A seleção

2 Capítulo 2 - Falcão x Napoleão


O Senhor Monsanto os levou a uma sala e pediu que sentassem. Eram apenas 5, de forma que se distribuíram em duas fileiras. Ferdinando se apressou a sentar em uma das cadeiras da primeira fila. "Exibido", foi o que Gina pensou. Mas não se limitou a esse pensamento. "Puxa saco". Passou os próximos minutos adjetivando negativamente o novo colega, até ser repreendida pelo supervisor.

_Senhorita? Estamos fazendo uma rodada de apresentação, e é a sua vez.

Gina gelou. Detestava ter que falar em público, mas também sabia que era um mal necessário. Respirou fundo e se preparou para fazer a apresentação genérica que sempre fazia em situações assim. Se incomodou ao perceber que Ferdinando, ao contrário dos outros, sequer se virara para ouvi-la. "Prepotente. Arrogante." A lista de defeitos do sujeito parecia não ter fim.

_Eu sou Gina Falcão, formada em Agronomia... Parou de falar quando perceber um par de olhos azuis a fitando com interesse, e até mesmo, com indignação. Engoliu seco e prosseguiu. _Pela federal do Rio de Janeiro... Bem... Vim do interior... E sou especializada em cultura orgânica.

Abaixou o rosto levemente vermelha, totalmente embaraçada. Por um momento, Ferdinando quase sentiu simpatia por ela. Mas então, lembrou-se do sobrenome que ela informara. Seria possível que ela fosse daquela família Falcão? Seria muita coincidência. Não percebeu o quão fixamente a estava olhando.

_Algum problema Ferdinando? Talvez queira nos contar.

“Droga!”. Detestava ser indiscreto.

_Nenhum senhor. Perdoe-me pela distração.

O supervisor então prosseguiu apresentando o programa de seleção, valores e missões da empresa, regras e objetivos do estágio, contando com a atenção integral dos presentes. Ou quase.

Ferdinando ainda tentava se lembrar de algum traço da ruiva que denunciasse semelhanças com o Falcão que conhecera. Se esforçava de verdade para prestar atenção em tudo o que era dito, mas sua curiosidade se sobrepunha a tal esforço.

Quando menos percebeu, a manhã já havia terminado e o senhor Monsanto anunciava o tão esperado almoço.

_Agora vocês podem almoçar no refeitório no segundo andar. Estejam novamente na sala as 14h00, por favor.

Todos saíram em direção ao refeitório, mas Ferdinando logo sentiu a ausência de alguém. Precisava perguntar para a ruiva sobre sua família. Mais do que isso... Se sua suspeita se confirmasse, precisasse devolver o desaforo que ouvira de manhã, e se fosse na presença de todos, melhor ainda.

_Você não vem com a gente Gina? Clara, uma das estudantes, fez a pergunta que o engenheiro agrônomo queria fazer.

_Não, preciso ler algumas coisas... Depois vou.

O rapaz ficou decepcionado. Queria tirar a limpo a história e a ofensa. Mas não queria ser novamente indiscreto, portanto foi almoçar com o pessoal.

Respondia as perguntas que lhe eram feitas no automático – seu interesse estava longe dali. Terminou a refeição o mais rápido que pôde.

_Com licença, mas preciso voltar para a sala! Sem dar tempo de ninguém comentar ou perguntar o motivo, se levantou e rumou para o local.

Ficou feliz ao olhar pelo vidro e ver que ela ainda estava sozinha. Abriu e fechou a porta o mais silenciosamente que pôde, para não chamar a atenção da moça que estava concentrada lendo seu livro. Sentou-se na cadeira à sua frente, virado para ela.

_Gina? Essa leitura deve estar interessante para se recusar a almoçar conosco. Tentou descobrir qual era o livro, mas ela pressionou a capa contra a carteira.

_Está. Tanto, que prefiro que você me deixe continuar a leitura.

_Nossa, você é bem direta mesmo. Então também serei direto. Uma ponta de irritação surgia em sua voz. Qual era a necessidade de ser tão turrona?

_Pois se tem algo pra dizer diga logo, que está me atrapalhando! Detestava quando alguém a desconcentrava. Principalmente se fosse para ficar de conversinha.

_Direta e nervosa! Mas enfim, o que eu tenho para lhe perguntar... É se por acaso o seu pai não é O Pedro Falcão?

Gina ficou estupefata com a pergunta. Nunca imaginaria que ele poderia conhecer, mesmo que de nome, seu pai. Não sabia se respondia, e resolveu que não devia explicações.

_Isso não é da sua conta. Porque a pergunta?

_Isso também não é assunto seu. Olhando bem... Mas bem mesmo, tem algumas coisas em você que lembram ele... Mas por que você não quer confirmar? Tem medo que eu lhe faça as mesmas acusações que me fez hoje de manhã?

O sorriso do engenheiro era nada menos do que debochado. Se divertia com a surpresa dela, e também por ter conseguido fazê-la provar do próprio veneno. Pedro Falcão possuía algumas propriedades onde cultivava alimentos orgânicos, e era um dos fornecedores da Orgânicos AS.

Sabia disso pois seu pai também era um dos fornecedores da empresa, mas ao invés de alimentos, fornecia insumos. Falcão era um dos produtores que se recusava a usar os produtos Napoleão em suas terras.

_Entrei aqui por mérito próprio. A voz dela era fria, mas era possível perceber que estava prestes a explodir. Realmente, muito nervosa.

_Assim como eu, ora essa! Não vejo a diferença entre nossa situação.

_Disso eu duvido é muito!

_E por que duvida? Por acaso lhe fiz alguma coisa para que você, que nem me conhece ainda, me julgue tão mal?! O rapaz já estava perdendo a paciência com tal implicância.

_Minhas opiniões também não lhe dizem respeito. Aliás, vou almoçar.

A moça fechou seu livro e o guardou rapidamente na bolsa, sem que ele tivesse tempo de ver o título. Não sabia se fora impressão sua, ou se ela realmente tentou esconder.

Ela se levantou da cadeira e sem pensar direito, ele lhe segurou o braço.

_Você ainda não me disse o motivo de tanta implicância comigo menina!

_Acho melhor você soltar meu braço! E menina uma ova, para você sou Gina Falcão!

A discussão estava ficando acalorada, mas ele sabia que havia passado dos limites. Assim, soltou o braço dela.

_Perdão, não foi minha intenção... Eu só queria que pudéssemos nos resolver... Afinal, passaremos um bom tempo juntos a partir de agora, precisamos ser amigos. Seu sorriso era conciliatório.

_É aí que você se engana. Seu olhar para ele era duro. _Passarei um bom tempo estudando e trabalhando. Com quem, pouco me importa.

_E precisa ser tão grosseira? Ele se levantou também, ficando frente a frente com a ruiva. _O mínimo que espero é educação!

_E o mínimo que espero é que não se meta com a minha vida! Nem se deu ao trabalho de desviar dele. Esbarrando em seu ombro, se dirigiu até a porta e saiu.

Ferdinando ficou parado, ainda confuso com os últimos acontecimentos. Não entendia a necessidade de tanta grosseria, mas a moça tinha sido clara: não pretendia manter amizade alguma ali.

Para a ruiva, ele era apenas um concorrente. E já que era isso o que ela queria, Ferdinando seria o concorrente mais difícil que ela poderia imaginar.