A seleção
14 Cinema
Gina precisava antes de mais nada, espairecer. Saiu dirigindo sem rumo, apenas para colocar os pensamentos no lugar.
Ele tinha ido até ali, lhe entregar os documentos. E disse que também para vê-la. Será que o tinha julgado mal? E fazia diferença? Ele iria embora em breve, só podia querer outra noite casual.
E ela quase tinha sido burra o suficiente de lhe dar ouvidos.
Uma fumaça começou a sair pelo capô. Foi para o acostamento e desligou o carro. Tentou ligar para a assistência 24 horas do seguro. Ninguém atendia.
Tentou seus pais — também nada, nem no residencial, nem nos celulares que tinha lhes dado, e que até imaginava onde estavam: em algum canto da casa, descarregados. Eram apenas enfeite para os dois.
A via estava movimentada, mas ninguém parava para ajudar. Trancou o carro e foi andando pelo acostamento até chegar no telefone de emergência. Não funcionava. A noite caía e a via ficava menos movimentada.
Ligou novamente para o seguro, para seus pais. Ligou até para um tio. Ninguém atendia. O que diabos acontecia com as pessoas? Andou até o próximo telefone, distante mais um quilometro. Novamente, nada. Quebrado.
Começou a ficar levemente preocupada. Estava escuro, o movimento de carros diminuía bastante, e embora não fosse nenhuma menininha assustada, não tinha tido a prudência de trazer sequer uma chave de roda.
Pegou o celular e começou a rolar os números, tentando achar alguém que pudesse lhe ajudar. Quase todos moravam fora da cidade, e já tinha tentado todos na região.
Seus olhos pararam no nome Ferdinando Napoleão. Relutou inicialmente, mas já se aproximava da meia-noite. Respirou fundo e ligou.
Nando estava já dormindo quando ouviu o celular tocando insistentemente. O nome escrito na tela o surpreendeu. Pensou meio segundo se deveria atender. Ela tinha acabado de ofendê-lo há apenas algumas horas.
Mas ela estava ligando. Será que tinha se arrependido? Será que apenas queria continuar brigando? Só saberia se atendesse. Que mania chata ela tinha de roubar seu sono.
Os toques pararam no momento mesmo em que ia atender.
Porque tinha ligado pra ele mesmo? Certamente já tinha caído na noite carioca e esquecido completamente tudo o que havia ocorrido.
Seu celular tocou. Era ele retornando sua ligação. Atendeu.
— Alô?
— Oi Gina. Você tinha me ligado...
— Sim...
Não sabia como prosseguir o assunto ou pedir o favor. Ele percebeu o embaraço dela.
— Pois fale.
— É que meu carro quebrou e não consegui falar com ninguém...
— Ahh... Aí resolveu ligar para o ninguém aqui? Não conseguiu conter a ironia.
Ela não se deu ao trabalho de responder, apenas desligou o celular. Não era obrigada. Estava cansada pela caminhada de volta, nervosa com o carro quebrado, com ele, com tudo.
Que desaforada! Liga pra pedir favor e ainda desliga na minha cara. Se deitou novamente para dormir. Mas a ideia dela sozinha, com o carro quebrado precisando de ajuda não lhe saía da cabeça. Ligou de novo.
Gina olhava o celular tocando e se recusava a atender. Não precisava ficar mais nervosa do que já estava.
Ele resolveu mandar uma mensagem. "Desculpa, eu estava chateado. Me passa sua localização que eu te ajudo".
Respondeu a mensagem com sua localização. Ele lhe devia isso de qualquer forma. Não fosse sua petulância, ela já estaria em casa, confortavelmente instalada sob as cobertas.
Chegou no carro com alívio. Entrou, trancou as portas e ligou o rádio. Tentou relaxar enquanto esperava. Demorou apenas 15 minutos pra que ouvisse uma buzina.
O engenheiro se surpreendeu ao receber uma mensagem perguntando se era ele. Ela devia estar assustada, e ele tinha sido grosso ao telefone. Nunca se conformava em como era inabilidoso pra falar com ela.
Confirmou e saíram do carro.
— Oi Gina. O que aconteceu? Tentou parecer o mais neutro e prestativo possível.
— Começou a sair uma fumaça do meu carro, parei o carro um pouco e depois ele não ligava mais.
Ferdinando deu uma olhada e voltou com a expressão pouco animadora.
— Acho que o motor fundiu. Hoje não conseguiremos arrumar. Posso te levar pra casa, e amanhã você chama o guincho.
Ela não queria ir pra casa desse jeito. Teria que se explicar com os pais, sobre o que estava fazendo naquela via aquela hora da noite, e pior, sobre quem era o rapaz que a tinha ajudado. Droga. Tudo saía de mal a pior naquele dia. Fez uma nota mental para xingar Marcos depois.
— O que foi, você não quer voltar pra casa? Será que um dia será capaz de entender a complexa moça?
— Não quero ter que explicar tudo isso pra eles.
O rapaz se surpreendeu. Nunca havia imaginado ela prestando contas pra ninguém! Gostou dessa faceta dela.
— Não tem problema. Eu espero aqui com você, tudo bem? A moça fez outra cara de desagrado. — Eu fico no meu carro, você fica no seu, assim está melhor? O rosto dela ainda franzido. — Qual é o problema dessa vez Gina?
— É perigoso ficarem dois carros no acostamento oras!
Era verdade, ele não tinha pensado nisso. Era inclusive contra a lei.
— Então o que você sugere? Ele tinha uma solução para isso, mas não iria propô-la novamente.
A ruiva encostou no carro e colocou as mãos na cabeça.
— Eu não sei. Não sei, ok?
— Gina, então o que você quer de mim?
Ela ergueu os olhos para ele. Nem ela sabia muito bem. Só não queria ficar sozinha ali, na estrada escura.
— Acho que eu só não queria ficar aqui sozinha.
Era impressionante como ela conseguia torcer as situações até envolvê-lo novamente. Se há alguns momentos ele estava bravo, magoado com ela, agora só importava uma vontade forte de protegê-la, e fazê-la se sentir protegida. Se posicionou ao seu lado.
— Gina, se você não pode ir pra casa, e não podemos ficar aqui, só temos uma opção: temos que ir pra outro lugar.
A ruiva ia abrir a boca para reclamar, quando ele continuou.
— A gente por ir num cine maratona, o que acha? E se o filme for bem chato, a gente dorme.
— Pode ser... A moça se surpreendeu com a proposta.
Procuraram as maratonas daquele dia e escolheram uma de filme de terror.
Entraram no carro dele e ele ligou o rádio. Ela fechou os olhos para descansar um momento, os 4 quilômetros que havia andado cobravam seu preço.
Se concentrou na melodia enquanto ele dirigia. Ele tinha um bom gosto musical. Engraçado, conhecia muito pouco das preferências dele.
"Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde quereres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não"
— Por que você tirou? Eu gosto dessa! Ela reclamou quando a música foi interrompida.
— Porque ela me lembra muito nós. Fazia um tempo que ele havia desistido de manter alguma máscara sobre eles.
A moça abriu os olhos e fitou o rapaz dirigindo tranquilo ao seu lado. Ele não parecia abalado com o que disse. Começou a olhar a paisagem pela janela, rememorando tudo que tinha acontecido no dia para ver se conseguia criar um raciocínio coeso sobre a situação.
Chegaram no cinema, praticamente vazio. Agradeceu por Ferdinando não insistir com o assunto. Conversaram, riram do filme repleto de efeitos caricatos. E ela dormiu, vencida pelo cansaço.
Antes de aventurar-se no reino de Morfeu, o engenheiro lamentou não ter sido assim o primeiro encontro dos dois.
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