A seleção
7 Gato e rato
O rapaz demorou a acordar naquele dia, perdido em doces sonhos. Desceu já atrasado para o café. Percorreu o olhar pela sala e constatou que ela não estava. Não queria perguntar, mas Marcos se adiantou.
— Ela está passando mal, não vai hoje.
— Ela quem? Tentou fingir que não tinha percebido sua ausência.
— A Gina, oras. Marcos deu um meio sorriso. O disfarce saiu pior que a confissão para Ferdinando. Se descontrolava com ela. Droga.
A escala matinal era dele com Caio. Tinham formado uma boa amizade. Talvez de todos ali, fosse o mais próximo do jovem.
Já na roça, tentava se focar no trabalho. Era dia de coletar amostras. Entretanto, simplesmente não conseguia se concentrar.
As palavras de Marcos em sua cabeça. "Passando mal". Isso repercutia dentro dele. Seria verdade? Seria apenas uma desculpa para evitá-lo? Não sabia o que era pior.
— Ferdinando?
O rapaz atendeu ao chamado, vendo um Caio muito divertido o encarando.
— O que foi?
— Me diga você, passou a manhã toda distraído, e agora está aí olhando pro nada faz uns cinco minutos.
Caramba, ele tinha que se controlar.
— Pode falar Ferdinando. Isso aí é jeito de gente apaixonada.
— Claro que não! A resposta foi imediata e arrancou risadas de Caio. Será que negativa saíra pior, como no café? Resolveu contar a besteira que fez, quem sabe o amigo não podia aconselhá-lo.
— Tá bom, eu conto. Fica entre nós, ok?
— Pode confiar.
— Amigo, acho que fiz uma besteira ontem...
— Você? Agora estou curioso.
— Pois ontem, roubei um beijo da Gina.
— Você o quê? Quando isso? Caio se assustou. Como diabos ele conseguira fazer isso?
— Ora, quando estávamos voltando da roça. Não podia entregar Zelão.
— Mas como foi isso? Achei que você nem gostasse dela!
— Eu também pensava... Mas foi uma besteira Caio! E agora acho que ela está me evitando, imagina se ela conta pra alguém?
— É, se meteu numa enrascada. Mas vem cá, como você conseguiu sair inteiro? Achei que ela ia lhe descer o braço!
— E quem disse que não desceu? Sorriu com a lembrança. — Mas antes bem que retribuiu.
Seu sorriso se abriu ainda mais. Revisitou a memória, ainda fresca. Caio observou.
— Ferdinando? Tem certeza que é uma besteira?
— Claro que foi. A diaba é bonita, vive provocando... Não resisti.
— Bonita ela é mesmo. Já viu as pernas dela? Ô mulher gostosa. Se eu pego eu...
— Olha o jeito que você fala dela! Interrompeu bruscamente. Não soube de onde veio a revolta, que assustou a si e ao rapaz.
—Calma, não está mais aqui quem falou... Mulher de amigo meu pra mim é homem!
— Que mulher de amigo que nada! Só acho que tem que ser mais respeitoso com as mulheres.
Era uma meia verdade. A verdade inteira é que imaginar o desejo de outro homem por ela o deixou... Com ciúme?
— Prefiro falar do que agarrar, viu? E acho que elas preferem também.
A insinuação ferveu o sangue de Ferdinando. Só não foi pra cima do amigo porque este se desculpou prontamente.
Pronto. Tinha feito besteira de noite, tinha feito outra contando sobre o beijo – e quase fez uma besteira maior ainda. Era melhor ir embora.
— Nenhuma palavra sobre isso, ok?
Caio assentiu. Será que o amigo não percebia que estava apaixonado?
—--
A história se repetiu no almoço e no jantar. A moça simplesmente não descia. A preocupação crescia não apenas da parte do engenheiro, mas também por parte dos donos da casa e dos colegas.
Ferdinando mal podia esperar pelo retorno da professora, para pedir que falasse com a ruiva. Estava realmente preocupado agora. Contudo, a jovem não chegava, estava bem mais atrasada do que de costume.
Será que deveria tentar falar com Gina? Queria saber como estava. Decidiu dar tempo ao tempo, e aguardar. A espera era torturante.
Finalmente, a moça de cabelos rosas entrou pela porta, com uma alegria que contrastava com seu estado de espírito.
Recapitulou mentalmente que precisava esperá-la jantar, para ter alguns minutos a sós com ela e contar-lhe de suas preocupações. Ara, como Juliana falava!
Resolveu subir e esperá-la no quarto. Sabia que geralmente os colegas se recolhiam mais tarde. Foi o que fez.
Alguns minutos mais tarde, ouviu o cantarolar da moça.
— Psiu. Juliana?
— Oi Ferdinando!
— Posso lhe falar um minuto?
— Até dois!
— Bem, o assunto é meio delicado... É sobre a Gina. A gente pode entrar um pouquinho?
— Pode sim. Mas o que aconteceu entre vocês dessa vez?
Juliana entrou no quarto e fechou a porta. Ele a fitou. Ela era linda. Meiga, bem vestida, delicada. Os dois combinavam. Mas para sua própria surpresa, nenhuma vontade o acometeu, nenhum pensamento. Pelo menos, não mais que o comum numa situação dessas.
Balançou a cabeça. Diaba, diaba, diaba! Porque rememorava o dia em que a ruiva estivera ali? Tinha que falar alguma coisa. Juliana já o olhava estranho.
— Uma discussão boba professora... Mas me preocupo, porque ela não desceu nem para almoçar ou jantar. Faz alguns dias que tem se alimentado mal.
— E porque não vai você mesmo perguntar? O tom da professora era desconfiado e divertido. Achava mesmo que os dois amigos tinham a ver, mas teimosos e orgulhosos como eram, ficavam dando esse trabalho todo.
Deveria saber que ela perguntaria, mas mesmo assim não se preparou para responder. Diacho de homem burro que estava essa semana!
— Bem... Está tarde, não quero incomodar.
Não viu porque contar do ocorrido no dia anterior. Achava inclusive que a ruiva jamais contaria.
— Tudo bem Ferdinando, tudo bem. Eu preciso mesmo conversar com ela. A moça rodopiou no quarto, feliz. — Agora dê-me licença.
— Toda.
Ferdinando abriu a porta para a moça, resignado. Não tinha como ser mais enfático sem contar o que tinha acontecido.
—--
— Gina?
— Pode falar.
— Você está sentindo alguma coisa minha amiga?
— Não, por quê?
— O pessoal está preocupado com você, não está comendo direito, não desce mais...
— Só estou estudando. Daqui umas semanas a gente vai ser avaliado e quero estar preparada, uai.
Juliana achou plausível. Ali mesmo a moça estava com um caderno nas mãos, fazendo várias anotações.
— É... Você está certa. Mas não pode simplesmente parar de comer!
— Tá bom Juliana, tá bom. Vou descer e comer alguma coisa.
— Muito bem! Mas Gina.... Antes eu posso te contar uma coisa? Os olhos da professora brilhavam.
— Pois conte.
— Bem, você sabe que quando saio da escola, quase sempre converso um pouco com o Zelão... E bem, estamos cada vez nos entendendo mais, sabe?
— Como assim Juliana? A ruiva não tinha percebido um interesse por parte da moça no amigo antes.
— Ah, acho que está rolando um clima entre nós. Mas ele não toma nenhuma iniciativa, não sei o que fazer.
— Nossa Juliana. Eu não sei o que te dizer. Era verdade. A moça tinha pouca experiência a esse respeito, já incluindo a noite anterior.
— O que você faria em meu lugar?
— Não ficava de pouca vergonha depois da aula.
— Gina! Isso é coisa que se diga? Além do mais, isso não é nenhuma pouca vergonha. Pelo menos não mais do que bater na porta de um certo rapaz...
A ruiva ficou desconcertada com o comentário. Mais que isso, ficou com raiva. Tinha conseguido com muito esforço afastá-lo pelo menos um pouco de sua memória
— Sabe de uma coisa? Já estudei muito. Agora vou é dormir. Com licença!
— Nada disso, você tem que jantar!
— Ah tá bom Juliana, já estou descendo. A ruiva fechou o caderno com má vontade, pulou da cama e foi guardá-lo na sua gaveta escrivaninha.
— É bom que vá agora, Ferdinando ainda está lá, você não jantará sozinha. Era mentira, mas ela queria jogar verde. E colheu.
— Aquele um está por lá? Agora que não vou.
A ruiva voltou para a cama e começou a puxar as cobertas.
— E posso saber porque não?
— Porque não quero oras.
— Sabe Gina... Que eu estou achando muito estranho você evitando assim o Ferdinando. E sabe o que eu achei mais estranho? Ele ter vindo conversar comigo sobre você hoje.
Intencionalmente, a professora não falou sobre o teor da conversa. Percebeu que o assunto desconcertava a amiga, fazendo-a cair em todas as suas insinuações.
— E o que aquele frangote falou de mim?! Bingo. A moça se enfurecera.
— Você me conta a sua versão do que aconteceu entre vocês e eu te conto o que ele falou...
— O que aconteceu é que aquele frangote me beijou a força!
Juliana ficou surpresa. Primeiro, pela extrema inocência da amiga, que caíra em truque tão absurdo. Segundo, pela ousadia de Ferdinando. Não sabia que eles já estavam assim.
— E você gostou? A surpresa cedeu lugar à empolgação. — Eu sabia que estava rolando alguma coisa entre vocês!
— Mas é claro que não está rolando nada, larga de bestage.
— E então porque vocês se beijaram, posso saber?
— E quem disse que a gente se beijou? Já disse, ele me beijou a força!
— Você gostou? Juliana insistiu na pergunta. Achava mesmo que a ruiva tinha uma quedinha pelo engenheiro.
— Claro que não! Justamente porque foi a força. E não quero mais falar nisso. Vou comer logo e voltar pra dormir!
— Ahh Gina a conversa estava tão boa... Eu desço com você.
— Não senhora! Fica aqui e quando eu voltar, não quero ouvir mais um piu sobre o assunto.
Juliana resolveu não interferir. Estava de muito bom humor e se continuasse aquela conversa, pelo tom da ruiva, provavelmente terminaria aborrecida.
Só teve o cuidado de mandar uma mensagem para o amigo: "ela contou do beijo, está furiosa! E com razão. Mas também está estudando mesmo. Não consegui arrancar mais nada dela. Acho melhor esquecer essa história meu amigo".
Sentado na cama, encostado na parede, Ferdinando tentava digerir a mensagem e entender o que aquela sensação de aperto significava.
—--
Gina havia pedido para seu Antônio trocar as escalas de trabalho, de modo a nunca ficar com Ferdinando. Usava a desculpa de estudar para evitar ficar nas áreas comuns, onde ele estaria.
De vez em quando, isso era impossível, e hoje era um desses dias. Era aniversário de Ana, e dona Marisa tinha feito um bolinho.
Já não gostava da situação, e gostava menos ainda da aniversariante. Mas com muita insistência de Juliana resolveu não fazer a desfeita.
Marcos se aproximou e começaram a conversar. Fazia um certo tempo que não falava com o amigo, e se lançou em um papo animado.
Ferdinando, a um canto, observava a conversa com um sentimento estranho. Olhava e via apenas uma amizade, assim como nutria por Juliana, mas o diabo da coisa era a incerteza. Mais ainda: o problema era não saber exatamente porque se incomodava. Na realidade, já intuía, mas se recusava a acreditar.
— Ela está voltando! Dona Marisa gritou e apagaram as luzes. Iam começar o rito que tanto incomodava a ruiva. Os gritos, as palmas, toda a palhaçada. A moça entrou, as luzes se acenderam, a falsa surpresa de quem sabe que vai receber uma festa.
O único momento que Gina gostava dessas ocasiões estava chegando: a hora de comer o bolo. Mas até isso a aniversariante enrolava pra fazer.
— O primeiro pedaço vai para Ferdinando! Ana fez questão de fazer um pedido, apagar as velinhas, e cortar o bolo criando o suspense de quem receberia o primeiro pedaço.
O rapaz ficou desagradavelmente surpreso, enquanto um burburinho subia e alguém puxava o coro "com quem será, com quem será que a Ana vai casar... Vai depender, vai depender se o Ferdinando vai querer!".
A ruiva olhou para a moça, e depois para ele, visivelmente aborrecida. Tinha se perguntado porque ele não tentara nada com ela, mas pelo visto estava enganada. Não só tentou como conseguiu. Seu olhar cruzou o dele por breves segundos e percebeu que precisava sair dali. Isso a afetava de uma forma que não conseguia explicar.
Ferdinando ficou em choque. Percebeu no olhar dela certa decepção. Precisava falar com ela, mas os colegas o prenderam numa série de brincadeiras e insinuações absurdas, enquanto via a moça subir as escadas sem cerimônia alguma, sequer esperando o bolo.
Tentou se desvencilhar e ir atrás dela. Não se importava tanto assim de dar bandeira. Percebia agora claramente que estava a fim dela. Por que outra razão se afetava tanto com o que ela pensava a respeito dele? Mas não via saída sem ser grosseiro.
Juliana observou o incômodo e a situação e ajudou. Pegou um pedaço de bolo.
— Ferdinando? Pode levar esse pedaço de bolo para a Gina? Ela teve que subir pra estudar.
— Claro Juliana, com prazer.
— Porque você mesma não leva Juliana? Ana interveio. Não queria perder a possibilidade do flerte.
Ferdinando não esperou ouvir a desculpa que a professora daria, e se adiantou para as escadas. Na verdade, não levaria o bolo pra ela – esconderia em seu quarto, assim sabia que mais tarde a moça iria buscar um pedaço, e aí sim poderia falar com ela.
Fez isso e voltou para a sala, onde foi amável com todos, sem levantar a menor suspeita sobre o ocorrido, exceto para Juliana, a quem confidenciou o estratagema.
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