A seleção
1 Capítulo 1 - Primeiro dia
Parou defronte ao balcão imponente e fitou o painel de madeira ao fundo, onde letras vermelhas anunciavam o nome "Orgânicos SA".
Sentiu que o esforço tinha valido a pena, e um grande orgulho de sua realização: fora uma das 5 selecionadas para o concorrido programa de estágio de uma das melhores indústrias do ramo alimentício.
Torcia para que tudo desse certo, mas o dia já começava com um aborrecimento: a recepcionista ignorava sua presença solenemente para conversar com um rapaz esbelto e bem vestido.
Pelos sorrisos trocados por ambos e pela duração da conversa, não era difícil perceber que havia um interesse mútuo ali. Pouco se importava na verdade, exceto pelo fato de que o namorico estava atrapalhando seu atendimento.
_Bom dia, eu sou a ...
Sua tentativa foi novamente interrompida pela recepcionista, que fez um sinal para que aguardasse, e continuou a "atender" o rapaz com ainda mais sorrisos e gentileza. Gina balançou o longo cabelo ruivo e deu um sonoro tapa na mesa, chamando a atenção da recepcionista e também de seu belo acompanhante.
_Olha aqui, por mim vocês podem namorar o quanto quiserem, mas estou esperando para ser atendida há um tempão! Dá pra ser ou está difícil?
A recepcionista fez cara de ofendida, e antes que iniciassem algum desentendimento ali, o rapaz tratou de colocar panos quentes.
_Calma moça, a Luiza já vai atendê-la, não vai? O jovem deu um sorriso charmoso para a atendente. _Peço desculpas por atrapalhar o seu trabalho.
A frase e a reação da recepcionista fizeram Gina revirar os olhos com tamanha baboseira. Mas aproveitou a intervenção para anunciar seu nome e o motivo de sua visita. Luiza a olhou com desinteresse e lhe pediu que aguardasse na salinha ao lado para, em seguida, voltar sua atenção novamente para o rapaz de dreads, prosseguindo com a conversa mole.
Gina se dirigiu ao local indicado e se acomodou em uma das poltronas confortáveis, olhando discretamente os demais estagiários selecionados. Estranhou ao ver apenas quatro pessoas na sala, já que era cinco os selecionados.
Percorreu os olhos pelas figuras elegantes e empertigadas, devidamente vestidos para a ocasião. Pensou se deveria também ter vindo de social, mas balançou a cabeça em negativa. Gostava de suas roupas habituais, e eram bem mais confortáveis, principalmente para as atividades práticas que certamente teriam.
Poderia ficar incomodada com os olhares de estranheza e curiosidade dirigidos a ela, mas já estava mais do que acostumada com a atenção que chamava pelo seu jeito sincero (muitas vezes confundido com grosseria) e suas roupas confortáveis (que alguns insistiam em chamar de "inapropriadas").
Se perguntava onde estaria o quinto estagiário, quando a porta se abriu e ela teve o desprazer de verificar que era o rapaz da recepção, que cumprimentou a todos e fez questão de sentar-se ao seu lado. E pior, puxar conversa. Seu dia só piorava.
_Olá moça. Meu nome é Ferdinando Napoleão, muito prazer!
_Napoleão? Sua sobrancelha fez um arco de surpresa. O olhou de cima a baixo, com evidente repulsa.
_Napoleão sim! A afirmação simples e direta dele a impressionou menos que o seu olhar, profundamente azul.
A família Napoleão era a poderosa dona de uma fábrica de insumos e maquinário agrícolas de segurança questionável. Alguns desses insumos eram utilizados pela Orgânicos SA, mas existia muita polêmica em torno do assunto. E ela era radicalmente contra a utilização.
_Mas que feliz coincidência sua seleção. Seu sorriso era quase imperceptível, mas era puro escárnio. Provavelmente tinha conquistado a vaga muito mais pelo seu nome, que por sua competência.
Ferdinando odiava quando reconheciam seu sobrenome. Não concordava com a forma como seu pai conduzia os negócios, mas detestava mais ainda a reação das pessoas. A maioria puxava seu saco, e outros sumariamente o odiavam, como parecia ser o caso da moça ao seu lado. Independentemente do caso, no entanto, todos se esqueciam de que ele era uma pessoa com pensamentos e valores próprios.
Já previa que teria que se destacar em tudo durante o programa de estágio. Deveria estudar mais, trabalhar mais, até que não sobrassem dúvidas de que ele merecia estar ali tanto quanto todos os outros. A injustiça da situação o aborrecia, mas gostava de desafios.
_Ao que me consta, fiz exatamente os mesmos processos seletivos que você para estar aqui! Seu tom se elevara minimamente. O suficiente para deixar claro seu desagrado. _Mas ao que parece você não vê muito além das aparências. Seu sorriso era, se possível, ainda mais cínico que o dela.
A resposta a desconcertou. Seria possível que estivesse julgando o livro pela capa? Se lembrou do que acontecera na recepção. Ao invés de estar focado, estava já se engraçando com a primeira moça que encontrou no caminho. Não, provavelmente não estava enganada. Aliás, tinha certeza de que não estava. O jovem era um filhinho de papai apenas passando o tempo ali.
O ar ficou pesado. Até as conversas paralelas dos demais estagiários cessaram, para acompanhar o embate.
A expressão da ruiva anunciava uma resposta nada agradável, mas a porta se abriu novamente e uma figura imponente entrou na sala, interrompendo o diálogo.
_Bom dia meus jovens! Eu sou o senhor Monsanto, e serei o supervisor de estágio da turma de vocês. Podem me acompanhar, por favor?
Ferdinando foi o primeiro a se levantar e fazer menção de segui-lo. Dali por diante, seu foco estaria completamente voltado para o estágio. Provaria seu valor para todos ali presentes, incluindo aquela ruiva insolente. Mas principalmente, provaria seu valor para seu pai.
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