessa desconfiança, do péssimo julgamento que ela tinha a seu respeito, e que o machucava tanto.
— Se eu sair daqui assim eu não vou te procurar mais Gina. O rapaz tirou os braços dela e se afastou um pouco. Era terrível esse sentimento de indecisão. Não entraria numa relação unilateral, não arrastaria um sentimento sem reciprocidade.
Ela sequer virou ou respondeu. A atitude dele com a sua recusa era uma resposta mais do que clara das verdadeiras intenções dele. Não parava de se recriminar por quase ter caído na sua conversa.
O rapaz levantou e ficou um tempo olhando a moça absorta. Se ele pudesse senti-la ou saber o que pensava, apenas a abraçaria até que toda sua dúvida passasse. Mas não sabia.
Foi embora, dessa vez decidido a não voltar mais.
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