A saga de Nina: O Muiraquitã Branco
2 O som na biblioteca
Mesmo que houvessem se passado décadas ainda haviam boatos sobre a casa do número 23 do bairro Itamaraquara, antes era o local onde funcionou uma instituição macabra para jovens infratores. Os habitantes da rua que não rejeitavam uma fofoca, diziam que era amaldiçoado, que fantasmas assolavam o local, que muitas crianças foram torturadas até a morte ali e frequentemente algum bêbado da rua dizia ter visto algum ser demoníaco por aquelas bandas. A casa ficava ao lado de um museu natural onde havia um enorme jardim botânico. O local era bem cuidado, com flores coloridas na entrada, um muro alto de tijolos vermelhos, portas de vidro, e um balcão de recepção. Agora era o lugar onde viviam os órfãos do "Lar Santa Clara", um orfanato alternativo que propunha o contato das crianças com a natureza para as estimular a uma vida saudável.
Dona Augusta a diretora do orfanato era uma senhora de expressão dócil, cabelos brancos e nariz arrebitado. As crianças a consideravam como uma mãe, estava sempre sorrindo e livrando as crianças de castigos e problemas, mas morriam de medo quando aprontavam e a expressão dela mudava chamando algum interno pelo nome completo em tom sério. Eles chamavam de a expressão da Morte.
O orfanato abrigava cerca de 90 crianças sendo 41 meninos e 49 meninas que compartilhavam o ambiente, mas dormiam em dormitórios separados dentro do mesmo terreno. Entre esses órfãos vivia Ana Maria, uma garota razinza, briguenta e curiosa. No orfanato era conhecida por Nina, mas quando queriam gozar com ela a chamavam de Maria furacão, devido a seu temperamento explosivo, todos riam dela e cantavam:
"Maria furacão, Maria furacão, parece uma menina, mas está mais para um leão."
Nina ficava irritada batia o pé no chão e saia bufando pelo orfanato, as vezes ficava com tanta raiva que brigava com as crianças, mas mesmo para os seus 12 anos era tão pequena que acabava apanhando. Então assim que aprendeu a ler, fez da biblioteca sua melhor amiga. A maior parte das crianças não passavam muito tempo ali, diziam ser um lugar chato e cheio de poeira, e de fato nem Joana a bibliotecária permanecia lá, estava sempre na cozinha, comendo pão de queijo e café, a conversar com as cozinheiras.
Outras crianças do bairro também frequentavam a biblioteca, já que mesmo dentro do orfanato era uma biblioteca comunitária, mas bem poucas. Haviam mais adultos, por isso a área infanto-juvenil ficava jogada as traças, principalmente a área de contos, aventura e fantasia, os adultos sempre iam a fazer pesquisas, até mesmo os jovens, que abriam os livros copiavam um texto qualquer e rapidamente saiam, muito mais felizes do que quando entravam. Mas para Nina, aquele lugar era um respiro, adorava ler livros de fantasia, e se imaginava neles, ou dramáticos, dessa forma, um tanto quanto egoísta, ficava agradecida por não levar a vida daqueles personagens.
Ela se sentava na mesma poltrona todos os dias, e passava o dia a ler. Do outro lado da sala, ficava Clara, uma garota alta, de cabelos curtos liso, pele escura e feições indígenas, que como ela estava sempre na biblioteca e se punha sempre no mesmo lugar, não falava nada, apenas se concentrava em ler seus quadrinhos, ou desenhava seus heróis e heroínas, era uma ótima desenhista. Nina sempre se aproximava de sua mesa para ver seus desenhos, certa vez havia os olhando de perto quando ela estava no banheiro, assim que a menina apareceu ela chegou a cumprimentá-la, um esforço em vão, pois ela sequer olhou em sua direção, depois disso, Nina nunca mais lhe dirigiu a palavra.
Em um dia como outro qualquer, ali estavam as duas, postas em seus lugares favoritos sem sequer trocar uma palavra, e sentado na cadeira de Joana estava seu filho Lucas, que jogava um jogo qualquer em seu celular.
Lucas era o menino que só aparecia nas férias, morava em uma periferia distante do orfanato e sempre que chegavam as férias sua mãe o levava até a biblioteca, pois não o queria deixar em casa sozinho e ele ficava ali, normalmente em um celular ou notebook a jogar. Nina não conseguiu ter muito contato com ele, eles nunca haviam trocado uma palavra, sempre que ela tentava se aproximar dele fazendo alguma pergunta ele respondia rapidamente e voltava ao jogo, as vezes sequer respondia se concentrando em suas equipes virtuais. Sua mãe quando estava ao lado dele sempre dizia: –Vá brincar lá fora menino, pegar um ar fresco, lá em casa é tão fechado, aqui tem mato e um monte de árvores frutíferas, aproveita o sol e sai desse computador!
Lucas balançava a cabeça e continuava vidrado em seu computador.
O dia era tedioso como sempre, os três não trocavam olhares, e sequer havia um zumbido na sala, todos navegavam em seus próprios mundos, fossem eles através de livros, desenhos ou aparelhos digitais. Nina sentia muita raiva e não estava de bom humor, pode-se dizer que estava um tanto quanto depressiva, na última noite teve uma briga feia com Carla a órfã de 14 anos, que com raiva pegou um de seus livros e o jogou na privada, o deixando inutilizável. Na verdade, ela tinha apenas 3 livros, todos ela havia recebido de uma família que pensara em a adotar, mas ela não entendia o porquê de eles terem desistido da adoção, era muito nova talvez 4 ou 5 anos, e os livros que guardava eram infantis apenas com gravuras ou poucas palavras, mas ela tinha um sentimento forte por eles, pois eram os únicos objetos que simbolizavam que um dia, por um breve momento, ela foi desejada.
Ela até mesmo tentou brigar com Carla, que era maior e mais forte, e chamou outras garotas que a prenderam em um quarto no último andar do orfanato, onde guardavam moveis velhos. Então passou cerca de 3 horas presa no cômodo empoeirado até que Laura uma das órfãs foi a resgatar, na verdade ela foi uma das únicas amigas de Nina no orfanato, foram amigas desde a infância, passavam dias a inventar histórias sobre mundos mágicos com bruxos, monstros, princesas e duendes, mas um dia as duas tiveram uma briga feia e passaram a evitar uma a outra. Laura se tornou amiga de Carla, mesmo que não fossem assim tão próximas e Nina passou a fugir para a biblioteca como forma de evitar sofrer bullying no orfanato.
Nina não sentia muita vontade de ler e recostou a cabeça sobre a mesa observando o relógio, eram 13:00 horas. Clara desenhava sua nova heroína, com base nas amazonas como a Mulher Maravilha sua heroína preferida.
Lucas jogava um jogo online de RPG.
Um som começou a soar pela biblioteca, chamando a atenção dos três, era a primeira vez que o ouviam, era um tipo de canção, cujo a língua se parecia indecifrável.
O som transmitia um turbilhão de sentimentos, mudavam até que trouxesse a alegria total, e junto, as melhores lembranças que aqueles três poderiam lembrar, os melhores sonhos que poderiam imaginar. As crianças que até pouco tempo nunca haviam trocado uma palavra sequer, se espremiam em frente a porta de um pequeno quarto no fundo da biblioteca a qual saia o lindo som. Tocaram a maçaneta, a porta parecia trancada, a canção continuou a tocar, se transformando em um som massivo e triste, e com ela vieram as infelicidades, as tristezas, as dores e sofrimentos. Sem entenderem os 3 começaram a chorar, Clara saiu correndo da biblioteca, enquanto suas lagrimas corriam sobre sua face e deixavam gotas no chão, Lucas e Nina foram logo atrás.
Nina não sabia porque corria, sentia apenas a vontade de acabar com aquele sentimento que lhe havia afligido, correu o mais rápido que podia, sem olhar para trás e parou logo que atravessou a porta, Lucas que a viu parar, parou atrás dela, os dois respiraram e se sentaram no chão, ficaram assim por alguns minutos, sem trocarem sequer uma palavra, apenas imaginavam o que havia acontecido ali e como podiam falar com o outro sobre isso, Nina então iniciou a conversa:
— Para onde foi aquela garota?
— Creio que ela foi embora. – A expressão de Lucas estava assustada.
— Você sabe o que tem atrás daquela porta?
— Como saberia? Raramente venho aqui só estou aqui, por causa das férias. – Ele respondeu, de forma pouco empática.
— Sua mãe nunca lhe contou? – Nina perguntou curiosa.
— Não, a única coisa que minha mãe me disse, era para me comportar, senão eu veria quando chegasse em casa – Os dois riram.
—Você não quer descobrir? – Nina perguntou, tentando instigar o garoto.
— Acho, que seria mais interessante do que continuar a zerar esse jogo. – Ele disse sorrindo apontando para o celular e sua mão.
Os dois voltaram a sala da biblioteca, não havia mais som, tudo permanecia em silêncio, seguiram até a porta da pequena sala, apoiaram suas orelhas sobre a porta, bateram levemente na intenção de que alguém respondesse do outro lado, mas não obtiveram resultados.
—Temos que encontrar as chaves – disse o garoto.
Nesse momento a porta da biblioteca se abriu e Clara que antes havia corrido entrou evitou o olhar dos dois se dirigiu até a mesa pegou sua bolsa e se virou novamente para sair.
— Espere, você ouviu aquilo? Não ouviu? – Perguntou Nina.
— Eu não ouvi nada. – A voz de Clara ainda parecia trêmula demonstrando que ela acabara de chorar, mas ainda sim exibia firmeza em cada palavra.
— Mentirosa! Se não ouviu porque correu? –O garoto disse nervoso.
—Porque tinha coisas importantes para fazer e me lembrei– Clara disse com a voz ainda mais firme.
—Essas coisas importantes incluíam, sair desesperada e esquecer tudo para trás? Ou essa voz de quem acabou de chorar? – Ele perguntou tentando se fazer parecer esperto.
—Eu nem te conheço garoto, você não sabe nada sobre mim – Clara disse rispidamente e continuou a andar até a porta.
Antes que Clara chegasse a porta, Nina correu até a mesma impedindo que ela saísse.
—Você não quer saber o que está atrás daquela porta? Não tem nem um pouco de curiosidade? –Nina perguntou procurando a resposta em seus olhos.
— Não, não quero e se você não sair da minha frente vou perder minha aula de karatê –Clara disse de forma ríspida.
Nina estava pronta para retrucar, mas antes que Clara saísse da biblioteca, um barulho ensurdecedor saiu da pequena salinha, como se alguém chutasse a porta desesperadamente a fim de sair daquela sala. Os três se assustaram dando um pulo para trás. Tudo ficou em silêncio. A maçaneta se movimentou lentamente, como se fosse se abrir, ambos se botaram em pé de novo, e se aproximaram levemente da porta, mas outro susto os pegou, a maçaneta começou a ser girada com força e rapidamente, a porta começou a estremecer, e novamente o barulho, como se alguém esmurrasse a porta.
—Alguém deve estar preso lá dentro – Gritou Nina, tentando se fazer ser escutada através do barulho que vinha da porta –Tem alguém aí dentro? Nós estamos aqui. Podemos te ajudar. – Ela gritou.
—Se houver um maluco atrás dessa porta? Um psicopata esperando sua primeira vítima? –Lucas perguntou com a voz tremula.
O barulho parou, tudo estava calmo como antes, como se nada houvesse acontecido. A porta se abriu, mas não havia nada lá, Nina se surpreendeu e estremeceu na dúvida de que poderia ser um fantasma. Ela sabia bem sobre os fantasmas que abitavam o orfanato e sentia muito medo de cada um deles, apesar de fingir para as outras crianças que não os temia. Evitava ir no banheiro a noite, pois temia que a loira do banheiro pudesse aparecer, as garotas diziam que no passado uma garota foi morta no banheiro, e havia se tornado um fantasma que vagava pelo banheiro a meia noite, esperando que alguma garota entrasse e se juntasse a ela pela eternidade, as vezes ela pensava que talvez não seria tão ruim se tornar um fantasma, ela poderia assustar a todas as garotas que brigavam com ela, mas seria muito incomodo estar no banheiro, os cheiros não eram dos melhores. Havia também o fantasma da cantina, do quartinho, do corredor, o da floresta, e o pior o da biblioteca. Nina não temia a esse pois passava a maior parte do tempo lá, e nunca vira nada estranho, até mesmo já vira as garotas usarem um fio de cabelo pendurado na caneta sobre um papel com o alfabeto, tentando se comunicar com o tal fantasma. Porém ao presenciar a porta se mexendo e abrindo sozinha, fez com que ela repensasse na probabilidade de ele existir.
Os três entraram. Era uma sala pequena e empoeirada. Nas paredes no chão e em toda a sala haviam enormes coleções de livros, eram sobre florestas, fantasias e seres mitológicos da américa do sul. No centro da sala dividindo espaço com tantos livros havia uma escrivaninha e uma cadeira macia e confortável, cujo Lucas se sentou quase que literalmente pulando sobre ela e fazendo com que a mesma soltasse poeira, e os fizesse ter um ataque de espirros.
—Esse pode ter sido o escritório antigo do bibliotecário, ou de algum escritor famoso, quem sabe o diretor do Orfanato? – Disse Lucas, pegando o carimbo sobre a escrivaninha e carimbando os papeis que estavam sobre a mesa. Ele notou que os carimbos variavam entre uma folha estranha em formato de coração e uma árvore que aparentemente estava se queimando. – Esse deve ter sido o escritório de algum biólogo ou defensor da natureza – Ele disse, apontando para o papel carimbado.
Clara notou que no centro sobre uma prateleira, estava uma pequena caixa de vidro transparente, e dentro dela estava uma folha, dourada como ouro, e fina como seda. Ela imaginou se era real, ou algum tipo de prêmio, e se real de qual árvore seria. Nina e Lucas que notaram a atenção de Clara sobre o objeto correram para ver também, Lucas retirou a caixa da prateleira e a abriu encostando o dedo na superfície da folha e na frente dos olhos daqueles 3, a folha se tornou verde e viva, como se houvessem a arrancado de uma árvore a segundos atrás. Ambos ficaram encantados, e sentiram–se ainda mais curiosos.
Nina notou que havia um livro pequeno, porém grosso, atrás de onde a pouco estava a caixa de vidro. Pegou o livro empoeirado, limpou a poeira, e em sua capa estava escrito "A terra de Ibitemi". Lucas colocou a caixa sobre a mesa e colocou a folha na palma de sua mão na intenção de saber se ela era mesmo de ouro, mas era macia como uma folha comum, porém com uma leve camada aveludada.
Naquele mesmo momento Joana apareceu na porta, assustando aos três. Nina levou o livro as suas costas e o escondeu sobre sua blusa, o livro era pequeno e o elástico de sua saia o prendeu bem sobre suas costas, sua blusa se sobrepôs sobre ele disfarçando-o.
Joana repreendeu os três:
—Vocês estão loucos, sabe a quanto tempo esse quarto não é aberto? Poderia ter algum escorpião ou coisa do tipo, e toda essa poeira...–Joana repreendia os três. – Eu não quero ver vocês aqui novamente, estão me ouvindo? Agora me deem a chave.
Os 3 se entreolharam, não faziam ideia do que dizer, eles sabiam que se dissessem que a porta havia se aberto sozinha depois de um show de horrores, ela não acreditaria neles, e provavelmente ficariam de castigo por esconder um objeto que sequer sabiam onde estava.
—A porta estava aberta– Arriscou Nina.
— Vocês estão me achando com cara de boba? Anda me deem a chave.
—Não sabemos onde estão as chaves. Sequer saímos daqui como saberíamos onde estaria a chave –Clara respondeu com raiva.
Nesse exato momento Dona Augusta a diretora do orfanato entrou na biblioteca, caminhou até os três e dizendo:
—Não culpe as crianças Joana, foi o meu descuido, entrei na biblioteca hoje mais cedo, estava pensando em fazer uma área de estudos nesse pequeno cômodo e devo ter esquecido a porta aberta, eles como jovens curiosos apenas tinham a curiosidade de saber o que havia ali dentro. –Ela disse e sua voz doce funcionou como um calmante naquela sala.
Nina, Clara e Lucas, tinham certeza que a porta havia aberto sozinha e desconfiavam das palavras de dona Augusta.
—Se puderem nos dar licença crianças eu gostaria de conversar em particular com a Joana –Dona Augusta disse com uma voz doce e aveludada.
Os três saíram pela porta e assim que se fechou, Nina e Lucas encostaram seus ouvidos na grande e grossa porta de madeira na intenção de ouvir algo. A porta era muito grossa, não conseguiram ouvir nada além de pequenos sussurros. Clara puxou Nina pelo braço, segurou sua mão sobre a dela em um aperto de mão, onde a folha disputava lugar entre as duas palmas.
—Não posso levar isso para casa, minha tia vai me fazer perguntas e se souber que o "roubei" estarei encrencada, melhor você colocar lá de volta. –Clara disse em um aperto de mão com a folha entre as duas palmas.
Joana saiu da sala, com uma expressão um pouco assustada, segurou Lucas pelas mãos e antes que ele sequer pudesse dizer algo foi arrastado para fora da biblioteca com sua mãe.
Clara saiu logo atrás de Lucas e Joana, pegando a rua em direção contrária.
Augusta olhou para Nina com a mesma face pacifica, sorriu levemente passou a mão sobre o cabelo cacheado de Nina e disse:
—Vamos entrar, já está tarde, você já deveria ter entrado.
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