Da cama, Ana podia ver a porta anil que lhe lembrava de um azul ainda mais belo: o dos olhos do rapaz que deveria estar naquele quarto. Ele era de longe a pessoa mais interessante naquela casa, e já tinha admitido a si mesma ter uma quedinha pelo colega.

Mal podia esperar o retorno do jovem para tentar conquistá-lo. Ele nunca tinha lhe dado bola, era bem verdade. Mas também, logo de cara tinha se encantado com Juliana, de quem agora era nitidamente só amigo, e depois se envolvera com aquela maldita ruiva. Ficou feliz ao imaginar que Gina não seria mais problema — sua antipatia pela ruiva extrapolava a disputa amorosa.

Com ela fora do caminho, julgava ser fácil. Clara pouco estava se importando com ele, e Ferdinando não parecia o tipo de rapaz que ficava muito tempo sem se envolver com alguém.

Pensava em uma estratégia para chamar sua atenção dele, relembrando o que sabia de seus gostos. "Saiba que eu adorei me queimar". A frase ouvida semanas atrás não saia de sua cabeça. Sentia que era a chave para o coração do até então, colega.

"Pelo visto, gosta de uma pimenta. Quem diria, com aquele jeito de lorde".

Suspirou ao imaginar quão apimentado ou pouco tradicional ele era, e logo se lembrou que o comentário fora dirigido ao seu desafeto.

"De sonsa, só tem a cara, aquela uma".

Julgava Gina um típico bicho do mato, uma menina sem malícia e sem encantos. Se enganou, a moça tinha sido mais rápida que ela. Só que agora a situação estava a seu favor.

Aquele era seu dia de folga, e o usaria para se cuidar e ficar irresistível. Estava realmente decidida a laçar Ferdinando.

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A professora se dirigia à escola cantarolando distraída quando sentiu um toque em seu ombro.

— A senhora devia tomar cuidado, andar distraída assim pode ser perigoso.

Zelão saía de trás de uma árvore e parecia ter seriedade ao falar.

— Senhora? Parece que já esqueceu que eu me chamo Ju-li-a-na.

Ressaltava cada sílaba, tocando o céu da boca com a ponta da língua ao pronunciar o "li" e o "na", fazendo-o acompanhar com atenção o movimento de seus lábios.

— Desculpe, Juliana. É por respeito.

— Me respeite me tratando como uma igual. Além disso, o que pode acontecer aqui, num lugar tão pacato como este?

Perigo, sempre havia. No entanto, só disse aquilo para chamar sua atenção.

— Pra senhora, acho que nenhum. E eu nem permitiria.

A moça de cabelos rosados sorriu com a pretensão dele de protegê-la. Era fácil acreditar nas palavras firmes daquele homem e se deixar levar.

— Zelão, você não deveria estar trabalhando a essa hora?

— Estou indo, Juliana. É que você esqueceu uma coisa na minha casa no domingo, e eu vim devolver.

— E o que eu esqueci? A memória falhava em lembrar o que poderia ter esquecido. Tinha levado poucas coisas, certamente saberia se tivesse deixado algo na casa do rapaz.

Involuntariamente, um leve tremor os envolveu quanto ele lhe estendeu a mão com um pedaço de papel rosado. Permitiram que o breve contato entre seus dedos continuasse, assim como o dos seus olhos, presos um ao outro.

O rapaz temia a reação da professora ao vê-la descobrir o verso do papel, onde tinha escrito uma mensagem. Teria sido muita ousadia?

— A senhora me desculpe, mas eu preciso ir pra lida agora. Até mais ver.

Quando ele desapareceu por aqueles caminhos que ela ainda mal conhecia, Juliana conseguiu olhar o papel em sua posse. Não fora esquecimento: deixara a mensagem de propósito. Ficou desapontada ao pensar que ele não tinha entendido.

Contudo, sentiu uma pontada em seu coração ao constatar que sim, ele tinha lido e entendido. Teve essa certeza ao ler no verso do papel:

"Amor é fogo que arde sem se ver".

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Em um quarto no Rio de Janeiro, um jovem engenheiro acordava. Em seus braços, a dona de uma rubra cabeleira — e também de seu coração — ainda ressonava tranquila. Estreitou o abraço e fechou novamente os olhos, aproveitando o calor que emanava dela e o envolvia num doce aconchego.

O que sentia ali, ao partilhar esse momento com ela, nunca sentira com mais ninguém. E o medo da distância voltava a abatê-lo. Ela tinha o péssimo hábito de lhe escorregar pelos dedos, e tanto tempo separados poderia fazê-la mudar de ideia.

Precisava tentar reparar o erro que havia cometido ao fazê-la desistir do estágio. Seu coração doía pensando em ficar tanto tempo longe, e se apertava mais ainda ao pensar que tinha provocado sofrimento a ela. Pensava até mesmo em desistir do estágio, tornar as coisas um pouco mais justas.

A moça se movimentou um pouco em seus braços, murmurando alguma coisa. O contato quente dela em sua pele e o encaixe de seus quadris lhe roubou espaço de qualquer pensamento decente. Ambos estava nus e sua intimidade colidia sem barreira alguma com o calor que provinha dela.

Passou a acariciar levemente o braço dela de forma casta, mas que era o suficiente para ele ter arrepios. Por respeito, limitou seus dedos a esta área do corpo, mas sua mente passeava por cada centímetro do corpo que se abrigava junto ao seu.

Gina se moveu novamente, se espreguiçando ao acordar. Nando retirou os longos cabelos que lhe caiam pela face, dando leves e ritmados beijos em seu pescoço enquanto lhe dizia bom dia.

A cada beijo, um breve arrepio, que o engenheiro sorvia com prazer. Poderia ficar horas namorando-a assim, não fosse o fato de que cada arrepio fazia a moça se contorcer em seus braços e lançar o corpo para trás, estimulando-o ainda mais.

Não resistiu a gemer no ouvido dela, muito menos a envolver seus seios com as mãos, devolvendo a covarde provocação. Tinha mais. Encaixou a perna entre as dela. Começou a dar úmidas e leves mordidas em seu pescoço, retribuídas com as mãos dela sobre as dele, guiando-o em um passeio pelo corpo desejoso da moça.

A ruiva começou a friccionar lentamente sua intimidade na perna dele. Desavergonhada. Gostosa.

Ele não entendia como a ruiva ousada dera lugar à insegura da noite anterior, e tampouco entendia como a de ontem dera lugar a esta mulher ousada em seus braços agora, mas adorava essa inconstância que tanto o surpreendia e excitava.

O desejo de possui-la aumentava a cada gemido que se seguia aos movimentos da moça, ao sentir a umidade dela em contato com sua própria pele.

— Quero você. A moça tentou se virar, mas ele a manteve como estava. — Assim... Segurou forte sua cintura, indicando que a queria na exata posição em que se encontrava.

Pegou seu rosto com uma mão e o virou para cima, tomando pela primeira vez os lábios naquela manhã com um beijo profundo. Gina se sentiu ser penetrada enquanto sua boca era invadida pela língua atrevida e quente dele. Os movimentos lentos, porém, rigorosos dentro de si a faziam se perder em desejo. Tirou uma das mãos do engenheiro de seus seios para colocá-la sobre sua cintura, que ele prontamente apertou.

Mais do que a penetração, a fricção entre suas coxas a deixava louca. Apertou as pernas para aumentar a sensação.

— Isso ruiva... Faz gostoso. Sussurrou as palavras ainda preso em seu beijo, assim que se sentiu mais apertado dentro dela.

Atingiu o ápice envolvendo-a em seus braços, sentindo o corpo dela também se desmanchar em prazer junto ao seu.

Se já não estivesse plenamente consciente do amor que sentia por ela, teria descoberto naquele momento. Era fácil ceder a paixão e até confundir os sentimentos com os pensamentos nublados pelo desejo. Mas sentir-se tão enlevado depois de já ter satisfeito as vontades, era sublime.

A ruiva abriu os olhos e fitou a doçura dos olhos azuis, que a observavam com indisfarçável ternura.

— Bom dia Nando...

— Bom dia menininha...

Ele repousou um beijo no nariz dela, depois na testa, bochecha. Deu um selinho no cantinho da boca dela, se deixando ficar ali.

O despertar havia sido gostoso, mas intensificara a fome que já sentia desde o dia anterior.

— Nando... Vamos tomar o café da manhã?

— Vamos sim. Até porque daqui a pouco preciso começar a fazer minhas malas.

Um silêncio incômodo se seguiu, e ele se arrependeu de ter tocado no assunto naquele momento.

— Vamos pedir no quarto? Eu aproveito pra tomar um banho enquanto preparam.

— Claro...

Nando pegou o telefone para pedir o café e ela se encaminhou para o banheiro. Na verdade, queria mesmo tomar banho, mas precisava principalmente ficar sozinha e dominar as emoções que a atingiram ao pensar nele indo embora.

O engenheiro não estava diferente. Tinha a mesma preocupação, e ensaiava mentalmente como lidar com a situação.

A ruiva foi rápida. Não era de voltar atrás no que decidia e já tinha dito sim para essa história maluca. O melhor que podia fazer era enfrentar a situação da melhor forma que conseguisse.

— Nando? Me empresta uma camisa? A minha roupa não está muito apresentável...

Uma meia verdade. O que ela queria era uma lembrança do cheiro dele.

— Claro... Deixa eu procurar uma aqui... Achei. Mas eu não empresto. Eu troco.

— Como assim?

— Trocando, ué. Te dou a minha e você me dá a sua. Eu também quero uma lembrança.

Achou linda a atitude do engenheiro, mas novamente a ameaça sutil das dificuldades de uma separação tão longa ficava implícita.

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O resto da manhã se seguiu de forma terna e levemente melancólica. Ela o ajudou a arrumar a mala e o acompanhou até o aeroporto.

Ele entrelaçou os dedos dela nos seus e encostou sua testa na dela, quase tocando-lhe os lábios.

— É hora de embarcar... Promete que você me espera?

A moça balançou a cabeça afirmativamente. Era difícil dizer qualquer coisa, mas não queria que seu silêncio pudesse ser mal interpretado novamente.

— Prometo. Você também?

— Claro... Eu te amo menininha.

Quando embarcou, a saudade já apertava nos dois.